ABRUPTO

17.8.05


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES:
DESESPERADAMENTE À PROCURA DA INOVAÇÃO...



Não há nada de novo no “choque tecnológico”. Basta ler umas coisas com mais de 60 anos e perceber qual é a sua mensagem-chave. Ou olhar para os exemplos de Silicon Valley ou mais recentemente Austin. Pois agora parece que o país descobriu a conectividade. A ideia é pôr todo o agente a conectar: estado com empresas, empresas com universidades, empresas com centros de I&D, I&D com o mercado, a Joaquina da feira de Carcavelos com o Manuel da feira dos enchidos do Fundão, o contribuinte com o guiché das finanças. São estas as “linguagens” que nos falam sobre a sociedade do conhecimento, a economia do conhecimento, a rede. Estudamos: inovação no produto v.s. processo; organizacional v.s. tecnológica. Criamos Comissões. Desenhamos Sistemas Nacionais de Inovação. Elaboramos pareceres. Decidimos para o “bem de Portugal e dos portugueses”.

Mentira. Há anos que estamos parados. Semeamos esperanças em função do improviso. Há anos que ninguém com o seu perfeito juízo larga por cá o seu negócio. É claro que a Auto Europa vai desaparecer. Ficaremos com o vazio: famílias, empresas, pessoas. Não temos nenhuma ideia para a sua substituição. Não somos um país virtual. Somos o oposto. Sem velocidade. Com nenhuma rapidez. Temos tempo e espaço. Somos o mesmo fogo de 1997. Somos a mesma pessoa que chorava a perca de uma vida inteira. Somos o mesmo concurso de professores de 2000. O nosso candidato a presidente de câmara é o mesmo de há 10 anos. A nossa prevenção é ter o mesmo tipo de condução de sempre. Não gostamos de analisar. Não gostamos de planear. As nossas avaliações são sempre boas. Gostamos de copiar. Copiamos mal. Aprendemos pouco. Sem a língua do Irish coffe, o petróleo de Oslo ou o Conecting People de Helsínquia, de que capacidades podem viver as nossas inovações? De redes?

Olhemos, a partir do senso comum, sobre os sentidos que atribuímos à palavra inovação: muitas vezes diferente, quase sempre melhorar e ainda sempre a expressão mudar. Pouco importa que seja um exercício de sinonímia. Revela em si, quase tudo do nosso entendimento comum sobre esta problemática. É claro que não inovamos nada. Nem Zundapp, Casal ou Famel. Consumimos inovação. Telemóveis. Os que já tiram imagens do que somos. Os carros. Os modelos novos no preço. Computadores. Processadores de texto nas salas de aulas. Não sabemos a raiz quadrada de vinte e cinco. Não sabemos diferenciar um polígono de um vértice. Não percebemos que o que fazemos, nessa mesma hora, há quase dez anos, com as mesmas palavras de sempre, pode ser feito de outra forma. Não sabemos que a barragem do Alqueva é um TGV desnecessário. Não reduz a sede a ninguém. Lá está. Majestosa na sua dimensão. A nossa rede – empresas, universidades, só existe por criação do nosso imaginário.

Não temos rede nenhuma porque não nos ligamos a ninguém. Num
estudo recente da EU (Innobaromter, 2004,) , cerca de 90% dos gestores de topo portugueses afirmaram que nos últimos dois anos não participaram em qualquer tipo de rede/formas de colaboração com outras empresas, universidades ou centros de I&D. O discurso cor-de-rosa do “transformemos as nossas ameaças em oportunidades” está repleto de simulacros. Somos uma sociedade de despedidas - “as suas melhoras!”. Somos o mesmo erro técnico. Nunca humano. À espera.

(Jorge Gomes)

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© José Pacheco Pereira
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