ABRUPTO

16.6.08


NUNCA É TARDE PARA APRENDER: O VELHO SOLDADO OLHA PARA O SEU CAVALEIRO DE TRISTE FIGURA
"Procurad también que, leyendo vuestra historia, el melancólico se mueva a risa, el risueño la acreciente, el simple no se enfade, el discreto se admire de la invención, el grave no la desprecie, ni el prudente deje de alabarla."
(Palavras do amigo imaginário que no Prólogo incita Cervantes a escrever o Quixote.)

Emilio Martínez Mata, Cervantes Comenta el Quijote, Madrid, Ediciones Cátedra, 2008.

Cervantes escreveu o Quixote nos últimos anos da sua vida, quase vinte anos depois da sua primeira obra publicada e depois de ter passado de moda face às novidades de Lope de Vega. Estava velho, conhecera todas as vicissitudes e ainda viria a conhecer outras. Tinha orgulho em ser "o manco de Lepanto", mas nem por isso deixava de ser "manco". Vivera a experiência de cativeiro em Argel. Não tinha dinheiro e o Quixote só lhe trouxera inimigos nos meios literários. Preocupava-o o destino da sua obra e queria "conversar" com ela, com o livro, com o o fidalgo da Mancha, com o imaginário amigo que inventou para o seu prólogo, com o leitor. Esta vontade de "conversa", o tema deste ensaio de Emilio Martínez Mata, era uma novidade literária porque ia muito além do equivalente dos pintores que se auto-retratavam no Purgatório no retábulo da sua igreja, não fosse a soberba de se colocarem no Paraíso os danar, ou o mergulho nos Infernos poder ser funesta previsão. Para o fazer encontrou vários mecanismos que tornam o livro o equivalente a uma série de caixas chinesas, dentro de um Quixote saiu outro e outro e outro, o que explica também o fascínio de Borges por uma obra em que texto, meta-texto e meta-meta texto fazem um jogo de espelhos infinito e inacabado, uma multidão de vozes incluindo a do velho soldado seu autor e a de "Pierre Ménard, autor del Quijote".

(Continua.)

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© José Pacheco Pereira
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