| ABRUPTO |
semper idem Ano XIII ...M'ESPANTO ÀS VEZES , OUTRAS M'AVERGONHO ... (Sá de Miranda) _________________ correio para jppereira@gmail.com _________________
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16.6.08
NUNCA É TARDE PARA APRENDER: O VELHO SOLDADO OLHA PARA O SEU CAVALEIRO DE TRISTE FIGURA (2)
Primeiro, o Quixote "não" é de Cervantes mas sim de Cide Hamete Benengeli, o historiador árabe que escreveu a história original do fidalgo e do escudeiro, entretanto traduzida em castelhano e editada por Cervantes: "Pero yo, que, aunque parezco padre, soy padrastro de Don Quijote." Este mecanismo permite a Cervantes "conversar" à distância com o pressuposto autor original e emendar o Quixote de Cide Hamete pelo seu. Quando, dez anos mais tarde, Cervantes escreveu a segunda parte do Quixote (entretanto já tinha aparecido uma falsa sequela do livro publicada por "Alonso Fernández de Avellaneda"), as personagens principais, Quixote e Sancho Pança, já não se defrontam apenas com os eventos da sua acção, mas com o relato em livro dos acontecimentos originais. Cervantes é aqui de uma novidade absoluta na história literária: colocando as suas personagens, prestes a partirem para novas aventuras, a discutir a verosimilhança de uma narração em livro das suas aventuras anteriores. O longo diálogo do capítulo terceiro, contém a narração original de Cid Hamete, o novo livro entretanto saído (o primeiro Quixote de 1605) e as expectativas do cavaleiro:"Pensativo además quedó don Quijote, esperando al bachiller Carrasco, de quien esperaba oír las nuevas de sí mismo puestas en libro, como había dicho Sancho, y no se podía persuadir a que tal historia hubiese, pues aún no estaba enjuta en la cuchilla de su espada la sangre de los enemigos que había muerto, y ya querían que anduviesen en estampa sus altas caballerías. Con todo eso, imaginó que algún sabio, o ya amigo o enemigo, por arte de encantamento las habrá dado a la estampa: si amigo, para engrandecerlas y levantarlas sobre las más señaladas de caballero andante; si enemigo, para aniquilarlas y ponerlas debajo de las más viles que de algún vil escudero se hubiesen escrito, puesto —decía entre sí— que nunca hazañas de escuderos se escribieron; y cuando fuese verdad que la tal historia hubiese, siendo de caballero andante, por fuerza había de ser grandílocua, alta, insigne, magnífica y verdadera."Como Sancho lhe diz com brutalidade, a história não era "grandílocua, alta, insigne, magnífica", mas era "verdadera", ou seja, nem ele nem Quixote se saiam muito bem: "el vulgo tiene a vuestra merced por grandísimo loco, y a mí por no menos mentecato." Toda a discussão do capítulo III, antecipada no II, com Sansão Carrasco, a nova personagem "intermédia" que faz um papel parecido com o de Sagredo nos diálogos de Galileu, é sobre a verdade, a verdade subjectiva (psicológica, literária) e objectiva (histórica). Sansão tenta contar a Quixote que as suas aventuras são tratadas como peripécias mais ou menos ridículas, e este responde-lhe pela relatividade dos actos humanos, mesmo heróicos. Como de costume, Sancho não deixa pedra sobre pedra: —A lo que yo imagino —dijo don Quijote—, no hay historia humana en el mundo que no tenga sus altibajos, especialmente las que tratan de caballerías, las cuales nunca pueden estar llenas de prósperos sucesos. Quixote não se fica pela "verdad de la historia" e introduz uma moderação, uma fragilidade, que dá uma dimensão humana ao carácter estereotipado dos heróis. Ele sabe que não é perfeito, mas considera que o sentido das suas acções (que efectivamente, e isso é o trágico da história, não têm sentido, são "loucas") exige silêncio sobre as suas fraquezas: "—También pudieran callarlos por equidad —dijo don Quijote—, pues las acciones que ni mudan ni alteran la verdad de la historia no hay para qué escribirlas, si han de redundar en menosprecio del señor de la historia. A fee que no fue tan piadoso Eneas como Virgilio le pinta, ni tan prudente Ulises como le describe Homero."Mas isso é literatura e não a vida, a história, diz-lhe Sansão: "—Así es —replicó Sansón—, pero uno es escribir como poeta, y otro como historiador: el poeta puede contar o cantar las cosas, no como fueron, sino como debían ser; y el historiador las ha de escribir, no como debían ser, sino como fueron, sin añadir ni quitar a la verdad cosa alguna."Que melhor voz transmite a complexidade do humano? Cervantes responde: todas. As suas personagens são capazes de as falar todas, mesmo Quixote, que parece ter ficado fixado na sua loucura e que portanto só ouve uma voz, e ainda por cima uma voz "falsa", morre após compreender a insanidade do seu mundo de romances de cavalaria. Em poucos livros existe este permanente jogo de vozes como no Quixote, onde o próprio autor, o "padrasto" e muito mais do que um narrador, Cervantes olha o mundo com uma espécie de bondade original, que está para além da crueldade, para além do ridículo, para além das fraquezas, dos "altibajos" da vida. No século XVI e no início do século XVII ainda era possível essa bondade que surgia no fim e não antes da experiência de uma longa vida. Hoje não é, nem antes, nem depois. A vida mata a bondade. Ficamos demasiado cínicos. (url)
© José Pacheco Pereira
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