ABRUPTO

14.8.05


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES:
O FISCO E A BOLA




Li na última página do Expresso de hoje e fiquei perplexa: Totonegócio Supremo condena Liga

O Supremo Tribunal Administrativo chumbou esta quarta-feira a pretensão da Liga Portuguesa de Futebol em não apresentar garantias no âmbito das dívidas do «totonegócio». O argumento de que, a prosseguir a marcha da execução fiscal, as suas contas serão penhoradas e daí resultará a paralisação dos campeonatos profissionais de futebol, com severas consequências para os clubes participantes e sociedades desportivas, não convenceu os juízes.

Em causa estão quase 20 milhões de euros. A Federação Portuguesa de Futebol, por seu lado, JÁ APRESENTOU UM SUBSÍDIO ESTATAL COMO GARANTIA.

Neste contencioso entre o Fisco e a Liga, o Ministério das Finanças alegou que a concessão dessa suspensão «seria prejudicial para o interesse público, desencadeando o alarme na opinião pública de que 'as forças do futebol' conseguem sempre um regime condescendente, quando não claramente privilegiado e legitimando formas enviesadas de alcançar a suspensão de uma execução fiscal sem prestação de garantias nem penhora».

Vou continuar a seguir este folhetim que, aparentemente e nas televisões, tinha tido fim no governo anterior. Para ver quantos jornalistas, colunistas e economistas se pronunciam sobre este assunto, para perceber quem não tem medo do sub-mundo português da bola. Dá que pensar: nunca li nem vi nenhum economista preocupado com o dinheiro dos contribuintes que é torrado em forma de subsídios para a bola. É só o déficit na saúde, nos transportes públicos, etc. que conta?

(Maria Odete Teixeira Pinto)

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Relativamente ao texto de Maria Odete Teixeira Pinto, a minha opinião é diversa. A bola é mediática porque desperta emoções, e as pessoas vivem das e com as emoções. Dito isto, as grandes e médias empresas que devem ao fisco, porque não despertam emoções, diluem-se no alarido que a bola levanta e nas parangonas que alimentam aleivosamente o insaciável leitor. Os governos sucessivos ou alternados também são partícipes desta engrenagem, para meter medo às médias e grandes empresas, aos grandes e pequenos senhores, já que não têm coragem de lhes exigir o que é fácil de exigir à bola. Por outro lado, as pessoas esquecem que a bola não vive num casulo ou num mundo asséptico, ou no país do nunca. Os malabarismos que entram no submundo da bola são os mesmos que pululam na sociedade. Quem desgoverna a bola são os mesmos que desgovernam fora dela. Transportam para a bola os maus hábitos de que vivem na sociedade. Acresce uma enorme ingratidão dos Governos, desde a Ditadura, para com a bola, porque têm arrecadado milhares de contos à custa do totobola, aposta mútua criada para incentivar o desporto, mas para o qual reverte a parte mais pequena, para não dizer "sem significado". Tão insignificante que aumentou as dívidas da bola. O Governo inventou então o totonegócio que consistia em o Estado passar a ficar com a parcela insignificante para ir liquidando as dívidas ao fisco. Assim, o generoso Estado é, na expressão de Octávio Paz, um "onagro filantrópico". E o resultado foi o de a bola ficar exangue, porque os Governos tiraram-lhe o que parecia ser-lhe destinado. Criada esta situação, e porque o totobola não enchia os cofres do Estado, dado o decréscimo das apostas, criou-se o totoloto, e, minguado este, seguiu-se-lhe o totomilhões. Em tais circunstâncias, agora, é fácil, depois de ter sugado todo o sangue, decretar-lhe a falência. Se a bola não andou bem, o Estado andou pior. Como Vasco Pulido Valente vem evidenciando, o país está ingovernável. A bola é apenas mais uma vítima.
(João Boaventura)

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© José Pacheco Pereira
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