| ABRUPTO |
semper idem Ano XIII ...M'ESPANTO ÀS VEZES , OUTRAS M'AVERGONHO ... (Sá de Miranda) _________________ correio para jppereira@gmail.com _________________
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22.11.03
IMAGENS
A da flor perdida, há um dia, é de uma gardénia branca de Christian Rohfls de 1932, estava Hitler a preparar-se para subir ao poder. A onda é espanhola, de Guillermo Gomez Gil, e está em Sevilha no Museu das Belas Artes. Não sei a data, mas o mar é quase eterno. As flores são menos. (url)
HERANÇAS E DESEJOS
Não sei em que jornal (no Público, talvez) escrevi, no início do século XXI, estes “desejos em dois mil caracteres a favor da anestesia e contra a bomba atómica”. Infelizmente, o ponto dois tornou-se rapidamente actual. Este texto é obviamente anterior ao 11 de Setembro e ao Iraque, mas parece-me ser texto de blogue e dever ficar registado aqui.
“Primeiro : resolver o dilema malthusiano entre o crescimento da população e os recursos. Resolver este dilema sob as suas formas clássicas e modernas implica várias coisas difíceis: mudar o nosso modelo predatório de crescimento industrial , controlar as pressões sobre a ecologia geradas pelo acesso das multidões do terceiro mundo a consumos de massa , descobrir novos processos agrícolas , encontrar na conquista espacial um novo “espaço vital” para a humanidade .
Segundo : resolver o problema da evolução da guerra para formas baratas e facilmente disponíveis de destruição maciça . Isto significa encontrar meios para controlar a disseminação do armamento nuclear, químico e biológico, a miniaturização das armas , o terrorismo tecnológico . Não se vê bem como, sem haver uma polícia mundial.
Terceiro : impedir a utilização do conhecimento do genoma humano e das técnicas de engenharia genética para criar uma versão moderna dos “homens superiores” . Aproveitar, pelo contrário, o enorme potencial dos conhecimentos previsíveis do código genético para aumentar o numero de anos de vida dos humanos , evitar as doenças evitáveis e adaptar os humanos às mudanças da sua ecologia . Seguir no caminho das únicas coisas que parecem um verdadeiro progresso neste século: a anestesia, por exemplo .
Quarto : encaixar sem crises o provável conhecimento e contacto com biologias extra-terrestres no nosso sistema solar ou fora dele, aceitar que a vitória do Deep Blue no xadrez lança a luz certa sobre a nossa “inteligência” , compreender profundamente as novas dimensões do saber que nos trarão telescópios como o Hubble renovado ou as novas técnicas biológicas .
Quinto: impedir que se viva numa outra sociabilidade na qual a democracia estará em risco de ser substituída por uma demagogia mediática totalitária , em que se sobreviva tecnologicamente “dopado” por uma envolvência afectiva de imagens em movimento em todas as dimensões , em que a riqueza e a pobreza serão resultado da forma como soubermos usar a informação e resistir à manipulação , em que a criação e a beleza terão que ser defendidas da usura dos tempos . Não é brilhante, pois não? Mas as heranças do XX para o XXI são estas.” (url)
EARLY MORNING BLOG 82
Pela nossa manhã, não é ainda manhã em Nova Iorque, e o poema de Lorca (cortesia de João Costa) estará umas horas dentro da noite americana. Pobre Nova Iorque de Lorca onde “no habrá paraíso ni amores deshojados”! Mas manhã é manhã, e esta era do tempo do crash: LA AURORA "La aurora de Nueva York tiene cuatro columnas de cieno y un huracán de negras palomas que chapotean las aguas podridas. La aurora de Nueva York gime por las inmensas escaleras buscando entre las aristas nardos de angustia dibujada. La aurora llega y nadie la recibe en su boca porque allí no hay mañana ni esperanza posible. A veces las monedas en enjambres furiosos taladran y devoran abandonados niños. Los primeros que salen comprenden con sus huesos que no habrá paraíso ni amores deshojados; saben que van al cieno de números y leyes, a los juegos sin arte, a sudores sin fruto. La luz es sepultada por cadenas y ruidos en impúdico reto de ciencia sin raíces. Por los barrios hay gentes que vacilan insomnes como recién salidas de un naufragio de sangre." Federico García Lorca Bom dia , aos das nossas horas ! (url) (url)
O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES
BUSH EM LONDRES - ”Ontem decidi-me a ver os noticiários das televisões - um habito que tenho vindo a perder, dada a sua manifesta falta de qualidade. A minha intenção era ver a reportagem sobre a visita de George W. Bush a Inglaterra. Sabia que o Presidente Norte-Americano tinha pronunciado um discurso, cujo conteúdo me interessava. Nas actuais circunstâncias, seria seguramente relevante para se perceber a posição dos americanos em relação ao Iraque, numa altura em que as coisas não têm corrido bem. Para minha surpresa - e apesar de fazer um "zapping" pela SIC e pela RTP (a TVI já nem conta) -, não consegui vislumbrar uma palavra do discurso! No telejornal do horário nobre destas cadeias, a cobertura da visita presidencial limitou-se à filmagem de uns manifestantes mais folclóricos e ao relato do incidente originado pela contratação de um jornalista como empregado do Palácio de Buckingham. Sobre o conteúdo da visita, nada! (…) Uma vez que considero relevante o referido discurso de George W. Bush, ainda mais após os trágicos acontecimentos de Istambul, indico o seu endereço" ( Ricardo Prata) LINCOLN EM GETTYSBURG - “Acabei de ler o seu post acerca do famoso discurso de Gettysburg do Lincoln. E tenho alguns reparos a fazer. Em primeiro lugar é fácil ficar fascinado pela música das palavras do Lincoln. Por ali passa alguma da melhor prosa de lingua inglesa alguma vez escrita. Também é fácil ficarmos fascinados pela evocação do heroísmo dos combatentes. Tudo isto é fácil e concordo consigo em que se trata de um pedaço de prosa muito poderoso. Maia importante, é muito fácil vê-lo como evocação de um passado em que a honra, a valentia e a coragem eram dignificadas. Mas é necessário ver o outro lado... o significado profundo e politico das palavras deste grande discurso. Por exemplo, de que liberdade é que o Lincoln fala? Do direito à autodeterminação dos povos? Não me parece, porque é isso precisamente que o Lincoln tentou (e conseguiu) impedir em relação aos estados Sulistas que reivindicavam o direito de se separarem da União. Por outro lado, de que "unfinished work" é que o Lincoln fala? Do trabalho inacabado dos soldados da confederação na sua luta pela seu direito a ser independentes ou do trabalho inacabado dos soldados da União no sentido de o impedirem? Este discurso é muito belo mas tem algumas ressonâncias sombrias. Quando o Lincoln invoca a Liberdade é no fundo para justificar a supressão da mesma. A ideia da sacralização daquele solo tem como único objectivo, não a evocação do heroísmo dos soldados, mas sim o reforço do carácter sagrado (e por isso intocável) da União. A associação dos mortos desta batalha aos Pais Fundadores também não é inocente. O que se passou na Guerra da Secessão foi de facto a refundação de uma nação. Mais forte e mais unida...mas menos democrática e menos livre Este discurso no fundo é um grande exemplo de double talk: Liberdade é Opressão. Extraordinariamente bem escrito, com uma poesia muito profunda que toca toda a gente. Mas é isso que o faz terrivel. Mas isso era o Lincoln, um homem inteligente, frio, um grande estratega e grande prosador que construiu (e aqui estou de acordo consigo) uma grande Nação." (Rui Silva) RTP INTERNACIONAL E FUTEBOL- “ O jogo de esperanças entre Franca e Portugal passou na TV francesa como pode verificar na seguinte ligacao, na programação do Canal + . E' por isso que a RTPi não podia transmitir em directo o jogo em questao. Os direitos de transmissão dos jogos da UEFA sao atribuidos apenas a uma estacao por pais, como o Canal + comprou esses direitos para o território francês a RTPi nao podia transmitir. Eu vivi quatro anos em Franca, curiosamente em Estrasburgo, e este tipo de problemas os emigrantes já os conhecem bem. Nos jogos das taças europeias só passam em Franca os jogos cujos direitos foram comprados por televisões francesas. As TVs internacionais como a RTPi, a TVE internacional, as TVs Polacas, Egípcias, etc só passam jogos internacionais das suas selecções, excepto quando estas jogam contra a França. Caso em que as TVs francesas adquirem esses direitos. O que chateava os emigrantes era o desrespeito dos acordos que a TVI e a SIC tinham com a RTPi quando havia derbies importantes em Portugal. Por exemplo, quando havia um Benfica-Porto que fosse transmitido pela SIC estes deveriam ceder as imagens 'a RTPi. Coisa que raramente fizeram, nem que fosse para transmitir os jogos em diferido." (Rui Silva) MÁQUINA / HOMEM E OUTRAS INTELIGÊNCIAS - “Ainda sobre a questão humanos/máquinas e inteligência artificial gostaria de o alertar que existe vasta literatura sobre o assunto, uma obra importante e polémica é o do físico matemático inglês R.Penrose (Emperors New Mind) que está traduzida em português e cuja tese que explana ao longo de muitas páginas é a de que é impossível 'criar' inteligência humana artificialmente. Para uma breve introdução ao assunto aconselho um pequeno livro que também existe em português: O Quarteto de Cambridge onde quatro célebres cientistas discutem o problema. A questão principal neste assunto é: pode ser criada uma 'intenção' humana' artificialmente. Para tal há que saber o que é de facto 'intenção humana'. A.Turing resumiu o problema no seu célebre teste que do meu ponto de vista não 100% correcto. Um teste sério seria ter 2 máquinas e 1 humano, sendo a uma das máquinas que caberia a decisão do teste. Quanto ao problema mais restrito da IA - inteligência artificial, aconselho-o, se se quer debruçar sobre ele, a 'bíblia' académica do assunto Artificial Inteligence a Modern Approach - Russel& Norvig. Tá lá tudo o que é necessário saber para construir manipuladores de informação úteis ao homem." (AJFonseca) “Como engenheiro e cientista sinto-me frequentemente frustrado pela falta de preparação que os nossos políticos e decisores revelam em assuntos relacionados com ciência e tecnologia. Os decisores em Portugal são claramente influenciados por fortes correntes pós-modernistas, em que se destacam intelectuais como Boaventura Sousa Santos (BSS) e Eduardo Prado Coelho (só a título de exemplo). Em Portugal as ciências socias são claramente sobrevalorizadas em detrimento das chamadas 'ciências duras', com efeitos visíveis no nosso sistema de ensino. Esta corrente não é suficientemente combatida talvez porque quem o poderia fazer não tem uma presença assídua nos media. Por outro lado, alguns dos que a combatem não o conseguem fazem da melhor maneira, como é o caso do Físico António Batista que tem alimentado interessante polémica com BSS nas páginas do Expresso (edição do último Sábado - 2º caderno). Apesar de concordar por inteiro com o conteúdo das suas críticas, não me parece que o tom e o estilo utilizados sejam os melhores, à semelhança do que se pode constatar também no seu último livro... Quando se entra numa polémica tão acesa não interessa apenas o conteúdo. É necessário também encontrar o tom correcto... (…) Já agora, reparei que no seu blog tem discutido assuntos relacionados com inteligência articifial, tendo abordado o velho mito do 'Fantansma dentro na Máquina'. A esse propósito recomendo vivamente um livro do Steven Pinker, Professor de Ciências Cognitivas no MIT, ainda não traduzido em Português, intitulado: The Blank Slate: The Modern Denial of Human Nature, em que ele tenta, quanto a mim com sucesso, desmontar três dos principais mitos do nosso tempo (em alguns casos influenciados pelos pós-modernistas): O mito da 'tábua rasa' - the Black slate, o mito do nobre selvagem e o mito do 'fantasma dentro da máquina'. (Álvaro Carvalho) "Há um livro muito bom que trata sobre inteligência artificial, de um dos maiores cientistas do nosso tempo: Roger Penrose, catedrático de Oxford. O livro está editado em Português como nome: A Mente Virtual, da editora Grávida. A primeira edição em Inglês é de 89, com o nome: The Emperor's New Mind-Concerning Computers, Minds and Laws of Physics; da Oxford University Press. Claro que o livro, mesmo sendo dirigido para o público geral, não é de fácil leitura, mesmo para pessoas formadas em Filosofia, Sociologia, etc." (Luís Alves) (url) 21.11.03
VOTOS, VOOS, AVIÕES AVARIADOS, AVIÕES PERDIDOS, CIDADE AQUI, CIDADE ALI, COLÓQUIOS, ESTALINE, CHUVA
tudo junto explica a ausência. Pouco a pouco, regresso. (url) (url) 19.11.03
MÁQUINA / HOMEM 4
"Uma pequena reflexão maquinal: O homem é um animal racional, pensamos nós desde a Grécia. Se é o "racional" que nos diferencia dos outros animais, não deixa de ser com uma saborosa ironia que vemos o racional como a primeira vítima séria do assalto dos computadores (os trabalhos físicos e os repetitivos são irrelevantes para o caso)." Jorge Camões SerPortugues(Ter Que) "Como é evidente, estamos muito longe das máquinas verdadeiramente inteligentes (autónomas) da ficção científica. Mas ainda que fosse possível virmos a criar este tipo de máquinas, não deixaríamos de ser nós os "transmissores" dessa inteligência. Porque será que alguns de nós apreciam tanto comparar-se às máquinas que criamos? Acho que poderíamos chegar a interessantes conclusões, se analisássemos esta questão… Imagine que eu sou do tempo dos cartões perfurados e das primeiras máquinas tabuladoras. Imagine o meu espanto e a minha satisfação quando utilizei, pela primeira vez, uma máquina programada por mim (nós…) para calcular vencimentos! Que diabo! Então se, com a ajuda da máquina, consegui fazer um trabalho em 2 horas que demorava uma semana a executar a uma equipa de meia dúzia de pessoas (com grosseiros erros à mistura…), não será um motivo de enorme satisfação para quem o realizou? A que propósito me deveria sentir humilhado por um punhado de circuitos impressos?" (J. C. Marques) "Relativamente à discussão sobre Inteligência Artificial, naquele caso o xadrês, achei que teria interesse em visitar este sítio. Trata-se de um 'bot', neste caso um 'diva-bot' que pretende emular uma pessoa real. O programa deste bot (a Lauren) e muitos outros, tem raíz no ALICE, o primeiro bot deste tipo, construído através de milhares de instruções fornecidas por gente em todo o mundo. Estes bot's aprendem e fazem perguntas também. Caso queira experimentar, tente fazer perguntas interessantes, mesmo filosóficas. Ficará surpreendido. O algoritmo é algo limitado mas é fascinante ver a sua capacidade de interpretar linguagem natural e a sua 'cultura geral'. Caso as perguntas sejam muito complexas ele dará respostas genéricas (erros). Há bots de todo o tipo. Alguns têm bases de dados de ciência, outros de produtos bancários etc., e já estão a ser utilizados em sites oficiais como hosts virtuais. O futuro certamente... " (Lourenço Bray) (url)
ESTRASBURGO. UM DIA (Continuação)
Volto à pátria por via televisiva. Procuro notícias, o telejornal, encontro um programa da RTP Internacional ainda mais bizarro do que o costume. Um filme português do tempo do PREC, que apanho no fim, numa cópia de tão má qualidade que quase nada se via no ecrã. Depois uma sucessão caótica de pequenos filmes sem nexo: uma Contra-Informação, uns spots musicais, um do Luís Represas, uns filmes turísticos sobre Portugal profundo, uns reclames repetidos n vezes sobre como era boa a televisão pública, outros sobre o "futebol de interesse público", quatro vezes o anúncio do programa do Francisco José Viegas. Parecia que alguém tinha deixado bocados de filme em piloto automático durante quase três horas. Nem uma palavra sobre quando é que passaria o telejornal, nem o que se passava com a programação. De repente, out of the blue, às 23,53, o telejornal. Vim depois a saber que a RTP estava a transmitir um jogo de futebol, o enésimo, para Portugal, e a RTPI enchia o espaço com o que algum funcionário preguiçoso encontrava em arquivo. Nenhuma explicação, nenhum texto dizendo a que horas haveria programação normal, o que se estava a passar. O jogo, por sua vez, entre Portugal e França, era invisível aos emigrantes portugueses em França - eis o "futebol de interesse público". A completa falta de respeito da televisão pública para com os emigrantes. Inimaginável. (url)
ESTRASBURGO, UM DIA
Cinzento e frio, o fumo permanece baixo. O costume. * Entro às 8,15, saio normalmente entre as 21 e as 22. O Parlamento é uma grande prisão, diz-se que foi feito por um arquitecto especializado em prisões. O edifício é compacto e cinzento no exterior, lajes de ardósia, aço, vidro, todos os tons de cinza. No interior, umas lianas artificiais prolongam-se do tecto para um chão negro de ardósia ou xisto, para dar uma sensação de verde. De há muito que não são verdes, com um pó pertinaz que as suja. Como são praticamente impossíveis de limpar, continuam sujas. * O edifício ganhou um prémio de arquitectura, mas está cheio de coisas que devem ter sido caríssimas e não servem para nada, como umas estruturas parecidas com uns cornetos invertidos ( ou uns embrulhos de fish and chips) de betão, napa e alcatifa, supostamente com uns telefones no meio para os deputados irem lá dentro falar. Basta entrar um, que ficam ocupados, porque não há privacidade nenhuma. Há mais de seiscentos utentes, mais milhares de assistentes, lobistas, visitas, que também os usam. Há cinco ou seis cornetos, servem dez pessoas o máximo, no seu esplendor de mobiliário inútil. * Presido à sessão da manhã. Está a Comissão em peso porque se discute o seu Programa. As suspeitas de fraude na Comissão com o Eurostat são o prato forte do debate. Muitos deputados, ingleses e holandeses em particular, falam uma linguagem pouco comum ao discurso parlamentar português: a da defesa do dinheiro dos contribuintes. Prodi provoca um incidente parlamentar com as suas referências à política interna italiana, onde parece que pretende candidatar-se a deputado nas próximas eleições. Hoje a política mais quente no Parlamento é a italiana. * Falo, por videoconferência, numa versão especial do Flashback chamada Flashforward, integrada no Congresso das Comunicações, em Lisboa. Foi o primeiro Flashback depois da extinção na TSF, antes de passar para a SIC Notícias. Como bom liberal, critico a contradição que me parece existir nos chamados "objectivos de Lisboa", que incluíam um fórmula de aparência muito parecida com a que usou Krutchov há uns anos: ultrapassar os EUA em 2010, Guterres dixit. A contradição é tentar criar uma eEuropa com o objectivo de combater o desemprego. Defendo que uma eEuropa deve ter como objectivo aumentar a produtividade e esta gerar riqueza e emprego. É uma coisa muito diferente do que arrastar o célebre "modelo social europeu" às costas. Os primeiros resultados do famoso benchmarking previsto é que os indicadores do atraso ainda mais se acentuaram. Apesar do "programa de Lisboa", os EUA alargaram o fosso tecnológico. * Durante a tarde, a habitual sucessão de reuniões. No Parlamento Europeu há reuniões para preparar reuniões para preparar reuniões. Não é brincadeira, é a sério, e às vezes ainda é mais complicado. * A meio da tarde, em frente à minha janela, que é bastante alta, passa um bando de corvos. Passam uma vez, mais baixo, picam, sobrevoam umas árvores e sobem outra vez. Nunca tinha visto um bando de corvos. Lembrei-me dos Pássaros de Hitchcock. A seguir, um ou dois retardatários parecem perdidos. Ainda mais um. Augúrios. * Afinal consegui um intervalo para descer, como os corvos, a Estrasburgo cidade. É raríssimo poder ver Estrasburgo às horas de vida normal. Já é princípio da noite, porque, entre as 17 e as 18 horas, já é noite. * É nestas alturas, em vésperas de Natal, que Estrasburgo parece uma pequena cidade alemã, uma vila renana rica e recatada no particular conforto das terras do Norte. Nas ruas, as lojas brilham, começa a sentir-se o cheiro a vinho quente, a massapão e pão doce com canela. Aparecem as primeiras decorações de Natal e as brasseries ostentam cartazes com a bière de Nöel. Nas ruas, longas bancadas de livros. Em breve, conviverão o dia todo com as primícias alsacianas, as trufas, o foie gras, os queijos, os enchidos, os mil e um produtos de qualidade destes campos férteis da PAC. Terra rica, sólida, burguesa. * Olho para o outro lado imaginário. A meia dúzia de quilómetros, está uma terra dostoiewskiana, Baden-Baden. Hotel, casino e termas. Sombras czaristas, jogadores perdidos. agentes secretos, velhas damas alemãs, concursos de danças de salão. O antídoto. (Continua) (url) 18.11.03
MÁQUINA / HOMEM 3
"Os comentários que li sobre o duelo homem versus máquina no domínio do xadrez deixaram-me confuso e um pouco perplexo. 1. Não é nenhuma tragédia, nem nenhuma vergonha, o homem ser vencido por uma máquina. Se isso nos perturba, então também deveriamos ficar perturbados com o facto de os carros (ou as bicicletas) correrem mais depressa do que nós, de os aviões poderem voar e nós não podermos, de os rádio-telescópios verem mais longe do que nós, de as calculadoras conseguirem multiplicar números mais depressa do que nós. 2. Se a industria de componentes electrónicos continuar a desenvolver-se ao mesmo ritmo como até agora (o que é muito provável), os computadores acabarão por vencer sistematicamente os humanos, tanto em xadrez como no go e noutros "jogos finitos" (em que há um número finito de jogadas de cada vez). Isto é tão certo como amanhã ser outro dia, pois a velocidade de cálculo dos computadores tem-se duplicado todos os três ou quatro anos, enquanto que a velocidade de pensamento dos humanos permaneceu mais ou menos constante ao longo da história. Maior velocidade de cálculo significa mais jogadas potenciais analisadas e comparadas e portanto melhor estratégia. É matematicamente impossível os humanos não perderem frente às máquinas, a longo prazo. Aliás, se há coisa que me espanta nesta história é algum humano ainda ser capaz de vencer um jogo de xadrez a uma máquina. Chego mesmo a pensar que os programadores da respectiva máquina não devem ser brilhantes. 3. Por outro lado, não é muito correcto dizer que "a máquina vence". Quem vence é na realidade um programa escrito por uma equipa de humanos." (Cristian Barbarosie) "Termina o seu post "MÁQUINA / HOMEM" com a seguinte frase: ... "Antes de tudo, no último jogo, Kasparov ganhou - ponto para os humanos." Independentemente de quem ganhe, Kasparov ou qualquer outro homem, ou a máquina, o ponto será sempre para os humanos. Porquê? Não foram os humanos que criaram e programaram a máquina e o jogo? Então, ponto para os humanos!" ( Ourives-da-coroa ) "O que comentaram várias colegas de IBM quando Kasparov perdeu: "Durante o jogo de 1997 IBM tinha programadores alterando o código do programa, tornando imposivel a Kasparov pudesse estudar quem tinha em frente, pois era o mesmo que de jogada em jogada tivesse uma pessoa diferente, explicando a razão porque Kasparov se levantou super chateado da mesa quando perdeu." Não sei de certeza se é verdade esta informaçao que lhe envio, mas que seria possível, sim que é verdade. "The contest is the latest in Kasparov's quest to outsmart computers at the ancient game. He defeated IBM supercomputer Deep Blue in 1996, lost famously to an improved Deep Blue in 1997 and in Feb. 2003, tied with Israeli-built world chess computer champion Deep Junior." (João Paulo Reis) NOTA: na história do "humanos marcam um ponto" pretendia ser irónico, e não é para tomar à letra, nem tenho qualquer nostalgia sobre a "ultrapassagem" dos humanos pelas máquinas. Bem pelo contrário. O que penso sobre a matéria encontra-se num artigo já antigo, publicado quando do jogo com o Deep Blue, o qual não tenho comigo agora, mas que, se a discussão continuar viva, republicarei. Aí afirmo claramente que não acho que haja nenhuma limitação de fundo à descrição dos humanos como uma máquina (logo, admitindo a possibilidade de "artificialização"), incluindo pensamentos, afectos e criatividade. E até penso que séries de testes, ao modelo do de Turing, sobre cada uma destas componentes, podem dar resultados surpreendentes, já. É uma discussão (faz falta a Formiga de Langton), que remete para praticamente todo o saber humano, desde a filosofia até à genética, com relevo para a biologia, a teoria da evolução, a robótica, a inteligência artificial, por aí adiante. (url)
OS ATENTADOS DE ISTAMBUL
Conheço bem a rua onde se deu o atentado contra uma sinagoga de Istambul, sob a sombra sempre presente da Torre de Galata, na antiga Pera genovesa. É um bairro de ruas e ruelas de pequeno comércio alimentar, de ofícios antigos e pequenos escritórios comerciais, de ignotas e misteriosas companhias, que têm pouco mais do que o nome. É território que dava para começar um livro de Jonh LeCarré: "um dia um homem bateu às sete da manhã numa porta onde estava a placa escurecida da Eastern Anatolia Carpets and Rugs ...". Infelizmente, o que bateu à porta da antiquíssima colónia judaica de Istambul, e matou muitos bons muçulmanos que passavam na rua, foi uma bomba da Al Qaeda. Muito significativamente, a bomba explodiu, matou quem matou, aumentou as tensões turcas, mas nem o eco dessa explosão se ouviu de Atenas para cá. Uma multidão prepara-se para "receber" Bush em Londres, com aquela apetência para tomar como alvos preferenciais os nossos, sejam eles menos bons , medíocres, iludidos, arrogantes, enganados, perigosos, estúpidos, ineptos, o que quiserem, e esquecer os verdadeiramente maus, os que não vivem senão de um terror absoluto e abstracto. Quantos dos milhares, dezenas de milhares, centenas de milhares, que vão chamar a Bush assassino, sairiam para a rua contra a Al Qaeda? Não é uma pergunta retórica, é uma provocação pela verdade. Um em dez mil? Talvez, já estou benevolente como Deus com os seus mensageiros a Sodoma e Gomorra, para saber se havia mais justos na cidade do que a família de Lot. Não havia. Como estão confundidas as nossas prioridades! (url)
MÁQUINA / HOMEM 2
O problema filosófico, ou mais modestamente antropológico, é simples de colocar e difícil de resolver: existe uma reserva específica de pensamento "humano" que não possa ser emulado por uma máquina? Não basta que a limitação a essa emulação seja apenas a da complexidade, é preciso que haja uma qualidade indissolúvel do humano que não seja possível tornar "artificial". Daqui se deriva para mil e um problemas conexos: o que é o "homem" , é ele também uma máquina? ou, como Descartes o colocava, como pode um "fantasma" (a alma) controlar uma máquina (o corpo), o software o hardware? a partir de que ponto é que se pode considerar que uma máquina "pensa" (a questão do teste de Turing)? não são as máquinas (e o software neste caso) produto humano e portanto as máquinas não são inteiramente máquinas? podem as máquinas ser programadas para ter afectos (a questão do filme Artificial Intelligence)? , etc. Por aí adiante. Rios de tinta filosófica, científica e ficcional tem tentado responder a esta questão, que o "nosso" representante Kasparov, está a ajudar a resolver, diante do representante "deles". * "No meu blog, tenho dedicado uns posts a este evento. Desde há longa data que acompanho estes duelos Homem / Máquina. No xadrez, o domínio da máquina ainda não se verifica, pois estas ainda têm imensas dificuldades em lidar com posições cerradas. Quando não há 'nada para fazer' os diversos programas patinam, fazem lances de espera que normalmente deterioram a posição. É evidente que isto varia em alguns programas. Talvez o Fritz não seja o melhor adversário para defrontar Kasparov. O 'Deep Junior' revelou-se muito mais poderoso e outros, que não arranjam patrocínios comerciais, poderiam dar mais luta, mesmo no campo estratégico. É o caso do 'Schredder 7.0' e muito especialmente do 'Hiarcs 9.0'! " (Valdemar) "Nos próximos tempos, penso que ainda podemos ostentar "orgulhosamente" o triunfo da mente sobre a máquina! :) Apesar da capacidade de previsão simplesmente astronómica que uma máquina daquelas consegue implementar associada a técnicas mais elaboradas de inteligência artificial, ainda não é capaz de superar - pelo menos nem sempre! - a capacidade de "computação biológica" quando bem treinada e alimentada, como é o caso de mestres como Kasparov." (Ricardo Rafael) Recebi também uma carta, (cujo original infelizmente se perdeu), lembrando que os humanos ainda permanecem imbatíveis no jogo oriental do Go , uma simulação , como o xadrez, de uma batalha. (url) 17.11.03
MÁQUINA / HOMEM
A propósito do comentário que fiz na SIC sobre o duelo de xadrez entre Kasparov e um computador, correndo o programa X3D Fritz, recebi várias cartas e mensagens que, em breve, publicarei. Antes de tudo, no último jogo, Kasparov ganhou - ponto para os humanos. (url)
OBJECTOS EM EXTINÇÃO: UM MUNDO DE AVENTURAS
não o da velha revista, mas o dos romances de aventuras, comemorado na Biblioteca Nacional a propósito do aniversário de Alexandre Dumas. O catálogo foi editado com um título que diz tudo: Antes das Playstations: 200 anos do romance de aventuras em Portugal, e é uma excelente bibliografia. Ao folhear os títulos da prodigiosa fábrica de Dumas (que tinha uns nègres a trabalhar para ele), e as capas das suas edições portuguesas, e depois as de Verne e Emilio Salgari, percebe-se que remoto está este mundo. Hoje não se passa além da true adventure, como do true crime, mas isso não é "romance". Não há heróis épicos (percebe-se porquê com a história do "army private" Jessica Lynch), e não há "espírito de aventura" fora do cinema, e mesmo aí está a morrer aos poucos. (url)
ALPES
O avião fez uma longa paralela a toda a extensão dos Alpes. Voava mais baixo do que o costume, com muita turbulência. Um tecto de nuvens prolongava-se por entre as montanhas e todos , todos, os picos, muralhas de rocha, paredes de pedra, monólitos gigantes, estavam cobertos de neve, num contínuo de cor branca. Era branco sobre branco, brilhando ao sol. Nunca vi os Alpes assim, poderosos, calmos e únicos. (url) 16.11.03
CADA VEZ MAIS DIFÍCIL, CADA VEZ MAIS NECESSÁRIO
Nota-se, cada dia que passa, um maior esmorecimento na defesa da intervenção no Iraque. É natural, tudo o que podia correr mal, parece correr mal. Não se vêem os resultados esperados, o descrédito que caiu sobre as administrações americana e inglesa por causa das armas de destruição massiva (e por contágio, sobre todos os que, como eu, lhe atribuíram um papel fundamental na legitimação da intervenção) limita a sua acção, é cada vez maior o cansaço e hostilidade da opinião pública, a sensação crescente de um beco sem saída, a hesitação que se nota com a combinação entre o número de mortos e as manobras eleitorais americanas, tudo parece apontar para um falhanço de consequências devastadoras para este início do século. A única coisa que posso (e podemos) fazer é continuar a discutir e a defender as razões porque é preciso perseverar e não dar sinais de hesitação, ou melhor, não hesitar. Há caminhos políticos, militares e diplomáticos que, com firmeza, podem inverter a situação e corrigir os erros. E chamar a atenção para que, nada havendo de comum no terreno entre o Iraque e o Vietname, as consequências de um fracasso no Iraque serão muito mais pesadas do que as do Vietname. (Lembrando algumas dessas consequências: os boat people, as guerras de Angola e Afeganistão, etc., etc.). Esta nota é breve e inicial; depois continuarei. (url)
EARLY MORNING BLOGS 81
Hoje não há (não houve ) nada para ninguém . Depois de uma noite com vento ciclónico, alguma árvore caiu em cima de uma linha e a luz sumiu-se. Agora vem e desaparece, vem e desaparece. Até breve e bom dia, ao vento que me bate de frente. (url)
© José Pacheco Pereira
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