ABRUPTO

18.8.05


COISAS DA SÁBADO:
UM SAFARI LONGE DEMAIS





Criticar o facto do primeiro-ministro ter ido passar umas férias luxuosas é pasto para todas as demagogias. Um safari no Quénia é o equivalente a ir a Bora Bora, ou a um caríssimo hotel do Dubai com piscina privativa. Não é isso que me afronta. Ele paga as férias do seu bolso, e se tem dinheiro e vontade para o gastar com a família num safari, parabéns. A concepção punitiva da vida pública que obriga os políticos a uma vida hipocritamente monástica presta-se a todos os populismos e eu não sou desse clube.

Mas, se me espanta, face ao safari do eng. Sócrates, o silêncio comedido da maioria da comunicação social, sempre pronta a levantar a chama do ressentimento populista para os outros, e que não acredito que esteja calada porque aprendeu, acontece que me espanta tanto mais esse silêncio, quanto neste caso se justifica mesmo criticar o Primeiro-ministro pela sua opção de férias e exigir que as interrompa.

Por várias razões: uma é porque a altura é pessimamente escolhida para ter umas férias sumptuárias quando o seu governo está a pedir a todos sacrifícios e “apertar do cinto”; outra, porque a sua ausência do país, numa altura em que o fogo, mais uma vez, destrói pessoas e bens com grande dimensão, é por si mesma uma enorme desvalorização da importância do que está a acontecer. Quando há uma emergência num navio, o capitão não entrega o comando a um qualquer outro oficial para ir ver um DVD na sua cabine. Mesmo que seja do National Geographic.

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(Escrito há uma semana. Agora que o PM voltou das férias, nada dá mais razão às críticas do que a sua atitude hoje, tentando remediar, com visitas "simbólicas" e conferências de imprensa, o que há muito devia ter feito e não fez. Nada apagará o significado político da da sua atitude, do PM substituto, dos governadores civis, do Secretário de Estado do Ambiente e de muitos responsáveis com nomeações políticas para Parques Naturais, e que se resume numa só frase: nada de importante aconteceu, nada de grave, nada de irreparável. Ardeu tudo como de costume. Não faltaram nenhuns "meios". É porque ter escolhido as férias que escolheu e não as ter interrompido é uma opção política, que não é demagogia criticar as opções do PM. Hoje, no seu afã de remedeio, ele vem dar razão aos que o criticaram. Demasiado tarde. Já se percebeu a política. )

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© José Pacheco Pereira
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