| ABRUPTO |
semper idem Ano XIII ...M'ESPANTO ÀS VEZES , OUTRAS M'AVERGONHO ... (Sá de Miranda) _________________ correio para jppereira@gmail.com _________________
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21.6.08
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hirugane ya waka take soyogu yama zutai Sinos da tarde — Na passagem da montanha Tremula o bambu novo. (Jôsô, tradução de Edson Kenji Iura) (url) 20.6.08
COISAS DA SÁBADO: A EUROPA TEM TODAS AS SAÍDAS ![]() Deixa o “não” irlandês a Europa sem saída? É disso que nos querem convencer, também por razões que ninguém põe preto no branco no papel. O que fica sem saída é o projecto de instituir um esquema de poder interior na UE que sirva a França e a Alemanha e que assegure determinadas políticas, usando as maiorias nas votações que antes eram por unanimidade. Porque se não for para isto, há muita e muita coisa que se pode fazer com os Tratados actuais, haja vontade política para a fazer e esforço de negociação. Foi uma Europa de “pequenos passos” que sempre teve sucesso, não a de passos de gigante com pés de barro que é o caminho falhado dos últimos dez anos. Falhado. Falhado. (url) (url) COISAS DA SÁBADO: OS ÚNICOS EUROPEUS QUE PUDERAM VOTAR DISSERAM NÃO ![]() O Tratado de Lisboa é uma versão da Constituição Europeia, que não ousa dizer o seu nome. Foi feito disfarçadamente para parecer tão complicado que não lembra o original. Está cheio de truques e de subterfúgios. No ano passado só houve um fio condutor na preparação do novo tratado, e esse fio condutor foi usar todos os artifícios inclusive o dolo, a pressão, a chantagem, para evitar que o Tratado fosse a votos em qualquer sítio na Europa. Sobrava a arcaica Irlanda que ainda tinha a obrigação referendária na sua Constituição. Mas não devia haver problema, como se atreveria esse povo de beatos, freiras, proto-nazis, bêbados, brigões, e comedores de batata, a por em causa o projecto iluminista do nosso tempo, a Europa? Se tivessem lido Joyce, Yeats ou J. M. Synge saberiam que eles não são de fiar. Agora querem-nos expulsar da Europa, querem tornar um fardo para o governo irlandês o voto democrático dos seus concidadãos e dizem-lhe com arrogância: consertem lá o brinquedo senão vamos brincar para outro lado. Em Portugal também isto foi dito, sem sequer o temor de perceber que esta violência verbal ressabiada ter sido apenas dirigida a um pequeno país e nunca ter sido usada para, por exemplo, a França que votou um sonoro “não” à refulgente Constituição. Quando do “não” na Holanda e na França ninguém disse aos dois países para não empecilharem a Europa e saírem pela porta da rua da União. (url) (url) COISAS DA SÁBADO: O DOLO ![]() A palavra é usada pelos juristas e significa má fé, actuação com intenção de enganar, de defraudar, de induzir o outro em erro. Foi o dolo deste Tratado de Lisboa que foi recusado pelos irlandeses. É a crescente sensação de que estão a ser enganados, de que estão a ser usurpados de um poder qualquer, por engano e conduta sub-reptícia, que levará os povos europeus, seja na Suécia, seja na Itália, seja no Reino Unido, seja na França, a “nãos” sucessivos a qualquer Tratado europeu que seja feito com as habilidades com que este foi feito. Os irlandeses disseram “não” por eles e por todos os europeus. Os irlandeses disseram “não” nas urnas a uma Europa a que só se pode dizer “sim”. (url) NUNCA É TARDE PARA APRENDER: AS PRIMEIRAS PALAVRAS (3) Frederico Lourenço (Organização, tradução e notas), Poesia Grega de Álcman a Teócrito, Lisboa, Livros Cotovia, 2006.É quando escrevem (falam, cantam) sobre o corpo, o amor, o sexo, a velhice, que as palavras gregas parecem mais puras e cristalinas, menos inquinadas por séculos de repetições e variantes, menos poluídas. Elas estão a ser ditas pela primeira vez e têm a força das palavras ditas pela primeira vez. E como já não as podemos dizer nunca mais pela primeira vez, a primeira vez tem a maldição de ser irrepetível. Veja-se Safo em Tecer é Impossível: Doce mãe, não sou capaz de urdir esta trama! Estou subjugadaCatorze palavras e está lá tudo. A rapariga ainda conta à mãe, - deve ser muito nova - , do presente da "esbelta Afrodite". Γλύκεια μᾶτερ, οὔ τοι δύναμαι κρέκην τὸν ἴστον,Frederico Lourenço escolheu "subjugada" na tradução, podia ter escolhido "quebrada", mas a ideia do "jugo" do desejo, no sentido de ter perdido a vontade própria, reforça a perturbação sentida pelo "rapaz". A rapariga já não consegue tecer, mudou de vida. Anacreonte não fala de "jugo" fala de uma "machadada": Como um ferreiro de novo o Amor me golpeouA imagem está de novo muito presa a uma simplicidade quotidiana, a uma cena que foi comum no passado, que quem passasse podia ver: um ferreiro golpeia o ferro em brasa numa bigorna e arrefece-o numa tina de água. Mas a água tornou-se uma "corrente invernosa" e, de novo, sem sair da natureza, - estamos num mundo em que há muito poucas coisas artificiais, para além das roupas, das armas, da cerâmica, de meia dúzia de utensílios - , emerge a perturbação. (Continua, em breve.) (url) 1322 - Wires The widest prairies have electric fences, For though old cattle know they must not stray Young steers are always scenting purer water Not here but anywhere. Beyond the wires Leads them to blunder up against the wires Whose muscle-shredding violence gives no quarter. Young steers become old cattle from that day, Electric limits to their widest senses. (Philip Larkin) (url) (url) 18.6.08
1321 - The Importance of Elsewhere Lonely in Ireland, since it was not home, Strangeness made sense. The salt rebuff of speech, Insisting so on difference, made me welcome: Once that was recognised, we were in touch Their draughty streets, end-on to hills, the faint Archaic smell of dockland, like a stable, The herring-hawker's cry, dwindling, went To prove me separate, not unworkable. Living in England has no such excuse: These are my customs and establishments It would be much more serious to refuse. Here no elsewhere underwrites my existence. (Philip Larkin) (url) 17.6.08
POEIRA DE 17 DE JUNHO
Hoje, há 68 anos, o soldado Joseph Sudden do Auxiliary Military Pioneer Corps nº 761512004, olhava para a costa francesa de St. Nazaire de onde acabava de ser evacuado na confusão que se seguira à ruptura da frente francesa pelos alemães. O navio, o Lancastria, um barco de cruzeiros requisitado para a evacuação, começou a ser atacado por bombardeiros alemães, e Sudden viu a bomba cair e entrar pela chaminé do navio. Sabia que não ia ver mais nada. Com ele morreram cerca de 5000 homens, no maior desastre marítimo da história inglesa. Sudden tinha dito a um companheiro que escapou, que o pai dele tinha trabalhado nos estaleiros do rio Clyde onde o navio fora construído e que o nome do barco era Tyrrhenia. O nome tinha sido mudado porque era complicado para os turistas pronunciarem.O pai de Sudden dissera-lhe que era mau agoiro mudar os nomes das coisas. (url) (url) NUNCA É TARDE PARA APRENDER: AS PRIMEIRAS PALAVRAS (2) ![]() Frederico Lourenço (Organização, tradução e notas), Poesia Grega de Álcman a Teócrito, Lisboa, Livros Cotovia, 2006. Começo por uma sopa de ervilhas. Álcman promete dar a alguém uma trípode, uma grelha ou uma panela de três pernas, e apressa-se a pedir que a ponham ao lume "mas depressa", "cheia de sopa de ervilhas, aquela que Álcman,Homem feliz, só um homem feliz se auto-nomeia de "comilão", sólido, com os pés na terra, esperando cá fora, a ver o sol desaparecer, olhando para a panela de sopa. Os gregos viviam muito fora de casa porque o clima era ameno, Milhões e milhões de homens devem ter tido a mesma sensação de prazer e esta paz interior, esta felicidade simples, de quem "não come coisas finas", continua a ser uma glorificação da paz. Só se come assim uma "sopa de ervilhas" quando não há guerra, nem dentro, nem fora, e o fumo da panela ergue-se no crepúsculo para a mesma paisagem onde passavam as guardadoras das vacas e das cabras que Teócrito colocou no seu "canto bucólico". Em Álcman é tudo mais simples, prazeres simples, vidas simples, gosto da sopa, olhar à volta, maravilhar-se, sentir a maravilha das coisas dentro de si. Achamos que isto é banal, porque pensamos na nossa vida assegurada e certa. Mas a nossa vidinha é só um momento de excepçaõ, porque a brutalidade é a regra. Álcman não precisa de o dizer, sabe-o. Por isso o seu olhar viaja procurando a calma, a paz, e a noite apaziguadora. No Peloponeso, se se olhar em frente vê-se o mar, se se olhar para trás vê-se os cimos. Talvez nessa noite Álcman tenho vindo de novo cá fora ou tenha até dormido ao relento. E descreveu como poucos a noite em que tudo para: "Dormem os píncaros das montanhas e as ravinas,Estamos já tão longe desta relação com a natureza, o olhar ecológico é forma moderna de plastificar a natureza, que deixamos de nos espantar com a noite. Mas a noite é de facto uma estranheza, um momento em que o tempo parece parar, a luz desaparece ou muda, e mesmo as "aves de longas asas" fecham-nas para não perturbar o ar. Que olha o homem quando olha a noite? (Continua.) (url) NUNCA É TARDE PARA APRENDER: AS PRIMEIRAS PALAVRAS (1) Frederico Lourenço (Organização, tradução e notas), Poesia Grega de Álcman a Teócrito, Lisboa, Livros Cotovia, 2006.Há companhias que nunca se perdem. Estão nos livros. Neste, por exemplo, recolhem-se algumas das vozes iniciais que nos fizeram como nós somos, límpidas e eternas. Deixo de parte Píndaro e Teócrito, que já têm teoria e perfeição a mais, e fico-me pelas palavras mais simples, aquelas que pela primeira vez foram ditas neste lado do mundo. Até aqui, no começo, nos iludimos, porque o que lemos hoje nunca foi escrito assim na maioria dos casos. Os poemas foram "partidos" por muitos séculos de esquecimento, que fizeram desaparecer os textos completos e deixaram os fragmentos. Mas, mesmo três mil anos depois, foram escritos ou cantados para gente como nós, ou melhor, para gente como nós quando os sabíamos ouvir. (Continua.) (url) (url) 1320 - Friday Night at the Royal Station Hotel Light spreads darkly downwards from the high Clusters of lights over empty chairs That face each other, coloured differently. Through open doors, the dining-room declares A larger loneliness of knives and glass And silence laid like carpet. A porter reads An unsold evening paper. Hours pass, And all the salesmen have gone back to Leeds, Leaving full ashtrays in the Conference Room. In shoeless corridors, the lights burn. How Isolated, like a fort, it is - The headed paper, made for writing home (If home existed) letters of exile: Now Night comes on. Waves fold behind villages. (Philip Larkin) (url) 16.6.08
POEIRA DE 16 DE JUNHO
Há 127 anos, hoje, não se sabe se morreu Marie Laveau, católica apostólica romana e feiticeira voodoo, em Nova Orleães. Não se sabe se morreu, porque há testemunhos de que apareceu várias vezes depois de morta. Tinha uma filha igual a ela. Dizia-se que era a mesma, mãe e filha, e que bebia um elixir da juventude. Tinha uma serpente chamada Zombi com quem falava. Há quem saiba o que ela lhe dizia. Há quem saiba o que a serpente respondia. Apareceu num filme, Blues Brothers 2000, transformada na Rainha Mousette. Olhava de frente para toda a gente. Falava no francês crioulo da cidade. Jamais di : Fontaine, mo va jamais boi to dolo.
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NUNCA É TARDE PARA APRENDER: O VELHO SOLDADO OLHA PARA O SEU CAVALEIRO DE TRISTE FIGURA (2)
Primeiro, o Quixote "não" é de Cervantes mas sim de Cide Hamete Benengeli, o historiador árabe que escreveu a história original do fidalgo e do escudeiro, entretanto traduzida em castelhano e editada por Cervantes: "Pero yo, que, aunque parezco padre, soy padrastro de Don Quijote." Este mecanismo permite a Cervantes "conversar" à distância com o pressuposto autor original e emendar o Quixote de Cide Hamete pelo seu. Quando, dez anos mais tarde, Cervantes escreveu a segunda parte do Quixote (entretanto já tinha aparecido uma falsa sequela do livro publicada por "Alonso Fernández de Avellaneda"), as personagens principais, Quixote e Sancho Pança, já não se defrontam apenas com os eventos da sua acção, mas com o relato em livro dos acontecimentos originais. Cervantes é aqui de uma novidade absoluta na história literária: colocando as suas personagens, prestes a partirem para novas aventuras, a discutir a verosimilhança de uma narração em livro das suas aventuras anteriores. O longo diálogo do capítulo terceiro, contém a narração original de Cid Hamete, o novo livro entretanto saído (o primeiro Quixote de 1605) e as expectativas do cavaleiro:"Pensativo además quedó don Quijote, esperando al bachiller Carrasco, de quien esperaba oír las nuevas de sí mismo puestas en libro, como había dicho Sancho, y no se podía persuadir a que tal historia hubiese, pues aún no estaba enjuta en la cuchilla de su espada la sangre de los enemigos que había muerto, y ya querían que anduviesen en estampa sus altas caballerías. Con todo eso, imaginó que algún sabio, o ya amigo o enemigo, por arte de encantamento las habrá dado a la estampa: si amigo, para engrandecerlas y levantarlas sobre las más señaladas de caballero andante; si enemigo, para aniquilarlas y ponerlas debajo de las más viles que de algún vil escudero se hubiesen escrito, puesto —decía entre sí— que nunca hazañas de escuderos se escribieron; y cuando fuese verdad que la tal historia hubiese, siendo de caballero andante, por fuerza había de ser grandílocua, alta, insigne, magnífica y verdadera."Como Sancho lhe diz com brutalidade, a história não era "grandílocua, alta, insigne, magnífica", mas era "verdadera", ou seja, nem ele nem Quixote se saiam muito bem: "el vulgo tiene a vuestra merced por grandísimo loco, y a mí por no menos mentecato." Toda a discussão do capítulo III, antecipada no II, com Sansão Carrasco, a nova personagem "intermédia" que faz um papel parecido com o de Sagredo nos diálogos de Galileu, é sobre a verdade, a verdade subjectiva (psicológica, literária) e objectiva (histórica). Sansão tenta contar a Quixote que as suas aventuras são tratadas como peripécias mais ou menos ridículas, e este responde-lhe pela relatividade dos actos humanos, mesmo heróicos. Como de costume, Sancho não deixa pedra sobre pedra: —A lo que yo imagino —dijo don Quijote—, no hay historia humana en el mundo que no tenga sus altibajos, especialmente las que tratan de caballerías, las cuales nunca pueden estar llenas de prósperos sucesos. Quixote não se fica pela "verdad de la historia" e introduz uma moderação, uma fragilidade, que dá uma dimensão humana ao carácter estereotipado dos heróis. Ele sabe que não é perfeito, mas considera que o sentido das suas acções (que efectivamente, e isso é o trágico da história, não têm sentido, são "loucas") exige silêncio sobre as suas fraquezas: "—También pudieran callarlos por equidad —dijo don Quijote—, pues las acciones que ni mudan ni alteran la verdad de la historia no hay para qué escribirlas, si han de redundar en menosprecio del señor de la historia. A fee que no fue tan piadoso Eneas como Virgilio le pinta, ni tan prudente Ulises como le describe Homero."Mas isso é literatura e não a vida, a história, diz-lhe Sansão: "—Así es —replicó Sansón—, pero uno es escribir como poeta, y otro como historiador: el poeta puede contar o cantar las cosas, no como fueron, sino como debían ser; y el historiador las ha de escribir, no como debían ser, sino como fueron, sin añadir ni quitar a la verdad cosa alguna."Que melhor voz transmite a complexidade do humano? Cervantes responde: todas. As suas personagens são capazes de as falar todas, mesmo Quixote, que parece ter ficado fixado na sua loucura e que portanto só ouve uma voz, e ainda por cima uma voz "falsa", morre após compreender a insanidade do seu mundo de romances de cavalaria. Em poucos livros existe este permanente jogo de vozes como no Quixote, onde o próprio autor, o "padrasto" e muito mais do que um narrador, Cervantes olha o mundo com uma espécie de bondade original, que está para além da crueldade, para além do ridículo, para além das fraquezas, dos "altibajos" da vida. No século XVI e no início do século XVII ainda era possível essa bondade que surgia no fim e não antes da experiência de uma longa vida. Hoje não é, nem antes, nem depois. A vida mata a bondade. Ficamos demasiado cínicos. (url)
NUNCA É TARDE PARA APRENDER: O VELHO SOLDADO OLHA PARA O SEU CAVALEIRO DE TRISTE FIGURA
"Procurad también que, leyendo vuestra historia, el melancólico se mueva a risa, el risueño la acreciente, el simple no se enfade, el discreto se admire de la invención, el grave no la desprecie, ni el prudente deje de alabarla." (Palavras do amigo imaginário que no Prólogo incita Cervantes a escrever o Quixote.) Emilio Martínez Mata, Cervantes Comenta el Quijote, Madrid, Ediciones Cátedra, 2008.Cervantes escreveu o Quixote nos últimos anos da sua vida, quase vinte anos depois da sua primeira obra publicada e depois de ter passado de moda face às novidades de Lope de Vega. Estava velho, conhecera todas as vicissitudes e ainda viria a conhecer outras. Tinha orgulho em ser "o manco de Lepanto", mas nem por isso deixava de ser "manco". Vivera a experiência de cativeiro em Argel. Não tinha dinheiro e o Quixote só lhe trouxera inimigos nos meios literários. Preocupava-o o destino da sua obra e queria "conversar" com ela, com o livro, com o o fidalgo da Mancha, com o imaginário amigo que inventou para o seu prólogo, com o leitor. Esta vontade de "conversa", o tema deste ensaio de Emilio Martínez Mata, era uma novidade literária porque ia muito além do equivalente dos pintores que se auto-retratavam no Purgatório no retábulo da sua igreja, não fosse a soberba de se colocarem no Paraíso os danar, ou o mergulho nos Infernos poder ser funesta previsão. Para o fazer encontrou vários mecanismos que tornam o livro o equivalente a uma série de caixas chinesas, dentro de um Quixote saiu outro e outro e outro, o que explica também o fascínio de Borges por uma obra em que texto, meta-texto e meta-meta texto fazem um jogo de espelhos infinito e inacabado, uma multidão de vozes incluindo a do velho soldado seu autor e a de "Pierre Ménard, autor del Quijote". (Continua.) (url) (url) “A história universal não exibe senão o plano da Providência." (Hegel) No dia 13 de Fevereiro de 2008 escrevi no Abrupto: "Isto está de cortar à faca. É um pouco inevitável com a conjugação de três coisas em sequência: um pano de fundo de crise económica e social grave, que gera uma peculiar sensibilidade a questões como a corrupção, e, como na política não há alternativas, tudo desagua num ambiente pastoso, irritado e sem esperança. Hoje, num supermercado, um homem disse-me: 'Vai haver uma explosão'. Sei lá, alguma coisa vai haver. Não menosprezem os sinais."Recebi o habitual coro de protestos. Que exagerava, que não havia nenhuma crise especial, que era preciso era optimismo, que os "velhos do Restelo" só viam coisinhas más no horizonte, que a oposição quer é que haja "explosões", etc., etc. Não me cito porque entenda que é preciso qualquer espécie de perspicácia notável para perceber o que já estava então a acontecer, até porque estamos também no domínio da self-fulfilling prophecy, mas por causa dos "sinais". Os sinais já são evidentes há muito tempo e alguma coisa, por pequena que seja, já devia ter sido feita e alguma pensada para os tempos mais difíceis que ainda não vieram. Porém, o Governo negou a realidade, ignorou os sinais, nada fez, nada faz e nada fará. Vai a caminho de um lindo enterro, cujo custo vamos pagar com juros. Saímos de uma semana em que a lei e a ordem desapareceram das nossas estradas, com o sentimento crescente dia a dia da impotência e da apatia do Governo, com um primeiro-ministro balbuciante, ele que é tão lesto a falar do que lhe convém, e a crescente sensação de insegurança a penetrar mesmo a couraça patriótica do Euro 2008. No meio da exibição obsessiva do circo futebolístico, alimentado a milhões de euros pelo Governo na televisão "pública" que devia ser "diferente" e é ainda mais "igual" , as pessoas aperceberam-se que o país estava nas mãos dos piquetes do Carregado e que era mesmo melhor começar a comprar mantimentos e a fazer reservas de combustíveis, como se estivéssemos em vésperas de uma guerra civil ou no PREC, que é a mesma coisa. Só em criança eu me lembro de ver a minha mãe a encher a dispensa em 1958, porque era o que se deveria fazer quando havia risco de "revoluções" e, na sua memória portuense, havia o precedente de 1927. "É que pode não se poder ir à rua por causa dos tiros..." Quando José Sócrates disse que o Estado estava "vulnerável" para lidar com a paralisação das transportadoras, ele só disse metade da verdade. É verdade que o nosso Estado é "vulnerável" a muitas coisas, a começar pela corrupção, mas, acima de tudo, quem esteve "vulnerável" foi o seu Governo, que deu um espectáculo de incompetência e negligência praticamente em todas as áreas sensíveis que estavam em causa. E mais: foi perigoso para todos nós, para a nossa segurança. Foi e é, porque a "explosão" ainda não acabou. No debate parlamentar, de que só vi fragmentos, Sócrates fez o seu exercício habitual daquilo que, há muito, chamo o "argumento hegeliano": tudo o que aconteceu tem muita força porque aconteceu e, se aconteceu, é porque deveria ter acontecido". A versão governamental é sempre a mesma, as coisas aconteceram como deviam ter acontecido e só uns mal-intencionados da oposição pensam que podia ser de outra maneira. De outra maneira seria sempre pior, haveria mais caos, mais perturbação, mais riscos, se não fosse a "firmeza" e o "diálogo" governamental. Como as coisas não ocorreram "de outra maneira", o argumento hegeliano que se baseia na força do "acontecido" é excelente para justificar o poder. É, aliás, para isso que ele existe, para dar ao poder uma blindagem face à realidade, parecendo alicerçar-se na própria "realidade". A polícia não actuou? Fez bem, porque, se actuasse, tinha sido uma catástrofe e não haveria acordo. O Governo demorou tempo de mais para negociar? O Governo demorou o tempo que foi preciso para haver acordo. Os "transportadores" violaram a lei? É menos importante do que o facto que a paralisação acabou porque o Governo soube "dialogar". Houve desacatos e violências? Houve, mas foram poucos em relação ao que poderia ter havido, caso o Governo não fosse "dialogante". E não se sai disto, o que aconteceu tinha que acontecer, ou melhor ainda, devia acontecer como aconteceu porque só assim "houve acordo". Pelo caminho ficou um morto e vários feridos, mas isso é pouco importante face ao caminho inexorável dos acontecimentos conduzidos pela mão preclara do Governo do PS.Aliás, a vantagem do "argumento hegeliano" é que dá para tudo e para o seu exacto contrário. Hoje, assenta no acordo obtido na noite tumultuosa da reunião da Batalha, mas, se não tivesse havido acordo, a linha de argumentação do Governo seria a mesma. Se o acordo tivesse falhado e o Governo viesse para a rua com as polícias e o Exército, prendendo e reprimindo à bastonada, podem ter a certeza que o primeiro-ministro chegaria ao Parlamento a dizer que isso só demonstrava a "firmeza" do Governo, que tinha seguido a via do "diálogo", mas que encontrara uns desordeiros pela frente, pelo que a ordem pública tinha sido garantida. E que o seu Governo fizera exactamente o que devia fazer, no tempo em que o devia fazer e na forma em que o devia fazer. Claro que o Governo não quer ouvir as perguntas que acertam na sua incompetência e fraqueza como setas em alvo próximo. Por exemplo: que medidas tomou desde o início do conflito para garantir os abastecimentos estratégicos, como o combustível para o aeroporto? Nada. O que é que fez para evitar rupturas de fornecimentos que podiam paralisar quase toda a actividade económica? Nada. O que é que fez para acautelar o escoamento dos produtos perecíveis? Nada. Que garantias de liberdade de circulação deu aos muitos camionistas, às muitas empresas de transportes, que não queriam participar na paralisação? Nenhuma. Que garantias nos deu, a todos, que o Estado não negoceia com quem está a violar a lei, não negoceia com quem está a usar a força para o intimidar, enquanto não for reposta a legalidade, o que todos pensavam ser uma boa doutrina para evitar que haja benefício do infractor? Nenhuma. Não só não deu garantias como premiou quem o fez, sentando-se à mesa diante da televisão com os piquetes ad hoc, ajudando a descredibilizar quem tinha elegido como parceiro, a ANTRAM, e premiando os métodos usados. É que a alternativa não era, como o Governo pretende para nos enganar e justificar a fraqueza, entre o laxismo e a bastonada. Só o seria se o Governo não tivesse um plano, se o Governo não fizesse aquilo para que foi eleito, governar. É que desde início podia ter um plano e não tinha nenhum. Podia ter fechado os olhos à ilegalidade dos piquetes, permitir que eles abordassem os motoristas que não queriam paralisar, mas não permitir mais nada que não fossem assobios e vaias aos que passassem. Mas não. Permitiu a ocupação da via pública, a intimidação com ameaça, as pedradas e os incêndios. E fez ainda pior, permitiu que esses comportamentos de flagrante ilegalidade se fizessem diante dos olhos e ouvidos da GNR, cuja autoridade minou diante dos camionistas e diante de todos os que viam na televisão um guarda passivo enquanto os membros dos piquetes abriam à força as portas das cabinas para ameaçar os motoristas de que, alguns metros a seguir, haveria pedradas, pelo menos. Apesar de todas as violências e de crimes públicos estarem a ser cometidos diante das autoridades, ninguém foi preso, como no caso dos Verdeufémios e da destruição do milho transgénico, apenas foram "identificados". Como é que podia ser de outra maneira, se aqueles homens estavam sentados à mesa com o ministro, se naqueles dias eram eles que impunham a lei da força? Aquilo a que assistimos esta semana foi um bem triste retrato da impotência, da negligência e da fraqueza. Mas foi só um início. Esta caixa é como a de Pandora, abre-se e depois não se fecha, e nem mil anões da propaganda, nem o poderoso Hegel, a conseguem fechar. (Versão do Público de 13 de Junho de 2008.) (url) (url) 1319 - Disappointing memories Behind the complicated details of the world stand the simplicities: God is good, the grown-up man or woman knows the answer to every question, there is such a thing as truth, and justice is as measured and faultless as a clock. Our heroes are simple: they are brave, they tell the truth, they are good swordsmen and they are never in the long run really defeated. That is why no later books satisfy us like those which were read to us in childhood—for those promised a world of great simplicity of which we knew the rules, but the later books are complicated and contradictory with experience; they are formed out of our own disappointing memories. (Graham Greene) (url)
© José Pacheco Pereira
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