ABRUPTO

22.4.06


VER A NOITE





Agora mesmo, numa terra sem luz pública, imersa numa escuridão quase total.

*

Outra mudança, mais subtil, a da geografia interior da casa. Sem a luz que entra de fora, da lua (que não há), dos candeeiros, que estão apagados, os contornos da casa perdem-se por dentro. As janelas abrem-se para um escuro que fecha a casa em si mesma. É difícil atravessá-la sem abrir todas as luzes, falta um reflexo de uma clarabóia, um traço amarelo que vem da rua, um rastro de néon ou de magnésio, mesmo de longe, do mundo exterior.

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COISAS DA SÁBADO: OS TELEJORNAIS DOENTES COM TANTA DOENÇA

Hoje não há telejornal sem doenças. Ou são congressos sobre doenças, com reportagens sobre os doentes, ou são campanhas contra esta ou aquela doença, mais reportagens sobre os doentes; ou são casos raros, abstrusos, excepcionais, sobre uma doença que ataca meia dúzia de pessoas, mais reportagens sobre os doentes da rara doença. Não é possível chegar ao fim do longo tempo de noticiário sem a dança intercalada entre o futebol e as doenças. Nos períodos de “operações” da GNR para controlar o trânsito das pontes, miniférias idas e vindas de feriados e férias pequenas, médias e grandes, como se sabe uma actividade constante entre os portugueses, temos o menu intercalado entre futebol, doenças, acidentes e filas de trânsito. Infeliz país o nosso, que só tem doenças. Feliz país o nosso, em que não há notícias.

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COISAS DA SÁBADO: O FINANCIAMENTO DO HAMAS

O Hamas ganhou as eleições no território da Autoridade Palestiniana. Muito bem. Ganhando as eleições deve constituir governo. Muito bem. Um dos erros trágicos da diplomacia ocidental, que se pagou com uma guerra civil foi apoiar o golpe de estado contra a FIS na Argélia, impedindo-a de chegar ao governo. O Hamas não quer mudar duas das suas posições centrais – o não reconhecimento da existência de Israel e o apelo à violência bombista contra os israelitas. Muito bem, embora aqui seja muito mal. O Hamas coloca-se assim fora do “processo de paz” tal como ele existia, mesmo que fragilmente. Muito bem, está no direito de o fazer. O que não pode, nem ele, nem os seus “compreensivos” amigos na esquerda ocidental, é querer que Israel, os EUA e a União Europeia continuem a financiar o governo palestiniano do Hamas, financiamento que era um contrapartida para a aceitação do “processo de paz”.

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ARQUIVO: OUTRAS MÚSICAS






Velhos discos de 45 RPM, directa ou indirectamente relacionados com a vida política.

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RETRATOS DO TRABALHO EM SANTIAGO DE COMPOSTELA, ESPANHA


Abastecimento matinal (08H00 da manhã, 07H00 na república portuguesa).

(José Pedro Oliveira S.)

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EARLY MORNING BLOGS 763

Today and Two Thousand Years from Now

The job is over. We stand under the trees
waiting to be told what to do,
but the job is over.

The darkness pours between the branches above,
but the moon's not yet
on its walk

through the night sky trailed by stars.
Suddenly a match flares, I see
there are only us two,

you and me, alone together in the great room
of the night world, two laborers
with nothing to do,

so I lean to the little flame and light my Lucky
and thank you, comrade, and again
we are in the dark.

Let me now predict the future. Two thousand years
from now we two will be older,
wiser, having escaped

the fleeting incarnations of workingmen.
We will have risen from the earth
of southern Michigan

through the tangled roots of Chinese elms
or ancient rosebushes to take
the tainted air

into our leaves and send it back, purified,
down the same trail we took
to escape the dark.

Two thousand years passed in a flash to shed
no more light than a wooden match
gave under the trees

when you and I were lost kids, more scared than
now, but warm, useless, with names
and different faces.

(Philip Levine)

*

Bom dia!

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21.4.06


RETRATOS DO TRABALHO EM SORGAÇOSA, SERRA DO AÇOR - ARGANIL, PORTUGAL


Carregando um tronco de pinheiro para fazer cavacas destinadas à fogueira.

(António Lopes Pedro)

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INTENDÊNCIA

Actualizadas as notas NUNCA É TARDE PARA APRENDER: "A ILHA HERÓICA" (MALTA STORY) e A FAUNA DAS CAIXAS DOS COMENTÁRIOS.

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LENDO / VENDO /OUVINDO
(BLOGUES, JORNAIS, TELEVISÕES, IMAGENS, SONS, PAPÉIS, PAREDES)
(21 de Abril de 2006)


__________________________

Nós temos o nacionalismo típico dos pobrezinhos: o astronauta brasileiro foi quase sempre designado no Telejornal das 12 horas da RTP1 como "lusófono", e o ter-se falado português no espaço como o evento principal da viagem. Como se Portugal tivesse algum mérito, algum papel, na ida para o espaço do nosso estimado brasileiro.

*
Ao ler o seu post lembrei-me que no passado já tinha sentido o mesmo, nas últimas eleições americanas com a senhora Teresa Heinz Kerry e a possiblidade da primeira dama americana falar português.

Nacionalismo à parte, fico contente quando os "outros" se lembram de "nós", em geral devido ao futebol, o que é pena, mas deve ser a única coisa em que temos tido visibilidade junto do público em geral.

No ano passado por esta altura, passava na África do Sul um anúncio de televisão da cerveja Castle que terminava em Portugal com imagens da bandeira portuguesa[a ligação da bandeira à cerveja não me agradou muito, confesso] e de um jogo de futebol no novo estádio de Alvalade. Ou ainda à poucos dias, num canal de televisão egípcio, passava um filme local onde uma das personagens a determinada altura envergava a camisola 7 da selecção nacional.

(Nuno Alexandre Lopes Marques aka Temba)

*

A propósito da observação/questão colocada pelo leitor Rui C. Barbosa: eu sentir-me-ia exactamente da mesma forma, como antes de ouvir o erro do tradutor oficial. Provavelmente pensaria que ele, pela profissão, teria obrigação de o não cometer. A única coisa que me poderia incomodar, enquanto português, é que ali estava, como se mais fossem necessários, outro exemplo de como as pessoas deste país negligenciaram, décadas a fio, a própria língua e a sua divulgação. A língua inglesa também não nasceu nos EUA (tal como o português no Brasil), país esmagadoramente dominante a vários níveis, e ninguém se refere à língua americana.

Paulo Azevedo

*

Obviamente que Portugal não tem nenhum mérito na viagem de Marcos Pontes. No entanto gostava de saber como se sentiria se ouvisse o tradutor ocifial da comitiva brasileira presente nas conferências de imprensa ás quais assisti em Baikonur a dizer aos presentes que primeiro falaria em 'brasileiro' e depois traduziria para russo e que os representantes do Brasil falariam em 'brasileiro'. Não deixa de ser curioso que era o próprio Marcos Pontes a dizer que falava primeiro em português e depois em inglês e russo.


Eu próprio salientei várias vezes em Baikonur que Marcos Pontes era o primeiro astronauta a falar português a viajar no espaço, coisa que muito me orgulhava.

(Rui C. Barbosa)

*

Fazem parte desse nacionalismo dos pobrezinhos coisas como «o Chelsea de Mourinho», «o Milan de Rui Costa», «o Barcelona de Deco» - e por aí fora, em "notícias" em que a realidade é virada de pernas para o ar para gáudio da saloiada nacional. Há tempos, até teve destaque na TV um golo de um futebolista da Selecção dos Camarões só porque o homem era treinado, lá na sua terra, por um português!

Se esses patriotas-da-treta resolverem, também, deitar foguetes pelo facto de uma das personagens principais do romance «Fotaleza Digital» ser português, esperemos que omitam que ele é o assassino...

(C. Medina Ribeiro)
*

Dilemas dos académicos na televisão: sound bites ou argumentos?

*

Sartre e Beauvoir, o casal insuportável, começa a ter boa imprensa. Não há nada que, deixando passar o tempo e as fúrias, não tenha boa imprensa. Ele dizia " Je suis écrivain, j'ai besoin d'amours contingentes !", ela era menorizada como La Grande Sartreuse. Agora um telefilme Amants du Flore retoma a história do casal e Assouline conclui:
"Mais des deux, le génie, c'est elle. Rien dans l'oeuvre de Sartre n'arrivera à la capacité d'influence et de bouleversement des mentalités du Deuxième sexe. Sur la durée et dans la profondeur, c'est Beauvoir qui restera -et qui reste déjà, n'en déplaise à la secte des gardiens du temple sartrien, qui d'ordinaire assimile la moindre réserve à une insulte."
*

Algumas perguntas e afirmações certeiras de João Adelino Faria no Diário de Notícias:
"Há quanto tempo não damos notícias? Há quanto tempo nós, jornalistas, corremos quase obsessivamente, todos os dias, para escutar mais uma reacção sobre uma declaração feita por um ministro, político, advogado, juiz ou procurador? (...) Porque andamos todos atrás uns dos outros? Um jornal avança com um tema, a rádio segue, a televisão completa, ou vice- -versa - a ordem pouco importa. É uma tarefa quase inglória descobrir algo diferente nos jornais, na rádio e na televisão. Estamos todos quase sempre à volta do mesmo.(...)

O que esta semana é relatado até à exaustão, na seguinte é substituído ou suspenso porque outras novas alegadas histórias surgiram, ou assim nos fizeram crer, para matar as anteriores. São notícias esquecidas que só voltam à primeira página quando surgir algo de novo. O que esquecemos muitas vezes é que somos nós quem tem a responsabilidade de encontrar o desenvolvimento e não esperar pela vontade daqueles que detêm a informação e não têm interesse em divulgá-la.

Temos fama de contrapoder ou quarto poder, mas não se pode viver eternamente da reputação - há que fazer justiça ao nome e isso depende de todos e de cada um que ainda quer fazer jornalismo."

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EARLY MORNING BLOGS 762

International Incidents


1.

Wang Ping asks if
we went to a seder
last night
She did,
in Minneapolis
No, I say, we’re not
observant
as though we constantly
overlook details

2.

The teachers in the lounge
crowd around the
Swedish visitor
You must be very proud
one of them beams
to be Swedish
She has no idea
what that means
She says,
I don’t dislike
being Swedish

3.

Who’s ever met a Bulgarian?
he would shout in the bar
Then one night
two homely blond sisters
smiled and said
We are Bulgarians!
They smiled for two weeks
then went away forever

(Robert Hershon)

*

Bom dia!

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20.4.06


RETRATOS DO TRABALHO EM CORUCHE, PORTUGAL


Lavrando, Coruche, Vale do Sorraia, Abril 2006.

(António Ferreira de Sousa)

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A FAUNA DAS CAIXAS DOS COMENTÁRIOS



A Rede está a mudar tudo, a criar coisas novas, a realizar outras muito antigas que as tecnologias até agora existentes ainda não permitiam e a dar eficácia a velhos, e muitas vezes maus, hábitos que existiam no mundo exterior e agora passam para o mundo interior da Internet. Alguns casos recentes voltaram de novo a mostrar a Internet sob uma luz pouco amável, bem preconceituosa aliás, porque nada do que lá se faz se deixou de fazer cá fora. O que há é um upgrade tecnológico no crime, que a Rede melhora e nalguns casos favorece pela sua acessibilidade e universalidade. São estes os múltiplos exemplos da chamada “fraude nigeriana”, ou os casos de Phishing que leva os incautos a fornecerem palavras-passe de acesso a contas bancárias; os casos de “cyberstalkers”, pessoas que perseguem outras cujo nome e morada aparece na Internet. Isto tudo depois da pedofilia, e de outras utilizações criminosas da Rede.

O que é novo na Rede, quer na “normal” quer na criminosa, são as características psicológicas especificas do mundo em linha, em especial a exploração da fronteira, mais ténue do que parece, entre a realidade e a virtualidade. E isso traz elementos novos como se vê se analisarmos para além do crime em si. Um caso actual é o do assassinato de uma menina de 10 anos, por um autor do blogue chamado “Strange Things are Afoot at the Circle K.” , que tinha feito pouco antes um comentário sobre canibalismo, O que há de novo neste caso e no interesse mediático sobre ele, é que em vez de um diário em papel, ou escritos mais ou menos dementes ou geniais, como era o caso pré-Internet do Unabomber, agora, quase de imediato, todos se voltam para o blogue, para o perfil do blogue, para o rastro na Rede do putativo criminoso. A Rede fica indissociável da nova identidade das coisas, como se entre o mundo virtual e o real a teia fosse completa. E, se calhar, é.

Mas não é este apenas o único aspecto interessante, há outro para que não se tem chamado a atenção: o mundo muito próprio dos que escrevem sobre textos alheios nas caixas de comentários dos blogues ou de órgãos de comunicação em linha. O Strange Things are Afoot at the Circle K. continua em linha e tem, à data em que escrevo, 644 comentários na última nota escrita pelo seu autor, todos eles posteriores ao conhecimento do crime. O blogue continua vivo mesmo depois da prisão do seu autor.

Mas os 644 comentários empalidecem face aos portugueses 1321 comentários do Semiramis cuja anónima autora teria morrido de morte súbita, suscitando as mais contraditórias versões na própria caixa de comentários do blogue. Deixando de parte a polémica sobre as caixas de comentários abertas ou moderadas, ou sobre a sua própria utilidade e valor, deixando de lado também a história pessoal inverificável do que aconteceu à sua autora (ou autor?) anónimo, o interessante é registar que o que há nesse blogue é uma comunidade que aproveita o “lugar” para se encontrar. A caixa de comentários tornou-se numa espécie de chat, que parasita a notoriedade do blogue, como já acontecera no Espectro com os seus finais 494 comentários, onde as pessoas se encontram numa pequeníssima “aldeia global”, que tomam como sua.

O comportamento destas pessoas-em-linha é compulsivo, eles “habitam” nas caixas de comentários que são a sua casa. Deslocam-se de caixa para caixa de comentário, deixando centenas de frases, nos sítios mais díspares, revelando nalguns casos uma disponibilidade quase total para comentar, contra-comentar, atacar, responder, mantendo séries enormes que obedecem à regra de muitos frequentadores desta área da Rede: horário laboral na maioria dos casos, quebra no fim-de-semana e nos feriados. São pessoas que estão a escrever do seu local de trabalho ou de estudo, de empresas ou de escolas, onde tem acesso à Internet. Há no entanto, alguns casos de comentadores caseiros e noctívagos, que só podem estar a escrever noite dentro, como era o caso nos primeiros anos da blogosfera portuguesa, antes de se democratizar. É um fenómeno aparentado com muitas outras experiências comunitárias na Rede, mas está longe de ser o mundo adolescente dos frequentadores do MySpace ou dos “salas” de conversa virtual.

No caso português, os comentadores não parecem ser muitos, embora a profusão de pseudónimos e nick names, dê uma imagem de multiplicidade. São, na sua esmagadora maioria, anónimos, mas o sistema de nick names permite o reconhecimento mútuo de blogue para blogue. Estão a meio caminho entre um nome que não desejam revelar e uma identidade pela qual desejam ser identificados. Querem e não querem ser reconhecidos. É o caso da “Zazie”, do “Euroliberal”, do “Sniper”, do “Piscoiso”, “Maloud”, “Bajoulo” “Xatoo”, “Atento”, Dasanta”, “José”, “e-konoklasta”, “Cris”, “Sabine”, “José Sarney”, “anti-comuna”, etc,, etc, Trocam entre si sinais de reconhecimento, cumprimentam-se, desejam-se boas férias, e formam mini-comunidades que duram o tempo de uma caixa de comentários aberta e activa, o que normalmente dura pouco. Depois migram para outra, sempre numa tempestade de frases, expressando acordos e desacordos, simpatias e antipatias, quase sempre centrados na actividade de dizer mal de tudo e de todos.

Imaginam-se como uma espécie de proletariado da Rede, garantes da total liberdade de expressão, igualitários absolutos, que consideram que as suas opiniões representam o “povo”, os “que não tem voz” os deserdados da opinião, oprimidos pelos conhecidos, pelos célebres, pelos “sempre os mesmos”. São eles que dizem as “verdades”. Mas não há só o reflexo do populismo e da sua visão invejosa e mesquinha da sociedade e do poder, há também uma procura de atenção, uma pulsão psicológica para existir que se revela na parasitação dos blogues alheios. Muitos destes comentadores têm blogues próprios completamente desconhecidos, que tentam publicitar, e encontram nas caixas de comentários dos blogues mais conhecidos uma plataforma que lhes dá uma audiência que não conseguem ter.

Não são bem “Trolls”, sabotadores intencionais, mas tem muitas das suas formas perturbadoras de comportamento. A sua chegada significa quase sempre uma profusão de comentários insultuosos e ofensivos que afastam da discussão todos os que ingenuamente pensam que a podem ter numa caixa de comentários aberta e sem moderação. Quando há um embrião de discussão, rapidamente morto pela chegada dos comentadores compulsivos, ela é quase sempre rudimentar, a preto e branco, fortemente personalizada e moralista: de um lado, os bons, os honestos, os dignos, do outra a ralé moral, os ladrões, os preguiçosos que vivem do trabalho alheio, e dos impostos dos comentadores compulsivos presume-se. O que lá se passa é o Far West da Rede: insultos, ataques pessoais, insinuações, injúrias, boatos, citações falsas e truncadas, denúncias, tudo constitui um caldo cultural que, em si , não é novo, porque assenta na tradição nacional de maledicência, tinha e tem assento nas mesas de café, mas a que a Rede dá a impunidade do anonimato e uma dimensão e amplificação universal.

O que é que gera esta gente, em que mundo perverso, ácido, infeliz, ressentido, vivem? O mesmo que alimenta a enorme inveja social em que assentam as nossas sociedades desiguais (por todo o lado existe este tipo de comentadores), agravada pela escassez particular da nossa. Essa escassez não é principalmente material, embora também seja o resultado de muitas expectativas frustradas de vida, mas é acima de tudo simbólica. Numa sociedade que produz uma pulsão para a mediatização de tudo, para a espectacularização da identidade, para os “quinze minutos de fama” e depois deixa no anonimato e na sombra os proletários da fama e da influência, os génios incompreendidos, os justiceiros anónimos, o “povo” das caixas de comentários, não é de admirar que se esteja em plena luta de classes.

(No Público de hoje.)

*
Quanto ao assunto das caixas de comentários, há caixas e caixas. Como há sempre comentadores de todos os estilos e para todos os gostos, o resultado depende em grande parte da forma como é gerida (ou não) a aceitação de comentários. Veja por exemplo o bom caso d'A Baixa do Porto , em que a "caixa de comentários" _é_ a própria página principal do blog.

(Tiago Azevedo Fernandes)

*

Achei interessante a reflexão que fez no seu artigo do Público. Reconheço lá muita coisa.Mas também julgo que falta lá outro tanto, creio. O ano passado teve a bondade de integraraté uma reflexão que continha uma crítica (exposta num blog - A ameaça dos weblogs), estou certo que desta vez não lhe faltará igual coragem e coerência. Julgo que se não tem a caixa de comentários aberta para não lhe suceder o mesmo que ao espectro, faz bem; já o que não se compreende - uma vez que isso contraria o princípio do rizoma que comanda a rede das redes que, por vezes, é mais uma teia, é que não tenha links na vitrina do seu template. No fundo, fala-nos da sociedade digital do séc. XXI e depois o seu template recorda-nos os tempos de novecentos e do arranque dos caminhos-de-ferro, em que o bom do Eça quando se deslocava de Cascais a Carcavelos demorava umas 3 horas. Ora bolas, assim é que não!! Já agora, acha que se o Eça fosse vivo, para tristeza de muitos espectros, teria a caixa de comentários aberta? E teria links?

(Rui Paula de Matos)

*

Era expectável que JPP pretendesse reduzir a participação de uma ampla diversidade de comentadores em blogues a um saco de gatos anónimos - resulta da compreensão dos spin-doctors quando se apercebem estar perante um novo meio de comunicação dificil de controlar como até aqui o foram os jornais de referência, ou muito mais importante, a televisão, ambas ferramentas de manipulação detidas pelas corporações da desinformação.

Óbviamente fui referido no artigo publicado como "postador de comentários", enquanto se omitiu deligentemente que eu próprio sou autor de um Blogue. Como se cada um de nós não tivesse nada a dizer, ou pior do que isso, como se essa opinião não interessasse verdadeiramente para nada.

(Francisco Pereira)

*

(...) a sua caça aos anónimos parece-me algo esquisita e muito, muito inconveniente.

Em priemeiro lugar porque normaliza os comportamentos: para sí, um anónimo ( ou alguém que escreve sob pseudónimo ) é um ser que pertence a "esta gente," que vive num "mundo perverso, ácido, infeliz, ressentido".

Nada mais errado. Há tantos comportamentos possíveis quanto pessoas diferentes. Eu não posso falar dos outros (um erro em que o Abrupto incorre e que envenena tudo o que diz) por isso vou falar por mim. Hele em dia escrevo sob pseudonimo (hoje sou o Guy Fawkes e já fui o Harry Lime) e chamo-me Rui Silva e possuo um blog além disso comento frequentemente outros blogs. Quer no meu blog quer nas caixas de comentários já escrevi sob estas três formas.

A minha atitude nas caixas de comentários varia de blog para blog e do tom que cada um deles me inspira. Exemplos: no Barnabé (onde comentei sempre sob o nome de Rui Silva) publicava comentários muito violentos porque era esse o tom que aquele blog pedia. Aquilo era um blog de combate e a minha atitude perante ele era uma atitude de combate. E divertia-me muito com os doidos que andavam por lá.

Noutros blogs (na Janela Indiscreta, por exemplo) já comentei sob qualquer uma das 3 formas e fiz alguns amigos (que comentam frequentemente no meu blog) da maneira como os blogs pediam: moderadamente e concordando ou discordando educadamente. Existe ainda um terceiro caso: o dos blogs de futebol. Aí tenho de confessar que prefiro mil vezes os blogs benfiquistas (sou do sporting) e quando lá vou comento violentamente e sem cerimónias. Num deles até já me acusaram de ser um troll...

Além disto, é de assinalar que tenho uma vida social saudavel. Gosto de muito de livros, de boa música, de filmes, de sair à noite, de jogar Playstation e de jantar com os meu amigos (um deles é o benfiquista que me chamou troll). Trabalho muito, numa multinacional de consultoria. Serei um anormal?

Perante o que acabei de lhe descrever acha que eu encaixo nesse perfil que descreve? E se eu não encaixo como é que tem a certeza que os outros encaixam?

Pense muito bem no que escreve. Nestas coisas cada caso é um caso. E é sempre errado reduzi-los a esterotipos. Não o faça por favor e deixe as pessoas "andar à vontade com as botas" como dizia o meu avô .

(Rui Silva, aka Harry Lime aka Guy Fwakes)

*

Acho que generalizou demais e agora tem a fauna toda à porta, de tal modo que as excepções arriscam-se a ser a regra.

Do alto do seu Abrupto, sem caixa de comentários e sem "blogroll", não sei até que ponto se apercebe que a caixa dos comentários é também a imagem do autor do blog. Ou apercebeu-se bem demais e precocemente. A qualidade das caixas de comentários, leia-se e infiro do seu texto, a falta dela, é um reflexo directo dos autores dos blogs, que em nome de grande e piedoso "espírito democrático" e "anti- censório", se dão à ociosidade de publicar rigorosamente tudo, como se de uma grande qualidade se tratasse. Preguiça.

Desde que li o primeiro e-mail em 1993, fui compreendendo que isto do teclado é uma fonte de mal-entendidos. Pode classificar e arquivar aí muita da acidez que detecta. Se juntar a leveza de espírito de conversar para um monitor, com um nome de guerra, tem grande parte do caldo. Mas não tem todo.

Não tenho visto no meu blog, que quero cada vez mais de jardinagem, comentários "perversos", "ácidos" e "ressentidos". Nas poucas vezes, apaguei-os sem olhar para trás e sem dar grandes satisfações. Mas é verdade que a discussão já chegou a azedar nos nossos temas "fracturantes" (aquecimento global, ogms...). Podia listar dezenas de blogs, "Dias Com Árvores", "Guilhermina Succia", " A Cidade Surpreendente"... onde a contradição com o que diz é flagrante. É caso para me questionar (como se não soubesse), a que universo reduziu os blogs em que se movimentou ou movimenta, para generalizar com esta aparente autoridade. Afinal, concluo também, que as caixas de comentários, além de reflexo do "blogger", são uma espécie de trangénico dos temas que tratam.

É inevitável não regressar aos autores e também já falou anteriormente disso, designadamente na relação dos blogs com a "imprensa tradicional". De momento não me posso considerar um observador especialmente atento do fenómeno, porque os temas interessam-me pouco ou nada, mas quem é alguém na blogosfera ao nível de poder aspirar a formar opiniões, já era alguém antes na imprensa escrita, rádio e/ou televisão. Os que por acaso ou mérito, não sei, atingiram um determinado nível de visitantes anunciados (podia-se discutir a sua qualidade enquanto visitantes para além da caixa de comentários) e visibilidade, andam por aí de bicos de pés a ver se essa tal imprensa repara neles. Também acham que têm direito a 15 minutos de fama, provavelmente a mais. Também eles já viram que os blogs de referência, estão bem alicerçados não só na qualidade do seu conteúdo, mas também e principalmente, na visibilidade mediatica dos seus autores. O fogo-fátuo da blogosfera, que deu pelo nome de Espectro, só foi excepção na sua falta de endurance. E a recepção foi digna de ser vista. Aqueles pobres autores nunca imaginaram que tinham tantos amigos.

Voltando ao início, nesses blogs onde se baseou para lavrar esta teoria, a relação entre comentado e comentador, é muito mais de simbiose que de parasitismo. Para os 15 minutos, valem mais 100 comentários idiotas, ruidosos e que praticamente ninguém lê, que meia- dúzia de comentários sensatos, podendo estes, inclusivamente, tornar- se inconvenientes. Aliás, é regra o autor do "post" retirar-se para parte incerta e deixar "o bom povo português" fazer o seu papel.

(José Rui Fernandes)

*

Eu já pus meia duzia de posts anonimos em dois ou três blogues, devo pertencer aos tais ingénuos e acho que tem razão. Gostava de acrescentar uma coisa - a solidão de quem bloga é enorme. A actividade é muito impessoal - não se vê o outro - e talvez / provavelmente por isso a asneira é tanta.

(Eduardo Tomé)

*

Desde que existem blogues, fóruns e caixas de comentários passei a ser um ser muito mais social. Agora escuso de me irritar ou contrariar e discutir com alguém, seja amigo, familiar ou simples desconhecido, sempre que não concordo com o que oiço. Não vale a pena! Mais vale concordar "Pois é..." ou ficar calado e continuar nas graças dessa pessoa. Já não oiço mais: "Estás a ser demasiado radical" ou "Estás a ser fundamentalista".

Agora tenho na net o espaço para expressar as minhas opiniões, para discordar quando quero, para "converter" os outros, se calhar atá para uma audiência maior sem que a minha sociabilidade fique beliscada.

(Paulo Martins)

*

Hoje não li o Público, (...) mas a partir de certa altura, comecei a achar bizarro, toda a gente a despropósito falar-me da sua coluna. Entretanto já estou informada do insólito.

Pelos outros não posso falar, mas por mim posso. Comecei a “blogar” no Espectro com o meu nome. Como não conhecia as regras, cometi numerosas imprudências. A família começou a temer que me tocassem à campainha e arranjaram-me um nick, Maloud. Continuei com a mesma descontracção, mas houve gente que embirrou com aquilo a que chamavam a minha vacuidade. Tornou-se insuportável, porque estou habituada às boas maneiras. Bati a porta com estrondo e simultaneamente com pena. Toda a gente cá em casa me incentivava a continuar, e arranjaram-me outro nick, DasAntas. Quando o Espectro se suicidou, deixei cair o DasAntas, fiquei com alguns contactos pessoais e outros por e-mail, que mantenho. Um deles que o Sr. Dr. não cita, porque escrevia como Anónimo, mas terminava sempre por Niet, telefona-me de Estugarda e e-maila-me todos os dias os links, para artigos de jornais franceses, visto eu dominar mal o inglês. Tem razão, quando diz que se criam uma espécie de cumplicidade e de amizade entre gente que não se conhece {um veio ao Porto conhecer-me}. Mas sabe, no meu caso, acho estas pessoas muito mais interessantes do que as “tias” das Antas com que me vou dando e, por outro lado, os filhos, embora vivendo cá em casa, cresceram e pouco precisam de mim e o meu marido é verdadeiramente ocupado. Acho que não prejudico ninguém “blogando” e a mim dá-me gozo.

Como talvez me tenha feito entender, vê que nada tenho a esconder, nem me envergonho do que sou. O nick existe mais para proteger a família do que a mim própria, visto ser uma dona de casa anónima do Porto.

(autor identificado, Maloud)

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NUNCA É TARDE PARA APRENDER: "A ILHA HERÓICA" (MALTA STORY)

http://www.pierluigisurace.it/imagerie/images/aatw/dot_malta_map_1.jpg O filme foi feito em 1953 já o esquecimento e outras preocupações começavam a apagar a memória da epopeia maltesa durante a segunda guerra mundial. Basta olhar para um mapa para se perceber como Malta estava no pior sítio do mundo (para os seus defensores, para os malteses e para os italianos e alemães) e no melhor sítio do mundo (para os bombardeiros alemães, e para os ingleses que queriam cortar as rotas de abastecimento de Rommel). Isolada praticamente em território inimigo, Malta tinha que ser reabastecida com enormes dificuldades por submarinos e por comboios, que atravessavam uma das zonas mais perigosas de toda a guerra: aviões alemães, navios italianos e um emaranhado de campos de minas que protegiam a ilha, e cujas estreitas vias de acesso não permitiam qualquer erro.

O filme retrata o momento crucial em que o abastecimento de mantimentos e gasolina para os aviões estava quase no fim, e foi preciso romper o bloqueio com muita dificuldade. O "herói" é um piloto de reconhecimento, representado por Alec Guinness, numa das mais aborrecidas e petrificadas actuações que jamais vi dele: o sorriso é o mesmo quer esteja no seu Spitfire, a namorar a maltesa, ou a beber na messe. Ele é arqueólogo (a quantidade de arqueólogos inglese que aparecem nesta guerra é abissal...), ela é irmã de um nacionalista maltês que se tornou espião italiano e é fuzilado. O romance, como as personagens, são moronic até ao limite.

O que é interessante: a rara oportunidade de ouvir falar maltês, a Ave Maria em maltês; a cidade de Valleta, um posto fronteiriço único do Ocidente com toda a história turbulenta feita pedra, muralhas, subterrâneos, fortalezas, que aparece aqui em filmes verdadeiros dos bombardeamentos; e tudo o que são imagens reais da guerra.

*
A minha família é de origem maltesa. Os meus trisavós nasceram em La Valetta e como a família tinha negócios na Península Ibérica o meu bisavô e avô acabaram por se fixar por aqui, depois de terem vivido em Espanha (onde o meu pai nasceu) e do meu avô ter casado com uma francesa do sul, de Cassis. No século XVII, aliás, os meus antepassados Francesco e Nicola Cília foram os "senhores" do feudo (fief) de Budaq. Daqui a minha curiosidade e interesse sempre que aparecem referências a Malta, o que é raro apesar de ser um Estado-Membro da UE. Existem mais famílias de origem maltesa em Portugal (Zammit, por exemplo, ligados, salvo erro, ao Vinho do Porto) e é sempre fácil, pelo menos para nós, identificá-los pelos apelidos onde quer que estejam. Também Teresa Heinz-Kerry é uma portuguesa de origem maltesa, por parte da mãe. Não falo Maltês, mas sei, por exemplo, que é a única língua de origem semita da UE e a também a única que se escreve com alfabeto latino. Penso que a língua é de origem árabe, embora, hoje em dia, tenha adoptado muitas palavras inglesas (Malta foi colónia inglesa até aos anos 60) e italianas. De acrescentar que a George Cross incluída na bandeira de Malta foi-lhe atribuída pela coragem e bravura demonstradas pelo seu povo durante a II Guerra Mundial.

(João Cília)

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LENDO / VENDO /OUVINDO
(BLOGUES, JORNAIS, TELEVISÕES, IMAGENS, SONS, PAPÉIS, PAREDES)
(20 de Abril de 2006)


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Uma nuvem em todo o seu esplendor no Astronomy Picture of the Day.

See Explanation.  Clicking on the picture will download  the highest resolution version available.

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Uma cadeira de design italiano com livros para quem não gosta de livros, vista no Gizmodo.

bibliochaise

Nesta cadeira quem lê onde é que coloca os braços? Em cima dos livros estragando-os? E como estante é pequena. Como escultura? Talvez, mas que livros coloca o bibliófilo para se perderem como decoração? Os repetidos.

*

Que mundo se vê por um buraco de uma agulha? Processos e imagens da fotografia estenopeica, vulgo pinhole..

*

Com um grafismo melhorado a apoiar um comentário sério e calmo, o Bloguitica continua a detectar o spin. Escapou-lhe um bom exemplo de "notícia" que todos os ministros desejam e alguns não conseguem ter: as três páginas do Diário de Notícias, de terça-feira, 18 de Abril, incluindo a capa e toda a parte nobre do jornal, sobre o "passaporte electrónico" a emitir a partir de Setembro.

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EARLY MORNING BLOGS 761

How Much of That Is Left in Me?

Yearning inside the rejoicing. The heart's famine
within the spirit's joy. Waking up happy
and practicing discontent. Seeing the poverty
in the perfection, but still hungering
for its strictness. Thinking of
a Greek farmer in the orchard,
the white almond blossoms falling and falling
on him as he struggled with his wooden plow.
I remember the stark and precious winters in Paris.
Just after the war when everyone was poor and cold.
I walked hungry through the vacant streets at night
with the snow falling wordlessly in the dark like petals
on the last of the nineteenth century. Substantiality
seemed so near in the grand empty boulevards,
while the famous bronze bells told of time.
Stripping everything down until being was visible.
The ancient buildings and the Seine,
small stone bridges and regal fountains flourishing
in the emptiness. What fine provender in the want.
What freshness in me amid the loneliness.


(Jack Gilbert)

*

Bom dia!

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19.4.06


INTENDÊNCIA

Actualizadas as notas MISÉRIA HUMANA e TERRAS DE PORTUGAL ONDE NÃO HÁ ESTADO: RIBEIRA DOS MILAGRES (LEIRIA).

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RETRATOS DO TRABALHO EM ALFÂNDEGA DA FÉ, PORTUGAL


Apanhando giesta.

(Lourdes Sendas)

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RETRATOS DO TRABALHO EM SAKHALIN, FEDERAÇÃO RUSSA



Montagem de "pipeline" em Sakhalin, Rússia, onde trabalha pelo menos um português, de Águeda, chamado Renato da Costa (autor da fotografia), que é "Spread Superintendent" do projecto de "pipeline" mais caro até hoje. Quando esta imagem foi feita estavam 30 graus negativos, condições difíceis, mas nem por isso o trabalho pára.

(Ângelo E. Ferreira)

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18.4.06


RETRATOS DO TRABALHO NA FONTE DA TELHA, PORTUGAL


Recolha das redes.

(João Caetano Dias)

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MISÉRIA HUMANA



Poucas coisas revelam melhor a miséria humana, em todos os sentidos, do que a exploração da morte trágica de um actor de telenovela pela TVI. Está a transmitir o funeral em directo, como um grande acontecimento nacional, com comentários a preceito, explorada a morte até à obscenidade. Com a colaboração do "bom povo português".

*
No seu breve comentário acerca da morte de um actor de uma telenovela da TVI, considerou a exploração daquela como reveladora da miséria humana. O que a mim me parece é que «exploração» e «miséria» não são os dois conceitos mais apropriados para avaliar a decisão da TVI, se a avaliação e a análise desta decisão se basear nos pressupostos teóricos do liberalismo. São dois conceitos que remetem mais depressa para uma análise marxista, que vê neles uma expressão da alienação dos homens.

Para um liberal que se preze, a TVI limitou-se a aproveitar uma oportunidade para conquistar audiências, para dessa forma se impôr no mercado. Como os liberais fazem questão em lembrar-nos, aquilo a que se assistiu foi apenas à espontaneidade dos agentes económicos que procuram satisfazer os seus interesses. Dizem-nos, também, que é dessa espontaneidade e da iniciativa individual que surgem produtos inovadores (como a morte em directo) capazes de conquistar os consumidores. Nessa medida, a morte como espectáculo e como mercadoria é, «apenas», mais um negócio em que os indivíduos podem – e devem – apostar e arriscar.

E isto é assim porque para o liberalismo não tem existir qualquer imposição legal ou ética limitadora da iniciativa individual, pois isso seria um ataque ao livre funcionamento do mercado. Portanto, numa economia capitalista o ser e o dever-ser são o mesmo: o que o agente económico é, é o que agente moral deve ser; o interesse daquele confunde-se com os valores deste. Assim, qualquer indignação por parte do ser moral só pode ser uma expressão de um dualismo artificial, criado por quem quer fazer a quadratura do círculo.

(Rui Fernando)

*

Esquecendo os interstícios da definição de liberalismo como o vê Rui Fernando, que aposto muitos porão liminarmente em causa, das duas uma: ou a estação não respeitou a família, ou a família e a estação desconhecem que se trata de um espectáculo deplorável.

Segundo percebo, há numa sociedade civilizada, direitos que se têm e não se podem pôr em causa, nem pelo próprio "interessado". Um deles é o direito ao respeito em morte.

(Henrique Martins)

*

Não há costume contemporâneo recente e mais repugnante que aplaudir os falecidos, só denota uma falta de vergonha e um exibicionismo egoísta e torpe por parte dos vivos.Respeito pelas famílias e reserva de comportamentos, pois que a morte não é um evento publicitário.

(António Carrilho)

*

A polémica sobre o funeral em directo resume-se no essencial ao mesmo que todos os programas televisivos. Existem por que têm publico. Nenhuma televisão privada emite seja o que for se não lhe permitir ter o tal de “Share”. E quem faz o “Share” é quem vê. Referiu e muito bem o “bom povo português” no seu post. É esse o culpado. Deixemo-nos de minuências sobre o liberalismo e a moral. No dia em que um concerto de musica clássica tiver mais “share” que um funeral de um actor de telenovelas os mesmos responsáveis pelo mesmo canal televisivo passarão musica clássica e ignorarão o funeral. O resto é conversa.

Já há mais de 2 séculos que Adam Smith escreveu que as tabernas estão abertas porque existem bêbados e não o contrário, rebatendo assim os que acusavam os taberneiros de serem os causadores das bebedeiras. E, entre outras coisas, Adam Smith era professor de moral.

(Miguel Sebastião)

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TERRAS DE PORTUGAL ONDE NÃO HÁ ESTADO:
RIBEIRA DOS MILAGRES (LEIRIA)




Pela enésima vez, uma descarga de suinicultura, empestou a Ribeira dos Milagres. Está à vista de todos, foi lá a GNR cobrir a ocorrência, e as televisões filmaram a porcaria da Ribeira. Talvez se o cheiro se filmasse, e o odor muito peculiar, ácido, intenso, que se cola a tudo, entrasse pelas casas dentro, o Estado fizesse o favor de chegar à Ribeira dos Milagres. Mais uma vez todas as autoridades, que mais uma vez nada de consequente vão fazer, devem estar a cruzar os dedos, esperar que a notícia, de tão repetida, caia no esquecimento, para tudo continuar na mesma neste Portugal que não vem em nenhuma "estratégia de Lisboa", nem em nenhum Plano Tecnológico.

*
Porque nada mais resulta, e não me sinto tecnicamente habilitada para falar aprofundadamente de assuntos tecnológicos, eu sugeria que lhe mudassem o nome. À Ribeira dos Milagres. Pode ser que assim se consiga alguma coisa! Parece estar a funcionar com a incineração, que agora se chama co-incineração, não é? Além disso, neste país certos nomes atraem a desgraça, como aqui há tempos aconteceu com a povoação de Nossa Senhora de Fátima, para onde esteve prevista uma incineradora, durante o governo PSD/PP. Quanto à tal ribeira: não sou técnica, mas não me parece nada impossível (nem milagroso) resolver o problema desses resíduos, em primeiro lugar comendo menos carne de porco (até faz bem), e em segundo lugar fazendo a compostagem e digestão anaeróbia. E disse-o eu própria certa vez, já lá vão uns anitos, aos microfones da Antena 1. Pelos vistos, esse gesto meu não foi tão «milagroso» como se pela minha voz tivesse falado uma couve (embora me pareça hoje, a julgar pelos resultados, que fiz de facto tal figura...)

(Adelaide Chichorro Ferreira)

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Ao ler o "Abrupto pelos seus leitores"(Rui Fernando e Adelaide Chichorro Ferreira) procurei interpretar o empestar da Ribeira dos Milagres por uma suinicultura com a regra do "ser e o dever-ser" serem a mesma coisa numa perspectiva liberal: se o interesse económico da suinicultura tem uma oportunidade no aproveitamento duma via natural e sem custos para o escoamento dos dejectos, o interesse do agente económico e os seus valores morais "confundem-se". Ora aqui fico na dúvida qual o tipo de moralidade em causa, e pergunto-me por que carga d'água o agente económico pensa que os que vivem nas imediações da ribeira, e as pessoas em geral, têm de aceitar a imposição duma moralidade que se limita a um critério de puro interesse individual sem respeito pelo ambiente dos outros.

O livre funcionamento do mercado não admite instãncias autoreguladoras como o interesse colectivo dos cidadãos auto-organizados? Só se for na China capitalista, em que o Estado defende a iniciativa dos agentes económicos contra a repressão dos moradores das localidades que sofrem os impactos ambientais resultantes de certa "espontaneidade e iniciativa".

Quanto à liberdade dos agentes económicos (tipo exemplo da TVI) "apostarem e arriscarem" em "produtos inovadores (como a morte em directo)", já leva a um debate mais interessante, tipo "choque de civilizações" e "causas da decadência do Império Romano", sem se cair em "dualismos artificiais", nem em "quadratura do circulo".

(Pedro de Almeida)

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RETRATOS DO TRABALHO EM ESTRASBURGO, FRANÇA


Polícia bloqueia uma rua, 15 de Abril de 2006.

(Daniel Rodrigues)

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EARLY MORNING BLOGS 760

En l'honneur d'un Sage solitaire



Moi l'Empereur je suis venu. Je salue le Sage qui, soixante-dix années, a retourné et labouré nos Mutations anciennes et levé des savoirs nouveaux.

J'attends du Vieux Père la leçon : et d'abord, s'il a trouvé la Panacée des Immortels ? Comment on prend place au milieu des génies ?

o

Le Sage dit : Faire monter au Ciel le Prince que voici serait un malheur pour l'Empire terrestre.

o

Moi l'Empereur interroge le Solitaire : a-t-il reçu dans sa caverne la visite des trente-six mille Esprits ou seulement de quelques-uns de ces Très-Hauts ?

o

Moi le Solitaire n'aime pas les visiteurs importuns.

o

Moi l'Empereur implore enfin le Sage le pouvoir d'être utile aux hommes : quelque chose pour le bien des hommes !

o

Le Sage dit : Étant sage, je ne me suis jamais occupé des hommes.

(Victor Segalen)

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Bom dia!

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17.4.06


NUNCA É TARDE PARA APRENDER: INGLÊS EM DEADWOOD
Deadwood Season 2 - episode 23

Nunca vi falar inglês assim numa série de televisão americana. Novas palavras que nem sequer sabia que existiam: "faro", um jogo de cartas popular no século XIX; "heathen", os infiéis, usado para os Sioux e os chineses; e muitas mais. O calão, pelo contrário, permanece reconhecível, ontem como hoje, a julgar pelo seu uso homérico pelas personagens "de baixo", jogadores, prostitutas, rufias, prospectores de ouro, a rua de Deadwood e o comércio pioneiro que pratica a acumulação primitiva, ou seja, o roubo. Quando o roubo se torna em propriedade inicia-se a civilização.

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RETRATOS DO TRABALHO NA REGIÃO DE ANTALYA NA TURQUIA


Montanhas no sul da Turquia, a poucos quilómetros do Mediterrâneo e de Antalya. Mostra mulheres, a fazer pães , enchidos com queijo, manteiga ou espinafres.

(João Mourão)

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COISAS DA SÁBADO :
A RAPOSETA, PINTALEGRETA, SENHORA DE MUITA TRETA



Há vários dias que o retrato verbal magnífico que Aquilino fez da sua raposa me vinha à mente quando observava as sucessivas habilidades com que o nosso Primeiro-ministro nos mantém distraídos e muito mais complacentes com a governação do que o que devíamos estar. Ali havia raposeta “senhora de muita treta” e nós levados pela “treta”, diminuíamos o sentido crítico e a vigilância face aos actos do governo.

Mea culpa faço também eu. Comentando as medidas para equilibrar o orçamento, os sucessivos anúncios de investimentos estrangeiros, os planos tecnológicos e outros, o PRACE, o SIMPLEX e outros que todas as semanas nos anunciam, fui pelas intenções. A imediaticidade do comentário tem este defeito, quando se volta aos documentos, quando se conhecem os resultados, a concretização efectiva das medidas, as que ficaram pelo caminho, vê-se melhor a dimensão da propaganda. As intenções são as melhores do mundo, as medidas propagandeadas parecem reformas e, como suscitam as devidas reacções corporativas e são feitas num clima de depressão económica, parecem a doer e doem pelo menos a uma parte dos portugueses, tendemos a pensar que desta vez é a sério.

A habilidade do governo em integrar as suas medidas no programa do Outro – menos estado, melhor estado, desburocratização, prioridade ao controlo do défice, reforma da administração pública - merece a devida concordância do Outro, ou pelo menos, a sua aceitação incomodada. O problema é depois. Mas depois já o efeito de propaganda se verificou. Vai-se apenas à epiderme, como dizia Medina Carreira, ou vai-se mais ao fundo, à carne? E a resposta começa a ser cada vez mais: epiderme, epiderme, epiderme.

Os números do défice previsto para este ano, de 6%, são o primeiro sinal muito sério que não só se está na epiderme, como ainda se está a engrossar a epiderme. De novo o princípio da raposeta, a “treta”, foi posto a funcionar para o governo se vangloriar daquilo que é um sinal muito preocupante do falhanço da sua política. Isto porque o número de 6%, superior aliás ao défice previsto do governo Lopes sem receitas extraordinárias, só parece razoável comparado com o exercício a que se prestou o Banco de Portugal, ao calcular um défice final fictício para o orçamento anterior. A falta de prudência do Banco de Portugal fornecendo um número tendencial à propaganda governamental, partindo do principio que Bagão Felix nada faria para controlar as contas públicas caso derrapassem dessa forma flagrante, serviu às mil maravilhas para que 6% parecesse um bom resultado num ano em que houve receitas fiscais consideráveis, e um aumento dos impostos excepcional. Mas não é, é péssimo.

A raposeta continua no seu jogging, deslumbrado pela governação por actos e sessões de relações públicas, mas o reino animal é demasiado complicado para a “treta” esconder certas garras, e certos dentes.

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O seu último comentário sobre a diferença entre a propaganda do governo e os resultados da governação parece-me muito pouco consistente. Qual é a surpresa pelo facto de o défice de 2005 ser de 6%? Não era isso que estava previsto no orçamento rectificativo? Pode-se criticar o orçamento rectificativo, mas apontar o seu cumprimento como exemplo de incumprimento das expectativas criadas não faz qualquer sentido. Uma vez que o governo - baseando-se no relatório Constâncio - justificou o aumento da despesa como decorrente do orçamento do governo PSD/CDS, seria preciso indicar exemplos concretos de despesas que o governo aumentou desnecessariamente. O gabinete de estudos do PSD poderia facilmente produzir um documento com este tipo de informação detalhada.

As críticas que faz ao dr. Vítor Constâncio levantam-me imediatamente a dúvida: não estaria ele também enganado quando fez o relatório para o governo PSD/CDS? Parece muito conveniente que só esteja errado agora. É natural que o relatório Constâncio seja criticado, mas as críticas deveriam fundamentadas, apontando concretamente os erros. Mais uma vez, não percebo por que razão o PSD não produz um estudo sobre este assunto, fundamentando as suas posições.

Também não percebo a sua surpresa com o facto de o governo fazer propaganda. Todos os governos fazem e, sem bem me recordo, o governo do Professor Cavaco Silva era bastante competente nesta área. Aliás, as oposições também a fazem, embora com menos meios. Mais uma razão para a fazerem de forma consistente.

Concordo que é necessário ser-se cauteloso na apreciação da política orçamental. O que se passou nos últimos anos (com os vários governos) a isso obriga. No entanto, as tentativas de diabolização do Primeiro-ministro não contribuem em nada para o esclarecimento desta questão.

(Pedro F. dos Santos)

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LENDO / VENDO /OUVINDO
(BLOGUES, JORNAIS, TELEVISÕES, IMAGENS, SONS, PAPÉIS, PAREDES)
(17 de Abril de 2006)


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A rede que nos enreda: a história verdadeira do autor do blogue Strange Things are Afoot at the Circle K., acusado de ter morto uma criança de 10 anos e de se preparar para a comer, depois de ter escrito no seu blogue sobre canibalismo. O blogue continua em linha e recolhe comentários, cerca de quinhentos, o que não é muito pelos critérios portugueses com os seus cinco ou seis comentadores compulsivos por tudo quanto é caixa aberta. Outros traços de Kevin Ray Underwood na Rede foram apagados, por exemplo a sua lista de preferidos na Amazon, os seus comentários no MySpace. Kevin está preso, mas o blogue está solto.

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A ler: "Páscoa" de Eduardo Pitta no Da Literatura.

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Tempos modernos:
"Os criadores de "South park" foram impedidos de desenvolver um episódio mostrando imagens do profeta Maomé. Em vez disso, o episódio mais recente da série mostrou Jesus Cristo defecando no presidente George W. Bush e na bandeira americana.
(no Jornal de Notícias).

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RETRATOS DO TRABALHO EM TAVIRA, PORTUGAL


Reparação das redes.

(João Caetano Dias)

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RETRATOS DO TRABALHO EM LAGOS, PORTUGAL



Um trabalho típico do Algarve - fazer os bolinhos de amêndoa e gila, conhecidos por morgadinhos. Tirei esta foto numa fábrica que existe à saída de Lagos na direcção de Sagres, do lado esquerdo, na estrada 125. Fazem os morgadinhos, os D. Rodrigos, umas tortas de amêndoas fabulosas, etc. Podemos vê-los à venda nas grandes superfícies de Lisboa, mas também os podemos comprar lá directamente, que são muito melhores.

(Acilina Caneco)

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EARLY MORNING BLOGS 759

A Noiseless Patient Spider


A noiseless patient spider,
I marked where on a promontory it stood isolated,
Marked how to explore the vacant vast surrounding,
It launched forth filament, filament, filament, out of itself,
Ever unreeling them, ever tirelessly speeding them.

And you O my soul where you stand,
Surrounded, detached, in measureless oceans of space,
Ceaselessly musing, venturing, throwing, seeking the spheres to connect them,
Till the bridge you will need be formed, till the ductile anchor hold,
Till the gossamer thread you fling catch somwhere, O my soul.


(Walt Whitman)

*

Bom dia!

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16.4.06


LENDO / VENDO /OUVINDO
(BLOGUES, JORNAIS, TELEVISÕES, IMAGENS, SONS, PAPÉIS, PAREDES)
(16 de Abril de 2006)


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Ruas em tempo real: o "compasso"' na rua de S.João de Brito no Porto e em Braga. (Fotos de Gil Coelho)






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Falta selectiva de memória ou duplicidade? É tão interessante ver artigos retrospectivos sobre as faltas dos deputados como o de hoje no Diário de Notícias e não encontrar nenhuma referência a uma questão ultra-polémica do passado, as multas aos deputados faltosos aplicadas no Grupo parlamentar do PSD. Talvez porque, nessa altura, toda a comunicação social era veementemente hostil a essas multas, tratando os deputados faltosos (fora da invocação de razões de consciência) como heróis contra a disciplina "autoritária" da bancada... Era Cavaco o Primeiro-ministro. Ah! como os tempos mudam!

PS: outra asneira repetida é dizer que a falta de quorum nunca se deu no passado. Aconteceu várias vezes, aconteceu até haver votações a favor da oposição por falta de deputados da maioria. Tanta ligeireza jornalística não se admite.

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EARLY MORNING BLOGS 758

O amor de Arthur Rimbaud o mestre do silêncio


Nas montanhas onde moram as estrelas
bosques que existem há mil anos
de cabelos negros como o luar e a brisa da tarde
quando entra branda entre as pétalas das flores
que se inclinam sobre o morto que dorme
e misteriosamente repete:

«Sur l'onde calme et noire où dorment les étoiles
Un chant mystérieux tombe des astres d'or»
semi-saído da terra com um olho infinito aberto
morto há um ano ao nascer da lua
morto há um dia ao nascer da rosa
morto há um sonho, morto há um gesto
frente ao sopro das árvores da noite
tocou o seio infante numa primavera
e misteriosamente repete:

«Ô pâle Ophélia! belle como la neige!
Ciel! Amour! Liberté! Quel rêve, ô pauvre Folle!»
transparente sobre a terra mole de lava de estrela
sobre cabelos idênticos aos dos mortos desolados
morto há mil anos repete:

«La blanche Ophélia flotte comme un grand lys»

o morto misteriosamente diz:

«Il y a une horloge qui ne sonne pas»


(António Maria Lisboa)

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Bom dia!

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© José Pacheco Pereira
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