ABRUPTO

18.4.06


MISÉRIA HUMANA



Poucas coisas revelam melhor a miséria humana, em todos os sentidos, do que a exploração da morte trágica de um actor de telenovela pela TVI. Está a transmitir o funeral em directo, como um grande acontecimento nacional, com comentários a preceito, explorada a morte até à obscenidade. Com a colaboração do "bom povo português".

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No seu breve comentário acerca da morte de um actor de uma telenovela da TVI, considerou a exploração daquela como reveladora da miséria humana. O que a mim me parece é que «exploração» e «miséria» não são os dois conceitos mais apropriados para avaliar a decisão da TVI, se a avaliação e a análise desta decisão se basear nos pressupostos teóricos do liberalismo. São dois conceitos que remetem mais depressa para uma análise marxista, que vê neles uma expressão da alienação dos homens.

Para um liberal que se preze, a TVI limitou-se a aproveitar uma oportunidade para conquistar audiências, para dessa forma se impôr no mercado. Como os liberais fazem questão em lembrar-nos, aquilo a que se assistiu foi apenas à espontaneidade dos agentes económicos que procuram satisfazer os seus interesses. Dizem-nos, também, que é dessa espontaneidade e da iniciativa individual que surgem produtos inovadores (como a morte em directo) capazes de conquistar os consumidores. Nessa medida, a morte como espectáculo e como mercadoria é, «apenas», mais um negócio em que os indivíduos podem – e devem – apostar e arriscar.

E isto é assim porque para o liberalismo não tem existir qualquer imposição legal ou ética limitadora da iniciativa individual, pois isso seria um ataque ao livre funcionamento do mercado. Portanto, numa economia capitalista o ser e o dever-ser são o mesmo: o que o agente económico é, é o que agente moral deve ser; o interesse daquele confunde-se com os valores deste. Assim, qualquer indignação por parte do ser moral só pode ser uma expressão de um dualismo artificial, criado por quem quer fazer a quadratura do círculo.

(Rui Fernando)

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Esquecendo os interstícios da definição de liberalismo como o vê Rui Fernando, que aposto muitos porão liminarmente em causa, das duas uma: ou a estação não respeitou a família, ou a família e a estação desconhecem que se trata de um espectáculo deplorável.

Segundo percebo, há numa sociedade civilizada, direitos que se têm e não se podem pôr em causa, nem pelo próprio "interessado". Um deles é o direito ao respeito em morte.

(Henrique Martins)

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Não há costume contemporâneo recente e mais repugnante que aplaudir os falecidos, só denota uma falta de vergonha e um exibicionismo egoísta e torpe por parte dos vivos.Respeito pelas famílias e reserva de comportamentos, pois que a morte não é um evento publicitário.

(António Carrilho)

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A polémica sobre o funeral em directo resume-se no essencial ao mesmo que todos os programas televisivos. Existem por que têm publico. Nenhuma televisão privada emite seja o que for se não lhe permitir ter o tal de “Share”. E quem faz o “Share” é quem vê. Referiu e muito bem o “bom povo português” no seu post. É esse o culpado. Deixemo-nos de minuências sobre o liberalismo e a moral. No dia em que um concerto de musica clássica tiver mais “share” que um funeral de um actor de telenovelas os mesmos responsáveis pelo mesmo canal televisivo passarão musica clássica e ignorarão o funeral. O resto é conversa.

Já há mais de 2 séculos que Adam Smith escreveu que as tabernas estão abertas porque existem bêbados e não o contrário, rebatendo assim os que acusavam os taberneiros de serem os causadores das bebedeiras. E, entre outras coisas, Adam Smith era professor de moral.

(Miguel Sebastião)

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© José Pacheco Pereira
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