ABRUPTO

17.6.08


NUNCA É TARDE PARA APRENDER: AS PRIMEIRAS PALAVRAS (2)


Frederico Lourenço (Organização, tradução e notas), Poesia Grega de Álcman a Teócrito, Lisboa, Livros Cotovia, 2006.


Começo por uma sopa de ervilhas. Álcman promete dar a alguém uma trípode, uma grelha ou uma panela de três pernas, e apressa-se a pedir que a ponham ao lume "mas depressa",
"cheia de sopa de ervilhas, aquela que Álcman,
o comilão, adora comer quente depois do solstício.
Ele não come coisas finas,
mas procura comida popular
como o povo."
Homem feliz, só um homem feliz se auto-nomeia de "comilão", sólido, com os pés na terra, esperando cá fora, a ver o sol desaparecer, olhando para a panela de sopa. Os gregos viviam muito fora de casa porque o clima era ameno, Milhões e milhões de homens devem ter tido a mesma sensação de prazer e esta paz interior, esta felicidade simples, de quem "não come coisas finas", continua a ser uma glorificação da paz. Só se come assim uma "sopa de ervilhas" quando não há guerra, nem dentro, nem fora, e o fumo da panela ergue-se no crepúsculo para a mesma paisagem onde passavam as guardadoras das vacas e das cabras que Teócrito colocou no seu "canto bucólico". Em Álcman é tudo mais simples, prazeres simples, vidas simples, gosto da sopa, olhar à volta, maravilhar-se, sentir a maravilha das coisas dentro de si. Achamos que isto é banal, porque pensamos na nossa vida assegurada e certa. Mas a nossa vidinha é só um momento de excepçaõ, porque a brutalidade é a regra. Álcman não precisa de o dizer, sabe-o.

Por isso o seu olhar viaja procurando a calma, a paz, e a noite apaziguadora. No Peloponeso, se se olhar em frente vê-se o mar, se se olhar para trás vê-se os cimos. Talvez nessa noite Álcman tenho vindo de novo cá fora ou tenha até dormido ao relento. E descreveu como poucos a noite em que tudo para:
"Dormem os píncaros das montanhas e as ravinas,
os promontórios e as torrentes,
e todas as raças rastejantes que a terra alimenta:
as feras das montanhas e a raça das abelhas
e os monstros nas profundezas do mar purpúreo;
dormem as raças das aves de longas asas."
Estamos já tão longe desta relação com a natureza, o olhar ecológico é forma moderna de plastificar a natureza, que deixamos de nos espantar com a noite. Mas a noite é de facto uma estranheza, um momento em que o tempo parece parar, a luz desaparece ou muda, e mesmo as "aves de longas asas" fecham-nas para não perturbar o ar. Que olha o homem quando olha a noite?

(Continua.)

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© José Pacheco Pereira
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