ABRUPTO

19.4.08


COISAS DA SÁBADO:A LÓGICA DOS SINDICATOS E A LÓGICA DOS PROFESSORES



As notícias sobre as grandes cedências do Ministério da Educação aos Sindicatos de professores correm o risco de terem sido muito exageradas. Menezes, Portas, alguns comentadores e blogues, vieram logo dizer que o verdadeiro Ministro da Educação era Mário Nogueira da FENPROF e que Maria de Lurdes Rodrigues era a “ex-ministra”. Depois veio Mário Nogueira, cinco segundos depois, ainda o acordo estava fresco, falar da “grande vitória” não fossem as pessoas aperceber-se de alguma coisa bizarra e perceber que a avaliação afinal continuava mais ou menos como estava. A frágil Ministra aparecia a falar mansamente nas mesmas televisões, dizendo que tinha havido um “acordo” e isso era bom, mas que estava salvaguardado o essencial, a “avaliação estava a fazer-se e ia continuar a fazer-se”. Mas o que são estas palavras tímidas e quase sussurradas face à tonitruante declaração de vitória sindical, a seguir confirmada pelo espelho da incoerência da oposição que, sem estudar, nem saber nada do que realmente tinha sido conseguido ou não, sem falar com os professores, veio logo com a conferência de imprensa fácil declarar que houvera “um grande recuo do governo”?

Ora, homem sensato desconfia quando há tanta pressa de correr para a televisão a dizer que se ganhou e ainda por cima em grande. Homem sensato sabe como funcionam o PCP e os Sindicatos, sabe como eles estavam num beco sem saída criado pela sua própria vitória. Depois de contribuírem para a gigantesca manifestação sabiam que não podiam dar continuidade à “luta” com uma greve e tinham que recuar. Homem sensato sabe que, por muito sucesso que tenha tido e teve, a luta dos professores, a seguir à manifestação viria um refluxo, como veio. Sabe o homem sensato e sabem melhor do que ele os sindicalistas profissionais. Homem sensato e com memória já viu muitas vezes como para os comunistas e os seus sindicalistas, o mais importante não são os anéis, são os dedos. Os dedos aqui são manter o adquirido e o adquirido é o reforço dos Sindicatos e do PCP na vida pública nacional, pensando também em 2009, ano de eleições. Nunca, jamais, em tempo algum, organizações mais experientes a dormir que mil líderes da oposição acordados, sabem que não podem correr o risco de ir mais longe e pôr em causa a percepção de vitória, com aventureirismos ou impasses cujo apodrecimento mostraria as fragilidades sindicais. O PCP e os seus Sindicatos sabem, melhor do que ninguém, que precisavam como pão para a boca de um acordo e sabiam que o Ministério também precisava do mesmo. Um precisava de parecer que ganhava e o outro de parecer que cedia.

Foi por isso que, de repente, se chegou a um acordo que, pelos vistos, os “professores”, citados pelos jornais, entendem como uma derrota e não como a “grande vitória”. Percebe-se porquê: os professores que se manifestavam não queriam, na sua esmagadora maioria, nenhuma avaliação de desempenho, e vai continuar a haver avaliação. Eles sabem disso, os sindicatos sabem disso, a Ministra sabe disso, o resto é coreografia.

*

Acabo de ler a sua entrada (post) sobre as dinâmicas políticas que animam os eventos recentes entre Min.Edu. e Sindicatos. Do ponto de vista político, nada acrescento. Porque me parece coerente com o que vou aferindo da conduta sindical. E do Min.Edu. e da Ministra, em particular.

Mas, sendo docente e tendo participado na manifestação de dia 8 de Março (porque já tinha participado nas infindáveis e muito complexas reuniões de Departamento e Grupo para estudar/preparar/implementar um modelo de avaliação... impraticável), espanto-me que conclua que "os professores que se manifestavam não queriam, na sua esmagadora maioria, nenhuma avaliação de desempenho". É falso. Tanto quanto pude discutir com inúmeros colegas - não é todos os dias que se pode contactar com colegas de diferentes escolas e regiões - o que se pretendia fazer, como mostra todo o comportamento da titular da pasta da Educação, era criar dificuldades nas escolas. Promovendo uma percepção social negativa dos professores e do seu trabalho. Assim conseguindo apoio para "acabar com os privilégios desses que não trabalham". Desse modo, domesticava a classe docente, impondo um edifício legal que corrompe a própria natureza do que é suposto fazermos: ensinar. Se analisarmos outras peças desse edifício legislativo, veremos que o que esta equipa ministerial pretende é nocivo e (até) contrário aos desígnios estatísticos que pretendem para o sistema educativo nacional. E é pena que sejam apenas estes desígnios a motivar o que quer que seja para a Escola Pública. O que ficar de toda esta confusão, não será bom. E durará.

Por outro lado, a reacção (de uma parte apreciável, asseguro-lhe) negativa da classe docente ao "entendimento" prova, não que receia a avaliação, mas que os problemas são muito sérios e têm que ser tratados para lá das dinâmicas políticas que animam os seus representantes (Min.Edu. e Sind). Nasceram tarde para estes problemas? Talvez, mas porque têm um dilema complexo na sua representação institucional e social: segundo parece não podem escapar da representação sindical e à sua... agenda. Enquanto coincidiam, a convivência era possível, mas a bolha rebentou e há muita gente que, não se revendo, procura alternativas. Se as encontramos, não sei.


(Luís Vilela.)

*

Este acordo, perdão, entendimento, era uma questão de tempo e de timing político. A partir do momento em que o Ministro Correia de Campos “pediu para sair” e o Primeiro-ministro não sugeriu igual pedido à Ministra da Educação, a que se juntou a inesperada, mesmo pelos sindicatos, manifestação de 8 de Março, o ambiente ficou assustador e, potencialmente incontrolável, quer para o ME, quer para a Frente Sindical. Ficou assim determinada a necessidade de acordo. Aparece então este eufemismo do entendimento, assegurando o ME que tem avaliação de professores enquanto a Frente Sindical assegura que a avaliação pretendida pelo ME não passou e, pensam, não passará. Veremos. Para já é coisa nenhuma, o que também não se estranha.

(José Morgado)

*

Se o propósito da existência de professores é ensinar aos nossos jovens aquilo que se convencionou necessário que eles saibam, por que motivo a avaliação dos professores não incide unicamente nos resultados obtidos pelos respectivos alunos, resultados esses demonstrados em provas nacionais concebidas por agentes independentes?

Previsivelmente, os resultados de diferentes escolas e ambientes de ensino, poderão ter que ser afectados com coeficientes de correcção tendo em conta as médias e os desvios padrão, ferramentas que um profissional das estatísticas sabe aplicar.

Eu conheço métodos de avaliação implementados em grandes empresas, como é o caso da EDP, onde fui avaliado e avaliador, e não os recomendo a ninguém. Não têm outro objectivo senão sancionar escolhas prévias, destinadas à promoções de amigos ou à contenção da massa salarial. Quando se depara com critérios do género “competência comportamental” parece que está tudo dito. Para mais, processos destes nas mãos de socialistas são um manifesto perigo. Os professores que se cuidem.

(Jorge Oliveira)

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EARLY MORNING BLOGS


1279 - silence...
silence

.is
a
looking

bird:the

turn
ing;edge,of
life

(inquiry before snow

(e.e. cummings)

*

Bom dia!

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18.4.08


NUNCA É TARDE PARA APRENDER (4) : TAKFIR كفي)

Um dos temas deste livro é a análise dos erros da intelligence americana em aperceber-se do risco de um atentado em território americano, principalmente pela compartimentação da informação entre a CIA e o FBI. Com base nos dados que Wright utiliza é mais a CIA que aparece como responsável da sonegação de informação vital, que o FBI. Este poderia ligar os dados que a CIA tinha da presença de um grupo da Al Qaeda em território americano com outras investigações em curso, e, eventualmente, desmantelar a conspiração do 11 de Setembro, se eles lhes fossem fornecidos. Embora nunca se saiba até que ponto as coisas aconteceriam de diferente se, os inquéritos realizados levaram a uma maior coordenação de todas as agências de informação em matérias do terrorismo. O livro de Wright dispersa-se um pouco nesta parte ao cair na tentação de personalizar a história no agente do FBI John O'Neill, que morreu no atentado, numa tradição jornalística de "contar as histórias" com base em protagonistas, que aqui não resulta. Mas, com esta excepção, trata-se da melhor introdução jornalística ao fundamentalismo muçulmano da Al Qaeda.
Veja-se a crítica de Eduardo Pitta ao livro.

E a confirmação por vários leitores da edição portuguesa cuja capa coloco aqui.

*

Tem graça que acabei de ler o livro há dias - na edição americana, capa menos feliz do que essa da Penguin...)
Fiquei com a impressão que o papel de bin Laden (aqui e ali determinante, é verdade) foi, na maior parte do tempo, mais instrumental (talvez mesmo quase "instrumentalizado") do que outra coisa. Não lhe parece que Zawahiri tenha tido (desigualmente, é verdade) um papel mais decisivo, "estratégico"?

(Carlos Botelho)


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EXTERIORES: CORES DO DIA DE HOJE

Clicando na fotografia fica na boa dimensão. Para se ver



Passagem do tempo por um banco do jardim de S. Amaro. (RM)

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HUBBUB


19.

Há condições para haver uma mudança no PSD com uma candidatura séria e credível reconhecível por todos, dentro e fora do partido. Há mesmo. Mas a seriedade de uma candidatura deste tipo exige um debate igualmente sério, uma equipa, um programa e só é possível fazê-lo com pelo menos o mesmo tempo que teve Menezes para concorrer com Marques Mendes. Senão tudo isto é para enganar e Menezes quer apenas uma farsa.
ADENDA: Ribau explica os prazos: "É preciso um equilíbrio (...) para não gastarmos tempo de mais, porque o partido está numa situação em que tem de arrumar [a situação] bem e o mais depressa possível. Não podemos deixar que se arraste o tempo. Em Junho queremos estar todos a apoiar solidariamente a selecção nacional de futebol", no Campeonato da Europa. (Lusa)

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HUBBUB


18.

Convém a Menezes dizer que foram os críticos que o derrubaram. Mas não fui eu que me calei sobre tudo o que envolvesse nepotismo, corrupção, práticas eticamente indevidas dos actores políticos, clientelismo, quer no PS, quer no PSD, preferindo falar de inuendos sobre a vida privada e sobre "eventuais relacionamentos pessoais" de pessoas "próximas" do Primeiro-ministro.

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HUBBUB


17.

(Sem ser por ordem de importância)

Questões políticas programáticas que as candidaturas devem esclarecer: papel do estado na economia e na sociedade face a casos concretos. Por exemplo, privatização ou não da CGD, ou da RTP, papel estrutural dos impostos para além do deficit, modelo "social", etc.

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HUBBUB


16.

(Sem ser por ordem de importância)

Questões políticas tácticas que as candidaturas devem esclarecer: política de alianças pré e pós-eleitorais numa estratégia para ganhar ao PS. O PSD deve ter uma posição clara sobre o seu entendimento (ou não) com o CDS - PP, partido com que partilhou a governação e com quem tem alianças autárquicas. É preciso clareza nesta questão e não boutades sobre táxis e veículos afins.

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HUBBUB


15.

Convém a Menezes dizer que foram os críticos que o derrubaram. Mas não fui eu que disse isto:
"Não disse nada diferente do que venho a dizer há largos meses: quando houvesse eleições para escolher o líder do meu partido, se as condições do País e as condições do PSD fossem as de agora, eu seria candidato. É verdade que esta afirmação, apesar de repetida muitas vezes, teve uma ênfase mais evidente por existir uma situação de alguma descrença em toda a oposição. O que pode ser um sinal de esperança, de vitalização, acaba por ter um enfoque muito maior. Mas também o fiz por pensar que devemos desdramatizar a ideia de que é negativo haver alternativas permanentes à liderança dentro dos grandes partidos. Essa é a realidade normal europeia. Só em Portugal esta questão costuma ser dramatizada: são tiques da ditadura que se perpetuam até hoje.

(...) Mas isso, repito, não é dramático: os líderes dos partidos democráticos têm de começar a viver com isto. Quando uma liderança é suficientemente forte cria à sua volta condições de vazio que não permitem que vozes dissonantes se afirmem. Portanto, quando as vozes dissonantes têm alguma audição é um sinal de que as lideranças não estão a afirmar-se."

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HUBBUB


14.

Convém a Menezes dizer que foram os críticos que o derrubaram. Mas não sou eu que digo em cada sítio aquilo que agrada ao dono do sítio: na SIC, para agradar a Balsemão, que queria acabar com a publicidade da RTP sem saber quanto custava, nem para que modelo de televisão pública.

Convém a Menezes dizer que foram os críticos que o derrubaram. Mas não sou eu que digo em cada sítio aquilo que agrada ao dono do sítio: na Madeira, para agradar a Jardim, defendendo uma "autonomia sem limites".

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HUBBUB


13.



Hoje.

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HUBBUB


12.

Repito: a lógica de Menezes é espatifar para ficar agarrado ao caco maior, a que vai chamar PSD.

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O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: FINANCIAMENTOS

A propósito dos seus textos ‘nunca é demais para aprender‘, está em curso uma curiosa polémica, que se levantou esta semana no Reino Unido, visível nas páginas jornais Guardian e Telegraph, sobre o financiamento dos centros de estudos islâmicos nas universidades. Lá como cá, às universidades competem para obter fundos privados para o seu financiamento, de forma a se tornarem auto-sustentáveis, ou até mesmo rentáveis. Neste contexto, várias universidades britânicas - incluindo as prestigiadas Oxford e Cambridge Oxford e Cambridge -, parecem ter descoberto uma nova forma de financiamento: os donativos de membros família real saudita e de outras organizações de países árabes e islâmicos. Assim, oito universidades britânicas (Oxford, Cambridge, University College of London, London School of Economics, Exeter, Dundee e City) teriam recebido mais de 233, 5 milhões de libras, nos últimos doze anos, tendo a maioria desse dinheiro sido destinado a centros de estudos islâmicos. Todavia, estes actos de filantropia, aparentemente desinteressados e a promover a melhoria do conhecimento, parecem estar a condicionar a investigação académica e científica na área. É pelo menos isto que denuncia um trabalho de investigação feito pelo professor Anthony Glees. Segundo este, o governo britânico prossegue ‘as políticas de educação erradas, feitas pelas pessoas erradas, e com os financiamentos errados‘. Este aponta até o exemplo da prestigiada Universidade de Oxford onde, nos últimos cinco anos, 70% das palestras efectuadas no St Antony´s College teriam sido ‘implacavelmente hostis ao Ocidente e a Israel‘ (algo que a universidade nega). Ironicamente, desta forma, estará não só a ser pervertido o ideal de investigação académica e científica, como estarão a ser abertas as portas à difusão da ideologia islamista e de versões retrógradas do Islão, dentro de algumas das instituições de ensino mais conceituadas. Face a esta situação, Anthony Glees sustenta que o governo britânico deverá adoptar rapidamente as seguintes medidas: interdição das universidades aceitarem dinheiro saudita e de outras organizações para o financiamento; divulgação de todos os donativos recebidos pelas universidades; e inquérito público sempre que os donativos tenham origem estrangeira. Este caso sugere uma lição interessante, de como os donativos e a filantropia podem trazer consigo ‘danos colaterais‘ para as instituições educativas e não só.

(José Pedro Teixeira Fernandes)

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HUBBUB


10.

Convém a Menezes dizer que foram os críticos que o derrubaram. Mas não fui eu que violei todos os pactos assinados pelo PSD e inclusive votei contra legislação proposta pelo partido, apenas para agradar a grupos de interesse.

11.

Convém a Menezes dizer que foram os críticos que o derrubaram. Mas não fui eu que mudei os regulamentos eleitorais para impedir que haja cadernos eleitorais nas eleições dentro do partido, que se possam pagar quotas em dinheiro e sem controlo e outras medidas que tornam o PSD o partido mais aberto a práticas de clientelismo, patrocinato e caciquismo.

(Continua.)

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HUBBUB


9.

Só há duas lógicas de candidatura possíveis para se oporem a Menezes (que está a fazer mais uma rábula para regressar com um projecto inquisitorial): uma, de "unidade do partido", uma personalidade que pela sua autoridade nacional, prestígio interno e externo, possa travar o caminho para o espatifar do partido (que é a lógica de Menezes, espatifar para ficar agarrado ao caco maior), e ser credível face a ao PS e a Sócrates; outra, de ruptura, que esteja disposta a correr todos os riscos, inclusive o de perder, para dar uma volta na situação interna do PSD e restituir-lhe o papel reformista que já teve na vida pública portuguesa.

Ambas tem vantagens e inconvenientes. Ambas são boas para o partido e para a oposição ao PS. Ambas colocarão o PSD em condições de ganhar as eleições de 2009, coisa absolutamente impossível com Menezes. Ambas devem merecer a dedicação total de todos os militantes que estão preocupados com a situação no PSD. Não há óptimos nos dias que correm, há possíveis com muita força e ainda bem.

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HUBBUB


1.

"Sou médico, que jurou lutar pela vida. Eu nunca matei ninguém pelas costas". Frase de Luís Filipe Menezes que só se pode aplicar a Ângelo Correia.

2.

Em seis meses de liderança só houve uma constância no meio da errância: a obsessão pelos "críticos", total, absoluta, patológica e ... instrumental para a vitimização e para esconder os erros políticos e a queda nas sondagens. Não há aliás nenhuma outra política consistente que não seja esta, é a única que explica tudo e vai explicar tudo.

(Há outra, mas fica para depois, os cem lugares de deputados que entre a Assembleia e o Parlamento Europeu, a direcção pode distribuir.)

3.

O prazo para as directas é um golpe puro, destina-se a que não haja discussão nenhuma, e que não haja possibilidade de organização alternativa capaz, frente à máquina que já está montada pelos especialistas. Menezes teve mais de dois meses contra Marques Mendes. Nas actuais condições de emergência pode ter que se aceitar o prazo, e ir a eleições com ele, mas ele deve ser combatido em nome da lisura e seriedade do acto eleitoral, e não deve passar em claro o truque.

4.

O argumento de que o "partido não pode passar dois meses virado para dentro" não colhe. Podem tentar usá-lo agora para impedir a discussão, mas arriscam-se a cortar agora para o ter depois. O que melhor faria ao PSD seria uma boa e frontal discussão interna, com candidatos que se confrontem sobre o programa para o país e sobre a sua visão da situação interna do PSD, incluindo o balanço do que aconteceu nos tempos mais recentes, e nunca foi verdadeiramente discutido: o acordo com o PP e o governo de coligação, a fuga de Barroso, o governo de Santana Lopes, o desastre de 2005, as direcções de Marques Mendes e Menezes. Só assim vale a pena e só assim o país pode prestar atenção ao PSD e reconstituir a sua credibilidade.

5.

Convém a Menezes dizer que foram os críticos que o derrubaram. Mas não fui eu que, como primeiro acto de liderança, pedi acordos ao PS em todas as áreas governativas fundamentais.

6.

Convém a Menezes dizer que foram os críticos que o derrubaram. Mas não fui eu que deixei cair o compromisso eleitoral do PSD do referendo do Tratado europeu.

7.

Convém a Menezes dizer que foram os críticos que o derrubaram. Mas não fui eu que permiti uma liderança bicéfala.

8.

Convém a Menezes dizer que foram os críticos que o derrubaram. Mas não fui eu que falei num "partido-empresa", em andar de carro escuro de luxo em comitiva, na classe executiva dos aviões, etc., etc.

(Continua.)

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EARLY MORNING BLOGS


1278 - James Joyce

En un día del hombre están los días
del tiempo, desde aquel inconcebible
día inicial del tiempo, en que un terrible
Dios prefijó los días y agonías
hasta aquel otro en que el ubicuo río
del tiempo terrenal torne a su fuente,
que es lo Eterno, y se apague en el presente,
el futuro, el ayer, lo que ahora es mío.
entre el alba y la noche está la historia
universal. Desde la noche veo
a mis pies los caminos del hebreo,
Cartago aniquilada, Infierno y Gloria.
Dame, Señor, coraje y alegría
para escalar la cumbre de este día.

(Jorge Luis Borges)

*

Bom dia!

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16.4.08


NUNCA É TARDE PARA APRENDER (3) : TAKFIR كفي)

A personagem principal deste livro, menos aliás do que se poderia supor, é Bin Laden. O milionário saudita que, à data em que se iniciam as actividades terroristas da Al Qaeda, já não o é, aparece como uma personagem cinzenta, uma daquelas personagens na história que é decisiva em muitos momentos, mas que parece a maioria das vezes ser um pano de fundo para uma sucessão de eventos de que é mais testemunha do que autor. Em bom rigor, o livro de Wright atribui-lhe dois papéis chave, em momentos e circunstâncias diferentes, no "caminho" para o 11 de Setembro: um, o seu papel como financiador por conta própria ou alheia (dos americanos e dos sauditas) da guerrilha afegã contra a invasão soviética, e na viragem da Al Qaeda para os alvos americanos, num processo de globalização do terrorismo, das Filipinas a Nova Iorque, sem precedente. Quando assume o segundo papel, já está longe do primeiro, porque Bin Laden fica numa situação de quase penúria quando tem de sair do Sudão para o Afeganistão e a família real saudita lhe tira a mesada da firma familiar e a nacionalidade saudita. Nesse momento, a Al Qaeda, que é ainda uma organização de acolhimento e suporte para os fundamentalistas combatentes de todo o lado do mundo, e que funcionava mais como organização "social" do que como organização terrorista, evolui para o que é hoje.

Contrariamente ao que se repete por todo o lado, o papel dos americanos em "fazer" Bin Laden é muito pequeno. A maioria dos guerrilheiros que combateram no Afeganistão pouco tinham a ver com Bin Laden e os seus "árabes afegãos", cuja capacidade militar desprezavam, e que eram muito mais activos em discussões religiosas em Peshawar no Paquistão, do que a lutar na frente de batalha. E o perfil de Bin Laden é um puro produto do Islão saudita, preso numa religiosidade medieval, e ao mesmo tempo capaz de uma total modernidade na utilização das novas tecnologias. Lawrence da Arábia conheceu gente desta, gente do deserto, religiosa, contemplativa, "poética" num certo sentido, hábil na falcoaria, ladrões de estrada, cruéis chefes de tribos, corajosos, e fáceis de introduzir aos explosivos, detonadores, sabotagem e afins.

Bin Laden é daquelas personagens com intensa fé religiosa que "melhora" na adversidade mais extrema. Rigoroso, cumpridor sem falha do estrito programa de vida que se impôs, vivendo uma vida ascética, a que apenas a paixão árabe pelos cavalos dá alguma cor, juntou à sua volta gente muito diferente mas que controla mais pelo exemplo do que pelo poder. E este é o perfil típico de um homem muito, muito perigoso.

(Continua.)

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EARLY MORNING BLOGS


1277 - Absent Place -- an April Day

Absent Place -- an April Day --
Daffodils a-blow
Homesick curiosity
To the Souls that snow --

Drift may block within it
Deeper than without --
Daffodil delight but
Him it duplicate --

( Emily Dickinson)

*

Bom dia!

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15.4.08


NUNCA É TARDE PARA APRENDER (2) : TAKFIR كفي)

Wright abre o livro com Sayyd Qutb nos Estados Unidos, entre Nova Iorque, Washington e uma pequena cidade do Colorado, no final dos anos quarenta. Um intelectual egípcio, já com mais de quarenta anos, tímido e solitário, desenvolve uma relação de repulsa pelo mundo americano quase visceral. Nos textos sobre a sua experiência nos EUA há todo o caldo de cultura de uma recusa moral do mundo americano, uma análise devastadora de terra sem fé (Wright nota como essa percepção é a oposta à que os europeus tem dos EUA, terra do Bible Belt, onde as notas de dólar tem inscrito In God We Trust), presa a valores materiais, corrupta, injusta, fascinado pelo dinheiro, pelo sucesso e pelo pecado. Este retrato de Qutb da América é muito próximo da demonologia comunista anti-americana, mas também de muitos intelectuais europeus, como Aldous Huxley, por exemplo, que achava que os americanos queriam construir uma sociedade conformista e normalizada, onde Our Lord seria substituído por Our Ford. Qutb acrescenta a esta reacção uma profunda misoginia, uma mistura de ódio e de pavor face às mulheres, que aparecem sempre como sedutoras e fonte do pecado, numa atitude não muito distinta da descrição das mulheres como "vasos de corrupção" em certos autores cristãos.

Para manter íntegro o seu mundo, Qutb lê exaustivamente o Corão lançando as bases de uma obra que nos anos cinquenta em diante vai inspirar gerações de jovens muçulmanos e que vai ser levada para dentro da Al Qaeda pelo grupo egípcio de Zawahiri, talvez mais importante do que o próprio Bin Laden na definição de um quadro político-religioso na organização. Na sua obra mais conhecida Marcos na Estrada (Ma'alim fi al-Tariq, معالم في الطريق) e nos seus comentários ao Corão, Na Sombra do Corão (Fi Zilal al-Qur'an في ظِلالِ القرآن), Qutb lançou as bases do fundamentalismo islâmico, em particular a ideia da necessidade do retorno a uma "comunidade muçulmana que de há muito desapareceu":
"um grupo de pessoas cujos costumes, ideias e conceitos, regras e leis, valores e critérios, derivam todos de uma fonte islâmica. Uma comunidade com estas características desapareceu no momento em que as leis de Deus foram suspensas na terra."
A restauração desta "comunidade" tornou-se o programa dos militantes muçulmanos radicais que, no Egipto, na Arábia Saudita, no Yemen, no Sudão, na Argélia, no Paquistão e no Afeganistão se foram agregando à volta de um saudita milionário Bin Laden, que tivera um papel fundamental na canalização dos fundos sauditas e americanos para apoiar a guerra contra os invasores soviéticos no Afeganistão. Tudo isto aconteceu depois de Qutb ter sido um "mártir" ele próprio, procurando o martírio na recusa absoluta de qualquer gesto que o poupasse a ser condenado à morte e enforcado no Egipto em 1966.

(Continua)

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NUNCA É TARDE PARA APRENDER: TAKFIR كفي)

Lawrence Wright, The Looming Tower : Al Qaeda's Road to 9/11, Penguin Books, 2007

Este excelente livro (de que penso existe uma recente tradução portuguesa que desconheço) é o exemplo, mais um, da qualidade do jornalismo de investigação americano, que está longe de ser apenas jornalismo, mas uma fusão do trabalho na imprensa com instituições, universidades, centros de investigação, de que resultam livros como este. The Looming Tower é uma narrativa factual, daí a parte jornalística no sentido nobre, da criação e desenvolvimento da Al Qaeda, uma biografia de Bin Laden e dos outros membros proeminentes da organização, e um retrato do contexto cultural, político e religioso que criou e alimenta o terrorismo fundamentalista islâmico.

Para quem está habituado a ler escritos preguiçosos sobre o fundamentalismo islâmico, é um prazer ir com este livro mais longe. A preguiça intelectual irmana hoje os que condenam todo o Islão, todo o mundo muçulmano por ideias e práticas de uma "vanguarda", no perfeito sentido leninista, fundamentalista e radical; como aqueles que usam a Al Qaeda para demonizar a política americana, que seria, em última instância, a responsável, quando não a "criadora" de Bin Laden e da organização terrorista. A repetição ad nauseam destas asneiras pode ser politicamente instrumental, mas nem por isso deixam de ser asneiras.

O livro de Wright mostra como as ideias da Al Qaeda se formaram na conjugação de uma série de "fundamentalismos", em particular a obra e a acção de Sayyd Qutb, transportada para o meio saudita pelo grupo egípcio de Zawahiri, na experiência afegã de luta contra os soviéticos e depois no contexto da disseminação de várias concepções, entre o político e o teológico, pelas redes de mesquitas e madrassas de Londres a Kuala Lumpur, como o "takfirismo", a generalização da prática de proclamar alguém "cafre" (kafir, افر ), ou seja, fora do Islão, apóstata, infiel, logo passível de ser morto. O "takfirismo", importado do Egipto e da Argélia, deu às discussões da Al Qaeda o argumento teológico que lhe permitia matar indiscriminadamente homens, mulheres e crianças, inclusive muçulmanos.

(Continua)

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EARLY MORNING BLOGS


1276

susuhaki wa
ono ga tana tsuru
daiku kana

housecleaning day--
hanging a shelf at his own home
a carpenter

(Bashô, traduzido para inglês por Haruo Shirane)

*

Bom dia!

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13.4.08


EXTERIORES: CORES DO DIA DE HOJE

Clicando na fotografia fica na boa dimensão. Para se ver



Pôr do sol sobre a ilha do Mussulo. (Joaquim Figueiredo)



Meteorologia de Abril. (António Cabral)



Mar. (RM)



Funchal, mar e vento. (C. Oliveira)



Meridiano de Greenwich, hoje, numa auto-estrada entre Barcelona e Zaragoça. (Fernando Correia de Oliveira)



Escadarias da Escola Politécnica, em Lisboa. Cartões usados por sem-abrigo?



Às portas da Procuradoria, mais uma vez. (Medina Ribeiro)



Passagem do tempo por um banco do jardim de S. Amaro. (RM)

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O TELEMÓVEL



Um telemóvel esteve no centro do momento público mais dramático da educação portuguesa nos últimos tempos. Uma semana antes do telemóvel, foi uma manifestação de professores. Uma semana depois da manifestação, uma senhora magra e baixa de gabardina branca, pequena e frágil, a lutar contra uma adolescente gigante, feita de cereais matinais e vestida de escuro. Na mão das duas, agarrado pelas duas, está um objecto que não existia há dez anos, um telemóvel pequeno que cabe num bolso dumas calças de ganga. No episódio a que me refiro, e que passou na televisão centenas e centenas de vezes, não há um, mas dois telemóveis, um que está no centro da luta, outro que filma. À volta do telemóvel que filma está uma turma do ensino secundário, está uma escola da cidade do Porto, está Portugal, está a Europa, está o mundo inteiro. Está o YouTube.

O pequeno objecto é o mais ubíquo de todos os objectos que existem hoje em Portugal, mais visível do que outro objecto tão omnipresente como o telemóvel e tão subversivo socialmente como o telemóvel: o relógio de pulso. Telemóvel e relógio são instrumentos de poderosas transformações sociais que eles revelam tanto como potenciam. Não são eles por si só que produzem essas transformações, porque nenhuma tecnologia por muito nova e revolucionária exerce efeitos sociais sem a "sociedade" estar preparada para a usar, sem que corresponda ao tempo e ao modo, à forma, às correntes de mudança da sociedade que já estão em curso e "descobrem" o objecto acelerando o seu curso com ele.



É o caso do relógio que saiu do laboratório das excentricidades, um pouco como precursor de um Meccano ou um Lego moderno, ou de um jogo de habilidade mecânica, ou de um objecto de luxo tão curioso como inútil, para se transformar numa necessidade tão vital que biliões de homens o trazem no pulso. Se exceptuarmos o uso dos relógios nos navios para calcular a longitude, os relógios não serviam para nada quando a esmagadora maioria das pessoas trabalhava de sol a sol, ou ao ciclo das estações, e estas dependiam de um calendário que estava escrito nos astros. Calendários eram precisos, relógios não eram precisos, até ao momento em que a Revolução Industrial apareceu e mudou quase tudo por onde passou. Milhões de pessoas vieram dos campos para as cidades, para as fábricas e para as minas, e precisavam de horas. O relógio subiu primeiro para as torres ou para o centro da fachada neoclássica das fábricas e lá continuou, passando depois para dentro, e depois para o bolso dos ricos e por fim para o pulso de todos. Hoje o relógio ordena o nosso tempo com um rigor muito para além do biológico e manda no nosso corpo, como nenhum objecto do passado. É tão presente que parece invisível, nem damos por ela que está lá, é parte do nosso corpo, mais do que objecto estranho. Um figurante do Ben Hur esqueceu-se dele, e nos filmes há quem vá para a cama sem ser para dormir, só vestido no pulso.



O telemóvel é o objecto que mais mudou os nossos hábitos sociais desde que existe. Não é o computador, nem a Internet, nem o cabo, é o telemóvel. E continua a mudar sem darmos muito por isso, porque a mudança se faz de forma desigual, quer no que muda, quer em quem muda. Dito de outra maneira, muda certas coisas nos jovens e muda outras nos adultos e os seus efeitos estão longe de ter terminado ou sequer de se saber até que ponto de transformação vão. Uma coisa é certa, o telemóvel, ou seja um instrumento de contacto instantâneo e portátil entre mim e todos e todos e mim, que usa predominantemente a voz e, daqui a poucos anos, usará a voz e a imagem, emigrará para ainda mais perto de mim, para a minha roupa, para os meus ouvidos, como já emigrou para as paredes do meu carro. O que ele transporta não é uma ficção, não é um avatar ou um nick mais ou menos anónimo, não é a minha prefiguração virtual como no Second Life ou nas caixas de comentários ou nos blogues anónimos, é a minha voz, a minha imagem, ou seja, eu. Não seria tão poderoso se fosse um instrumento do meu teatro virtual. Bem pelo contrário, é uma encarnação da minha persona, é o meu lugar na sociabilidade dos outros.



Por isso, luta-se por um telemóvel, porque num telemóvel de um adolescente está muito do seu mundo: telefones dos amigos, telefone dos namorados, passwords, fotografias, mensagens, vídeos, o equivalente a um diário pessoal, em muitos casos mais íntimo que um diário à antiga, com a sua chavinha de brincar que dava a ilusão de que ninguém o lia. À medida que se caminha pela idade acima o conteúdo do telemóvel muda, mas continua pessoal e intransmissível, com os SMS comprometedores que arruínam muitos casamentos, até se tornar quase um telefone de emergência que os filhos dão aos pais com os números deles já gravados e os das emergências: "é só carregar aqui e eu atendo, se houver qualquer problema, assim não se sente sozinho." Sente.

Mas as mudanças não se ficam por aqui. Já escrevi sobre algumas, como a presentificação obrigatória, a obrigação socialmente exigida de se estar sempre presente, porque o corpo e o telemóvel vão juntos. Deixou de se poder estar longe de um telefone, já para não dizer que se deixou de poder não ter telemóvel. A recusa de dar um número de telemóvel é tida como uma má educação ou uma insensata e insociável vontade de não estar disponível. Com o telemóvel está-se sempre disponível, ficam sempre os recados, queira-se ou não recebê-los, e o novo código do telemóvel exige que haja sempre resposta. Por que razão tenho eu que receber recados que não solicitei, e dar respostas que posso não ter tempo ou disponibilidade ou vontade para dar? Não posso, porque a máquina não aceita um não por resposta, ela vive do tráfego, e deseja mais tráfego. Por isso oferece-me voice-mail, e-mail no telemóvel, mensagens, sem eu o pedir.

Nos mais jovens o telemóvel é apenas mais um instrumento para a completa insensibilidade à perda de privacidade e intimidade. Crescendo num mundo que não preza e não educa para esses valores, um mundo que incentiva a exposição pública, o telemóvel fornece um meio de registo, incorporando a máquina fotográfica e o vídeo, no qual qualquer fronteira entre o que é público e privado se esbate. Qualquer um é um paparazzi de si próprio e dos outros e o rapaz que filmou o vídeo em glória do 9.º C da escola Carolina Michaëlis estava a pensar nessa dimensão lúdica e social do YouTube onde a vã glória de maltratar uma professora ou de uma fight na turma iriam dar fama na rede de chats e no Hi5 onde milhares de raparigas, adolescentes ou já nem tanto, se mostram em poses provocadoras, já para não falar no resto. Não sei se quando crescerem se vão arrepender, mas então já será tarde, porque uma vez na rede sempre na rede.

Por último há o controlo, o magnífico instrumento de controlo que é o telemóvel, pessoa a pessoa, numa rede que prende os indivíduos numa impossível fuga àquilo que é o objecto sempre presente, sempre ligado (os telemóveis desligados são de desconfiar), no qual a primeira pergunta é sempre "onde tu estás?", uma pergunta sem sentido no telefone fixo, esse anacronismo. Adolescentes jovens ou tardios, casais, maridos, mulheres, amantes, namorados, patrões e empregados, jogam todos os dias esse jogo do controlo muito mais importante do que a necessidade de falar ao telemóvel. Na verdade a esmagadora maioria das chamadas de telemóvel não tem qualquer objecto ou necessidade de ser feita, ninguém as faria num mundo de telefones fixos, que não seja pelo controlo, pela presentificação do indivíduo no seu jogo de inseguranças, solidões, afectos, e medos, através da caixa electrónica que se segura numa mão.

Não é a necessidade que justifica a presença quase universal dos telemóveis desde as crianças de seis anos até aos velhos, os milhões de chamadas a qualquer hora do dia, em qualquer sítio, da missa à sala de aulas, do carro à cama, é o complexo jogo de interacções sociais que ele permite, sem as quais já não sabemos viver. Viver num mundo muito diferente e cada vez mais diferente.

(No Público, 12 de Abril de 2008)

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No seu texto «O telemóvel» refere-se ao relógio como uma «necessidade tão vital que biliões de homens o trazem no pulso». Será um tanto difícil, pois só há cerca de seis mil e seiscentos milhões de seres humanos. Está aqui a cometer o erro clássico de traduzir o termo inglês «billion» por «bilião», o que não está correcto; «billion» significa «mil milhões». Recomendo a leitura do texto «Em torno do bilião» que está no nº 18 de «A folha - Boletim da língua portuguesa nas instituições europeias».

(José Carlos Santos)
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Não subscrevo a observação do leitor José Carlos Santos. Não me parece que se trate de um erro clássico de tradução do termo billion.

Por um lado, sem ter qualquer procuração de JPP, o contexto em que é produzida a expressão “biliões de homens o trazem no pulso” não tem pretensões de rigor científico que justifique o preciosismo de saber se bilião quer dizer milhar de milhões (um 1 seguido de nove zeros, de acordo com a norma americana) ou milhão de milhões (um 1 seguido de doze zeros, de acordo com a norma europeia).

Por outro lado, não é ilegítimo que um europeu recorra à norma americana se o contexto não deixar dúvidas. É o caso. Uma vez que o número de seres humanos que existem sobre o planeta é de cerca de 6 000 000 000 (um 6 seguido de nove zeros, não chegando portanto aos doze zeros), se disser 6 biliões sei que, neste contexto, bilião não pode estar de acordo com a norma europeia mas sim com a norma americana.

(Jorge Oliveira)

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Quanto às opiniões do seu leitor Jorge Oliveira, quero começar por observar que, ao contrário do que ele parece julgar, não existe uma «norma europeia» e uma «norma americana». O que existe é a «escala longa», que é usada na maioria dos países da União Europeia (entre as excepções contam-se o Reino Unido e a Grécia) e a «escala curta», que é usada nos países de língua inglesa e no Brasil (o resto da América Latina usa a «escala longa»).

Não ponho em causa que, neste caso, seja fácil de ver o que significa «biliões» quando se fala de «biliões de homens». Mas em muitos casos não é. É o caso, por exemplo, se estivermos a falar da dívida externa de um país. Além disso, se eu escrever que «dvemos corrijir erros cem ezitar» é claro para qualquer leitor que isto significa que «devemos corrigir erros sem hesitar»... mas perturba um tanto a leitura, não é verdade?

O hábito de não ligar a estes «preciosismos» pode ter consequências funestas. Foi o caso, há uns 20 ou 30 anos, de um casal francês que teve de pagar ao seu jardineiro 7500 francos. Só que, como estavam habituados a pensar em termos de «francos antigos» (o franco francês passou a valer em 1958 um centésimo do que valia antes) pagaram-lhe 750000 francos. Quando tentaram reaver o dinheiro, o jardineiro argumento perante o juiz que já não o tinha, pois gastara a maior parte em casinos. O juiz não o condenou.

(José Carlos Santos)

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Eu não queria entrar em polémica com o leitor José Carlos Santos, mas a verdade é que voltamos ao campo do preciosismo. Eu não "julgo" que exista uma norma europeia e uma norma americana. Para todos os efeitos, existem. Embora nenhuma delas esteja cunhada, no cabeçalho, com a designação de origem, e não sejam exclusivas dos EUA e da Europa, é assim que são conhecidas e referidas em toda a parte. Escala curta e escala longa não são mais do que os sistemas de nomenclatura de números grandes adoptados em cada um dos casos.

A norma "americana" recorre à escala curta. É muito mais simples e facilita o acompanhamento mental da escrita dos números grandes. Logo que se entra nos milhares de milhões, os americanos, melhor dizendo, a generalidade dos países de língua inglesa e alguns outros, incluindo o Brasil, empregam o bilião. O Reino Unido recorria à norma "europeia", mas em 1974 adoptou a americana.

Em lugar de gastarmos tinta a escrever, por exemplo, que o PIB português é de 150 mil milhões de Euros (e a ajustar o nosso pensamento à bateria de algarismos que isso comporta) seria bem mais fácil escrever 150 biliões de Euros. Diz-nos de imediato que já estamos na "casa" seguinte à dos milhões. E se passarmos a casa dos biliões entramos na dos triliões, etc. É mais intuitivo.

(Jorge Oliveira)

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No seguimento da interessante troca de ideias acerca das formas de referir os 'números grandes' (nomeadamente os 'biliões'), não queria deixar de referir o uso indistinto da 'vírgula' e do 'ponto' quando estão em causa números decimais - pois, como se sabe, é a primeira que se deve usar em Portugal.
Por sinal, a situação mais bizarra dá-se quando, da boca de uma mesma pessoa (e até numa mesma frase!), se ouvem coisas como «As acções X subiram 'um-vírgula-quatro por cento', enquanto as Y desceram 'dois-ponto-três'».

(C. Medina Ribeiro)

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EARLY MORNING BLOGS


1275 - Who Has Seen the Wind?

Who has seen the wind?
Neither I nor you.
But when the leaves hang trembling,
The wind is passing through.
Who has seen the wind?
Neither you nor I.
But when the trees bow down their heads,
The wind is passing by.

(Christina Rossetti)

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Bom dia!

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