| ABRUPTO |
semper idem Ano XIII ...M'ESPANTO ÀS VEZES , OUTRAS M'AVERGONHO ... (Sá de Miranda) _________________ correio para jppereira@gmail.com _________________
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31.5.03
GLOBOS DE OURO
Não sei se é a coisa mais natural do mundo que Herman José apresentasse os Globos de Ouro. Natural para a SIC., natural para o Herman, natural para todos os que o aplaudiram, natural para todos os que acham natural porque, que eu saiba, ninguém se estranhou. Eu explico, embora tenha a sensação que esta não é uma questão clear cut, nem que eu tenha a certeza de ter razão. O Herman é sem sombra para dúvidas o melhor no âmbito da sua profissão e um homem que ficará na história do espectáculo português que ele revolucionou como poucos. Haverá antes e depois de Herman . Confrontado com a intimação para ir depor, fez declarações não só sensatas como rigorosas de como se deve proceder naquelas circunstâncias. Fê-lo racionalmente e sem perder a comoção individual, a preocupação, o medo interior, o sentido de perturbação da vida, que aquela grave adversidade lhe traria. As suas declarações deveriam ser matéria de estudo no PS, que na semana anterior perdeu todo o senso de como, sem perder a emoção, as obrigações de amizade e solidariedade, tudo o que for, se devem comportar os cidadãos face à justiça. Mesmo que suspeitem da sua iniquidade. As declarações de Herman podem e devem ser comparadas às do PS porque se fazem no terreno do “espaço público”, com figuras “públicas”. Agora Herman foi constuído arguido num processo-crime. Nós sabemos que continua inocente até prova em contrário, mas se consideramos que o que se está a passar com os processos da Casa Pia é grave (e eu suspeito de há muito que a condição de espectacularidade de tudo isto tem como efeito banalizar a gravidade por muita retórica condenatória que se faça à mistura), não existe uma obrigação de decoro por parte da SIC, em primeiro lugar, e de Herman em seguida, nas suas aparições públicas? Eu não vi os Globos de Ouro porque estava em trânsito, senão veria, mas sei que Herman foi ovacionado de pé por parte da assistência. O que é que foi ovacionado? O artista? Não há inocência naquela ovação: foi o Herman arguido num processo-crime que recebeu as palmas e por aqui se percebe a enorme ambiguidade que vai perseguir os contactos de Herman com o público. Ele sabe disso e compreendo que subjectivamente queira o conforto dessas palmas. Mas a SIC, que tem tido um papel junto com o Expresso na fronda moralista, sai mal. Não porque o moralismo, hipócrita desde o primeiro minuto, fique sempre mal, mas porque desrespeitou os seus telespectadores colocando-os perante um dilema inaceitável. Falei de decoro. Sei que é uma atitude que não se usa muito nos dias de hoje. Mas decoro, reserva, uma certa retracção interior na sua exposição pública por parte de Herman seria mais consequente com o que ele disse antes de depor. A razão porque acho que o que digo não é preto no branco, tem a ver com outros considerandos que não se podem ignorar. Herman é um artista de espectáculo, logo trabalhar para ele é aparecer em público. Sei também que à volta dele existe um vasto conjunto de pessoas cujo emprego depende dele e com quem ele sente naturais obrigações. E, tendo em conta a morosidade dos processos em Portugal, o futuro de todas essas pessoas ficaria em risco. Tudo isso teria que ser ponderado. Mas o caso dos Globos de Ouro é diferente. Trata-se de um espectáculo excepcional, o mais importante da SIC cada ano. A hipótese de substituir Herman foi concerteza ponderada e este, se tivesse pensado bem, teria dito à SIC, desde que foi chamado a depor, que não estava em condições de fazer o espectáculo, mesmo que continuasse com os outros programas. Mas insisto, a atitude da SIC é que é ambígua. É um pouco o equivalente de, no dia em que um Secretário de Estado fosse constituído arguido num processo-crime, fosse nomeado para Ministro. (url)
INTERESSE GERAL
Chamarei neste blog a atenção para algumas coisas que aparecem nos Estudos sobre o Comunismo , que penso terem um interesse geral para além dos especialistas . Podem aí encontrar um "poema" ultra-estalinista escrito por um "jovem" em 1953 quando da morte de Staline e um célebre (nos anos trinta) poema de Jaime Cortesão sobre um pescador anarquista que cortou a língua para não falar na PIDE , uma história verdadeira . (url) 30.5.03
O ESPECTÃCULO DA PEDOFILIA
Durante grande parte da manhã a SIC Notícias está a fazer directos do DIAP onde o “a chegada do humorista a qualquer momento” é esperada . Os comentários são do género , a “grande questão é saber se vem a pé calmamente ou chega de carro a grande velocidade” – o que aliás sugere já comportamentos de culpa ou de inocência - para além da patetice da “grande questão” . Todo o espectáculo à porta do DIAP é construído para gerar expectativa sobre os Globos de Ouro e ajudar às audiências . Depois venham lá falar-nos , em tom moralista , sobre a cruzada justiceira dos media para redimir os crimes cometidos na Casa Pia . Ao mais pequeno pretexto lá fogem as justificações e fica o show . Haverá alguém que ouça o modo como a SIC Noticias (e provavelmente as outras televisões ) está a transmitir a “chegada do humorista” que se lembre que se está a tratar de uma investigação criminal , de um crime que todos dizem , rebolando a boca , “hediondo” ? Entretanto , atraídos pela televisão , um bando de papalvos vai chegando para fazer de coro da tragédia . (url)
OBJECTOS EM EXTINÇÃO 6
Continuam as contribuições para o catálogo dos objectos em extinção . António lembra-se dos teclados das máquinas de escrever , que , aliás . migraram para os computadores : “De facto acabaram as máquinas de escrever, mas, mais grave ainda, desapareceu o teclado lusitano "HCESAROPZ" que, por força das circunstâncias informáticas, foi substituído pelo anglo-saxónico "QWERT". Não sei se isto é uma perda irremediável para a cultura lusíada e ignoro o que se passou no Brasil. Sei apenas que, aqui na França, continuamos a utilizar, sem problemas, o teclado "AZERTY". Ivone Mendes recorda-se de outros objectos , alguns já aqui referidos , mas a lista vale pela sua globalidade , na lembrança sentimental de um mundo a desaparecer debaixo dos nossos olhos : “-televisão a preto e branco -telefonias a válvulas -as válvulas das telefonias e, mais tarde das televisões (fundiam-se e substituíam-se, lembra-se?) -discos de 78 rotações (não sou desse tempo mas é a minha mãe ainda viva!) -grafonolas. -pick-ups (tive um destes gira discos portáteis cor de rosa clarinho que era um sucesso nas festas todas!) -canetas de tinta permanente que se enchiam nos frascos (no exame da quarta classe recebi uma linda, nacarada!) -o exame da quarta classe -as quartas de manteiga -sabão azul e branco a peso -o açúcar a peso tirado de dentro de sacos de estopa -enfim... quase tudo o que era de mercearia podia ser comprado a peso -os marçanos que nos entregavam as compras em casa -o pão à porta dentro do saco de pano que dizia bordado em letra inglesa: Pão -a menina dos olhos (nunca experimentei mas vi quem tivesse experimentado!) [Nota de JPP : penso que será a palmatória ] -lâminas gilette e respectivo aparelho que tinha um parafuso em cima que se desapertava para colocar a lâmina que cumpria a sua função dos dois lados. “ Nelson Alexandre comenta o que escrevi sobre a durabilidade e as suas causas de alguns objectos mais antigos : “À primeira leitura, pareceu-me evidente essa relação dos objectos ("... cadeiras , mesas , camas , pratos , copos , alguns talheres , a colher em particular. ") com a forma física do nosso corpo e com a nossa cultura alimentar. Mas só numa primeira análise. Porque, se deixarmos de lado a nossa cultura ocidental e olharmos a Oriente, todos esses referências culturais mudam e com elas, a forma dos objectos usados e mesmo a maneira como usamos o corpo em relação a eles; não muda, é claro, a forma física do nosso corpo. Pelo que, se calhar não serão tanto "objectos muito dependentes da forma física do nosso corpo , do modo como ele pousa , ou se alimenta" mas ligados a resistências culturais intrinsecas em relação a aquilo que será a nossa alimentação. A grande revolução dos objectos sempre teve como força impulsionadora a tecnologia. Só os avanços técnologicos permitiram que os objectos fossem evoluindo, resolvendo necessidades e, ao mesmo tempo, criando "janelas de possibilidades" para outras necessidades. Obviamente só uma profunda mudança nos nossos hábitos alimentares poderá criar a necessidade para o aparecimento de novos utensilios, por outro lado, a evolução tecnológica poderá trazer a faca de cortar a laser, certamente mais higiénica. E aí, passaremos a discutir uma outra questão pertinente, será um objecto definido pela sua forma, ou pela sua função? “ (url) 29.5.03
.NOTAS SOBRE AS ESCOLAS DO JORNALISMO POLÍTICO 2
A Escola do Expresso 1. O Expresso encontrou-se depois do 25 de Abril na invejável situação de ser o único órgão de comunicação social moderno que vinha de antes da revolução e que passou relativamente incólume o PREC. Tinha por isso a vantagem de poder influir poderosamente no modo como se formava o jornalismo da democracia O seu pequeno envolvimento no PREC favoreceu a ultrapassagem da influência daquela a que chamarei a escola do jornal O Jornal, cujos herdeiros actuais são a Visão e, no plano cultural, o Jornal de Letras. Este grupo de pessoas mais velhas representava o núcleo de jornalistas-literatos que vinha da oposição e que trabalhara na Vida Mundial, no Século, no Diário de Lisboa, onde havia núcleos de jornalistas mais à esquerda, próximos do PCP e do MÊS. 2. A escola do Expresso é dominada por Marcelo Rebelo de Sousa que é o patrono de quase todo o jornalismo político português até à aparição do Independente. Marcelo deixou a sua marca em gerações de jornalistas e ainda hoje a sua "escola" é largamente dominante no comentário , e na formulação do noticiário político. Não existindo precedente para um jornalismo político democrático, porque a censura tornava-o impossível antes do 25 de Abril, Marcelo foi o primeiro a ocupar esse espaço e a criar um cânone para esse tipo de jornalismo. 3. A escola do jornalismo político de Marcelo, – que ele ilustrou na prática durante o tempo que dirigiu o Expresso, que influiu parcialmente no Semanário (onde Cunha Rego na última década da sua vida resistiu de algum modo a favor de um jornalismo mais substantivo), e ganhou uma dimensão audiovisual na TSF e mais tarde na TVI, sempre com suporte escrito na transcrição dos jornais –, consistia num tratamento ficcional da actividade política a partir de um autor-interpretador-classificador que é senhor da realidade e a molda. Os "cenários" e o seu corolário – o "facto político" como invenção ficcional – estão na base deste tipo de jornalismo político. 4. Os agentes políticos são apresentados como centrados na sua ambição e na sua carreira e julgados pela performance que mostram na gestão dessa carreira. Essa gestão é essencialmente entendida como gestão mediática, e gestão dos calendários, numa permanente procura da oportunidade ideal, e dá pouca atenção à substância política e ideológica da acção. Este tipo de julgamento da acção política pelo seu efeito mediático valoriza o papel do classificador-julgador, ele próprio. Daí que Marcelo tenha introduzido em Portugal vários mecanismos classificatórios – o "sobe e desce", as notas, etc. – de grande efeito comunicacional porque muito simples de entender e correspondendo a uma percepção judicativa por parte das audiências ou dos leitores de uma hierarquia da performance política. Esse tipo de obsessão classificativa foi transposta para determinado tipo de consultas de opinião como as que faz o Diário de Notícias . 5. O poder de classificar é um meio eficaz de deter influência política, bastante mais eficaz do que a qualidade das análises que suportam a classificação. As “maldades” que Marcelo é suposto fazer nos seus comentários derivam da impossibilidade de separar, neste tipo de jornalismo, o classificador do classificado, porque ambos se defrontam numa hierarquia ideal, com armas totalmente desiguais. 6. A análise por “cenários” é tão precária e frágil que raras vezes suporta uma verificação retrospectiva. Como este tipo de verificações não existem numa comunicação social com memória de quinze dias, o carácter ficcional, os processos de intenção, os inuendos passam despercebidos, ficando apenas o brilho verbal e imaginativo do discurso, o seu efeito espectacular. Este tipo de “cenarização” é particularmente frágil para defrontar fenómenos de conteúdo carismático – o efeito Cavaco ou Soares – que ultrapassam a dimensão gestionária e de oportunidade mediática das carreiras políticas que está na base da análise de Marcelo. 7. Quase todos os jornalistas de segunda linha que cobrem a actividade política são epígonos desta escola. Ela fornece-lhes um quadro interpretativo simples e um vocabulário judicativo que lhes transmite igualmente uma sensação de poder.Ela também é muito influente nos políticos de segunda linha que não sabem falar de política de outro modo . Não tem é a habilidade do mestre , nem a aparente distanciação do jornalista . (Continua, a seguir vem a escola do Independente ) Etiquetas: jornalismo (url) 28.5.03
O TEMPO
Há um ponto comum em vários "fios da meada" ( há em português alguma designação para "threads" ?) que daqui tem origem e depois são puxados noutros sítios . Os "objectos em extinção" e o "ler duas vezes" tem um ponto em comum - são sobre o tempo . No primeiro caso , o tempo é mais material , hard , de algum modo inevitável como todo o tempo é . No segundo , é o tempo psicológico , a nossa fábrica interior que se revela quando lemos diferente o mesmo livro . OBJECTOS EM EXTINÇÃO 5 Um exercício que fiz para tentar encontrar mais objectos em extinção foi proceder ao contrário : tentar identificar aqueles que me parece impossível que desapareçam . sei lá , em cem ou duzentos anos , senão mais . E olhando à minha volta vários objectos parecem-me tão indispensáveis que é pouco provável que desapareçam : cadeiras , mesas , camas , pratos , copos , alguns talheres , a colher em particular . São objectos muito dependentes da forma física do nosso corpo , do modo como ele pousa , ou se alimenta . O que é interessante é que todos eles são os mais antigos dos objectos - o interior de uma casa de Pompeia não é assim tão diferente nestes objectos do quotidiano de uma casa actual . A resistência destes objectos à extinção parece assim muito mais adquirida do que todos aqueles que são mais recentes . Tudo o que é recente à minha volta ou está a desaparecer ou a ser substituído rapidamente . Se for assim há um núcleo de objectos tão próximos do humano que nos acompanham há milénios . (url) 27.5.03
LER DUAS VEZES
Também neste caso somam-se as contribuições . Registo duas : a do Mwana com o The Catcher in the Rye de Sallinger e , imaginem , o O Sexo dos Anjos do Júlio Machado Vaz. Podia citar mas vale a pena ir ao blog porque são duas histórias simples e interessantes . No Quinto dos Impérios há também uma referência à Ilustre Casa de Ramires , com a vantagem duma citação devastadora para o Eça de Agostinho da Silva . A discussão imensa e certeira que se podia começar a partir dessa citação ! Talvez lá volte . Mas faço desde já a sugestão que imaginemos que Portugal queria Agostinho da Silva que estivesse na Ilustre Casa , onde ele anota que "Não há uma palavra de povo, não há uma palavra de concelhos, não há uma palavra de burgueses, não há uma palavra de economia, não há uma palavra de verdadeira política." e se este Portugal , que se entende a partir desta frase e do significado que estas coisas tinham no tempo em que foram ditas , não é tão artificialmente “construído” como o que critica em Eça . (url)
OBJECTOS EM EXTINÇÃO 4
1. Frederico Hartley recorda-se assim dos objectos em perdição : “Ao ler o post Objectos senti-me invadir por uma estranha melancolia e rapidamente passaram por mim uma miriade de utensilios que (à semelhança do lince ibérico) estão de tal forma em risco de extinção que chegamos a duvidar que eles alguma vez tivessem existido. E isto com a agravante de eu ter apenas 26 anos... mas vamos ao que interessa (aos objectos portanto) Os LPS, os singles de vinil; o meu ZX Spectrum 48 K de memória; as declarações de amor rabiscadas em papelinhos e passadas debaixo da mesa na aula de matemática (substituidas por sms com muitos K à mistura num código que eu acho absolutamente indecifrável); as cartas, os postais e os telefonemas em cabines telefónicas em horários previa e meticulosamente combinados quando as férias grandes nos apartavam da luz dos nossos olhos e nos remetiam para um silêncio e uma distância dificil de contornar; a máquina cor-de-laranja de fazer iogurtes consumidos ao pequeno almoço antes de ir para a praia; as cópias passadas literalmente a papel quimico; e poderia continuar mas já tive a minha dose de nostalgia, acho que vou fazer uma corrida de caricas com o meu primo ou ver os desenhos animados apresentados pelo Vasco Granja, intercalados pelos anuncios da pasta medicinal Couto, o Restaurador Olex, a bic laranja escrita fina ou a bic cristal escrita normal.” 2. A questão dos objectos em extinção , que tanto interesse tem suscitado em muitos dos que para este blog escrevem e nos outros blogs ( um dos últimos foi a Linha dos Nodos ) , não é apenas uma mera lista . O objectivo é perceber se somos capazes de entender essa fluidez do tempo a passar à nossa volta . Não é em primeiro lugar um exercício de nostalgia , embora também possa ser , nem um catálogo da evolução tecnológica . Se olharmos em volta para as coisas que nos são familiares, a pouco a pouco a desaparecer das partes visíveis da casa , da roupa , do corpo , e a imperceptivelmente mudarem para as dispensas ou os sótãos , perdida a sua função útil , percebemos melhor que a força invisível do tempo atravessa tudo à nossa volta . Se pudéssemos fazer um filme da nossa vida , dos seus lugares , da sua ecologia , que em minutos resumisse 100 anos – e a prazo isso será possível com o projecto do MyLifeBits a caminho do Windows (voltarei a falar disso ) - teríamos então algo de parecido com os efeitos especiais de alguns filmes de ficção cientifica . Recordo , por exemplo , uma velha versão cinematográfica da máquina do tempo de H.G.Wells , em que isso acontecia – a partir de uma casa vitoriana para os campos verdes da distopia futura . Aliás a própria máquina também desaparece como os nossos objectos "I seemed to see a ghostly, indistinct figure sitting in a whirling mass of black and brass for a moment—a figure so transparent that the bench behind with its sheets of drawings was absolutely distinct; but this phantasm vanished as I rubbed my eyes. The Time Machine had gone." (url) 26.5.03
HISTÓRIA DA EUROPA
A melhor história da Europa publicada recentemente é a do professor Norman Davies , um especialista da Polónia e da história da Europa Central ( Europe : A History ) . É um livro muito bem escrito , na melhor tradição da história narrativa inglesa , que pode ser lido aos bocados , para trás e para a frente , com grande prazer . O professor Davies usa uma técnica de organização do livro que inclui , no meio do texto , quadros sobre sub temas considerados significativos e que podem ser contados em separado numa ou duas páginas , com um desenvolvimento que desequilibraria o texto geral se nele fossem integrados . Uma espécie de hipertexto. Existem outros dois livros recentes de Davies , The Isles : A History e Microcosm e foi reeditada a sua clássica história da Polónia . Para além da história da Europa eu só li os primeiros capítulos de The Isles , a história das ilhas “britânicas” , mas o mesmo prazer de “ver” a história a fazer-se , neste caso a pré-história , a colonização celta e nórdica , é enorme . Se puderem ler vale mesmo a pena porque é tudo para não especialistas. Só a grossura dos livros os torna dificilmente transportáveis . (url)
CINCO HAIKAIS DE ISSA
Lento caracol Devagar, devagar caminha E o Fuji escala! Com o rouxinol E tu, ausentes, vigia A casa, caracol! Pato, pato selvagem Com que idade fizeste A tua primeira viagem? Quando voltares Não esqueças a minha casa. Borboleta que partes! Desaparece o carvalho, Não tendo com este mundo impuro Nada que ver. Estas traduções que fiz , no remoto ano de 1966, foram incluídas numa selecção de haikais para ilustrar um pequeno ensaio que foi publicado no Diário de Lisboa Juvenil em 17 de Maio do mesmo ano. O ensaio ganhou um primeiro prémio ex-aequo com um “José Mariano” que era o José Mariano Gago. O prémio era dado por uma variante química do “dinamite cerebral” de que falavam os anarquistas, o Fósforo Ferrero. Foi uma honra e na altura deu algum dinheiro. Republico a curiosidade para ilustração do processo de formação da geração da segunda metade dos anos sessenta, que inclui uma atracção um pouco hippie pelas coisas orientais, pelo budismo Zen e pelo que se fazia em S. Francisco. Isto hoje parece tudo banalizado, e está decididamente fora de moda, mas na época era uma actividade ultra-elitista, de meia dúzia de cognoscenti. Outro aspecto ignorado neste processo geracional é que a intensa politização é posterior às atracções estéticas e não o contrário. É a radicalização estética que leva à radicalização política , como acontecera com os surrealistas . Os surrealistas foram trotsquistas , eu e muitos outros maoistas . Sobre as tradução são o que são, não pude sequer confronta-las com outras entretanto saídas em português . Só sei que à data, salvo raríssimas excepções , a maioria das quais brasileiras , o mundo dos haikais era muito pouco conhecido em Portugal . A familiaridade que hoje se tem com a forma não existia . Eu fiz a “tradução” usando várias versões que existiam em francês e espanhol na Biblioteca Municipal do Porto , uma das quais tinha a transliteração do japonês . Eu lia alto o japonês para tentar perceber o ritmo da frase , que depois adaptava ao português . Daí os pontos de exclamação para marcar o fim rápido e contido , típico dos haikai . Sobre Issa há uma página japonesa bilingue que contem uma fotografia da casa onde vivia . (url)
UM POEMA PARA OS NOSSOS DIAS EM QUE "MUDO E SECO É JÁ TUDO"
O sol é grande, caem coa calma as aves, Do tempo em tal sazão que sói ser fria: Esta água, que d'alto cai, acordar-me-ia, Do sono não, mas de cuidados graves. Ó coisas todas vãs, todas mudaves, Qual é o coração que em vós confia? Passando um dia vai, passa outro dia, Incertos todos mais que ao vento as naves! Eu vi já por aqui sombras e flores, Vi águas, e vi fontes, vi verdura; As aves vi cantar todas d'amores. Mudo e seco é já tudo; e de mistura, Também fazendo-me eu fui doutras cores; E tudo o mais renova, isto é sem cura. (Sá de Miranda) (url) 25.5.03
AGENDA
1. Ainda tenho muito correio atrasado e o que se atrasa mais é o que tem que ser respondido com mais vagar . 2. Saudações a Heterodoxias , à Linha dos Nodos e a Intelligo . Neste último está o poema de Tirteu , um dos que foi referido numa discussão passada sobre a "estetização da guerra " antes da intervenção no Iraque . 3. Temas a que regressarei : astrologia e ciência , cinema francês , objectos em extinção, tentando daqui a um mês fazer um primeiro catálogo geral de todas as sugestões (veja-se também a contribuição de O País Relativo ) ; ler duas vezes o mesmo livro (veja-se um testemunho interessante em A Espada Relativa de um livro de que nunca me lembraria o Bonjour Tristesse de Françoise Sagan ) , jornalismo político em Portugal , conversa com a Montanha Mágica sobre a poiesis e o destino do mundo … Em matéria de ambição estamos conversados . 4. Embora eu não misture os dois blogs há uma troca de correspondência sobre os advogados comunistas e da oposição antes do 25 de Abril nos Estudos sobre o Comunismo , que penso ter interesse para além dos especialistas na matéria . (url)
EM MEMÓRIA
Gostava de colocar na página dos Estudos sobre o Comunismo duas pequenas biografias de José Alexandre Magro ("Ramiro da Costa" ) e Manuel Sertório , os dois lembrados amigos da equipa inicial de 1983 da revista com o mesmo nome , que já morreram . Agradecia a todos os que tiverem elementos para essas biografias que mos fornecessem . Devida nota dessas contribuições será feita . (url)
© José Pacheco Pereira
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