ABRUPTO

12.2.06


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES:
CONCORDÂNCIAS, DISCORDÃNCIAS E OUTRAS DÂNCIAS
(3ª série)



NOTA: Nos últimos dois dias mais de trezentas mensagens foram recebidas sobre este tema, sendo aqui publicada apenas uma pequena parte, com base nos critérios habituais. A não ser em casos excepcionais, esta série de correspondência terminará por agora, não por o assunto estar esgotado, nem pelo efeito do fácil "cansaço" mediático, que nos faz correr de uns temas para os outros de forma muito superficial. Há bem pouco de superficial no que estamos a discutir e será inevitável voltar ao assunto.

Os textos dos leitores estão publicados em ordem inversa à sua recepção e alguns textos enviados de fora de Portugal não têm pontuação.
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Não tenho o dom da palavra como o senhor, se o tivesse escrevia na língua de Camões (que desde pequeno tentei aprender), com engenho e arte, e tentava lhe mostrar que algo do que pensa não está totalmente correcto. Todavia, cá fica o discordar quando diz que estamos em guerra e estamos a perder. Ninguém está a ganhar e ninguém está a perder, excepto os radicais de ambos os lados. Sou muçulmano e inicialmente não dei nenhuma importância às caricaturas de alguém com turbante. Fechei os olhos, porque não queria, nem quero, ter essa imagem do Profeta Muhammad (abençoado seja o seu nome) na minha mente. Mas com todo o banzé que se faz à volta disso, não sei com que intenções, vejo-me forçado a manifestar com a liberdade de - será de resposta ou de imprensa? - a minha discordância quando pensa que a liberdade é total. Verá com o tempo que isso não corresponde à realidade e que existem limites. Não acredito que diga sempre o que pensa...acho eu. Não lhe quero roubar mais tempo, escrevo estas linhas para me afirmar como um cidadão pacífico e integrado na sociedade portuguesa ,mas que nem por isso deixarei de respeitar todos os Profetas. A terminar, devo notar-lhe que acho repugnante ter visto a caricatura do Papa com o perservativo colocado no nariz. Simplesmente sem palavras para mim num País maioritáriamente católico!

(Aboobakar Choonara)

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Antes de mais nada, sou um cidadão português, não sou religioso, tenho muito orgulho naquilo que a nossa civilização europeia deu ao mundo a nível de valores e progresso e já vivi na Dinamarca. Por esses motivos, penso que pode haver algum interesse naquilo que eu diga acerca deste assunto que nos tem melindrado.

Em primeiro lugar, penso que a Escandinávia tem muitas lições a dar ao mundo, a todos os níveis, incluindo nas questões que dizem respeito à liberdade de imprensa.

Em segundo lugar, há que reconhecer que a Dinamarca é um país com muitas virtudes, mas com alguns defeitos, dos quais o racismo sobressai. É um país cujo governo é indirectamente apoiado pela D. Pia Kjersgaard, que mais não é do que uma versão dinamarquesa do Sr. Le Pen. É também um país onde as restrições à imigração chegam ao ponto de negar o direito de residência por motivos de reagrupamento familiar, mesmo no caso de estrangeiros casados com cidadãos daquele país. Sou amigo pessoal de uma cidadã dinamarquesa afectada por esta política.

Em terceiro lugar, o jornal que publicou os cartoons, o Jyllands-Posten, que é um dos três mais lidos no país, é identificado com os partidos que levaram a cabo este tipo de política. E uma das maiores comunidades estrangeiras na Dinamarca, sendo por esse motivo, uma das afectadas, é a muçulmana.

Em quarto lugar, apesar do contexto nacional em que este tipo de atitude ocorreu, o jornal representa-se a si próprio e não o país, sendo por isso injusto que a Dinamarca seja por isso condenada por esta situação.

Relativamente ao seu artigo, repudio veementemente a assumpção da guerra de civilizações e as consequências que o senhor não clarifica quais devem ser, mas que no seguimento do conteúdo desse seu texto, assumem um carácter de confrontação e ameaça.

Não penso que o que ocorreu em diversos países muçulmanos justifique esse tipo de declaração de guerra. Foi uma reacção de indignação contra uma atitude que se deveria ter sabido que era bastante provocatória e insensível relativamente a outra cultura. Evidentemente que a resposta à ofensa é excessiva. Mas se os protestos de rua, os cartazes com linguagem violenta, o queimar de bandeiras e algum vandalismo a que o próprio Ocidente já tem assistido por diversas vezes em manifestações contra a globalização é um motivo para essa guerra, então lamento dizer-lhe que nela estarei moralmente do lado do seu inimigo, uma vez que não é meu inimigo. Não pense, no entanto, que isso significa renunciar à civilização na qual nasci e cresci. Renuncio a um presumível escalar de violência que consideraria absolutamente inadmissível, com justificações tão pouco racionais como o assassinato que em 1914 levou à morte mais de 10 milhões de europeus.

(Nuno Pestana)

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Atravez do blog "an unsealed room" da Allison Kaplan Sommer no seu blog de 9 de fevereiro "nice Jewish girl" pude visionar o delicioso filme de 18 minutos, "The tribe" sobre o que e ser judeu nos Estados Unidos. Com um sentido de ironia e de sentido de humor este pequeno filme aborda alguns assuntos pertinentes nas discussoes de hoje. Visualmente e simplemente excelente.

A coragem de publicar a caricatura que mais reaccoes provocou e admiravel visto que o J. P. Pereira e uma figura publica e embora seja Portugal um local que favocere o anonimato, nao deixa de envolver risco pessoal.
Pensando bem seria um risco que eu estaria disposta a tomar? Deve ser uma questao que todos nos deveriamos colocar.

Gostaria de salientar o que para mim parece ser por demais obvio. A condicao da mulher mo mundo islamico e o facto de a Uniao Europeia nao tomar posicoes sobre essa realidade. Se fosse um outro qualquer grupo racico ou etnico as reaccoes seriam mauito mais assertivas. Admite-se que se utilize o relativismo cultural para denegrir e oprimir as mulheres. Nao necessito de pormenorizar sobre as diversas leis tiranicas aplicadas nao so nos pais de lei islamica mas nas sub culturas europeias. Assusta-me que a minha filha possa ser sujeita a leis tao contrarias a tudo porque eu tenho lutado, nomeadamente, a dignidade de todo o ser humano. sera que aqueles belos documentos adoptados pela ONU nada significam? A condicao da mulher no mundo islamico nao provoca semelhantes demonstracoes de repugnia. Lembro-me da impotencia que senti aquando do reinado dos Taliban no Afganistao. Lembro-me de ter tido na altura pensamentos menos generosos para com os fulanos barbudos que decidiram que mulheres nao podiam ter sequer tratamento medico, e lembro-me da atitude europeia. Temo que a nossa tolerancia seja tomada por medo. Temo porque me revejo nessa pessoa amedrontada que pode ser o editor de um qualquer jornal ou o cartoonista que com o sentido de absurdo dejesa somente questionar um valor ou uma crenca.

Compreendo porque os jornais americanos recusam publicar os desenhos. Seria possivelmente uma "provocacao" cujo preco poderia ser semasiado caro.
Outra coisa que nao percebo. Foi um jornal dinamarques que publicou os cartoons por isso o que tem os judeus ou o holocausto a ver com o assunto?
Enfim sao tantas as questoes, mas termino so acrescentando que recebi um mail de uma amiga minha em Portugal a manifestar a sua revolta com fundamentalismos e com o facto de estar farta de defender o indefensavel.
Sera que a tolerancia tem limites?
Peco desculpa pela falta de acentos.

(Manuela Silva)

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Há poucos dias, José Pacheco Pereira escreveu: “Aproveitem, não vai durar muito. Cada vez se percebe mais que, também nós, estamos de novo em guerra.”
Não gostei da certeza com que ele falou do que para mim era só uma intuição vaga. Sou demasiado novo para ter vivido a guerra fria, e só comecei a aperceber-me da política depois da queda do muro de Berlim, e do colapso da União Soviética. Nunca como nos últimos dias tive um sentimento tão forte de perigo iminente, de inevitabilidade de guerra. É curioso, porque já se passaram os ataques de 11 de Setembro e 11 de Março, e as guerras do Afeganistão e Iraque. A vitória do Hamas e o problema nuclear do Irão deveriam ser mais significativos do que uma polémica acerca de “cartoons”.
Talvez este episódio tenha desenhado nitidamente as linhas de demarcação entre dois modos de pensar, fazendo sobressair os pontos em que ninguém está disposto a ceder; se os ocidentais são muitas vezes arrogantes, a intolerância de uma faixa do Islão torna-se cada vez mais evidente. Pior:
esta intransigência pode estender-se a grupos populacionais muito mais vastos do que se imaginava (ou do que eu imaginava), em ambos os lados.

Queria acrescentar duas notas:

Discordo em absoluto de qualquer pedido de desculpas dos governos europeus, pelas razões aduzidas inicialmente pelo primeiro-ministro dinamarquês, mas não considero supérfluo distanciar-me do cartoon com a bomba no turbante.
Interpretei-o como uma generalização com a qual não concordo (do mesmo modo que não fez sentido para mim, para dar um exemplo, a caracterização de "geração rasca" para designar a minha geração, há anos atrás). Admito que haja outras interpretações do "cartoon", mas este ponto é importante para dizer que não apoio a republicação dos desenhos apenas para afirmar a liberdade de expressão. Por outro lado, é óbvio que os "cartoons" se tornaram notícia, e é legítimo e natural que sejam publicados para ilustrar reportagens sobre o assunto.

Concordo com muito do que se diz no abaixo-assinado a que se refere no Abrupto, mas penso que podia ser mais conciso e evitar a tentação da hipérbole. Pedir desculpas pelo sucedido é apenas isso; não é pedir desculpas pela Magna Carta, por Erasmo, etc. Mais uma vez, este ponto parece-me relevante porque mesmo discordando de pedidos de desculpa, teria sido para mim perfeitamente normal e correcto que os governos europeus se distanciassem dos "cartoons", sem prejuízo do direito inalienável à sua publicação.

(Paulo Almeida)

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Eu acho que chegamos a um momento de viragem, chegamos ao ponto em que a grande e vasta maioria dos europeus veem hoje George W Bush e a America, como um maior perigo que o radicalismo e terrorismo islamico. Existe hoje um odio tao profundo por Bush, que tudo o resto e' ofuscado: atentados em Madrid e Londres - culpa dos EUA, atentados do 9/11 - Os EUA estavam a pedi-las, atentados terroristas no Iraque - culpa dos EUA, cartoons Maome - culpa dos EUA.
Eu culpo os media por esta situacao, nao ha' que medir palavras, o conteudo de um noticiario da SIC, RTP e' quase um folhetim do PCP ou BE, nao existem contrapontos, existe apenas negativismo, o chamado "bota-abaixo" Bush e' hoje generalizado. Nao existem noticias sobre as coisas boas que estao a acontecer no Iraque e Afeganistao, nao existe defesa, apenas ataques baratos, com argumentos simplistas e gastos.
Talvez nos estejamos a esquecer de uma coisa: o nosso inimigo nesta guerra chama-se Bin Laden e Al Qaeda! Sao estes que voam avioes contra edificios, sao estes que poem bombas em comboios durante a hora de ponta. A Europa tornou-se passiva e tolerante a este inimigo, cega de odio pelos EUA, tornou-se tolerante 'a intolerancia.

Carlos Carvalho (Ottawa - Canada')

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Apreciei a sua crónica “Mais vale Verdes que mortos”. Neste caso não pode haver meio-termo: Ou estamos do lado da liberdade de expressão, ou aceitamos que um bando de fanáticos religiosos (não importa de que religião…) passe a censurar todos os nossos actos. Infelizmente o Governo português, através do Ministro dos Negócios Estrangeiros, já optou: o nosso pequeno país prefere colocar-se de cócoras. E o problema é que há outros dirigentes europeus que também alinham em sujeitar-se a essa posição…

Como não quero viver numa Europa refém seja de quem for, nem aceito a vergonha da posição do nosso governo, enviei um fax de solidariedade para a embaixada da Dinamarca com a frase “Eu também sou Dinamarquês” e vou pendurar uma bandeira da Dinamarca na minha varanda. Se 300 milhões de europeus tomarem estas simples atitudes, ninguém nos fará viver de joelhos, por muito que os nossos governantes se ponham a jeito…

(José Basílio)

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Absolutamente de acordo com a substância do texto de Ana Gomes no Público. Os "cartoons" são ofensivos. Quer dizer: talvez sejam. Nas nossas sociedades são os tribunais que o decidem, mas cada um de nós (incluindo Ana Gomes, o MNE, ou eu) pode ter a sua opinião. Se calhar até já começou o processo num tribunal dinamarquês e eu aqui sem saber.

Não me recordo de ouvir Ana Gomes dizer o mesmo quando António publicou o tal desenho do JP2 com o preservativo do nariz. Bem sei que há uma diferença entre o profeta e o JP2. Além disso, nessa altura, Ana Gomes não tinhas o mediatismo actual, por isso talvez eu não a tenha escutado. Mas será que nessa altura o pensou? Ou que o pensa agora?

Às vezes parece-me, mas posso estar errado, que a esquerda, ou melhor a esquerda da Ana Gomes, acha que a liberdade de expressão inclui ofender as maiorias, mas não as minorias. Reconheço até um certo mérito nessa posição de protecção dos mais fracos. É piedoso e cristão. Uups, ela é ateia.

(Pedro Costa Ferreira)

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A quem aproveita, directamente, o que está a acontecer por causa dos cartoons?
Uma europa desorientada e com medo perante fanáticos religiosos bárbaros, é o cenário que qualquer extrema direita mais deseja: é neste tipo de pano de fundo que os discursos xenófobos musculados conseguem maior número de adeptos. Quando se apresentam como os únicos capazes de fazer frente à barbárie. O resto do discurso que deles se espera virá natural e rapidamente. > Se a ideia do jornal dinamarquês era provocar, conseguiram-no, certamente para lá do que imaginavam possível. Assustador ver o mundo inteiro cair facilmente em tão grosseira armadilha.

(Vasco Colombo)

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O Ocidente caiu que nem um patinho…

O destaque que foi dado relativamente à questão das caricaturas foi exactamente ao encontro dos objectivos dos fundamentalistas. Os Media(?) fizeram o trabalhinho todo, e todos nós demos uma ajudinha.

Com a cultura que defendemos devíamos ter sido mais inteligentes e perspicazes. Era nossa obrigação termos visto para além do evidente.

Não falo em ignorar (que isso sim é que os teria posto a pensar - mais adequado: meditar - ), mas devíamos valorizar o que era realmente valorizável: o mínimo possível.

(Sofia Ávila da Silveira)

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Estou essencialmente de acordo consigo no que respeita à questao dos cartoons. No entanto, talvez seja também importante dividir a questao num ponto de vista de princípios, nisso estaremos de acordo, e noutro, diplomático. Afinal, qual é a linha divisória entre diplomacia e subversao dos nossos princípios fundamentais?
A propósito, no que respeita à sua limitaçao da liberdade de expressao. Diz que os limites existem quando ameaçam a integridade pessoal ou outras instâncias da vida democrática. Suponho que a liberdade de expressao sobre ideias e abstraçoes como religiao e naçao serao legítimas. Mas, julgo eu, nos EUA é proibido queimar a bandeira do país. É isso um atentado à liberdade de expressao?

(Pedro Oliveira)

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Só hoje, graças ao Courrier International, consegui ver as caricaturas dinamarquesas com tranquilidade e num tamanho legível. Depois de tudo o que li da parte de políticos, estadistas e comentadores em geral, sobre as ditas cujas, ficara a impressão de serem de mau gosto, xenéfobas, racistas e, obviamente, ofensivas. Devo dizer, e se calhar é falta de argúcia e sensibilidade minha, que não vi nada disso. Num caso vi um caricaturista a gozar com a própria iniciativa do jornal, noutro vi um suposto Maomé numa imagem sem contexto, caminhando com um burro preso pela corda; gostei particularmente da recepção que o profeta faz aos bombistas suicidas e achei uma boa imagem sobre o aproveitamento que o fundamentalismo islâmico faz da leitura do Corão a bomba oculta no turbante de Maomé: nestes dois casos parece-me óbvio que o objectivo da crítica não afecta minimamente a religião islâmica, muito menos as pessoas que seguem essa religião. A que me deixou mais dúvidas é a intitulada "identificação dum suspeito", porém, numa leitura atenta retiro a ideia oposta à xenofobia/racismo, ou seja, debaixo do turbante somos todos iguais na aparência, e vice-versa.

Desde ontem que tenho lido e ouvido sobre o tempo e o modo como esta polémica foi desenvolvida a ponto de se tornar numa crise internacional, com referência aos eventuais beneficiários e aos supostos objectivos. Depois do que atrás disse, fico maravilhado com o poder da propaganda e da manipulação, pois eu mesmo andei algum tempo sugestionado com a ideia de que se tratavam de caricaturas, no mínimo, ofensivas. E isto sou eu, português a viver em Portugal, sem ter tido acesso às ditas caricaturas na totalidade e reproduzidas em tamanho legível e legendadas numa lingua que eu conheça (embora aí a falha possa ser minha, ainda que procure ler diariamente jornais de referência como o Público e o JN, em papel ou na net).

Quanto às questões da liberdade, etc, etc, subscrevo inteiramente as suas opiniões e a de outros no mesmo sentido, era só o que faltava haver interditos a esse nível, e se houver quem se sinta ultrajado existem os tribunais, as campanhas de boicote, tantas outras formas de pressão.

Porém, ontem ouvi o ministro Freitas do Amaral justificar a tomada de posição do seu ministério. Pelo que percebi, há que dar o braço a torcer para não encostar os governos dos países de predominância muçulmana às posições radicais, coisa que farão por questão de sobrevivência. E porque atrás disso vem a questão do petróleo, claro. Porque o Choque de Civilizações pode se dar se não houver diálogo, etc, etc. Pois...

Creio que a Comunidade Europeia tem muito a reflectir sobre o modo como se integram os imigrantes, não só os islâmicos, na nossa sociedade. Assim como sobre o relacionamento com os países do mundo de influência islâmica, sendo o caso da Turquia verdadeiramente actual e exemplar para o futuro. E toda a carrada de problemas complexos associados à Palestina vs Israel, ao Iraque, ao Irão, etc, etc. Sem dúvida.

Mas fiquei preocupado ao aperceber-me como valores como a liberdade de expressão, pensamento e crítica, assim como a própria capacidade de rir, fazer rir ou deixar os outros rirem, não estão tão vivos no Ocidente como se supunha, pelo menos eu e mais alguns outros inocentes.

(Pedro Almeida)

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Porquê ler os clássicos?
Também, talvez, porque muitos de nós descubram que eles nos ensinam que a liberdade é a nossa "invenção hesitante".D.Hume soube-o desde sempre.
Pace Hume.

"A intolerância de quase todas as religiões que sustentam a unidade de Deus é tão extraordinária como o princípio contrário dos politeístas. O implacável espírito tacanho dos judeus é bem conhecido. O maometanismo defende princípios ainda mais sangrentos e ainda hoje sujeita à danação, ou põe mesmo a ferro e fogo, todas as outras seitas. E se, entre os cristãos, os ingleses e os alemães abraçaram os princípios da tolerância, esta singularidade resultou da firme resolução do magistrado civil em oposição aos esforços contínuos dos padres e dos fanáticos"

David Hume - História Natural da Religião


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No tempo de Thatcher e Reagan, não eram as vozes e os acampamentos montados contra os mísseis defensivos na Alemanha e os F-111 em Inglaterra tão sonoros? E não pareciam eles predominantes? E não tiveram afinal a pouca importância que tinham?
E por isso não consigo nem encarar seriamente nem considerar muito graves as posições de uma esquerda que só é nova no seu geral reaccionarismo. Não posso deixar de compreender que invoquem multiculturalismos, relativismos e nihilismos, que são os estribos que lhes sobram da clamorosa falência.
Neste caso dos cartoons, vem-me uma disposição optimista. Não é apenas por muitos blogs terem compreendido instantaneamente o que estava em causa e terem feito a defesa da liberdade sem parêntesis nem alíneas. É por ver que a compreensão da gravidade do caso suscitou saudáveis militâncias à direita e à esquerda e, sobretudo, por ver que pela primeira vez claramente, está a ser dito que se temos um problema de sobrevivência física com os «fanáticos», temos um problema de sobrevivência civilizacional com os «moderados». E ainda: se foi bem citado, fortalecemos hoje a ideia de que há um homem de coragem na presidência da Comissão Europeia.
Para além disso, e com toda a franqueza, que relevância ou peso específico terão pessoas como Freitas, ou Canas, ou muitos jornalistas que sempre foram parciais ou pusilânimes ou volúveis?

(José Cruz)

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Se acreditasse na teoria da conspiração, diria que toda esta confusão teria sido resultado de uma pérfida maquinação do complexo industrial e militar dos EUA, com a colaboração cobarde das restantes democracias ocidentais, destinada a colocar a opinião pública ocidental a favor de uma posição forte contra o Irão (assim ultrapassando o manietar de mãos que resultou das dificuldades no terreno e do desastre de relações públicas do Iraque).

Infelizmente, não acredito. E seria mais simples fazê-lo, como é apanágio das teorias da conspiração.

Mas, mesmo que acreditasse, o facto de tal hipotética cabala ter sido tão bem sucedida no seu objectivo intercalar (isto é, ter suscitado a reacção intolerante e violenta de tantas comunidades muçulmanas) seria ainda assim um aviso para imensa preocupação...

Se quisermos manter a hipótese de manipulação, dos americanos (por absurdo) ou dos imãs, sírios ou iranianos (com muito maior probabilidade), a conclusão é que aquela encontrou terreno demasiado fértil para frutificar.
O amâgo das crenças - não apenas o contexto ou as circunstâncias - foi de molde a deixar-se incendiar com esse rastilho, ao invés de o apagar com bom senso, moderação e respeito.

(Artur Furtado)

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«estão bem uns para os outros, os caricaturistas irresponsáveis e os fundamentalistas violentos, ambos só podem ser alvo da nossa condenação» (Vitalino Canas, deputado socialista português.)

Poderia colocar a data, local ou orgão de comunicação onde isso tenha sido dito/escrito? Convém que isto fique registado para a posteridade com todos os dados. Obrigado.

Ainda estou arrepiado, não acredito que um responsável político de um partido democrático com responsabilidade governativa possa dizer uma coisa dessas. Enfim, acredito, mas quem me dera que não fosse verdade, é demasiado infame.

(Jorge Filipe)

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Uma frase que penso que resume toda a situação:

A diplomacia é que tem limites, não é a liberdade de expressão.


(Jorge Gomes)

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Acabei agora de ouvir o nosso Ministro dos NE e fiquei mesmo muito triste.
Disse a seguinte frase na SIC-N "...estamos a fazer o jogo de Osama Bin Laden..."
Pois é, mas afinal quem está a fazer o jogo de quem???
O jogo dele ou deles, quem o faz são todos os governos europeus que pedem desculpa ao povo muçulmano por cartoons!
A nossa liberdade, conquistada com a dor de muitos está posta em causa, não por desrespeito algum, de caracter jurídico ou qualquer outra coisa, mas pelo medo. Medo! Este é o grande problema, com medo.

A liberdade dos povos ocidentais é tão insignificante ao ponto de cedermos á chantagem de alguns radicais islâmicos.
Segundo o nosso ministro Freitas do Amaral o remédio é estar calado.

Outro problema que ele coloca e não achei de bom tom foi dizer "...mas será que nós ocidentais não temos a inteligência...", referindo-se que estamos a fazer o jogo deles, caso alguém tenha a liberdade de expressar o seu pensamento de forma diferente e não convencional.

Segundo o nosso ministro, inteligência e liberdade de opinião é a mesma coisa.
Para ele quem é inteligente não pode discordar dele. É triste isso que se está a passar.

E para terminar, agora que alguns pediram desculpa como vai ser quando voltar a acontecer?
Para mim foi um erro muito grave o precedente que se levantou com esse pedido de desculpas.


(Bruno Teixeira)

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Escrevo só para lhe dizer que concordo inteiramente com o que escreve em "Mais vale verdes do que mortos" e que tenho pena que a comunidade internacional se esteja a comportar desta forma cobarde, pretensamente diplomática. De nós, portugueses, não talvez não esperasse outra resposta tendo em conta a forma como nos temos comportado nestas questões num passado recente. Da comunidade internacional, sim esperava outra resposta, mais firme, mais digna.

A revolta dos muçulmanos, com uns meses de atraso, contra as caricaturas não me espanta num povo que começa por ser intolerante com os seus pares, em especial com as suas mulheres. Do que se vê diariamente nos jornais parece que são intolerantes e irracionais por princípio. Poderiam ter evitado a violência e a destruição de bens e propriedades alheias mas também parece que o confronto saudável e as manifestações pacíficas não fazem parte da sua prática diária.

Agora a reação da comunidade internacional, deixando sozinhos os autores das caricaturas, entristece-me e considero-a como um verdadeiro atentado contra a liberdade, a democracia e a dignidade de todos aqueles que acreditam nestes valores.

(Rita Camilo)

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Andamos nós europeus tão preocupados com o imperialismo americano e com o "social-capitalismo" chinês que quando nos bate à porta a ameça islâmica logo nos colocamos de joelhos. Basta ver os apelos ao nosso bom senso e à nossa tolerância (!!??) lançados quer por políticos quer por editorialistas. Tudo isto vem a propósito do caso do jornal dinamarquês que publicou uns "cartoons" do profeta Maomé. Facto que desencadeou por parte das chefias religiosas islâmicas e de alguns estados árabes um ataque imediato quer ao governo dinamarquês ( e a outros onde entretanto também se publicaram os desenhos ) quer às respectivas representações diplomáticas, numa tentativa clara de condicionar a liberdade de expressão nos países democráticos do nosso continente. E aqui é que a "porca torce o rabo" ,pois esta atitude das chefias árabes e islâmicas não visa mais do que criar um ambiente de intimidação e condicionamento da nossa sociedade de forma a conduzir-nos à submissão. No fim de contas trata-se tão só e simplesmente da "forma de imperialismo mais intransigente" como diz V.S. Naipaul no seu livro "Beyond Belief" ( de 1998 ) : " A crueldade do fundamentalismo islâmico é que permite apenas a um povo - os árabes, o povo escolhido pelo profeta - ter um passado, e partilhar lugares, peregrinações e outras referências na terra. Estes lugares sagrados dos árabes têm de ser partilhados por todos os povos convertidos. Os povos convertidos têm de se despir do seu passado; aos povos convertidos nada é exigido a não ser a mais pura fé ( se é que tal coisa existe), o islão, a submissão." No actual caso ainda é pior , porque não sendo a Dinamarca um país convertido ao islão esse fundamentalismo tenta , desde já, que nos submetamos a um pensamento único criando um ambiente de medo. É que não estamos a falar de eventuais críticas ou ofensas de dirigentes políticos europeus ao Islão ou ao profeta Maomé! Estamos a falar de desenhos publicados por um jornal de um pequeno país europeu com uma democracia parlamentar e onde é possivel viverem diferentes comunidades étnicas e religiosas.Relembro a política de acolhimento dos paises nórdicos aos refugiados de todo o mundo. Quando o Presidente Iraniano apelou à destruição de Israel não me lembro de ouvir nenhum chefe religioso islâmico protestar. Muitos dirão que estou a exagerar. Talvez ! Mas convém saber travar as lutas políticas que temos pela frente e esta é uma delas. Com uma dificuldade adicional , a de que do lado islâmico pretendem-nos fazer crer que se trata apenas de opções religiosas e que nós ocidentais travamos uma guerra santa contra os "infiéis". Convém não cair nessa armadilha, pois sabemos que não é disso que se trata. Terminaria citando novamente Naipaul, na sua palestra de 1992 ( quão longe estávamos do 11 de Setembro ! ) dada no "Manhattan Institute " de Nova Iorque ( e traduzo livremente da edição inglesa da "Knopf" ) :
" A civilização universal demorou muito tempo a ser feita. Não foi sempre universal; não foi sempre tão atractiva como hoje. A expansão da Europa deu-lhe uma matriz racial, que ainda causa dor. Na Trinidad cresci nos últimos dias desse tipo de racismo. E isso talvez me tenha dado a possibilidade de apreciar as enormes mudanças desde o fim da 2ª Guerra Mundial, a extraordinária tentativa desta civilização para acomodar o resto do mundo, e todas as correntes de pensamento desse mundo."
Esta é a melhor resposta a dar quer aos fundamentalistas quer àqueles que pretendem que temos que pedir desculpas pelo facto de um jornal ter publicado uns desenhos.

(António Monteiro Pais)

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Totalmente de acordo que não devemos desculpas a ninguém, era só o que faltava! Mas…

Nesse outro mundo, tolerância não significa o mesmo que para nós, religião não significa o mesmo que para nós e violência, liberdade, vida, morte, vingança, terrorismo e tantas outras, são palavras com outro significado. Nesse outro mundo as crianças aprenderam que se cortava as mãos aos ladrões, e se apedrejava quem se portava mal, nós aqui no mundo perfeito sabíamos que isso era horrível mas em nome da liberdade achámos que o melhor era deixar estar, é uma cultura diferente, dizíamos para justificar a nossa indiferença.

Se é inconcebível para nós a reacção dos radicais muçulmanos também é inconcebível para eles que alguém tenha desenhado o Maomé naqueles preparos.

É a guerra pois é! Mas vamos esperar para ver se as tais dezenas de anos de democracia nos ensinaram a fazer uma guerra com outras armas, uma guerra com caricaturas por exemplo.

(Rosa)

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Acho a indignação nacional com a reacção troglodita dos muçulmanos absolutamente chocante.

O Ocidente invade-lhes os países, vende-lhes os recursos a amigos e afilhados, mata-lhes a população civil (sem qualquer provocação) e chama “danos colaterais” às dezenas de milhar de crianças mortas, apoia entusiasticamente o regime de apartheid israelita e as cleptocracias violentas que os oprimem e exploram, e depois chama-lhes selvagens.

As pessoas miseráveis fazem coisas miseráveis. É só isso.

E a nossa tolerância? Não terá limites também? Quantas pessoas é que pediram a cabeça do Herman José por causa de uma piada com a Ultima Ceia? Ou com o rei D. Afonso Henriques? Houve manifestações, abaixo-assinados e arruaças. Lembra-se?

(Filipe Castro, Texas, EUA)

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Ainda a propósito da polémica acerca dos limites da liberdade de expressão proclamados pelo nosso MNE, aconselho a leitura deste comentário em que o autor nos diz, com toda a razão em minha opinião, que se não se pode criticar Maomé por isso ofender os sentimentos de milhões de pessoas, então também não se pode criticar Kim-Il-Sung, que na Coreia do Norte tem já estatuto divino e cujos ensinamentos são seguidos por milhões de coreanos. A ele, acrescentaria, por exemplo, David Koresh, esse mártir davidiano imolado pelo fogo no Texas, Charles Manson, que criou uma religião com 10 a 15 adeptos que o consideravam divino e cometiam atrocidades em seu nome ou o japonês Azahara, que ordenou aos seus seguidores o atentado com gás sarim no metro de Tóquio.

Pela mesma ordem de razão (e atendendo a que há liberdade de culto em Portugal e, supostamente, todas as religiões devem ser tratadas por igual perante a lei), se alguém fundar um partido político xenófobo e sexista, pode ser satirizado, mas se esse mesmo alguém invocar ser iluminado por Deus e fundar uma religião xenófoba e sexista, já não pode ser satirizado, porque isso ofende o mais profundo sentimento religioso dos seus seguidores.

Será a Astrologia uma religião? Pode-se criticar? E a Cientologia?

(Alexandre Fonseca)

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* Que a reacção violenta e fanática dos que se sentiram ultrajados não nos roube a última réstia de lucidez: os dois argumentos com que “os de cá” querem justificar a publicação das caricaturas do Profeta, há que dizê-lo alto e bom som, estão viciados.

* “Que está em causa a liberdade de expressão...” Não está. Como não estará quando um editor decide “cortar” este ou aquele artigo. Porque a liberdade de expressão é um direito individual, não um dever editorial. Se fosse um dever editorial, o que tinham para dizer, então, os media a essa multidão que não tem modo nem jeito de ver alguma vez as suas opiniões publicadas? O que há a debater, sim, é o juízo de oportunidade que trouxe a público algo que, todos sabiam, iria ofender, directa, ostensiva e gratuitamente, as convicções religiosas de outros.

* “Que os Estados ocidentais são laicos, por princípio...” E são. Mas a questão não é essa, porque o referido princípio existe, unicamente, na esfera pública, e visa assegurar que nenhum crente, enquanto tal, seja objecto de discriminação por parte dos órgãos do Estado. Na esfera privada, maxime, no plano individual, dizer-se laico é, apenas, viver uma das muitas crenças em que a Humanidade vai sendo fértil – e saber que nunca se será prejudicado por isso. E os que, para se desresponsabilizar, vêm esgrimir um princípio de que, afinal, são meros beneficiários, mais não pretendem que reclamar-se de uma superioridade ética/civilizacional, ao arrepio desse mesmo princípio equalizador que insistentemente invocam.

* Que o cristianismo, e os seus símbolos religiosos mais sagrados, sejam também caricaturados, talvez com maior acidez ainda, isso só prova que a tolerância, entre nós, europeus, é uma virtude mal distribuída. O mérito de tanta serenidade pertencerá, por inteiro, à cultura cristã, e à memória sofrida de séculos e séculos de intolerância, de perseguições e de lutas sangrentas.

* Por último, os que invocam a liberdade de expressão fariam bem em reflectir na reacção que teriam caso aparecesse nos media uma ficção, uma simples ficção, que ofendesse de forma directa, ostensiva e gratuita os que lhes são queridos, ou aqueles cuja memória veneram. Porque, bem vistas as coisas, à liberdade de imprensa (e, não, de expressão) foi dado um uso que compete aos tribunais qualificar à luz, justamente, do princípio do Estado laico.

(A.PALHINHA MACHADO)

*

Sou Portuense mas vivo em Brasília há 6 anos. Sou agnóstico e liberal. Ontem passava pela pacata embaixada da Dinamarca e me perguntava porque no Brasil, onde vive uma extensa comunidade de origem Árabe, não houve manifestações agressivas de repúdio às famigerada caricaturas. Apenas se registraram declarações de lideres religiosos. Talvez seja porque essas comunidades são parte de um povo e de uma cultura que aceita a tolerãncia, sobretudo a religiosa, como parte essencial da relação entre os homens. Aqui, se alguém quiser cobrir o rosto para assistir a uma aula nenhuma lei ou ação o impedirá. Os Árabes são parte do tecido económico e social, encontram-se em todos os níveis sociais e não servem apenas como mão-de-obra barata. Nada disto explica ou justifica o que está a acontecer em muitos países muçulmanos. Só o atraso social e cultural em que esses países se encontram pode explicar a barbárie a que estamos assistindo, à semelhança de muitas outras tragédias de um passado recente. No entanto, serve, pelo menos em parte, para entender porque tantos Árabes que vivem na Europa permanecem no mesmo "mundo" intolerante, apesar de viverem em sociedades tão liberais.

Quanto à liberdade de expressão, os países Árabes parecem entender melhor as sociedades Européias do que os próprios Europeus. Quando eles ameaçam retaliar com caricaturas sobre o holocausto estão a reconhecer que sabem que a Europa é hoje uma sociedade pós-cristã (vale a pena ler o livro "The Right Nation" dos editores do "The Economist" nos EUA), um espaço onde as ofensas a simbolos religiosos são triviais. Essa é, aliás, uma característica que cada vez mais afasta a Europa de outras sociedades, nomeadamente a Americana. O que esses países sabem é que a publicação de caricaturas sobre o holocausto em, por exemplo, jornais Alemães, provocaria uma onda generalizada de indignação com consequências imprevisiveis. Vale a pena lembrar que na Europa do politicamente correto um candidato a comissário europeu teve de pedir para "retirar-se de cena" porque fez comentários desagradáveis sobre os homosexuais. Numa universidade Inglesa onde trabalhei há alguns anos, um laboratório foi destruído por activistas dos direitos dos animais, porque se suspeitava que estavam em andamento investigações com macacos. Imaginem um jornal Americano publicar caricaturas sobre as vitimas do 11 de Setembro após o atentado. Mau gosto inaceitável. Apenas quero com isto dizer que EM TODAS as sociedades existem limites, ainda que não legais, à liberdade de expressão e de ação. É evidente que para uma sociedade religiosa nada é mais ofensivo do que a falta de respeito por simbolos religiosos. Numa sociedade laica e liberal, as "sensibilidades" demonstram-se em outros temas. Um pedido de desculpa pelas caricaturas grosseiras nada mais é do que reconhecer o direito à diferença, que tanto reclamamos para nós próprios. Julgo que confundir isto com a necessária condenação da violência e intolerãncia que estão em curso é um equívoco.

(Vitor Salvador Picão Gonçalves)

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No jornal que esteve na origem de toda esta barafunda (e que conseguiu, com 12 bonecos, o que Saladino não conseguiu com muitos anos de guerra!), pode ler-se hoje:

«Nunca, em nenhum momento, tivemos consciência da extrema sensibilidade dos muçulmanos (...) face a esta questão».

Ora eu convivi de perto com muitos deles (turcos, iranianos, argelinos, tunisinos, marroquinos e até congoleses) e sei que o problema está precisamente aí: na falta de sensibilidade e na falta de consciência da sensibilidade dos outros.

Como se compreende, uma das coisas que torna este assunto particularmente difícil de discutir é o facto de estar em causa algo que se aprende na infância e, quando se chega a adulto, ou se tem ou não se tem...

(C. Medina Ribeiro)

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Há um aspecto que me parece merecer reflexão adicional relativamente a um exemplo que deu, o da proibição em alguns países de textos que negam a existência do Holocausto.

Não me parece que esse exemplo seja minimamente comparável com o das caricaturas. Trata-se de algo que se sabe perfeitamente que existiu e que teve o impacto que todos sabemos na vida particular de milhões e milhões de pessoas, provocando uma dor inimaginável por quem não viveu esse drama na pele. Entra portanto já no campo onde a lei limita a libertade de expressão para proteger o cidadão relativamente à sua esfera privada.

Acredito que ouvir negar o Holocausto seja uma violência literalmente insuportável para alguém que esteve em Auschwitz. Independentemente de outras razões que pudessem existir para permitir essa expressão, neste caso concreto elas têm menor peso do que o respeito que é devido às vítimas desta tragédia. Tratar-se-á porventura de ultrapassar ou não aquilo que uma pessoa, por mais racional que tente ser, é capaz de humanamente aguentar.

(Tiago Azevedo Fernandes)

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