ABRUPTO

12.2.06


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES:
TURISMO EM TERRAS DO ISLÃO



Matali, o guia touareg

Chegou a conduzir o Landcruiser da frente à porta do hotel de Tam (É assim que os locais chamam a Tamanrasset). Era alto, esguio e elegante nos movimentos. Cumprimentou-nos com poucas palavras, e dez minutos depois deixávamos a cidade. Disse não falar francês e ainda menos inglês, mas algumas horas depois tínhamos percebido que tudo o que dizíamos era objecto da sua atenção e que ele não só percebia tudo como ouvia tudo. Aliás, quer o seu sentido da visão, porque habituado a olhar sempre longe, quer o da audição, porque habituado ao silêncio, eram apuradíssimos. Via o que nenhum de nós via e ouvia o que nenhum de nós ouvia. Nunca tivemos longas conversas pois era parco no uso das palavras, como em tudo da sua vida. Estudou e formou-se como enfermeiro, casou e teve cinco filhos, mas percebeu que nunca conseguiria viver numa casa, numa rua, numa cidade. O deserto era a sua casa e para ele voltou, deixando a enfermagem, como guia, como príncipe. Uma felicidade contida habitava o seu rosto e o olhar tranquilo sobre as nossas dúvidas urbanas, que de repente surgem em pleno deserto, centrava-nos rapidamente no momento. Ficava sempre lisonjeado com o nosso espanto perante a imensidão e beleza difíceis de apreender, com as vezes que lhe pedíamos para parar e tirar fotografias, com os cumprimentos que tecíamos ao cozinheiro e às maravilhas que cozinhava saídas dos pequenos contentores do segundo landcruiser. (A água para o chá era sempre fervida num fogo de lenha, nunca no bico de gás).



”Les Catédrales”, Sahara, Sul da Argélia

Ao longo dos dias mostrou-nos paisagens que nunca sonhamos, rochas que nem imaginávamos, apontou-nos a liberdade e nas poucas palavras que dizia disse só gostar de dormir ao relento e que, mesmo quando estava em “casa” com a família, dormia cá fora, disse que se têm o hábito de tapar a boca é porque é dela que tanto mal sai, disse já ter conhecido pessoas tão diferentes vindas de países tão diversos e com vontades tão díspares. Ao fim do dia e de manhã cedo víamo-lo a rezar, um pouco afastado, sempre discreto e elegante nos movimentos. No penúltimo dia fizemos oitenta kilómetros em quatro horas para chegarmos lá cima: ao tecto do Sahara como ele lhe chamava.


Assekrem, 3000 m de altitude, Hoggar. Sul da Argélia

Há lá uma pequena comunidade de padres de Charles de Foucauld que eram conhecidos, amigos é mais correcto, de Matali que, na sua imensa sabedoria, se apressou a comunicar-nos que eles iriam celebrar missa dali a pouco tempo e que poderíamos assistir: os padres sorriram-nos timidamente, com certeza mais conscientes do nosso laicismo e das nossas poucas práticas religiosas, do que Matali, mas também eles sabiam que os bons convites nunca se recusam, e numa pequeníssima, simples e acolhedora capela ouvimos missa no tecto do Sahara.

No último dia pouco falávamos, e mal o carro pisou estrada deixando para trás as pistas do deserto, sentimo-nos envoltos numa nuvem cinzenta que nos apertava.

Um ano depois tinha na minha caixa de correio uma carta e um pacote vindos de Tamanrasset: Matali tinha feito um cadeado metálico, tal como tinha visto nos mercados de Tam e quis enviar-mo.

(J.)

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© José Pacheco Pereira
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