ABRUPTO

18.8.05


COISAS DA SÁBADO:
A PIOR FRASE




Com alguém com a reputação de Gareth Peirce a defender os seus interesses, é altamente provável que Jean Charles de Menezes recupere na morte a dignidade e respeito que a polícia lhe roubou” (Eunice Goes, correspondente do Expresso 6 de Agosto.)

Nós já estamos tão desprovidos de capacidade de indignação à flor da pele, que pouca coisa nos faz revoltar. Mas às vezes é demais. Esta frase, escrita num artigo laudatório de um destes advogados mediáticos (neste caso é uma advogada) que assumem causas de grande impacto público, com maior ou menor mérito, parece banal, mas não é. O cidadão brasileiro que foi morto por polícias à paisana em Londres não foi “roubado” nem da “dignidade”, nem do “respeito” pela polícia. Foi vítima de um trágico engano, num momento ainda mais trágico, em que um gesto precipitado e um clima de perigo, o matou também a ele. O que me revolta é que parece que em Londres só morreu Jean Charles de Menezes e mais ninguém. Ou que a morte dele foi a Maior e as outras, as Menores.

Pode-se dizer tudo e investigar tudo sobre o incidente. Pode-se e deve-se. Se a polícia actuou de forma irrazoável, se mostrou ter o gatilho leve, se os procedimentos normais foram seguidos (se é que há procedimentos normais em plena emergência em que a distância de uma bomba com sucesso, de uma explosão assassina, é apenas poder detonar um botão ou um fio ou um puxar de uma espoleta), se houve perda de calma e frieza, que, mesmo em risco, um polícia treinado deve ter. Pode-se fazer tudo isto, mas não é isso que a frase do Expresso diz.

Como Mário Soares quando se pronunciou sobre os atentados de Londres e usou uma frase para os condenar e dez para acusar a polícia que “andava aí a matar pessoas”, Eunice Goes isola o incidente do seu contexto para enunciar uma Culpa, que Gareth Peirce é suposta corrigir. A Culpa não é dos terroristas da Al-Qaida, que eles sim mataram o infeliz trabalhador brasileiro, eles sim lhe roubaram a “dignidade” e “respeito”, mas a da polícia londrina para quem todas as indignações se dirigem.

*

Foi com alguma surpresa que vi o meu nome citado pela sua pena ilustre. Lamento apenas que as minhas palavras tenham sido tão mal-interpretadas. Confesso, que 24 horas após ter lido o seu desabafo no seu “blogue” ainda não consegui perceber como é que um perfil duma advogada se transformou num perdão aos terroristas que bombardearam a minha cidade duas vezes. Confesso a minha falta de treino nas metodologias intelectuais estalinistas, mas não tenho por hábito extrapolar muito para além do que vejo escrito, ou, seguindo a moda dos teóricos das conspirações, ligar factos desconexos e atribuir-lhes um nome. Infelizmente, o mundo é bem mais complicado.

O nome do Dr Mário Soares vem à baila no seu desabafo, mas a verdade é que não sou porta-voz do Dr Mário Soares, não sou soarista e nunca condenei mais a polícia britânica do que os terroristas do 7 e 21 de Julho.

Nas suas palavras insinuadas, sou uma espécie de relativista moral, ou uma “woolly liberal” que desculpa os criminosos e responsabiliza as autoridades por tudo o que de mal acontece. A título informativo queria dizer-lhe que não sou sequer uma das pessoas que pensa que os terroristas têm razões para matarem inocentes na busca das suas utopias. Sou, pelo contrário, uma democrata liberal antiquada que acredita que a vida humana tem dignidade e que nada justifica o assassinato de inocentes. Penso também que os democratas não podem aceitar a lógica totalitária e terrorista de que os meios justificam os fins, sejam eles a criação do Califato ou o fim do terrorismo.

Bem sei que Portugal não tem cultura democrática e que por isso, políticos e autoridades públicas agem com total impunidade e ninguém parece muito perturbado com isso. No Reino Unido, as regras e a cultura democráticas são mais fortes. Os cidadãos esperam que os políticos e todos os responsáveis públicos prestam contas sobre o que fazem e expliquem ao público erros cometidos, mesmo que haja atenuantes. Nas democracias como a britânica, há também a prática morosa (bem sei, a democracia às vezes pode ser tão ineficiente) de se debater e aprovar no Parlamento políticas públicas tais como a ordem de “shoot to kill”.

No caso infeliz de Jean Charles de Menezes aconteceram várias coisas. Em primeiro lugar, ninguém sabia que essa política estava em vigor. Esta decisão chocou a maioria dos londrinos (Londres não é Belfast durante os “Troubles” e muito menos é Tel Aviv), principalmente porque a polícia britânica usa uma arma para imobilizar suspeitos (as pistolas taser), e que de resto utilizou para capturar um dos bombistas do 21 de Julho.

Em segundo lugar, a polícia cometeu não um mas uma série de erros que depois tentou encobrir lançando uma série de acusações infundadas sobre Jean Charles de Menezes. Sabemos agora que os únicos factos que transformaram Jean Charles de Menezes num dos bombistas do 21 de Julho (aos olhos da polícia) eram a sua tez morena e o facto de morar num prédio onde um suspeito residia também. Ao contrário do que a polícia disse, Jean Charles de Menezes, não envergava um suspeito blusão acolchoado onde poderia ter escondido um cinto com explosivos mas um blusão de ganga aberto, não saltou a barreira dos bilhetes porque utilizou o seu passe, não fugiu da polícia, mas pegou num jornal, dirigiu-se calmamente para o comboio até se sentou, e ninguém lhe disse para parar. Jean Charles de Menezes foi imobilizado por um polícia (que o agarrou pelos braços) e a seguir foi morto com onze balas (sete na cabeça, e três não atingiram o alvo) por um polícia que tinha a certeza que ele era um dos bombistas dos ataques da véspera.

Há mortes dignas. Mas morrer com sete balas na cabeça e com a acusação de terrorismo não me parece a mais digna. E menos ainda quando a polícia ainda tentou lançar as culpas para Jean Charles de Menezes dizendo que ele se comportou de forma suspeita. Não me parece que o Dr. Pacheco Pereira gostasse de ser confundido com um perigoso “mullah” por um polícia míope só por causa da sua barba e tez morena.

Evidentemente que a polícia pode cometer erros e que estes podem ser explicados, principalmente quando estes ocorrem numa altura em que toda a gente está nervosa e há uma enorme pressão para apanhar criminosos. Mas mesmo nessas alturas, as autoridades têm que prestar contas e se necessário serem julgadas por abusos de poder.

Em jeito de despedida queria dizer ainda que a polícia britânica é muito simpática e relativamente humana, mas não é muito eficiente. A radicalização dos jovens britânicos muçulmanos fez-se perante as barbas da polícia. Durante anos, a polícia britânica permitiu que os Abu Katada e Mohamed Bakri deste mundo pregassem a sua ideologia de ódio nas mesquitas de Londres sem quaisquer entrave, apesar da comunidade muçulmana ter alertado a polícia inúmeras vezes para o que estava acontecer. A reacção da polícia a estes pedidos de intervenção foi a seguinte: “o problema é da vossa comunidade, vocês é que o devem resolver”. Foi preciso o 11 de Setembro para a polícia mudar de atitude. Para 53 londrinos (no meu cálculo, os 4 terroristas não contam como vítimas), essa mudança ocorreu demasiado tarde.

Muito obrigada pela sua atenção. Deixo apenas uma sugestão para as suas leituras: às vezes há textos sem entrelinhas e mensagens subliminares. Com esses, não vale a pena perder tempo com interpretações elaboradas.

(Eunice Goes)

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© José Pacheco Pereira
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