ABRUPTO

15.8.05


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES:
SOBRE A CAPITAL




Li o seu artigo de opinião na Sábado da semana passada sobre A Capital e O Comércio do Porto e queria apenas, se me permite, tentar oferecer-lhe, com todo o respeito, uma perspectiva diferente da que traçou no seu texto. Até porque, tendo-o como alguém que age de boa fé, dou como garantido que só escreveu o que escreveu por desconhecimento.

O que mais me entristeceu nas linhas que dedicou a A Capital foi sentir a ideia de que, no seu entender, a Prensa Ibérica tentou salvar um título com o seu investimento e que a direcção e os jornalistas não conseguiram corresponder ao desafio. Não tenho absoluta certeza de que foi isso que quis dizer, mas não tenho a mínima dúvida de que foi essa a mensagem que passou para quem leu.

«Como de costume, as culpas são só assacadas à administração, esquecendo-se que a Prensa Ibérica salvou os jornais de uma morte anterior e deu-lhes uma última oportunidade.»

(...) que última oportunidade?

Contratar (em 2004, três anos depois de ter chegado) um director que trouxe com ele meia dúzia de jornalistas (o mesmo número ou até menos - com toda a certeza menos - dos que saíram entretanto) e, mais recentemente, alguns opinion-makers? É a isto que chama última oportunidade?

Quando a Prensa Ibérica comprou A Capital, em Setembro de 2001, logo a transformou em mais um diário matunino. As vendas caíram a pique (...) Ao longo destes quase quatro anos, contam-se pelos dedos de uma mão as vezes em que "os espanhóis" entraram em A Capital.

Agora, pergunto eu: que culpa têm os jornalistas disto?

Ao contrário do que pensa, os jornalistas de A Capital, com os seus defeitos e virtudes, é que foram adiando a morte do título. Foram eles, e só eles, que tornaram a morte o mais lenta possível, até não haver outra saída. Impulsionados pela irreverência do Luís Osório, muita gente (dos poucos que éramos) trabalhou das 11h30 às 23h30 sem receber mais um cêntimo por isso.

Para que tenha conhecimento, havia vários jornalistas com mais de 40 folgas por gozar e dias férias de anos anteriores por tirar (pelos menos fomos compensados disso nas rescisões).

«O jornal de Luis Osório tinha características sui generis que o podiam tornar interessante – e foi notório o esforço para fazer diferente. O jornal procurou novos temas, novas notícias, mas nunca conseguiu encontrar um equilíbrio entre aquilo em que era único, e aquilo em que permanecia pior do que a concorrência. A uma determinada altura, parece ter desistido e ficou uma coisa a meio termo, nem um jornal como os outros, cobrindo a actualidade diária, para que não tinha redacção nem meios, nem um jornal alternativo para que lhe faltou o fôlego.»

Está cheio de razão nestes pontos. Aqui, acertou em cheio. Apenas não utilizaria a palavra fôlego. O que faltou, também para esse tal jornal alternativo, foram sempre os meios, pessoas para fazer o jornal idealizado por Luís Osório, que pretendia ser quase uma revista diária em papel de jornal. Se eu lhe disser que ao sábado e domingo, nos melhores dias, não havia mais de 10/12 jornalistas na redacção, acredita? Às vezes era um milagre meter o jornal nas bancas. Ora, isto é culpa dos jornalistas?


«As fragilidades da Capital não vinham apenas da notória escassez de meios, mas também de decisões editoriais. Uma é o arranjo gráfico, porque poucos jornais tinham tão mau grafismo como a Capital. O grafismo era inimigo do conteúdo porque havia alturas em que o jornal podia ter as coisas mais interessantes do mundo, mas era ilegível, ou aborrecido até ao limite.»

Bom, aqui trata-se de uma opinião meramente estética. Há que aceitar.


«A Capital vai-me fazer falta, mas sempre que eu via um número revoltava-me a incúria com que era feita. Eu sei que é duro dizer isto, mas não era segredo para ninguém, a começar pelos seus leitores, que o desastre era inevitável.»

Também a nós nos revoltava essa imagem que passava para o leitor. Todos os dias abríamos o jornal e constatávamos que, apesar da entrega da maioria das pessoas, havia sempre demasiados erros. Era frustrante! Um revisor para toda a edição, um jornalista para duas ou mais páginas (que, não incidindo somente na actualidade, são muito mais trabalhosas), um editor para cinco ou seis páginas... enfim, no fundo, todos sabíamos que estávamos num beco sem saída. E mesmo que os leitores não tenham consciência do que trabalharam os jornalistas, pelo menos nós, esses tais jornalistas, temos a certeza de que lutámos até ao fim. Agora, é tempo de procurar novos desafios.

(Rui Antunes, "até há bem pouco tempo sub-editor de desporto do jornal A Capital.")

(url)

© José Pacheco Pereira
Site Meter [Powered by Blogger]