| ABRUPTO |
semper idem Ano XIII ...M'ESPANTO ÀS VEZES , OUTRAS M'AVERGONHO ... (Sá de Miranda) _________________ correio para jppereira@gmail.com _________________
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27.9.03
SOBRE A “MARCHA BRANCA”: O POVO CONTRA MONTESQUIEU
Em princípios de 1998, assisti a uma “marcha branca” na Bélgica, no apogeu do processo Dutroux e escrevi um artigo no Diário de Notícias, intitulado “O povo contra Montesquieu", que aqui reproduzo parcialmente por me parecer oportuno.
“Era uma manifestação popular, o que é pouco comum. Desde que a fórmula do cortejo de protesto pacífico se estabilizou como um hábito democrático - e isso aconteceu só no nosso século com as primeiras manifestações ordeiras dos social-democratas alemães em Berlim, que não degeneraram em batalhas campais com a polícia - que as manifestações são um instrumento de acção política, dependentes de lógicas partidárias ou inerentes ao processo político. É verdade que também havia organizações que circulavam à volta do cortejo - os restos do P. C. Belga, um grupo trotsquista, uns ecologistas - mas eram marginais. Tinham pouco a ver com o que se estava a passar, eram apenas parasitárias. Não é sequer o número de pessoas que conta, mas a forma, o carácter, o conteúdo. Aquela longa fila de homens, mulheres e crianças, muitas famílias inteiras, dessas novas famílias europeias muito pequenas, não tinha nenhum padrão especial que a desviasse de uma representação equilibrada da sociedade belga. Havia belgas, francófonos e flamengos, havia emigrantes, velhos e jovens, crianças e adolescentes. Só havia um traço de identidade - não parecia haver pessoas abastadas. Eram trabalhadores, funcionários, empregadas, donas de casa, vestidos casualmente de blusões e camisolas, poucos fatos e gravatas. Naquela enorme multidão estava uma Bélgica um pouco mais pobre do que a fauna eurocrata e dos negócios que se encontra habitualmente no centro de Bruxelas, misturada com os turistas. Havia muita gente que viera de comboio e autocarro dos subúrbios da cidade, e os pontos de reunião da manifestação estavam associados aos transportes públicos. Aquelas pessoas andam de metro, de autocarro, de comboio. Depois, quase que não havia cartazes e os poucos que havia tinham sido feitos por aqueles que os traziam. Raramente tinham o tamanho de um vulgar cartaz de anúncio de um concerto de rock e estavam perdidos no meio de manifestantes de mãos nuas, sem autocolantes, sem símbolos, sem nada. Não havia palavras de ordem, ninguém gritava nada - o silêncio "contra o silêncio". Os organizadores desta marcha são os comités ad hoc que se criaram à volta das famílias das crianças assassinadas. Quase que não tiveram meios de divulgar a manifestação e consideravam-na um sucesso se aparecessem 10.000 pessoas. Apareceu o triplo. Há um ano, o número de manifestantes era muito maior mas isso podia compreender-se pela emoção da tragédia dos assassinatos. Hoje há menos pessoas, mas são as mesmas e ainda são muitas, e não há razão nenhuma para não se perceber que elas comunicam invisivelmente com as muitas centenas de milhares que não saíram à rua. Longe da emoção causada pelas revelações criminosas, a mesmo revolta continua. Popular. Silenciosa. Forte. O que querem os manifestantes? Não o dizem com clareza, mas percebe-se: querem que alguém mande - porque é suposto ter a obrigação de mandar -, mande nos juízes e nas polícias para acabar com os crimes. Que alguém faça não só justiça, mas também garanta reparação, reparação para as famílias, reparação para todos os que ali estão. Que todos, a começar pelas famílias, sejam "parte" nesse processo de justiça, tenham "voz", a única que se considera legítima e pura, porque vem da perda e do sofrimento. Que haja justiça vinda de quem sofre e não de quem julga, porque se suspeita que quem julga está mais próximo do criminoso do que da vítima. O pretexto são os crimes da rede pedófila de Dutroux , mas o alvo é a percepção de que eles só foram possíveis por uma rede de cumplicidades que envolve políticos, polícias, e ... juízes. É contra uma conspiração pressentida que se revoltam os manifestantes, uma conspiração dos poderosos contra o povo comum, que oculta crimes tão terríveis como a violação e o assassinato de crianças, através de uma "lei do silêncio", que funciona como uma lei do poder, a favor do poder. Sendo assim a manifestação é tanto popular como subversiva, no verdadeiro sentido da palavra. O que está em causa é a ordem, a ordem democrática assente na divisão dos poderes. Os manifestantes querem que alguém - e esse alguém só pode ser um governante, um político ou o "povo" nas ruas - interfira no processo judicial, dê ordens a um juiz. Ora isto viola claramente a separação clássica entre os poderes, do mesmo modo como há alguns anos os apelos aos juizes italianos para "governarem" a Itália, contra a mafia e a corrupção. (…) Os manifestantes belgas traduzem um mal-estar profundo que também é nosso. Na Bélgica é contra os juízes, que são percebidos como "políticos" como outros quaisquer. Mas a verdadeira revolta é contra o poder e os poderosos, feita por um povo comum que não acredita nos partidos ou nos sindicatos para exprimir e canalizar essa revolta. Não é um problema novo, mas conhece hoje novas formas.” (url)
PAPEL HIGIÉNICO E LARANJAS PODRES, O MESMO COMBATE!
O que disse sobre as peripécias dos académicos conimbricenses, que se sentem representados pelo papel higiénico, repito sobre os lisboetas que também andaram pelo mesmo papel e acrescentaram laranjas podres à lista, demonstrando uma imaginação poderosa. Agora a surpresa lisboeta é ver estudantes do Técnico de “traje académico”, ou seja, como uma espécie de seminaristas retardados no tempo. Que os de Coimbra andem de farda, já estamos habituados, agora em Lisboa, onde nunca houve tal “tradição”, o que é que se passa? Há algum vírus no ar? A poluição já é assim tão grave? Será dos shots? A culpa é do absinto? Não sei porquê, mas há alguma coisa que me diz ao ouvido, algum grilo transviado, que deve haver um traço esquisito num engenheiro de sistemas, num físico nuclear, num bioquímico, que não se importa de andar na rua, em público (que horror!), vestido de “estudante” oitocentista, na altura do varapau, das rixas, das esperas, dos bordéis canalhas, da contínua bebedeira, e, ainda pior horror, da poesia ultra-romântica . Mas deve ser de mim, que soçobro sentimentalmente à ideia positivista do progresso, mesmo apesar das minhas resistências filosóficas. (url)
MARCHA “BRANCA”
Não vou, não concordo. Cada um é livre de se manifestar como entende, mas este tipo de iniciativas unanimistas são um poderoso caldo de cultura para o populismo. É um caminho perigoso. (url)
EARLY MORNING BLOGS 50
Micro-causas: enfileiro-me, disciplinado, no apelo do Almocreve das Petas a propósito dos livros-catálogos: “Saiu o novíssimo Boletim Bibliográfico do Livreiro-Antiquário Luís Burnay - Setembro 2003 -, com 508 peças estimadas, há muito esgotadas ou raras. Como curiosidade o livreiro-antiquário acrescenta à listagem bibliográfica um "desabafo" aos clientes e amigos, bem pertinente, e que não é normal aparecer em Catálogos. Trata-se de uma referência à política de franquia existente, onde o livro-catálogo é penalizado face ao livro tout court. Essa estranha hermenêutica dos CTT em torno do conceito de livro, considerando um livro-catálogo um não-livro, desvela não só uma incomensurável blague cultural mas aponta, também, para o anedotário nacional onde o desnorte da politica cultural legislativa é total. Refere, ainda, e neste assunto não está só, o atraso constante e sistemático da distribuição dos correios, que impede uma prática gestionária contínua e eficaz. Nós compreendemos tudo isso. Ou não estivéssemos em Portugal. “ Early morning songs: Nuno Lima envia uma grande canção de Billie Holiday e cita o Edu Lobo sobre o canto de Billie "não tem técnica, não tem truque nenhum, é emoção pura". Que poderá ser mais bluesy?” Good Morning Heartache "Good morning heartache you old lonely sight Good morning heartache thought we said goodbye last night I've turned and tossed until it seems you have gone But here you are with the dawn Wish I'd forget you but you're here to stay It seems I met you when my love went away My every day I start by saying to you Good morning heartache What's new? Stop haunting me now Can't shake you nohow Just leave me alone I 've got those Monday blues straight through Sunday blues Good morning heartache here we go again Good morning heartache you're the one who knew me when Might as well get used to you hangin' round Good Morning heartache Sit down Stop haunting me now can't shake you nohow just leave me alone I've got those Monday blues straight through Sunday blues Good morning heartache here we go again Good Morning Heartache you're the one who knew me when Might as well get used to you hangin' round Good Morning Heartache Sit down." André Carvalho manda-me a primeira letra em português de canções matinais: a Letra da me Tempo Perdido, do grupo brasileiro Legião Urbana: Tempo Perdido "Todos os dias quando acordo, Não tenho mais o tempo que passou Mas tenho muito tempo: Temos todo o tempo do mundo. Todos os dias antes de dormir, Lembro e esqueço como foi o dia: "Sempre em frente, Não temos tempo a perder". Nosso suor sagrado É bem mais belo que esse sangue amargo E tão sério E selvagem. Veja o sol dessa manhã tão cinza: A tempestade que chega é da cor dos teus olhos castanhos. Então me abraça forte e me diz mais uma vez Que já estamos distantes de tudo: Temos nosso próprio tempo. Não tenho medo do escuro, mas deixe as luzes acesas agora. O que foi escondido é o que se escondeu E o que foi prometido, ninguém prometeu. Nem foi tempo perdido; Somos tão jovens.” Pedro Gaspar chama a atenção para a Christopher Tower Poetry Competition da Universidade de Oxford, cujo tema é, nem mais nem menos, do que “early morning”! Amanhã há mais. Bom dia. (url)
IMAGENS
de ontem incluíam um “guerra e paz” , um óleo de Lawrence Ferlinghetti, cuja reprodução comprei numa memorável (para mim) visita à City Light Books em S. Francisco. A outra imagem, que parece um Matisse e que está mesmo aqui em baixo, é de uma pintura de Helen Frankenthaler de 1971, chama-se “Captain’s Paradise” e está num museu de Columbus, Ohio. Hoje estamos em plena Americana. (url) 26.9.03
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EXAGEROS
A história do helicóptero é típica dos hábitos nacionais. Quantas histórias idênticas se passam por todo o lado, nas empresas, nas repartições, nas escolas, nos hospitais, etc, etc.., típicas de um à vontade no uso dos bens públicos ou colectivos, só que sem o novo riquismo do helicóptero? O acto é em si reprovável, mas pouco mais mereceria que um inquérito circunscrito e assunção de responsabilidades, em particular, com a reposição dos gastos indevidos. Não justifica certamente a histeria que está a ser feita pela comunicação social e muito menos o rolar indiscriminado de cabeças, apenas por excesso de zelo face à pressão mediática. Mas como é tudo povo pequeno, gente desconhecida, carne para canhão, pode-se encher o peito … Uma das razões porque a comunicação social (neste caso acompanhei a SIC e a RTP) , apesar do seu moralismo arrogante, tem pequeno papel na luta contra os abusos e a corrupção é que é incapaz de manter a proporção, o equilibro. Os verdadeiros abusadores agradecem. (url)
MISSÃO IMPOSSÍVEL *
(Carta aberta a António Lobo Xavier sobre a “coerência”) Meu caro António 1. Se há artigo que eu sabia ia ser escrito, como uma espécie de pre-emptive strike, era este.....Não me enganei, nem quanto ao autor, nem quanto ao conteúdo, nem quanto ao papel político que o artigo pretende ter. Só uma nota sobre o autor: António Lobo Xavier (ALX) é o único dirigente do PP que manteve a sua posição coerente quanto à Europa, nestes últimos dez anos. ALX presta um serviço ao PP chegando-se à frente, querendo que o debate seja com ele, porque é o único que o pode travar. 2. Eu aceito o repto, mas não é com o ALX que discuto, é com o PP, com o PP de Paulo Portas, que quererá, sob o manto diáfano da "eurocalmice", (uma completa e absoluta inexistência conceptual, destinada a encobrir o mais incomodado dos silêncios), escapar ao escrutínio da viragem a 180º, e ao seu significado político. Também sei que este artigo tem muito a ver com as nossas discussões e com o que o António sabia que eu iria dizer ou escrever. "Eu sei que tu sabes que eu sei que tu sabes" é daquelas coisas que, na política portuguesa, são inescapáveis, tanto mais que o país é pequeno e nós, como discutimos há muitos anos no Flashback e somos amigos, "sabemos". 3. Vamos à "coerência". Tudo estaria bem se fosse assim, mas não é. Bem pelo contrário. De facto, a aliança eleitoral que se anuncia entre PP e PSD nas europeias só tem uma lógica política : a manutenção da coligação governamental. Nada tem a ver com a Europa , nem com as posições de cada partido. Mais valia que o PP dissesse claramente que é assim e admitisse que, para permanecer na coligação e no governo e para não contar os votos, abandonou as posições "euro-excitadas". O PP não evoluiu - não existem quaisquer traços sérios dessa evolução - mudou. E mudou de forma escondida e envergonhada, não querendo admitir que errou antes ou erra agora. 4. O problema é que as próximas eleições europeias vão travar-se num terreno de opções políticas decisivas, sem ambiguidades e que exigem posições claras sobre matérias tão controversas como a Constituição europeia. Seria inconcebível que o PSD e, em particular, o PP, pudessem travar uma campanha eleitoral sem, por exemplo, dizerem se são a favor ou contra o projecto de Constituição, e isso significa pronunciar-se sobre mil e uma matérias mais que espinhosas... para o PP. Para além disso, as próximas eleições dar-se-ão num contexto, ou de simultaneidade, ou de proximidade, com um eventual referendo sobre a Constituição e poderão acompanhar um processo de revisão constitucional por ela motivado. 5. Para o PSD, também existem dificuldades, porque no interior do partido há quem pense de modo muito diferente sobre estas matérias e não só de agora. Mas, seja qual for a definição a haver no PSD, ela não será traumática, até porque o partido sempre foi europeísta e acompanhou o processo de integração europeia sobre o qual há um certo consenso. Mas ALX não se iluda quanto às posições do PSD, reflexo das opções do governo, porque estas estão cada vez mais alinhadas com as do Partido Popular Europeu (PPE) . O PP, para acompanhar o PSD, terá que mudar do preto para o branco. E não terá que deitar fora velhas posições, como ALX sugere, do "princípio dos anos noventa", mas de 1999 e 2000. Veja-se a última campanha eleitoral para as europeias, completamente "euro-excitada", para se perceber o que mudou. 6. Nalgumas entrevistas recentes, dirigentes do PP têm apresentado a minha posição como sendo característica de uma evolução política semelhante à que estariam a ter eles próprios. O PSD, representado por mim, teria evoluído para um “euro-realismo” e para longe do federalismo do passado, e, movendo-se em sentido contrário, encontrar-se-iam com o PSD a meio desse caminho. Isto é obviamente uma ficção política, embora eu veja, com ironia, o meu papel de “unificador”. As minhas posições (ainda esta semana votei contra a moção do PE sobre a Constituição europeia) não são significativas da evolução que se está a dar no PSD, tanto quanto se pode perceber no plano governativo, embora sejam, no meu entender, fiéis ao programa de candidatura de 1999 com que fui eleito. Em 1999, Paulo Portas achava esse programa federalista. Se esse era federalista, então agora o PP vai-se aliar a um PSD ultra-federalista. 7. Na verdade, nunca as posições oficiais do PSD estiveram tão próximas do federalismo do que estão hoje. Durão Barroso, honra lhe seja feita, nunca escondeu um pendor federalista em matérias europeias e, com excepção da parte sobre o poder institucional, várias vezes se pronunciou favoravelmente ao processo constitucional da Convenção, alinhando aliás as suas posições com as do PPE. Este foi longe no projecto europeu (Constituição, reforço dos poderes do Parlamento Europeu, modelo federal, unificação das políticas europeias em áreas tradicionais de reserva da soberania dos estados, etc.) e considera-se, a justo título, como um dos inspiradores da Constituição europeia e como parte do núcleo mais duro de um processo de integração política, a caminho de uma UE entendida como uma país suis generis. Se, como diz ALX, o PP se aproxima hoje das suas “posições fundacionais”, então os verdadeiros heróis são Freitas do Amaral e Lucas Pires, que sempre representaram esse legado do federalismo do PPE. Ambos tratados como quase traidores a Portugal, e Lucas Pires insultado soezmente na televisão em directo por Paulo Portas. 8. Meu caro António, as coisas são como são e cada um faz o seu caminho. O meu é cada vez mais difícil, e, provavelmente, custará o meu lugar no PE. Acho a coisa mais normal do mundo deixar de exercer funções políticas quando não se concorda com a política. Mas preocupa-me o caminho que se está a seguir. A "Europa" que vamos discutir em 2004 não é soft, é hard , as opções demasiado graves para haver confusões. Se há altura em que não se pode ficar “calmo” com a Europa é agora. Uma das muitas objecções que se podem ter a uma aliança PSD-PP, é que ela poderá gerar, num momento decisivo, um espaço de ambiguidade mau para os interesses de Portugal e para o projecto europeu. Um abraço do José Pacheco Pereira * Este texto será publicado amanhã no Público. Depois dessa publicação, substituirei o texto por uma ligação, dado que ele é muito extenso para o Abrupto. (url)
MISSÃO IMPOSSÍVEL
estará em linha daqui a uma ou duas horas, se entretanto não se agravarem os problemas de comunicação que tenho tido. O correio electrónico da Telepac está um caos, não sei se é local ou global. Vamos ver. (url) (url) (url) 25.9.03
MISSÃO IMPOSSÍVEL
será o título de uma carta aberta ao António Lobo Xavier, comentando o seu artigo no Público de ontem, intitulado " A propósito de coerência", sobre a evolução das posições europeias do PP. O texto será colocado no Abrupto, talvez amanhã. (url)
IMAGEM
![]() de ontem é de John Singer Sargent, um dos meus pintores de estimação. Foi para uma "nota chekoviana", porque nela passam as damas pelo Jardim do Luxemburgo, mais sofisticadas que as raparigas e as jovens senhoras dos contos de Chekov, mas feitas da mesma massa de elegância e de trivialidade. Mil romances foram sobre elas escritos, não é verdade, madame Bovary, não é verdade, Luísa, não é verdade, Anna Sergeyevna, a "senhora com o cão de regaço"? (url)
EARLY MORNING BLOGS 49
Como o pensamento, as canções e os poemas matinais vão dar uns aos outros. É o que faz a dificuldade do software do MyLifeBits, é programar esta errância. A Rita Maltez lembrou-se de uma noite em Shakespeare que não queria acabar, e de uma manhã que se anuncia por pássaros (não é verdade que tudo se anuncia por pássaros?). "JULIET Wilt thou be gone? it is not yet near day: It was the nightingale, and not the lark, That pierced the fearful hollow of thine ear; Nightly she sings on yon pomegranate-tree: Believe me, love, it was the nightingale. ROMEO It was the lark, the herald of the morn, No nightingale: look, love, what envious streaks Do lace the severing clouds in yonder east: Night's candles are burnt out, and jocund day Stands tiptoe on the misty mountain tops. I must be gone and live, or stay and die." Bom dia. (url)
O ESTADO PROVIDÊNCIA VISTO PELOS "DE BAIXO"
Um momento crítico em pequenas comunidades deprimidas, onde há um elevado número de pessoas a receberem o RMG, e outros subsídios sociais, é quando se conhecem nas escolas as listas dos subsídios escolares - livros , refeições, etc - e a respectiva classificação do agregado familiar, para poder ser considerado para atribuição desses apoios. Como todos se conhecem uns aos outros e sabem quem trabalha, quem tem dificuldades e quem as não tem, quem "declara" e quem não "declara", quem tem casa com piscina e recebe subsídio, quem trabalha por fora (canalizadores , pintores, etc.) e não paga impostos, quem está desempregado e quem é um falso desempregado, um vento de revolta passa pelos "de baixo". O Estado Providência é muito mais agitado em baixo do que se pensa em cima. (url) 24.9.03
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COMPETIÇÕES, TACO A TACO, VITÓRIAS E DERROTAS, SOBE E DESCE, PINGUE-PONGUE, PARADA E RESPOSTA, E O MAIS QUE A FÉRTIL IMAGINAÇÃO DESPORTIV0-JORNALÍSTICA INVENTARÁ
não contam comigo. Ficam a falar sozinhos. (url)
EARLY MORNING BLOGS / SONGS 48
Os leitores do Abrupto têm passado dos Early Morning Blues para outras músicas sobre a manhã, sobre acordar de manhã, sobre o mundo visto pelos primeiros olhares da manhã. Não é brilhante a manhã vista assim, ou é o que se perde dia a dia , ou é o que nos espera, ou é o que nos falta. Mas, daqui a pouco, temos uma verdadeira antologia da manhã. Existe? Já alguém fez uma antologia sobre textos matinais? É o que os leitores do Abrupto estão a fazer. Jorge Camões refere , através da letra dos Doors, "Summer's almost gone", o fim das manhãs de de Verão : "Summer's almost gone Almost gone Yeah, it's almost gone Where will we be When the summer's gone? Morning found us calmly unaware Noon burn gold into our hair At night, we swim the laughin' sea When summer's gone Where will we be Where will we be Where will we be Morning found us calmly unaware Noon burn gold into our hair At night, we swim the laughin' sea When summer's gone Where will we be Summer's almost gone Summer's almost gone We had some good times But they're gone The winter's comin' on Summer's almost gone " E acrescenta "um pequeno apontamento depressivo" . também dos Doors, dos Roadhouse blues, "Well, I woke up this morning, I got myself a beer Well, I woke up this morning, and I got myself a beer The future's uncertain, and the end is always near " Nobre Grenho envia a letra "me or him" do album Radio KAOS de Roger Waters.: "You wake up in the morning, get something for the pot Wonder why the sun makes the rocks feel hot Draw on the walls, eat, get laid Back in the good old days Then some damn fool invents the wheel Listen to the whitewalls squeal You spend all day looking for a parking spot Nothing for the heart, nothing for the pot Benny turned the dial on his Short Wave radio Oh how he wanted to talk to the people, he wanted his own show Tune in Moscow. Tune in New York Listen tot the Welsh kid talk Communicating like in the good old days Forgive me father for I have sinned It was either me or him And a voice said Benny You fucked the whole thing up Benny your time is up Your time is up Benny turned the dial on his Short Wave radio He wanted to talk to the people He wanted his own show Tune in Moscow. Tune in New York Listen to the Welsh kid talk communicating Like in the good old days Forgive me Father Welsh Policeman: Mobile One Two to Central. For I have sinned Welsh Policeman: We have a multiple on the A465 between Cwmbran and Cylgoch. Father it was either me or him. Father can we turn back the clock? Welsh Policeman: Ambulance, over. I never meant to drop the concrete block. Welsh Policeman: Roger central, over and out. Benny turned the dial on his Short Wave radio He wanted to talk to the people He wanted his own show Tune in Moscow. Tune in New York Listen to the Welsh kid talk Just like in the good old days The good old days". * CORREIO : Recebido em condições, atrasado como de costume, a ser respondido parcialmente mais para o fim de semana. (url) 23.9.03
HISTÓRIA NATURAL DAS NUVENS
Qualquer voador qualificado sabe tudo sobre nuvens. A maioria das vezes olha-as de cima, o que é bastante tranquilizador, outras vezes, quando sobe e quando desce, passa-lhes pelo meio, o que é sempre um pouco agitado. O pior de tudo é quando tem que lhes passar pelo meio estando em cima, a 32000 pés, e então os pilotos, que têm aquele hábito tecnocrático de classificar rigorosamente as coisas, lá pedem para apertar os cintos devido à `"light turbulence", nenhum problema, "some turbulence", ou qualquer variante sem o "light", que já é um pouco mais complicada. Estudar as nuvens tem imensas vantagens para o voador, para evitar levar com a explosão do almoço ou do líquido do copo em cima. A história da "ciência" das nuvens é recente e está descrita num artigo, com um título apetecível, de Graeme L. Stephens , "The Useful Pursuit of Shadows" no American Scientist de Setembro-Outubro. Li-o, enquanto passavam debaixo de mim os ameaçadores cumulo-nimbus que inundaram o Languedoc em meia dúzia de minutos. Quem os vê erguerem-se ameaçadoramente na vertical tem poucas dúvidas sobre o seu poder . Podem ser "sombras", mas são sombras tão compactas como o betão. (url)
"O ARMÁRIO DA SABEDORIA"
Talvez, de todos estes livros, o que mais curiosidade me suscitou foi um de Houari Touati, L'Armoire à Sagesse. Bibliothèques et Collections en Islam, Paris, Aubier, 2003. Na contra-capa, que é o que serve para fazer recensões quando ainda não se leu o livro, vem uma história exemplar do "entrelaçar de civilizações": S. Luís, prisioneiro no Egipto quando da sétima cruzada, é convidado a consultar a biblioteca do sultão, e o fascínio dos "livros", manuscritos, iluminuras, caligrafias, que viu nesse "armário de sabedoria" levou-o, de regresso a França, a criar uma biblioteca. (url)
EARLY MORNING BLOGS / BOOKS 47
Hoje, antes dos blogues, livros. Comprei vários livros bem interessantes, que só permitem elogios à edição francesa. Um, que seria bom traduzir de imediato para português, é uma série de entrevistas de Jacques Le Goff, Le Dieu du Moyen Âge , Paris , Bayard, 2003. Embora seja sobre Deus, explica porque é que esse Deus eram "deuses", compreendendo a Trindade e a Virgem Maria. Depois, a tradução do segundo volume da obra monumental de Alexandre Soljénitsyne, Deux Siècles Ensemble 1917-1972 - Juifs et Russes pendant la Période Soviétique, Paris , Fayard, 2003. Não foram só os alemães que tiveram um sério "problema judeu", foram também os russos, que matavam os seus judeus de forma mais primitiva e sem a eficácia das tecnologias e da burocracia alemã. Só que uma parte dos judeus russos respondeu tornando-se revolucionária, tendo um papel decisivo no comunismo soviético, dando bons revolucionários, bons intelectuais, bons polícias e bons torcionários, uma combinação mais comum do que se pensa, para depois caírem na máquina trituradora de Estaline. (url) 22.9.03
IMAGEM
de ontem era um pobre e inadequado "caçador de domingo", em 1848, um dos anos das revoluções , de Carl Spitzweg. (url)
EARLY MORNING BLOGS 46
Sobre as nuvens. Ontem, de uma maneira, hoje, de outra. Eu sei que voar é uma actividade contra natura para os humanos. (url) 21.9.03
OBJECTOS EM EXTINÇÃO (Depois numero)
A SIC passa uns documentários sobre a natureza da BBC, que tem o sabor dos antigos filmes que passavam nos cinemas. Eram projectados na primeira parte, antes do intervalo, que precedia o filme principal. As vozes portuguesas eram magníficas e esse som prendia-se de tal modo às imagens que não as distingo. Hoje, não sei quem era a voz que acompanhava as imagens (“Sem o salmão, poucas seriam as águias pousadas nestas árvores…” ) , mas era a mesma, o mesmo som sem tempo. (url)
ANATOMIA DE UM SARILHO
Meto-me hoje no que pode ser um sarilho monumental. Desde fins de Junho que estava combinado com a SIC (primeiro com a SIC Notícias e depois com a SIC) um pequeno espaço sobre “produtos”. “Produtos” dos media, da comunicação, da política, da cultura. etc. Como é meu hábito, não divulguei o que se passava e a SIC também não o fez, pelo que só agora se soube. Assisti, em seguida, a algumas notícias sobre as peripécias dos comentadores da televisão, com alguma íntima ironia.
Ao aceitar fazê-lo no noticiário de domingo, por sugestão da SIC , é inevitável que tal pareça um confronto com Marcelo Rebelo de Sousa na TVI , que domina indiscutivelmente esse espaço da programação. A sua fórmula, sejam quais forem as reservas que se tenham, tem sucesso por mérito próprio e definiu um certo standard do comentário político. Para tudo o que se pareça com comentário político, este é o espaço mais armadilhado da televisão portuguesa. Não tenho qualquer intenção competitiva, por dois motivos principais. Por um lado, porque, naquele esquema, dificilmente alguém fará melhor, muito menos eu. Marcelo é, ao mesmo tempo, o criador e o melhor executor da sua criação. É um comunicador nato e usa os mecanismos apropriados. Pode discutir-se o conteúdo, mas não o domínio da fórmula que é total e tailor made. O segundo motivo é que o que quero fazer é diferente. Não é completamente diferente, mas aponta noutro sentido. É mais parecido com o que pretendi e pretendo fazer com o Abrupto. No entanto, não beneficio aqui da vantagem do Flashback e de Marcelo, que é o reconhecimento pelos ouvintes e telespectadores do modelo e da habituação, o que é uma enorme vantagem da continuidade e da repetição. Por isso, vai ser árduo ao princípio, e pode ficar sempre assim. Não faço nenhuma verdadeira distinção de fundo, embora as haja de método e de tom, entre o que escrevo nos jornais, escrevo no blogue, digo na rádio ou na televisão. A mim o que me interessa é argumentar, persuadir e se possível convencer, porque não sou indiferente ao que penso e àquilo sobre que tenho opiniões, não sou indiferente aos resultados das palavras na acção, considero que há um sentido cívico neste tipo de intervenções. Vamos ver se resulta. (url)
EARLY MORNING BLOGS / BLUES 45
No Artista Anónimo , citações interessantes sobre o que os blogues estão a fazer às pesquisas do Google. Os efeitos perversos a mudar o mundo, como quase sempre acontece. Não é o que nós desejamos que se realiza, mas o ruído que produzimos. Vem em Weber: a maioria dos nossos actos tem o efeito contrário da sua intenção. Pensando bem, teria que ser assim, porque os nosos actos são simples na sua intencionalidade e o mundo demasiado complexo para a manter. Logo à noite vou provar desta medicina. Numa nota já antiga e esquecida, falei de uma espécie de sonho à Blade Runner, com uma planície cheia de casas e, de cada casa, um fio de voz solitário, direito para o céu como um fumo de lareira. É esse fumo que está entupir o Google. * Nunca me esquecer , nunca – é o objectivo do MyLifeBits. A Isabel do monologo usa o blogue como uma espécie de MyLifeBits: “Domingo, Setembro 21, 2003 o que é que eu fiz no dia 20 de Setembro de 1990? já não me lembro se tivesse um blog nessa altura, ia ver o que escrevi e tentava o recall a partir daí percebem para que é que eu fiz o blog? é uma estratégia de memória a longo prazo...” * Mais “early morning” tudo. Blues, country, e “early morning” de todo o género. Parece que ninguém se sente muito bem pela manhã nas músicas. De RR esta letra dos “Alabama 3, álbum Exile on Coldharbour Lane, faixa Woke Up This Morning: (ouvi-la é compreendê-la. assim fica seca e vazia)” : "You woke up this morning The world turned upside down, Things ain't been the same Since the blues walked into town. You've got that shotgun shine. Born under a bad sign. With a blue moon in your eyes." Do Paulo Azevedo este 'Woke Up This Morning' (1971) muito animado dos Nazareth: "Woke up this morning My dog was dead Someone disliked him And shot him through the head I woke up this morning And my cat had died I'm gonna miss her Sat down and cried Came home this evening My hog was gone The people here don't like me I think I'll soon move on And now somethin's happened That would make a saint frown I turned my back and My house burned down Woke up this morning My dog was dead Someone disliked him And shot him through the head I woke up this morning And my cat had died Don't you know I'm gonna miss her Sat down and cried..." Do António que lembra “a não menos célebre canção country (ou folk?) "Early Morning Rain" da autoria de um certo Gordon Lightfoot, igualmente autor do célebre standard "If I Could Read Your Mind". "Early Morning Rain" foi um grande êxito em 68 ou 69, se bem me lembro, pelos Peter,Paul & Mary. Há também uma versão do Dylan, no album "Self Portrait" editado em 1970.” "In the early morning rain, with a dollar in my hand. With an aching in my heart, and my pockets full of sand. I'm a long way from home; Lord, I miss my loved ones so. In the early morning rain, with no place to go. Out on runway number nine: big 707 set to go. An' I'm stuck here in the grass, with a pain that ever grows. Now the liquor tasted good, and the women all were fast. Well now, there she goes my friend: she'll be rolling down at last. Hear the mighty engines roar; see the silver wing on high. She's away and westward bound; far above the clouds she'll fly, Where the mornin' rain don't fall, and the sun always shines. She'll be flying over my home in about three hours time. This old airport's got me down; it's no earthly good to me. An' I'm stuck here on the ground as cold and drunk as I can be. You can't jump a jet plane like you can a freight train. So I'd best be on my way, in the early mornin' rain. You can't jump a jet plane like you can a freight train. So I'd best be on my way, in the early mornin' rain." * Bom, já são horas do brunch. Uma bruma outunal pousa sobre os campos. Bom dia. (url)
IMAGENS
de ontem, um “pintor e um rapaz” (1834) de Thomas Fearnley, que está em Cambridge, e a reconhecível “gruta azul” de Capri pintada por Heinrich Jakob Fried em 1835. Dois quadros quase feitos simultaneamente. Coincidências. (url)
© José Pacheco Pereira
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