| ABRUPTO |
semper idem Ano XIII ...M'ESPANTO ÀS VEZES , OUTRAS M'AVERGONHO ... (Sá de Miranda) _________________ correio para jppereira@gmail.com _________________
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15.11.03
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LIVROS PARA COLECCIONADORES
Ao fim de semana faz-se a volta das colecções. Junta-se a recolha da semana: livros, selos, postais, efémera, nadas e pequenos nadas. Os coleccionadores sabem o prazer que isso dá. Para quem pensa assim, é indispensável o último livro de Krzysztof Pomian, Des Saintes Reliques à l’Art Moderne. Venise-Chicago XIIe. – XXe, Siécle, Paris, Gallimard, 2003. (url)
EARLY MORNING BLOGS 80
Como hoje fazemos oitenta, vetusta idade para a atmosfera e decrepitude absoluta para a blogosfera, um presente aos leitores sobre a forma de uma lição de história quando havia heróis, ou seja, há muitos séculos. História antiga, língua antiga, gente antiga. É a história de Alexandre “meilleur roi que Dieus laissast morir” e completa está aqui. Para que serve “l'istoire rafreschir”? No início do romance explicam-se as razões: “Qui vers de riche istoire veut entendre et oïr, Pour prendre bon example de prouece acueillir, De connoistre reison d'amer et de haïr, De ses amis garder et chierement tenir, Des anemis grever, c'on n'en puisse eslargir, Des ledures vengier et des biens fes merir, De haster quant leus est et a terme soffrir, Oëz dont le premier bonnement a loisir. Ne l'orra guieres hom qui ne doie pleisir; Ce est du meilleur roi que Dieus laissast morir.” Com Alexandre, bom dia! (url) 14.11.03
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CONDIÇÕES EM QUE OS JORNALISTAS FORAM PARA O IRAQUE
Carlos Fino, na RTP2, fez uma muito boa análise das condições amadorísticas em que os jornalistas portugueses vão para situações de risco, e a irresponsabilidade das empresas que os enviam, sem cuidar de garantir a sua segurança. Subscrevo inteiramente o que ele disse. (url) (url)
IMAGENS
de ontem: o velho leão de Rembrandt, poderoso e triste na sua tinta castanha; e "L'Ombrelle Rouge ou la Cour du Louvre" de Kerr-Xavier Roussell, que está numa colecção privada e é de 1894-5. La belle et la bête. (url)
FILOSOFIA NOS JORNAIS
"Saíram no Público de ontem três textos sobre Derrida, a propósito do doutoramente Honoris Causa que lhe vai ser atribuído pela Univeridade de Coimbra. Um desses textos, de Raquel Ribeiro, é o seguinte: O Desconstrucionismo de Derrida "A noção de desconstrução foi apresentada pela primeira vez por Jacques Derrida na introdução à sua tradução de 1962 da «Origem da Geometria», de Husserl. O processo de desconstrução, explica José Bragança de Miranda, docente da Universidade Nova de Lisboa, é «uma metodologia que trabalha para a 'abertura do sentido' do texto filosófico, através de procedimentos como a inversão, deslocação ou análise». «O desconstrucionismo não está fora do tempo da criação, não é 'a posteriori', tem de estar presente na arquitectura do trabalho da construção», diz Derrida no documentário. A desconstrução privilegia leituras dentro do texto, incluindo referências históricas, culturais e sociais. Para Derrida, «não há nada para além do texto». Porque é que Derrida é importante? «Porque tem um pensamento interveniente que propõe uma releitura da filosofia contemporânea, como Heidegger, Marx ou Husserl», diz Bragança de Miranda. «A receptividade americana à metodologia da desconstrução acabou por dar uma maior projecção a esta filosofia.» Muitos teóricos enquadram o pensamento de Derrida no pós-estruturalismo (americano) ou no pós-modernismo (europeu). Mas Bragança de Miranda vai mais longe: «Colocá-lo-ia no limite da filosofia, numa certa órbita do fechamento filosófico, na fronteira dessas correntes. E não para além delas.» Ao ler exte texto, não consigo deixar de pensar que nenhum editor do Público permitiria a publicação no caderno principal do jornal de um texto sobre qualquer outra área do conhecimento (Física, crítica musical, Economia, urbanismo, etc) que fosse tão incompreensível para o grande público como este. Já há bastante tempo que me apercebo deste carácter particular da Filosofia em Portugal: julgo ser a única área do conhecimento relativamente à qual se publicam, em publicações generalistas, textos que exigem uma grande preparação teórica específica." (José Carlos Santos) (url) 13.11.03
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IMAGENS
de ontem : uma paisagem de Carl Rottmann, de 1836, e um vídeo de Pipilotti Rist, um “Pipilotti mistake”, de 1988. (url)
GETTYSBURG
Na série de Ken Burns sobre a guerra da Secessão tudo converge para o momento decisivo da batalha de Gettysburg. A batalha ocupa um lugar central, os vários dias de morte à solta, a carnificina de regimentos inteiros, a ceifeira democrática a atingir soldados e oficiais, as tradições marciais comuns dos dois lados traduzidas na imensa coragem de todos. É uma guerra em que o “comando” é ainda decisivo e a personalidade dos homens que combatem traduz-se nas suas acções. Mesmo aqui, todo o filme se sustenta na dualidade entre as fotografias e a palavra, não há grandes grafismos sobre os movimentos de tropas e as tácticas. É o combate, ou seja, a morte e a coragem, que contam.
E depois, meses depois, vem Lincoln inaugurar o cemitério e falar os seus escassos minutos, depois de duas horas do discurso de um dos grandes oradores da época, Edward Everett. Recebe uns aplausos dispersos e a hostilidade da imprensa. Até o fotógrafo não consegue focar o presidente, que aparece apenas perdido numa pequena multidão oficial a descer do palanque. Mas as menos de 300 palavras ainda hoje se ouvem: Four score and seven years ago, our fathers brought forth upon this continent a new nation: conceived in liberty, and dedicated to the proposition that all men are created equal. Now we are engaged in a great civil war. . .testing whether that nation, or any nation so conceived and so dedicated. . . can long endure. We are met on a great battlefield of that war. We have come to dedicate a portion of that field as a final resting place for those who here gave their lives that this nation might live. It is altogether fitting and proper that we should do this. But, in a larger sense, we cannot dedicate. . .we cannot consecrate. . . we cannot hallow this ground. The brave men, living and dead, who struggled here have consecrated it, far above our poor power to add or detract. The world will little note, nor long remember, what we say here, but it can never forget what they did here. It is for us the living, rather, to be dedicated here to the unfinished work which they who fought here have thus far so nobly advanced. It is rather for us to be here dedicated to the great task remaining before us. . .that from these honored dead we take increased devotion to that cause for which they gave the last full measure of devotion. . . that we here highly resolve that these dead shall not have died in vain. . . that this nation, under God, shall have a new birth of freedom. . . and that government of the people. . .by the people. . .for the people. . . shall not perish from this earth. (url) (url)
EARLY MORNING BLOGS 79
(Tardiamente colocados devido à manutenção do Blogger.) De novo, à volta do Iraque, começam os sinais de intolerância, crescem as palavras, sobe o tom de voz. Não vão ser tempos fáceis, com tantas razões em cima da mesa e com tudo em aberto, o que quer dizer tudo dependendo da luta política pela opinião. Este é um daqueles momentos malditos da história em que os lados se impõem, em que o centro é destruído. Não há centro na questão do Iraque, não há equidistância. Há atitudes de distanciação, há centramentos fora do vórtice do conflito, há posições humanitárias, há actos de dedicação às vítimas, mas não resultam como factores de distanciação. Estamos condenados ao compromisso, mesmo quando o recusamos. Não será como na guerra de Espanha ou do Vietnam, em que parecia haver dois lados, e combater um era enfileirar noutro. Aqui é mais complicado, ninguém cabe verdadeiramente em nenhum dos lados, mas é empurrado para um deles. Quando se fala, a favor ou contra, acrescenta-se legitimidade e força a um dos lados. Tudo o que eu digo, queira ou não patrocinar as asneiras dos “meus”, prende-me nelas. O que outros dizem, queiram ou não, prende-os aos “seus”. Não adianta esconjurar este efeito. É por isso que cresce a intolerância, porque é um combate, é um combate cruel com mortos e feridos e destruição de tudo, material e espiritual, e esse combate mobiliza reservas morais que são intolerantes na sua essência. Eu tenho um lado, mas ninguém me ouvirá dizer que este é o lado de Deus, como na canção de Bob Dylan. Mas ouvir-me-ão dizer que este é um lado dos homens, do modo de vida que escolhi (escolhemos), de uma precária mas identificada civilização (a palavra é adequada) que já mostrou o que vale e que não vive do terror, nem da violência, mas da procura da conciliação de interesses e modos de vida. Nenhuma outra civilização me dá as liberdades e a possibilidade de felicidade que esta me dá, a mim e, potencialmente, a todos os homens. Não estou certo de tudo, mas das duas frases anteriores estou inteiramente convicto. (url) 12.11.03
GNR NO IRAQUE
Sobre uma questão colocada na Bloguitica. Várias vezes exprimi a opinião que deveriam ser as nossas forças armadas a estarem presentes e não a GNR. A razão porque tal aconteceu teve a ver com a necessária conciliação entre o Governo e o Presidente da República. Este opunha-se à presença de tropas sem enquadramento das Nações Unidas. A resolução 1511 acaba com essa limitação, mas parece ter permanecido o entendimento de que não se justificava uma alteração de planos. Uma mudança de decisão implicava um novo período de preparação e uma redefinição da missão, o que demoraria muito tempo. Sendo as coisas o que são, a solução actual, não sendo ideal, também não é má. A missão da GNR é adaptada às suas características de força de segurança, e o tipo de problemas que vai defrontar são compatíveis com a preparação que teve. O atentado de Nassíria não altera essa situação. No Iraque, pelo menos em certas zonas, missões de segurança são mais importantes do que missões militares. (url)
BOA SORTE 3
É exactamente porque aconteceu o que aconteceu no Iraque que é fundamental que Portugal envie as suas tropas. O atentado de Nassíria torna ainda mais importante reforçar os contingentes militares no país e internacionalizá-los, mobilizar todos os esforços da comunidade internacional para ganhar o combate da estabilização do Iraque. Ao fim de meses sem conta a ouvir falar da comunidade internacional e das Nações Unidas, como argumentos últimos de autoridade, convém não esquecer que hoje este esforço militar é também caucionado por essa comunidade e por essas mesmas Nações Unidas. O combate do Iraque não é contra qualquer “resistência” nacional, é contra os restos do regime do Baas e de Saddam, e contra grupos terroristas internacionais, gente que, se alguma vez voltasse ao poder, provocaria um banho de sangue entre os iraquianos. Os primeiros a saber disso são os próprios iraquianos. (url) (url)
JORNALISTAS E PODER POLÍTICO
“Li hoje o seu texto sobre “Jornalistas e poder político” e, sendo do ‘meio, (…) a minha discordância relativamente à sua aceitação de jornalistas que desempenhem funções políticas e/ou partidárias. O tema é de análise difícil, pois remete para conceitos de liberdade individual e direitos cívicos. Na minha opinião, o exercício da actividade de jornalista pressupõe a aceitação de algumas limitações aos referidos direitos, especialmente em Portugal onde a comunicação social é, por “definição”, apartidária, apolítica e equidistante. Mesmo sabendo-se que, de facto, assim não é. Para outros países, com outras tradições, aceito a sua opinião como correcta, mas na nossa realidade parece-me excessivamente permissiva. Os nossos jornais, rádios e televisões pretendem ser “generalistas”, no sentido de não estarem engajados a qualquer corrente de opinião, de política ou de interesses económicos, culturais ou desportivos, por exemplo. O leitor do “Expresso” tanto será de esquerda como de direita, o ouvinte da TSF idem, o espectador da TVI outro tanto. Sei que não é assim “cá fora”, mas é este o conceito. Sei também que muitos jornalistas, muitos directores e editores não se coíbem de dar um cunho “ideológico” aos meios onde trabalham. Isso é uma coisa e, se o leio, vejo e ouço bem, o dr. Pacheco Pereira tem-se oposto à situação. Escrevo ali atrás que os jornalistas deviam aceitar algumas limitações cívicas, tal como os funcionários do Estado, por exemplo, devem cumprir as suas obrigações independentemente da cor do governo de serviço. A situação dos jornalistas é, porém, ainda diferente: porque escrevem sobre factos – são (ou deviam ser) os olhos e os ouvidos de quem lá não está – estão obrigados a regras que, quanto a mim, são incompatíveis com qualquer militância, partidária ou de outra ordem. Quando sou destacado para acompanhar um qualquer evento, quando escrevo sobre uma reunião da Assembleia Municipal, os meus leitores não querem saber o que penso sobre os assuntos; querem saber o que se passou, quem disse o quê, porquê e para quê. Eu, jornalista, sou um cidadão igual aos outros: a minha opinião é importante para mim e para os meus familiares e amigos. Não o é para a generalidade dos meus concidadãos. Para estes, o importante é disporem dos factos para formar a própria opinião. Dir-se-á que o que está errado é termos órgãos de comunicação social “equidistantes”. Concordo. E, então, os esforços talvez devam ser direccionados para a clareza: cada jornal, cada rádio, cada televisão deve poder assumir uma orientação “ideológica”. Aí chegados, seria então natural que os seus jornalistas fossem livres de desempenhar algumas funções político-partidárias. Na nossa situação, não. Dir-se-á que, mesmo em Portugal a “declaração de interesses” dos jornalistas clarificaria o panorama da comunicação social. Talvez. Mas receio que todos se viessem declarar apartidários, apolíticos e sem amigos ou conhecidos na política (ou em qualquer outro sector). Toda a sua análise crítica, suspeito, continuaria a fazer sentido, mas com mais uma mentira. Conhecerá o ‘meio’ melhor que eu, jornalista “de província”. Mas veja o caso do presidente do Sindicato, candidato da CDU, e de muitos subscritores de abaixo-assinados que por aí pululam, de cada vez mais jornalistas que mantêm colunas de opinião enquanto escrevem notícias... Lembro-me, há alguns anos, de uma tentativa de criar uma Ordem dos Jornalistas e recordo-me do slogan dos do contra (organizados em torno do sindicato”: “Não nos metam na ordem!”. Francisco M. Figueiredo (jornalista em Leiria) (url) (url)
IMAGENS
dos últimos dias incluem um cartaz de anúncio a uma revista Radar, que prometia “le tour du monde en 150 images”; um Norman Rockwell de 1948, que está no Museu de Brooklyn, e era inconfundível no seu traço (o que não se via na imagem, debaixo dos espectadores ululantes, era uma equipa destroçada pela derrota); e um vaso de tulipas brancas, pintado em 1962, por Anne Redpath e que está na Scottish National Gallery em Edimburgo. (url)
EARLY MORNING BLOGS 78
Faltava este “acordar”, cheio de imagens belíssimas como a da madrugada “leve senhora dos cumes dos montes”, na nossa lista matinal. Aqui vai ele com esplendor: Acordar "Acordar da cidade de Lisboa, mais tarde do que as outras, Acordar da Rua do Ouro, Acordar do Rocio, às portas dos cafés, Acordar E no meio de tudo a gare, que nunca dorme, Como um coração que tem que pulsar através da vigília e do sono. Toda a manhã que raia, raia sempre no mesmo lugar, Não há manhãs sobre cidades, ou manhãs sobre o campo. À hora em que o dia raia, em que a luz estremece a erguer-se Todos os lugares são o mesmo lugar, todas as terras são a mesma, E é eterna e de todos os lugares a frescura que sobe por tudo. Uma espiritualidade feita com a nossa própria carne, Um alívio de viver de que o nosso corpo partilha, Um entusiasmo por o dia que vai vir, uma alegria por o que pode acontecer de bom, São os sentimentos que nascem de estar olhando para a madrugada, Seja ela a leve senhora dos cumes dos montes, Seja ela a invasora lenta das ruas das cidades que vão leste-oeste, Seja A mulher que chora baixinho Entre o ruído da multidão em vivas... O vendedor de ruas, que tem um pregão esquisito, Cheio de individualidade para quem repara... O arcanjo isolado, escultura numa catedral, Siringe fugindo aos braços estendidos de Pã, Tudo isto tende para o mesmo centro, Busca encontrar-se e fundir-se Na minha alma. " (…) Álvaro de Campos Bom dia, "invasora lenta"! (url) 11.11.03
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BOA SORTE
aos homens e mulheres corajosos que vão partir para o Iraque. Que tenham sucesso na sua missão perigosa e que voltem todos. (url)
EARLY MORNING BLOGS 77
Hoje é feriado belga e todos os noticiários desta parte da Europa abrem com as comemorações do Armistício que terminou com a guerra de 1914-18. Compreende-se porquê: com o seu cortejo de milhões de mortos, a guerra cavou fundo na memória em França, na Alemanha, na Bélgica. Os campos de mortos estão sempre à distância de poucos quilómetros. Nos noticiários portugueses, nada, embora Portugal tenha participado na guerra e também tenha cá mortos. Se o esquecimento fosse só com a guerra de 1914-18, vá que não vá. Agora, o que mais me intriga é a nossa capacidade de amnésia colectiva em relação a quase tudo. Dos últimos duzentos anos nada sobra, a não ser um 5 de Outubro, penosamente recordado à força, e um 25 de Abril que, como tem vivas as suas gerações, ainda é lembrado. Bom dia , memória! (url) 10.11.03
ANIVERSÁRIO DE CUNHAL
Penso escrever alguma coisa sobre o que se escreve e diz a propósito do aniversário de Cunhal, ou no Abrupto ou noutro sítio. Os lugares comuns e os comentários ultra-repetitivos abundam. Agora o que não posso é suportar a série de erros factuais que se repetem por preguiça ou negligência (já não pode ser por ignorância porque pelo menos têm as mil e quinhentas páginas que escrevi para tirar dúvidas), por todo o lado. Agora foi o noticiário da RTP a dizer que Cunhal esteve preso catorze anos, quando a prisão foi de 1949 a 1960, quase onze anos… Tudo feito em cima do joelho. (url)
EARLY MORNING BLOGS 76
Num dia em que vi o Sol nascer, limpo por cima das nuvens, este poema matinal de Donne (cortesia de João Costa), que não o queria ver nascer. DAYBREAK TAY, O sweet, and do not rise! The light that shines comes from thine eyes; The day breaks not: it is my heart, Because that you and I must part. Stay! or else my joys will die And perish in their infancy. (url) 9.11.03
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EARLY MORNING BLOGS 75 / ONLINE NEWSPAPERS
Sem jornais não há uma boa manhã, ou melhor, pode haver uma boa manhã mas não há uma manhã completa. Costumo dizer que “I love the smell of napalm in the morning”. Na manhã. Não na “early morning”. Sucede que os jornais não chegam ao interior do país e a essa parte do interior do país que é Bruxelas, pelo que me fico com os jornais em linha, o que é uma verdadeira revolução que a minha geração agradece aos programadores militares da Arpanet e as gerações seguintes vão considerar um direito adquirido. Mas, como gosto muito de jornais, uma semana depois leio-os todos em papel, descobrindo as mil e uma coisas que nos escapam em linha. Por mim, nunca haveria crise nas compras da imprensa por causa da Internet. Hoje, o Público (em linha) está magnífico: tem o dossier sobre as assessorias políticas dos jornalistas que já falei, e dois bons artigos, um de Dâmaso e outro de Luciano Alvarez – este último mais que bom, certeiríssimo. Tem também um dossier sobre Cunhal, mas está na mulher do Público, a Pública, que me é inacessível em linha apesar de pública. No Jornal de Notícias (em linha) volta mais uma vez o “arrasar” uma expressão favorita dos jornalistas portugueses – agora é Ferro a “arrasar” Carrilho e Soares . Quando verbos como este desaparecerem do jornalismo português, este fica melhor. Que o dia vos arrase de bom. Bom dia! (url)
JORNALISTAS E PODER POLÍTICO
Naquilo que é certamente um eco – longínquo que seja, mas ignorado – de um pedido que aqui fiz para que se conhecessem os casos de jornalistas que circulam entre as redacções e a assessoria política, o Público de hoje tem o mérito de fazer um primeiro dossier sobre o assunto. A lista publicada é uma contribuição para a transparência, mas, pela sua exiguidade, está longe de dar uma ideia da dimensão da circulação entre jornalistas e gabinetes políticos. Pode inclusive induzir em erro os leitores dando-lhes a entender que são apenas aqueles os casos existentes. As entrevistas a “académicos” de jornalismo, uma das quais ela própria antiga assessora de Mário Soares, dão do problema uma visão benévola e complacente. Esta benevolência e complacência nunca existiria com os políticos e ainda bem. Há nas respostas a confusão entre duas situações: uma é a actividade política legítima de qualquer jornalista, incluindo o exercício de funções como autarca, deputado, dirigente partidário, etc. Não há em si nenhuma objecção a esta liberdade e capacidade cívica. Outra coisa é a utilização dos conhecimentos profissionais, e não necessariamente os mais “limpos”, como todos sabem e preferem ignorar, para exercer funções na zona mais cinzenta e menos escrutinada da comunicação social: a produção de notícias, o agenda setting, os truques interiores ao discurso comunicacional e sua eficácia. Há um aspecto claramente minimizado nos comentários –o da alta confiança política que tal função presume. A assessoria política de um jornalista coloca-o no âmago dos mecanismos do poder como ele hoje é exercido: no centro das fugas de informação, da gestão de “fontes anónimas”, da manipulação das notícias. Os “académicos” ignoraram este aspecto, mas é muito positivo que a discussão tenha começado. (url)
© José Pacheco Pereira
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