| ABRUPTO |
semper idem Ano XIII ...M'ESPANTO ÀS VEZES , OUTRAS M'AVERGONHO ... (Sá de Miranda) _________________ correio para jppereira@gmail.com _________________
|
20.3.04
POEIRA DE 20 DE MARÇO
O reverendo Kilvert, como todo o homem de ordem, dava-se mal com a Comuna de Paris. Ele não lhe chamava assim, mas sabia que algo de muito complicado estava a passar-se em Paris. Barricadas, confraternização entre o povo e os revoltosos, dois generais mortos. Anotou no seu diário, hoje, há cento e trinta e três anos, a sua revolta contra os parisienses: “Those Parisians are the scum of the earth, and Paris is the crater of the volcano, France, and a bottomless pit of revolution and anarchy” (url) (url)
ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES
"Depois do rover da Lego, temos agora uma réplica mais perfeita com uma base marciana. Está à venda aqui por 170 dólares. " José Matos Paulo Salgado discorda da minha opinião (sobre o Iraque, presumo) e envia este texto: ORDEM E SANIDADE NO GOVERNO DAS NAÇÕES «Os grandes antigos, quando queriam revelar e propagar as mais altas virtudes, punham seus estados em ordem. Antes de porem os seus estados em ordem punham em ordem as suas famílias. Antes de porem em ordem as sua famílias, punham em ordem a si próprios, aperfeiçoavam suas almas. Antes de aperfeiçoarem as suas almas, procuravam ser sinceros em seus pensamentos e ampliavam ao máximo os seus conhecimentos. Essa ampliação de conhecimentos decorre da investigação das coisas, ou de vê-las como elas são. Quando as coisas são assim investigadas, o conhecimento torna-se completo. Quando os pensamentos são sinceros, a alma torna-se perfeita. Quando a alma se torna perfeita, o homem está em ordem. Quando o homem está em ordem, a sua família também fica em ordem. Quando a família está em ordem, o estado que ele dirige também pode alcançar a ordem. E quando os estados alcançam a ordem o mundo inteiro goza de paz e felicidade.» Texto atribuído a CONFÚCIO (Kung Fu-Tzé) , Os Grandes Pensadores, de Will Durant, Companhia Editora Nacional, S. Paulo, 1965 “1. Face a atentados terroristas há, maioritariamente, duas tendências na reacção: a) explicativa (há, bem , pois, isto acontece porque…); por vezes até justificativa (os americanos, quem semeia ódios…); gradativa (há uns mais fortes; outros mais fracos; alguns mais condenáveis do que outros, depende da organização terrorista…) b) condenatória; não-justificativa; simplesmente condenatória; não há justificação possível para um atentado num país democrático. 2. Por convicções, medos ou ideias ingénuas, a maioria dos Media e da “esquerda-flutuante” tende à primeira reacção; 3. Há, nessa reacção erros flagrantes de apreciação que é preciso gritar: A) A maior “misconception” é a de que os terroristas podem ser razoáveis; que basta sair do Iraque que eles param; É surpreendente que se possa acreditar nisto; primeiro porque não há, obviamente, qualquer critério de razoabilidade no terrorista; segundo porque, como também é evidente, o que está em causa é a pura e simples imposição, pela força, de um ideal de vida – justamente contrário ao ideal democrático B) O segundo erro de apreciação é imaginar que uma posição que não seja absolutamente condenatória nos pode salvar de sofrer os mesmos atentados; aqui, uma vez mais, apela-se a uma espécie de compaixão no terrorista; falha a percepção de que não é possível a coexistência da ideia democrática com as ideias impostas pelos terroristas 4. Em razão da maioria em Espanha ter reagido mal e aderido à posição falaciosa – Aznar/apoiante dos Americanos/assassino/- traz uma consequência absolutamente nova para o mundo: o terrorismo triunfou; o terrorismo, a partir de agora, tem o poder de mudar governos. Isto sem falar na total ausência de acento tónico numa justificada retaliação conta os terroristas. 5. É tempo de reflectir sobre o velho lema “liberdade ou morte”: é que não estamos mais livres - temos medo e acentuamos a nossa condição de reféns - e estamos mais próximos de morrer - por cobardia, e não por estarmos a lutar justamente pela liberdade. “ (Nuno Horta) (url)
OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: A AREIA DA “SERPENTE”
Areia, o destino final das montanhas. Areia de Marte, partida não se sabe porquê, junta não se sabe como, num pequeno montinho, a “Serpente”. Talvez tenha memória da montanha que foi e tente sempre voltar à origem, imitar a grandeza inicial, organizar-se pela memória numa pequena imitação do seu passado. Areia. (url) (url)
EARLY MORNING BLOGS 164
L'angélus du matin Fauve avec des tons d'écarlate, Une aurore de fin d'été Tempétueusement éclate A l'horizon ensanglanté. La nuit rêveuse, bleue et bonne Pâlit, scintille et fond dans l'air, Et l'ouest dans l'ombre qui frissonne Se teinte au bord de rose clair. La plaine brille au loin et fume. Un oblique rayon venu Du soleil surgissant allume Le fleuve comme un sabre nu. Le bruit des choses réveillées Se marie aux brouillards légers Que les herbes et les feuillées Ont subitement dégagés. L'aspect vague du paysage S'accentue et change à foison. La silhouette d'un village Paraît. - Parfois une maison Illumine sa vitre et lance Un grand éclair qui va chercher L'ombre du bois plein de silence. Çà et là se dresse un clocher. Cependant, la lumière accrue Frappe dans les sillons les socs Et voici que claire, bourrue, Despotique, la voix des coqs Proclamant l'heure froide et grise Du pain mangé sans faim, des yeux Frottés que flagelle la bise Et du grincement des moyeux, Fait sortir des toits la fumée, Aboyer les chiens en fureur, Et par la pente accoutumée, Descendre le lourd laboureur, Tandis qu'un choeur de cloches dures Dans le grandissement du jour Monte, aubade franche d'injures, A l'adresse du Dieu d'amour ! (Verlaine) (url)
MANIPULAÇÃO DA INFORMAÇÃO
Está também em pleno. Um exemplo: relato, hoje de manhã e pela TSF, da entrevista de ontem ao Primeiro-Ministro, na RTP1. Relato factual, relativamente neutro, com extractos das declarações. De repente, chega à parte do Iraque, e o jornalista corta a palavra ao Primeiro-Ministro e acrescenta: “mas há quem não pense assim, a engenheira Maria de Lurdes Pintasilgo …”. Outro exemplo: as declarações de Mário Soares sobre a negociação com os terroristas da Al Qaeda, que ele repete já há dois dias, acrescentando cada dia mais um pormenor absolutamente inaceitável, são tratadas com toda a complacência. Para ir a outros exemplos recentes de declarações inaceitáveis: as de Paulo Portas, sobre a emigração, conheceram uma chuva de protestos, editorais, brincadeiras, etc, o que contrasta com o silêncio ou o sottovoce sobre as de Mário Soares. Outros exemplos seriam fáceis de encontrar em praticamente todos os noticiários sobre o Iraque, os quais são verdadeiras profissões de fé opinativas dos jornalistas, em todos os órgãos de comunicação social, quase sem excepção, com destaque para a televisão. Outros exemplos ainda: documentos sem dúvida importantes para um julgamento equilibrado (nada mais seria preciso) sobre questões polémicas, são ,ou ignorados, ou tratados num contexto hostil. É o caso da sondagem feita no Iraque pelas grandes televisões ocidentais e reconhecida como a mais fidedigna até hoje realizada. Convenhamos que ela tem mais peso do que o senhor jornalista singular que diz que “os iraquianos com quem falei estão todos revoltados…”. Se calhar é verdade, mas talvez a sondagem tenha um pouco mais de força… O mesmo aconteceu com os documentos que o (ainda) governo de Aznar divulgou sobre as informações que recebia dos serviços secretos sobre a investigação do atentado, para se defender da acusação de que manipulara os dados para deliberadamente enganar os espanhóis. A única vez que ouvi falar desses documentos numa televisão (talvez não tenha sido o mesmo noutra), foi para ouvir uma crítica: o “governo espanhol estava a tentar escudar-se nos relatórios dos serviços secretos”… Então não foi dito, por uma “fuga”, que esses serviços já sabiam na manhã do atentado que tinha sido a Al Qaeda? Então não se quer esclarecer a verdade? Podia continuar por aqui adiante, porque a operação está em pleno. (url)
ESTRATÉGIA DE TENSÃO (Actualizado)
Numa sociedade democrática respeitam-se a lei e as autoridades. O Governo Civil de Lisboa não autorizou uma parte do trajecto da manifestação de amanhã, em si pouco importante na economia da manifestação, e para a qual os manifestantes podem sempre encontrar alternativa sem qualquer prejuízo. Não está em causa nada de relevante na visibilidade da manifestação, nem na sua liberdade. No entanto, os organizadores da manifestação já disseram que não iam respeitar essa proibição. O objectivo é claro: provocar artificialmente incidentes. * O seu post sobre o Governo Civil e a manifestação é baseado em informação deficiente. A organização comunicou o percurso da manifestação a 4 de Março. No dia 18 de Março às 18 horas, a poucas horas do desfile, o Governo Civil enviou um fax afirmando que a manifestação não se podia realizar naquele percurso. No dia seguinte contactadas as autoridades, foi por elas dito que a passagem pela Rua do Arsenal e o final na Praça do Município punha em causa a segurança do Tribunal da Relação. Lembro-lhe que já aconteceram inumeras concentrações na Praça de Munícipio e que as manifestações "Pro-vida" e as marchas pacifistas de 15 de Fevereiro de 2003 passaram pela Rua do Arsenal. A proibição não tem qualquer sentido, não passa pela cabeça de ninguém atacar o tribunal. E pelo contrário, é visível por parte do governador civil de Lisboa, a vontade de criar dificuldades aos organizadores. Por exemplo, depois de ter-se arranjado um palco para a Praça do Município é impossível a menos de 24 horas, construir um palco muito maior no Rossio. Reconheco-lhe honestidade intelectual para perceber que se trata de uma estratégia anti-democrática que recorre a expedientes "espertalhões", mas pouco inteligentes, contra opositores políticos. Aliás, na mesma direcção que as democráticas censuras do PP espanhol na TVE, que tão bons resultados deram. (Nuno Ramos de Almeida) (url) 19.3.04
VER A NOITE
Há muito tempo que os orifícios da esfera celeste, por onde se vê o fogo eterno, não estavam tão visíveis. É sempre o frio que os abre. (url)
POEIRA DE 19 DE MARÇO
Hoje, há setenta e três anos, Gide está com uma comichão que não o deixa dormir. Como bom intelectual, relembra os precedentes duma história da comichão: Job, procurando um fragmento de vidro para se coçar, e Flaubert. Depois faz uma hierarquia das dores, chegando à conclusão de que a comichão não era certamente a mais nobre, mas uma “inconfessável , ridícula doença”. Dez anos depois, outra doença aparecia no calendário anual. A Primavera começava a fazer os seus estragos. Camus escrevia hoje sobre a “floraison des filles sur les plages”: “Elles n’ont qu’une saison. L’année d’aprés, elles sont remplacées par d’autres visages de fleurs qui, la saison d’avant, étaient encore des petites filles.” (url) (url) 18.3.04
EARLY MORNING BLOGS 163
É boa ! Se fossem malmequeres ! É boa ! Se fossem malmequeres ! E é uma papoula Sozinha, com esse ar de "queres?" Veludo da natureza tola. Coitada ! Por ela Saí da marcha pela estrada. Não a ponho na lapela. Oscila ao leve vento, muito Encarnada a arroxear. Deixei no chão o meu intuito. Caminharei sem regressar. (Fernando Pessoa) (url) 17.3.04
POEIRA DE 17 DE MARÇO
Hoje , há quarenta e um anos, John Fowles foi ver os “restos” que a tia Tots (Dorothy) lhe tinha deixado. A tia morrera há uma semana, após viver uma “pathetic life” à frente de um lar de velhos, com os seus cães e gatos e a”sua mania por Dickens”. Fowles suspeitava que a tia era lésbica. Os “restos” não eram maus de todo, alguma mobília boa. E um diário, no qual a tia escrevera “This damned diary is a hell of a nuisance”. (url)
BASTA YA
Gente que não é capaz de dizer a simples frase "a ETA é terrorista", usa de forma indigna o nome de "Basta Ya", a organização mártir da luta contra a ETA, para convocar uma manifestação em Lisboa. (url) 16.3.04
POEIRA DE 16 DE MARÇO
Hoje, há cento e vinte e um anos, Beatrix Potter reflectia sobre a bomba que fora colocada ontem no Government Office em Parliament Street. Os danos não eram muitos, mas Beatrix, então com dezasseis anos, espantava-se com o “poder extraordinário do dinamite” e anotava, com pavor, como era possível a um tijolo voar tantos metros e perfurar uma parede. Parecia que o atentado era obra dos “irlandeses”, mas “Papa says it is Mr. Gladstone fault. He takeS the sides of these rogues and then, if they think is slackening, they frighten him a bit.” Ontem como hoje. A rapariguinha sensata ia mais longe. A continuar assim, “really we shall be as bad as France soon”. (url)
OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: DESPORTOS RADICAIS
À beira desta cratera, o "Espírito" interroga-se. Dúvidas: vou passear pela margem, vou descer, vou andar devagar, vou ser prudente, vou ser obediente. Ou vou-me passar, imagino-me radical, um skate marciano e vou por aí abaixo a abrir para ganhar força e, na rampa do outro lado, dar um salto mortal, um volteio. Regresso depois à minha margem pacífica, e ligo de novo as comunicações. Quando eles virem a cratera fotografada de cima, a meia dúzia de metros do solo, quem se ri sou eu. Desligo. (url)
TODAS AS PIORES IDEIAS
«If we don't hang together then we shall all hang separately» (Benjamin Franklin) Bastou que a primeira bomba explodisse na Europa para que todas as piores ideias viessem ainda mais claramente ao de cima. Elas já estavam à superfície, mas estavam fragmentadas, dispersas, amolecidas pelo cansaço dos últimos anos. Agora, sobre quase tudo o que verdadeiramente conta (a Europa, a Constituição, as relações transatlânticas, o terrorismo, a guerra), vai-se assistir (está-se já a assistir) ao império de um derrotismo paralisante, de uma defesa do estado de coisas actual, favorável aos violentos, de um abandono de valores e de obrigações, a favor da “paz”, a “paz” do nosso conforto e a “paz” das ideologias. A mensagem é só uma: matem, mas lá longe, matem os vossos, como sempre mataram, porque isso não nos interessa. Matem os outros, mas deixem-nos a nós em paz. Matem os outros, lá longe nesses sítios intratáveis, matem os israelitas, matem os americanos, mas deixem-nos sossegados. Tirem lá o alvo das nossas costas, que a gente vai correr com o Blair, com o Barroso, com os belicistas da “nova Europa”, e voltar, como disse Prodi, à diplomacia. Quem entende que se está em guerra, quem sente que se está em guerra, tem que ser agora mais firme do que nunca. * É tal e qual como diz, mas eu, pela minha parte, sendo um dos tais que me “sinto em guerra”, perante esta avalanche de pacifismo, sinto também que, para já, não é viável invertê-la. Por outro lado, vejo cada vez mais claro que houve por parte dos EUA tremendos erros tácticos que estão sendo determinantes – como se vai sair daquele atoleiro do Iraque? Vejo também nos seus aliados erros e mais erros. Dei por mim a rejubilar com o castigo eleitoral da estupidez autista de Aznar no pós-atentado, como se o resultado desse facto não fosse, necessariamente, aturar o inominável frouxismo deste Zapatero (horror dos horrores: homem sem vícios e de um anunciado “politicamente correcto” que augura o pior). Até que ponto essa incapacidade do PP em gerir o pós-atentado facilitou e magnificou o medo do eleitorado? Agora aqui temos o “anjo querubim” que se apressa a anunciar o regresso dos soldados espanhóis. É abjecta esta pressa, mas, ao fim e ao cabo, não se prepara Bush para fazer algo de equivalente em prol de interesses eleitorais? Enfim, inquietações e dúvidas sem fim e um mal-estar indizível é o que sinto. (Edmundo Tavares) * O seu “TODAS AS PIORES IDEIAS” é polémico, diria um pouco radical. Diria quase em desespero de causa. A sua habitual ponderação parece ter desaparecido. Concordo com a sua análise dos sinais que aparecem, agora mais que nunca, pela Europa. Mas a “ guerra”? Será que elimina o problema? Foi ela que minimizou os problemas criados pelo IRA, pela ETA, pelos bombistas suicidas em nome da Palestina, pelas Brigadas Vermelhas, pelo grupo Baader Meinhof, pelas Al Qaida, etc? Não será antes a inteligência baseada numa nova diplomacia, no vigor e rigor das Instituições Judiciais e policiais nacionais e internacionais? Será certamente pouco, dir-se-à. Será um processo lento, dir-se-à. É verdade, a morte anda à solta, gratuita, sem sentido, ontem ali, amanhã acolá. Mas não é a dúvida que aguça o engenho? À força bruta, dura e crua, deve responder-se com rigor, inteligência e argúcia. A classe política dirigente, à escala planetária, deve, tem obrigação de encontrar a solução. Para isso tiveram o nosso voto, já que se dispuseram a fazê-lo e, portanto, deverão ser de entre nós os mais competentes e habilitados para o concretizar. (Rui Silva) * Este repentino frenesim com a segurança vem demonstrar que a maioria dos europeus não realizaram de facto o que foi o 9/11 e o que representou. Que as suas opiniões foram formadas no conforto dum sentimento de segurança e com o à vontade de quem admira uma imagem do deserto sem lhe sentir o calor. Não admira por isso que considerem Israel uma das maiores ameaças à paz mundial. Nem admira que agora cidadãos reclamem medidas e que governantes se desmultipliquem em reuniões de emergência como se tudo não devesse ter estado à muito acautelado. (João Santos Lima) (url)
EARLY MORNING BLOGS 162
Não Canto Não canto a noite porque no meu canto O sol que canto acabara em noite. Não ignoro o que esqueço. Canto por esquecê-lo. Pudesse eu suspender, inda que em sonho, O Apolíneo curso, e conhecer-me, Inda que louco, gêmeo De uma hora imperecível! (Ricardo Reis) * Bom dia! (url) 15.3.04
PARA SE ANDAR PARA A FRENTE
Parece que estou sossegando Parece que estou sossegando 'Starei talvez para morrer. Há um cansaço novo e brando De tudo quanto quis querer. Há uma surpresa de me achar Tão conformado com sentir. Súbito vejo um rio Entre arvoredo a luzir. E são uma presença certa O rio, as árvores e a luz. (Fernando Pessoa) (url)
O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: ESPANHA E O TERROR 2
"Concordo com sua "lembrança", penso que a viragem política que ocorreu ontem em Espanha, com o regresso dos socialistas ao poder, só poderá surpreender os mais distraídos, depois de analisados friamente todos os acontecimentos ocorridos nos últimos três dias, a contar desde o dia do terrível atentado que abalou Madrid e todo o mundo civilizado. A verdade é que este acto terrorista fez com que muitos milhares de espanhóis esquecessem os quatro anos de governação da direita em Espanha e centrassem toda a sua atenção na forma possível de exprimir o seu medo em relação ao terrorismo perpetrado por diversos grupos islâmicos, que lutam contra o mundo desenvolvido, democrático e livre. Esses espanhóis (calcula-se em mais de 2 milhões) que estavam a pensar abster-se, por não terem preferência entre o PP e o PSOE, resolveram, a partir do dia do massacre, não ficar em casa e exercer o seu dever cívico, mostrando um cartão vermelho ao Governo que, segundo eles, "abriu" as fronteiras de Espanha aos grupos terroristas islâmicos... Claro que esta é uma visão muito redutora de como se combate o terrorismo, mas o povo é soberano e, só é pena que, tal como acontece em Portugal, muitos cidadãos apenas se lembrem de exercer o seu dever democrático de eleger um Governo, quando o terror e o medo os aflige. Estas foram umas eleições longe da normalidade, dominadas, não pela razão, mas sim pela emoção e pelo medo. Desta vez, os terroristas ganharam a sua batalha e concretizaram, por agora, os seus objectivos. Mas, certamente, que irão perder a guerra que iniciaram contra os valores do mundo democrático e livre..." (Pedro Peixoto) "As sondagens anteriores não validam a política externa do PP. Havia, se bem me lembro, sondagens que mostravam que a maioria dos espanhóis estava contra a intervenção no Iraque. Sucede que o que os espanhóis aprovavam, na sua maioria, era a política interna do PP, que em duas legislaturas mudou a face de Espanha. E isso permitia que tolerassem o resto (o Prestige e a intervenção no Iraque) porque era a boa política interna que lhes punha na mesa o pão e na alma o orgulho de, independentemente da nação a pertencessem, comungarem da identidade de cidadãos do reino de Espanha. E é por isso também que a vitória do PSOE me enche de tristeza: ela prova como, em três dias, a cedência ao apelo da demagogia e do ilusionismo político pode malbaratar o património de confiança acumulado em duas legislaturas. Quando ouvi, na sexta-feira, que Ana de Palácio tinha enviado circulares aos embaixadores a atribuir a responsabilidade à ETA, fiquei perplexo. Quando ouvi Rajoy falar de convicção moral da paternidade etarra dos atentados, temi o pior, pois a imputação de crimes depende de juízos sobre provas e não de convicções morais. E ontem... Acho que em Portugal temos também de retirar algumas lições do desastre eleitoral. O capital de prestígio do governo reformista pode ser desperdiçado se, em momentos cruciais, ele também ceder à tentação simplificadora. Tenho algum receio, confesso. " (Fazenda Martins) “A Al Qaida ontem, pela primeira vez, ganhou eleições na Europa. Temo que não seja a última. A cobardia pega-se; o sentimento de honra, tal como o de vergonha, não está na moda; a maior parte da esquerda, especializada no apelo ao que de mais baixo e mesquinho existe na natureza humana, brilhantemente secundada, apoiada e distribuída pela chamada comunicação social, cria o ambiente óptimo para a cultura e proliferação da bactéria - se assim posso chamar a uma federação de grupos terroristas. As pessoas vão acordar? A Europa vai acordar? Vamos proteger a nossa boa e velha civilização europeia ou, tal como a Espanha fez ontem, pensando salvar a pele já perdemos o instinto de sobrevivência?” (Maria Helena Lares) “Para muitos Espanhóis foi-lhes impossível suportar ao mesmo tempo um atentado terrorista e um governo mentiroso. Foi como se um médico lhes dissesse que afinal não iam morrer de cancro mas de negligência médica. Como muito bem diz, o povo vota, o povo decide, é simples. Não percebo é que depois diga que outros olhos nos vêem. Parece que quer dizer que era simples o povo votar no PP mas é tão burro que foi a correr a votar no PSOE. Por outro lado, e infelizmente, José Luis Zapatero ao anunciar que a Espanha vai retirar do Iraque não podia começar da PIOR (não sei como hei-de escrever isto a piscar) maneira. É como se dissesse "Bin, tens razão. Ao contrário do que andei a dizer, a Espanha está mesmo no Iraque para combater a Al-Qaeda, como dizia o Aznar e diz o Bush, mas não te preocupes que a gente vem já embora". Se Aznar passou por mentiroso no fim, Zapatero começa a passar por fraco logo no 1º dia.” (Mário Almeida) “O voto dos Espanhóis foi decepcionante e horrivel. Foi o mesmo que dizer - "Não nos importa o que se passa no Mundo, desde que não nos caiam bombas em cima" - e isto depois de lhes ter acontecido isso mesmo! Deve ter sido a atitude mais egoísta e fechada que se podia ter. É uma visão nacionalista (porque a guerra dos outros não nos interessa, e a culpa é do nosso governo que não nos manteve longe dela - como fez Salazar por aqui) e cega (porque ao mesmo tempo facilita o trabalho aos terroristas, e é o tipo de coisa que a continuar trará mais violência e terror). A primeira acção do novo PM foi de retirar as tropas do Iraque, chamando à intervencão um "desastre" - que evidentemente se agravará com atitudes destas, que enfraquecem a coligação e ironicamente vão fazer a vida mais difîcil áqueles que a guerra visava proteger, os iraquianos (alem disso é uma vitória moral e total para os terroristas - não só conseguem matar 200 pessoas como vêem a sua posição reforçada). Um choque.” (Alexandre Gamelas) "Queremos saber a verdade!" exigiam os manifestantes espanhóis entrevistados em véspera de eleições. E quem não quereria? Até o próprio Governo PP, diríamos. Mas analisando melhor, talvez a pergunta ocultasse uma outra subliminarmente mais autêntica e dramática: " Como nos pode acontecer isto?". Para esta questão, nem o Governo, nem a "media", nem os votos encontrarão facilmente a resposta.” (FFMachado). “No post intitulado "Para combater a Má Fé" (julgo que a de Sartre, via Fernando Gil) transfere - presumo que com boa fé - o ónus da prova em relação à autoria dos atentados de Madrid para o PSOE e para o novo Presidente do Governo, aproveitando a boleia para deixar mais algumas das suas habituais críticas à meditatização da política e ao papel dos meios de comunicação social - vá lá que não chegou à história do empolamento da manifestação de Sábado à noite pelas câmaras de televisão, como fizeram alguns. Parece uma má estratégia argumentativa. Parece-me que a boa fé aconselharia a que procurasse as respostas às interrogações subjacentes na própria conduta pública do Governo espanhol e do partido que o apoia. Não é preciso irmos ao "como e quando foram decididas as conferências de imprensa e outras declarações de responsáveis governativos", basta que nos fiquemos pelo respectivo conteúdo. Não é preciso irmos ao "que instruções foram dadas à investigação, que certezas ou incertezas foram transmitidas pelos serviços de informação", basta que nos fiquemos pelas conferências de imprensa do Ministro do Interior. A boa fé, caro JPP, é bem menos rebuscada do que o contrário da má fé.” (André Bradford) “É inacreditável! O que aconteceu em Espanha deixou-me verdadeiramente assustado. A Europa, que infantilmente pensa que está fora do perigo terrorista, nem depois de um ataque como o de Madrid acorda e percebe que esta atitude reactiva é o convite para a repetição da matança dos inocentes. A minha pergunta é esta: quando o terror psicológico a que estamos cada vez mais sujeitos atingir os píncaros da loucura e do descontrolo, quando a vida se tornar verdadeiramente insustentável e insuportável pela pressão do medo, o que é que vai acontecer ao Mundo? Terceira Guerra Mundial? Mas contra quem? Aonde? Os terroristas não vão parar. Os E.U.A não vão parar. Enquanto isso pelo continente sul americano, africano e asiático a pobreza e a fome e a falta de motivos para se viver chicoteiam populações inteiras. Aonde é que tudo isto vai parar? Cada vez mais penso naquela que é, por essência, a questão derradeira da filosofia: (...) não há senão um único problema filosófico verdadeiramente sério: o problema do suicídio. Julgar que a vida vale ou não vale a pena ser vivida, é responder à questão fundamental da filosofia. (Albert Camus, Le Mythe de Sisyphe, Paris, Galimard, 1942)” (Ivo Monteiro) “Agora sabemos que até da valentia, bravado e orgulho espanhóis pode vir o voto do medo. Sim, eu ponho os vossos adversários na rua. Sim, eu saio já do Iraque ou de outra qualquer justificação com que me ameacem. Sim, eu não me importo com o vosso ideário e prática, desde que as acções pedagógicas sejam feitas com os comboios de outros, não com os meus. E assim os Estados Unidos ficam mais isolados, até na compreensão dessa coisa básica de que é numa guerra que estamos. Europa cobarde. E assim apagadamente suicida.” (José Mendonça da Cruz) “Quando os americanos quiserem resolver o problema palestiniano a sério e não com falsas promessas. Quando acabar o fomento do ódio fundamentalista, haverá verdadeira luta ao terrorismo. Tudo o resto por muito que nos queiram “mentir” apenas fomenta cada vez mais ódio e terror. Julgo que os eleitores espanhóis ao derrotar o PP e a sua política de guerra, também querem uma política verdadeira, pela paz e não pela escalada do ódio e da violência. E isso é mais importante que os olhos da Al Qaida, pois que a luta contra aquela é com o afastamento dos motivos que leva os árabes a acreditar naqueles fanáticos.” (Carlos Teles) “Em relação às eleições espanholas, a TSF, com toda a imparcialidade, apresenta online o titulo "Rebelião Democrática". Mas a única rebelião que vi, foi a da inacreditável e provocadora manifestação ilegal à porta do PP em pleno dia de reflexão. E que a ver pelos lenços se percebia perfeitamente de onde vinha. Democrática e com sentido de estado foi a atitude do governo de Aznar, que se limitou a conter uma manifestação ilegal e hostil em prejuizo do seu partido.” (João Santos Lima) “Desconheço, tal como JPP presumo, as "fontes cirúrgicas” da Cadena Ser, não defendo o recurso sistemático a fontes anónimas, mas de algumas coisas sei, porque ouvi, li e vi durante os últimos dias: - O mesmo governo espanhol que desmentiu todas as informações avançadas em primeira-mão pela Cadena Ser foi o mesmo que, mais tarde e paradoxalmente, as confirmou nas conferências de imprensa. - A Cadena Ser foi um dos poucos meios de comunicação social espanhóis que foi isento na cobertura dos atentados porque nunca descartou nenhuma das duas hipóteses sobre a autoria dos atentados. Olhou sempre para os dois lados, nunca pendeu só para a ETA ou só para a Al-Qaeda. Não foi permeável às pressões e manipulações do governo espanhol sobre os media espanhóis, preferiu transmitir os factos e recusou retransmitir a “verdade oficial” do governo espanhol que insistia na tese da ETA cego aos indícios e factos que, aos poucos, surgiam. Por tudo isto foi acusada de ser “suspeita”. A cobertura dos acontecimentos entre os canais que acompanhei – a pública e controlada TVE (TVE 1 e 2 e o Canal de informação 24 Horas), a privada e próxima do PP Antena 3 e o canal autonómico Canal Sur - foi claramente tendenciosa relativamente à cobertura do jornal El Pais, da rádio Cadena Ser e das televisões Tele 5 e CNN+. O esforço de isenção da Cadena Ser, e dos outros meios, deveria ser aplaudido por JPP que sempre olha com desconfiança para os media e para os jornalistas. Ou será que a necessidade de “incubação” da informação deveria ter falado mais alto?” Ourives-da-coroa (url)
LEMBRANÇA A TEMPO POR CAUSA DO TEMPO
Se a rejeição da política externa espanhola de apoio à coligação no Iraque fosse determinante no sentido de voto, o PP não estaria à frente das sondagens, antes dos atentados. (url)
O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: ESPANHA E O TERROR (Actualizado)
Artigos e referências que me foram enviados:
Nota de Afonso Neves em Razão das Coisas Artigo colocado no Estaleiro Miguel Alves aconselha artigo de Luís Meana “La furia de la Historia”, em La Opinion, A Coruña Digital Nota de Luis Novais Weblog "Achei oportuno e interessante o excerto que publicou do livro "Impasses". Parece-me que descreve um sentimento, ou será mais correcto falar em atitude, subjacente à nossa vida no Ocidente e que não é fácil nem de perceber nem de descrever. Ao tentar "agarrá-lo" levantam uma questão que deve já estar (quanto mais não seja desde o 11 de Setembro) na cabeça de algumas pessoas: avaliar-se-á o que significaria o Ocidente desaparecer?. Esta pergunta, face aos acontecimentos recentes em Madrid, e a todos os outros que o antecederam, merece atenção e ponderação. Será que o desaparecimento da nossa sociedade Ocidental é, a mais ou menos longo prazo, e sem que o desejemos, provável ou possível? Só perante uma séria reflexão sobre as nossas fragilidades (que por vezes e paradoxalmente são também a nossa força) poderemos encontrar a garantia da sobrevivência, a longo prazo, das democracias. Há quem considere que estamos em guerra. Uma guerra não convencional, que requer uma renovação na forma de pensar, na estratégia, na formação e nos meios para defender e eventualmente atacar. O leitor Rui Silva (ver texto do post das 13h11m) consciente desta necessidade de reflexão propõe inteligencia, vigor e uma nova ideia de universalidade. Estes instrumentos, sem querer negar a sua importância, parecem-me um pouco e difíceis de concretizar. O que será uma nova ideia de universalidade num mundo em que, e só para dar um exemplo, A Declaração Universal dos Direitos Humanos, está longe de ser aceite no terreno, é contestada e posta em causa por se dizer servir os interesses do Ocidente? " (Joana Pereira de Castro) "Antes de mais, quero afirmar que tenho pelo JPP uma grande consideração pessoal e intelectual. Dito isto, num recente artigo no Abrupto, JPP refere: “Mas há outros olhos a ver o que aconteceu e esses olhos não vêem o mesmo que eu vejo. Esses olhos são os da Al Qaida, quer tenham sido eles a fazer o atentado ou não. E o que eles vêem é inquietante e perigoso. Vêem a bomba ter resultados que lhes convém, vêem o terror a dar resultados políticos. Eles não vão fazer a distinção entre as culpas do PP e os méritos da bomba. Eles são gente mais pragmática do que parece, ponderam as vantagens e inconvenientes de repetir a bomba, onde e como. É só uma questão de tempo.” Sempre me ensinaram, que em Democracia, o povo tem sempre razão. Não fica muito bem ao JPP arranjar desculpas. O que, aliás, é contraditório com a sua escola de esquerda." (Humberto Coelho) "Se os espanhois votassem em massa no PP para contrariar aquilo que se pensa ser a vontade dos terroristas (e, consequentemente, para evitar que estes repitam a "fórmula" por a acharem resultar), não seria também uma forma de condicionamento, de cedência?; devemos votar à direita por, à partida, isso incomodar mais os terroristas? O dr. Pacheco Pereira denuncia muito a má fé de alguma esquerda -- que concordo que existe --, mas, de caminho, vai colando todos os interesses terroristas a ela, insistindo em associá-los, comentário após comentário: não é também uma forma de má fé? Assim de repente, vem-me à memória a primeira eleição do presidente Sampaio e as ameaças do dr Pacheco Pererira, durante a campanha: que, caso a esquerda ganhasse, seria a chegada da intolerância, carregando em tom alarmista e trágico as suspeitas, como se o dr. Sampaio fosse algum desconhecido de curriculo sinistro, desviado e desviante -- até os políticos são pessoas e merecem ser tratados como tal. Ninguém tem o monopólio da má fé nem da independência política; e o dr. Pacheco Pereira, naturalmente, apesar de ter um bocadinho de uma e doutra, também não." (António G.) “A grande questão é a de saber se houve ou não manipulação da informação, ou gestão abusiva da mesma, por parte do PP. É que, se não houve, o poder de influenciar as eleições não foi tanto das bombas mas sobretudo dos media que construíram e sustentaram essa ideia. E, sinceramente, não sei qual das hipóteses é a pior. Já se sabia que os media tinham o poder de influenciar o voto, mas, a ser falsa a ideia de manipulação da informação, nunca até ontem tinham ido tão longe.” (Eduardo Nogueira Pinto) “Se percebo a lógica da sua preocupação, em "Olhos", os eleitores deveriam ter votado maioritariamente no PP, de modo a que os resultados não tivessem sido os que a Al Qaeda pretendia. Bom, mas se tivessem votado no PP por esse motivo, não deixariam de ter tomado uma opção condicionados pelos terroristas, não é verdade? Ou será que o único voto livre só poderia ter sido no PP?” (Pedro Soares) “Não…Não.., é horrível e angustiante saber que os terroristas venceram e eles têm consciência disso e isto é realmente a bola de neve que lhe referi ontem. O problema central e mais pernicioso é a sede de poder, do governo espanhol, querer manter o poder, escondendo fontes e deu um atestado de infantilidade ao povo espanhol, já o tinha feito com a Guerra do Iraque. Se fosse o governo espanhol que fosse para a guerra, óptimo, eram eles que sofriam as consequências, mas é o povo que têm que escolher se o governo vai para a guerra, porque são eles as vitimas dessa escolha. Têm de haver união para combater o terrorismo, o jogo de poder, só vem provocar mais sede de poder e esta sede doentia gera violência. Além disso, não haverá estratégias inteligentes de combater o terrorismo que não a guerra?!!!!... deve haver de certeza, quando os homens tiverem uma alma superior aos dos terroristas, e esquecerem a vitória como um fim em si mesmo, e se convencerem que o mais importante é ajudaram a criar um mundo melhor.” (Irene) “A propósito da afirmação de Zapatero sobre a retirada de tropas espanholas do Iraque - Muito mais que o horror de 200 mortos e 1400 feridos assusta-me que a actuação terrorista decida eleições legislativas, opções políticas e decisões estratégicas.” (João Melo) "O seu “posted” Olhos é muito curioso. É curioso porque deixa uma dúvida no ar. Como devem as Democracias do tipo Ocidental, representadas pelos Governos legítimos, comportar-se na sua Gestão da “coisa pública”? - Governar para evitar as “bombas”, cedendo nos seus declarados princípios, para não provocar a “ira” dos terroristas? - Governar para evitar as “bombas”, não cedendo nos seus declarados princípios, arriscando-se a provocar a “ira” dos terroristas? - Governar para evitar as “bombas”, analisando friamente todas as situações e procurando a melhor solução para o país, esquecendo talvez, os restantes membros da comunidade internacional? O terrorismo está aí, como de resto sempre esteve, tenham os seus autores o nome que tiverem. Agora talvez mais à escala planetária. Li, algures, que “Estamos em guerra” relativamente a esta dita nova situação. Não concordo. A guerra, no seu aspecto bélico de armas, movimentações maciças de homens e materiais, num confronto entre estados parece, nada leva a lado nenhum. Estamos sim no início dum grande período de reflexão universal (nomeadamente no Ocidente), de como fazer face a este problema. Se será com guerra, duvido. Mas será, isso sim, com inteligência, com vigor e, mais importante com uma nova ideia de universalidade e, porque não de ecumenismo. Cumpre aos poderes instituídos descobri-la. Este é o desafio às sociedades modernas. Saberemos encontrar a resposta?" (Rui Silva) "A guerra civil espanhola, que antecedeu a II Guerra Mundial, foi utilizada por algumas das facções que viriam a estar em confronto - com grande destaque para a Alemanha - como um laboratório de ensaio para o confronto que se avizinhava. Nela, foram experimentadas algumas estratégias inéditas na altura, como o bombardeamento massivo de cidades, de que Guernica foi um exemplo tristemente célebre imortalizado por uma obra-prima de Picasso. A vitória das tropas leais a Franco, fortemente apoiadas por forças aérea alemãs, serviu para aumentar a moral dos exércitos desse país, em vésperas de se lançarem num conflito em grande escala. A Al-Qaida, ao que tudo indica, executou um espectacular atentado em Madrid em vésperas de eleições, do qual resultaram 200 mortos. Dias depois, a população acorreu em massa às urnas, tendo derrotado o partido do governo (que sempre teve um discurso duro perante o terrorismo) e elegendo um partido com uma postura mais branda. Numa primeira leitura, é compreensível esta atitude da população. Há a percepção de que, quanto maior a firmeza demonstrada, mais facilmente nos convertemos em alvo. E ninguém gosta de ser alvo do terrorismo. O problema é que não estamos nesta guerra porque queremos. Não fomos nós que a começamos. Veio ter connosco. E tenho dúvidas de que a possamos evitar, ignorando-a. Passe as distâncias, e as diferenças entre os tipos de conflito, faz lembrar os anos que antecederam a segunda guerra mundial. Quando ninguém se preocupava muito por Hitler estar a armar-se até aos dentes e a opinião pública inglesa considerava Churchill um perigoso militarista. E quando Chamberlain assinava acordos de paz com Hitler, que garantiam a "paz no nosso tempo". Foi o que se viu. Desta vez, com um brutal atentado realizado em vésperas de eleições, poderemos ser levados a pensar que a Al-Qaida influenciou o seu resultado, dando a vitória a uma força política que lhe é menos hostil. Fica-se, desde logo, a recear o pior para as eleições presidenciais americanas, que terão lugar no final do ano. E a sensação de que as eleições em Espanha marcaram um ponto de viragem na guerra contra o terrorismo, de consequências imprevisíveis." (Ricardo Prata) (url)
PARA COMBATER A “MÁ FÉ”
Seria bom que o novo governo do PSOE, ou o novo parlamento, esclarecesse a sequência fidedigna de informações que chegavam ao governo, se houve ou não razões operacionais para não divulgar algumas, se houve ou não manipulação política na utilização ou sonegação de dados pelo governo, que informações foram dadas e em que tempo real ao líder da oposição, qual o grau de consultas mútuas, como e quando foram decididas as conferências de imprensa e outras declarações de responsáveis governativos, que instruções foram dadas à investigação, que certezas ou incertezas foram transmitidas pelos serviços de informação e pela polícia ao governo. Se não, ficamos com as "fontes" cirúrgicas da Cadena Ser, ou com a sensação de manipulação do PP. Esclarecer, para o ar ficar mais limpo. (url)
O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES
Por razões que facilmente se compreendem, estou a receber muitos textos para publicação. É minha intenção fazê-lo, com ampla variedade de pontos de vista, com o critério habitual: ajudarem à discussão. Mas, quanto mais curtos os textos, mais provável é a publicação. (url)
OLHOS
Aos meus olhos, as eleições espanholas são eleições, momentos em que se materializa a vontade última de quem manda em democracia. Mandaram embora o PP, deram a vitória ao PSOE, penalizaram o que quiseram penalizar, premiaram o que quiseram premiar. Essa vontade é, para um democrata, sempre impoluta, desde que haja liberdade nas eleições, como houve.
Mas há outros olhos a ver o que aconteceu, e esses olhos não vêem o mesmo que eu vejo. Esses olhos são os da Al Qaida, quer tenham sido eles a fazer o atentado ou não. E o que eles vêem é inquietante e perigoso. Vêem a bomba ter resultados que lhes convêm, vêem o terror a dar resultados políticos. Eles não vão fazer a distinção entre as culpas do PP e os méritos da bomba. Eles são gente mais pragmática do que parece, ponderam as vantagens e inconvenientes de repetir a bomba, onde e como. É só uma questão de tempo. (url)
POEIRA DE 15 DE MARÇO
Hoje, há dois mil e quarenta e oito anos, cumpriram-se os Idos de Março. Os conspiradores, dirigidos por Marcus Junius Brutus, Caius Cassius Longinus, Publius Servilius Casca e Lucius Tillius Cimber, mataram à punhalada Caius Julius Cæsar. Supostamente um crime de estado, pelo estado, contra o ditador.
A um deles, seu dilecto, César, caindo, falou em grego: “Também tu”. Também ele. (url)
O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES (Actualizado)
"o povo é quem mais ordena. É tão simples como isto e, antes de ficar complicado, deve continuar assim simples." Mas não é assim tão simples. A não ser num estado permanentemente revolucionário. Porque a democracia não é a vontade das massas, antes o voto de todos os cidadãos. A vontade expressa, para ser soberana, tem de ter regras, que nos livrem dos populismos de extrema-direita e extrema-esquerda. Sem essas regras porque não governar por sondagens, ou pela força de manifestações de rua? O voto foi feito e o novo governo eleito. Tudo legitimamente. Mas não foi simples, nem sequer normal. DBH (No Quinto dos Impérios) A inesperada vitória do PSOE foi, em certa medida, um facto bom para Democracia. Já dizia, salvo erro, Salazar: em política o que parece é. Ora, o que pareceu no pós-atentado é que houve uma “gestão dos mortos” por parte do PP. Certamente isto é muito injusto, pelo menos, para muitos dos seus dirigentes. Mas foi o que efectivamente pareceu. Se num primeiríssimo momento era lógica a pista ETA, insistir nela, nos moldes em que foi feito desde então, até pareceu um “acto falhado” da expressão de um inconfessável desejo mórbido (passe o terrível exagero…). Só que, perante a selvagem tragédia, as gentes perceberam que uma coisa era a ameaça do “terrorismo paroquial” etarra, outra a ameaça do “mega-terrorismo” global da Al-Qaeda. Instintivamente, saber esta verdade tornou-se-lhes crucial. Preso aos seus inimigos de estimação, o PP não soube ter o rasgo estratégico: detectar a nova ameaça e dispor-se na primeira linha para o combate – era, aliás, quem estava em melhores condições para o fazer! (É nestas e noutras que se notam ainda alguns tiques de lastro “franquista”). Sob este ponto de vista, o castigo eleitoral a que acabou por ser submetido é uma vitória da cidadania e da vivência democrática – se quem nos poderia garantir mais segurança perante esta ameaça, cobardemente, não a reconhece, nem a assume, pois, vamos dar oportunidade a quem nos diz ter podido evitá-la. Porém, o poder nas mãos da esquerda, sobretudo, desta esquerda “dialogante” e politicamente correcta é assustador por muitas razões … a começar pela economia. Lá vem a “marcha à ré” num saudável e equilibrado processo de liberalização e competitividade. Para o mundo é péssimo. Retirados os soldados espanhóis do Iraque, fica dada o mote … para o resto da Europa. Em vez da mobilização para a guerra ao mega-terrorismo, o que temos, é a ignóbil cobardia. Os “barbudos “ de Carachi e quejandos anotarão devidamente o êxito da coisa, ou seja, do êxito da chantagem do terror e o crescente isolamento dos EUA. O eleitorado espanhol imagina, por agora, que uma inflexão pacifista pode evitar futuras barbáries. Deus queira que esteja certo, embora a História nos diga que não. (Edmundo Tavares) O resultado das eleições em Espanha vieram demonstrar o perigo que há em pôr no mesmo plano o combate político interno nas democráticas e a discussão sobre como melhor combater o fenómeno do terrorismo a nível global. Assiste-se assim a uma estranha e involuntária aliança entre correntes políticas de matriz Marxista que persistem numa boa parte da esquerda, e o fundamentalismo Islâmico. Segundo a doutrina Marxista, uma visão do homem assente na ideia de que à nascença arrancamos dum zero, sendo por isso ele essencialmente um produto da sociedade – aliada à ideia de que o mundo pós revolução francesa se divide basicamente entre exploradores e explorados, assumindo como verdade “cientifica” que se há pobres e fracos, é por culpa de haver outros que são ricos e fortes, conduz logicamente à conclusão de que se há males no mundo – e nisso todos estamos de acordo – eles são uma consequência directa do sistema político em vigor. O que actualmente e à escala global significa a total responsabilidade dos países ricos, com os EU à cabeça, perante as desgraças do mundo. É neste contexto que a referida esquerda, mesmo condenando o método terrorista, a entende como uma reacção desesperada de pobres e oprimidos contra os seus exploradores. E é neste contexto que essa esquerda entende uma política activa em relação ao terrorismo como uma manifestação oportunista do “explorador”. Bin-Laden não é um desesperado. Bin-Laden, lucidamente procura forçar o devir do “seu” mundo, independentemente da vontade daqueles que diz representar e legitimando-se na miséria do “seu” povo e na sua natural aspiração a uma existência digna. E nesta última parte encontra ressonância no sentimento da referida esquerda. Por outro lado, supondo que ainda está no prazo a profecia marxista, a esquerda em questão não pode deixar de ver no fenómeno Al-Qaeda um agente da História, gerado pelo próprio Capitalismo e conducente à sua auto-destruição tal como estava escrito. Não estou a sugerir de forma alguma a existência de uma qualquer estratégia concertada entre a esquerda e o fundamentalismo islãmico. Mas não tenho dúvida que ambos beneficiam com as acções um do outro, pela simples razão de que o inimigo é em muitos aspectos o mesmo. E se no caso da esquerda acredito que a coisa seja puramente acidental, já no caso dos fundamentalistas desconfio fazer parte de uma estratégia que instrumentaliza esta esquerda, como parece indicar o timing do atentado de Madrid. Em termos operacionais, uma retira espanhola do Iraque não tem qualquer peso. O perigo aqui é que os terroristas se convençam de que com outros 3/11 conseguem determinar decisões políticas em benefício próprio. Ou seja, que o terrorismo funciona, e que a esquerda na sua obsessão anti-capitalista e anti-americana ajude à festa. (João Santos Lima) (url) (url)
EARLY MORNING BLOGS 161
Poucos poemas vão mais longe na visão, no sentido divinatório de um mundo dominado pelas trevas, as trevas ancestrais, as trevas da morte. Foi-me sugerido por João Costa, na sequência do terror espanhol, e eu hesitei em publicá-lo, quer pela sua extensão, quer pelo facto de estar em inglês. Não sei se existe uma tradução portuguesa, mas tentarei encontrar uma, ou procurar que haja uma, para quem não lê inglês. Mas, ao relê-lo outra vez, no seu fôlego quase metafísico, pareceu-me impossível não o publicar: “Darkness had no need / Of aid from them--She was the Universe.” Darkness I had a dream, which was not all a dream. The bright sun was extinguish'd, and the stars Did wander darkling in the eternal space, Rayless, and pathless, and the icy earth Swung blind and blackening in the moonless air; Morn came and went--and came, and brought no day, And men forgot their passions in the dread Of this their desolation; and all hearts Were chill'd into a selfish prayer for light: And they did live by watchfires--and the thrones, The palaces of crowned kings--the huts, The habitations of all things which dwell, Were burnt for beacons; cities were consum'd, And men were gather'd round their blazing homes To look once more into each other's face; Happy were those who dwelt within the eye Of the volcanos, and their mountain-torch: A fearful hope was all the world contain'd; Forests were set on fire--but hour by hour They fell and faded--and the crackling trunks Extinguish'd with a crash--and all was black. The brows of men by the despairing light Wore an unearthly aspect, as by fits The flashes fell upon them; some lay down And hid their eyes and wept; and some did rest Their chins upon their clenched hands, and smil'd; And others hurried to and fro, and fed Their funeral piles with fuel, and look'd up With mad disquietude on the dull sky, The pall of a past world; and then again With curses cast them down upon the dust, And gnash'd their teeth and howl'd: the wild birds shriek'd And, terrified, did flutter on the ground, And flap their useless wings; the wildest brutes Came tame and tremulous; and vipers crawl'd And twin'd themselves among the multitude, Hissing, but stingless--they were slain for food. And War, which for a moment was no more, Did glut himself again: a meal was bought With blood, and each sate sullenly apart Gorging himself in gloom: no love was left; All earth was but one thought--and that was death Immediate and inglorious; and the pang Of famine fed upon all entrails--men Died, and their bones were tombless as their flesh; The meagre by the meagre were devour'd, Even dogs assail'd their masters, all save one, And he was faithful to a corse, and kept The birds and beasts and famish'd men at bay, Till hunger clung them, or the dropping dead Lur'd their lank jaws; himself sought out no food, But with a piteous and perpetual moan, And a quick desolate cry, licking the hand Which answer'd not with a caress--he died. The crowd was famish'd by degrees; but two Of an enormous city did survive, And they were enemies: they met beside The dying embers of an altar-place Where had been heap'd a mass of holy things For an unholy usage; they rak'd up, And shivering scrap'd with their cold skeleton hands The feeble ashes, and their feeble breath Blew for a little life, and made a flame Which was a mockery; then they lifted up Their eyes as it grew lighter, and beheld Each other's aspects--saw, and shriek'd, and died-- Even of their mutual hideousness they died, Unknowing who he was upon whose brow Famine had written Fiend. The world was void, The populous and the powerful was a lump, Seasonless, herbless, treeless, manless, lifeless-- A lump of death--a chaos of hard clay. The rivers, lakes and ocean all stood still, And nothing stirr'd within their silent depths; Ships sailorless lay rotting on the sea, And their masts fell down piecemeal: as they dropp'd They slept on the abyss without a surge-- The waves were dead; the tides were in their grave, The moon, their mistress, had expir'd before; The winds were wither'd in the stagnant air, And the clouds perish'd; Darkness had no need Of aid from them--She was the Universe. (George Gordon, Lord Byron) (url)
EM DEMOCRACIA
o povo é quem mais ordena. É tão simples como isto e, antes de ficar complicado, deve continuar assim simples. (url) 14.3.04
POEIRA DE 14 DE MARÇO
Hoje, há oitenta e três anos, Virgínia Woolf acordava com a mesma dúvida de ontem: tornar-se-ia Eliot, T.S. ,“Tom”, uma figura amigável e familiar? Jantara com ele na véspera e Eliot estava sozinho porque a sua mulher estava doente. “O que é que acontece com as amizades iniciadas aos quarenta anos? Será que se desenvolvem e duram? “ Talvez. Ela tinha uma “good mind” e “Tom” também. Mas “Tom” não gostava do que ela escrevia. “Damn him”. Nada que duas colunas laudatórias sobre The Years no Observer não curassem. (Continua) (url) (url)
EARLY MORNING BLOGS 160
Epitalamio Bárbaro A Lugones. El alba aún no aparece en su gloria de oro. Canta el mar con la música de sus ninfas en coro y el aliento del campo se va cuajando en bruma. Teje la náyade el encaje de su espuma y el bosque inicia el himno de sus flautas de pluma. Es el momento en que el salvaje caballero se ve pasar. La tribu aúlla y el ligero caballo es un relámpago, veloz como una idea. A su paso, asustada, se para la marea. La náyade interrumpe la labor que ejecuta y el director del bosque detiene la batuta. —¿Qué pasa?—desde el lecho pregunta Venus bella. Y Apolo: —Es Sagitario que ha robado una estrella. (Rubén Darío) * Bom dia! (url)
© José Pacheco Pereira
|