ABRUPTO

30.7.05


NATUREZA MORTA DE NOITE COM VENTO

À esquerda, pela primeira vez um espaço vazio. Havia as folhas de um capítulo de um livro, mas estão a ser corrigidas noutro sítio. Ficou um vazio inabitável, arrumado. Quase arrumado. Por baixo, havia pouca coisa: um post-it com uma morada, duas agendas antigas que vieram num espólio. Uma de 1967 está vazia e com excepção da assinatura do dono não parece ter nada escrita. Na capa diz licores Mala Posta.

A outra é vermelha e tem um nome estranho: “Agenda Quadrimensal de Medicina Internacional” e é de 1931. Não sei como foi parar a este espólio em que não encaixa. Encontrei-a no chão, entre recortes quase a desfazerem-se e revistas Sinal. Na agenda, escritas em tinta castanha e numa letra muito pequena estão números de telefone, recados, datas. Uma agenda de um médico? Talvez. Entre os nomes, quase todos os grandes médicos portugueses. Todos mortos. Uma tesoura, um agrafador, uma lupa, cinco zips, uma máquina fotográfica, três canetas. Um ecrã com este texto. Um espelho côncavo. Um azulejo de Delft. Uma mão. Duas mãos. Um rato sobre azul. Mais simplicidade do que o costume. Menos caos. Um ramo de flores secas. Um ponto de luz que brilha ao longe. Mais um Agosto, o mês menos interessante. Vento.

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INTENDÊNCIA

Actualização dos ESTUDOS SOBRE O COMUNISMO.

Actualizado
MICRO-CAUSAS:
PODE O GOVERNO SFF COLOCAR EM LINHA OS ESTUDOS SOBRE O AEROPORTO DA OTA PARA QUE NA SOCIEDADE PORTUGUESA SE VALORIZE MAIS A “BUSCA DE SOLUÇÕES” EM DETRIMENTO DA “ESPECULAÇÃO”?

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OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: MAIS UM! MAIS UM!


planeta da nossa família próxima.

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DOIS SUPLEMENTOS LITERÁRIOS

À memória de O Comércio do Porto

Os materiais preciosos que estão dispersos, esquecidos e ignorados nos Suplementos Culturais dos jornais diários, dariam uma luz nova à nossa tão ignorada história cultural do século XX. Eu cresci com eles e é hoje difícil perceber a ansiedade com que se esperava em cada número a continuação de uma polémica, ou um outro artigo de uma série, ou uma crítica de um autor que se lia sempre. Nas características de um mundo dominado pela censura, eram uma das raras formas vivas de acompanhar o que se passava e ter uma actualização quanto a ideias, livros, autores e pintores. Esses suplementos eram exigentes quanto às colaborações e os textos publicados eram de grande qualidade. Um verdadeiro “quem é quem” da nossa cultura por lá passou.

Eu lia regularmente (e coleccionava, ainda os tenho) os Suplementos do Diário de Lisboa, do Diário Popular, e no Porto, os de O Comércio do Porto e do Primeiro de Janeiro. No dia em que acaba O Comércio do Porto, recordo o seu suplemento cultural, parcialmente editado em vários volumes sob o título de Estrada Larga, dirigido por Costa Barreto, uma daquelas personagens que não merecia o esquecimento. Nele colaborei em parceria com Óscar Lopes, uma semana um, uma semana outro, fazendo “crítica” fugaz a vários ensaios de história, filosofia, e “ideias”. Depois, a censura e a vida atribulada levaram-me a romper essa colaboração, como também a do Jornal de Notícias. O que eu queria dizer, era impossível já escrevê-lo.

Os Suplementos do Porto, em particular os do Comércio e do Janeiro, estão cheios de excelentes críticas, notas, artigos, o do Comércio excessivamente sisudo com a sua paginação antiga, as letras góticas a pesarem. O do Janeiro era pelo contrário alegre, com uma rara mancha de cor amarela e vermelha nos jornais de então. Os dois jornais eram pilares da burguesia ilustrada do Porto, a única em Portugal que parecia vir das páginas da “ética protestante” de Weber

Sem O Comércio do Porto, o Porto é menos Porto.

*

(Para se ter uma ideia do que foi o jornal vejam-se estas fotos no Vilacondense,)

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MICRO-CAUSAS:
PODE O GOVERNO SFF COLOCAR EM LINHA OS ESTUDOS SOBRE O AEROPORTO DA OTA PARA QUE NA SOCIEDADE PORTUGUESA SE VALORIZE MAIS A “BUSCA DE SOLUÇÕES” EM DETRIMENTO DA “ESPECULAÇÃO”?

No Bloguítica. no Blasfémias , no Ciberjus , no Von Freud , na Grande Loja do Queijo Limiano, no [ai-dia], no A destreza das dúvidas , no crackdown, no ContraFactos & Argumentos , n' A Esquina do Rio , no Almocreve das Petas, no Um prego no sapato, no ...bl-g- -x-st-, no sorumbático, no Portuense, no ABnose, no Portugal dos Pequeninos, no Teoria da Suspiração, no A Baixa do Porto, e noutros que não pude recensear, também se apoia esta divulgação. Alguém informe os senhores ministros, Primeiro-ministro, da Economia e das Obras Públicas, que estes blogues são, no seu conjunto, mais lidos do que alguns jornais, e que mais cedo do que tarde, o mesmo pedido SFF chegará aos jornais, porque os movimentos na blogosfera são notícia, e porque é da mais límpida exigência democrática saber quais os fundamentos de tão importantes decisões.

Acresce que o pedido está longe de ser apenas para os documentos eventualmente produzidos por este governo, mas também para os anteriores, porque o melhor é mesmo conhecer o processo de decisão ou de não-decisão, completo. Torno a lembrar que não concebo que estes documentos não estejam a não ser em suportes digitais, pelo que a sua colocação em linha pode ser quase imediata, nas boas práticas de uma administração aberta.

Também é útil saber se há razões para que os documentos não sejam divulgados. Dou o benefício da dúvida, mas gostava de as conhecer, e esse é o esclarecimento mínimo que é exígivel.

Por último, o Abrupto não é o sítio ideal para se discutirem as razões técnicas sobre a OTA (e outros investimentos como o TGV, Sines, etc.). Existem já blogues com essa intenção, tomando partido na questão, e , a julgar pelas sugestões de leitores como Rogério Paulo Matos do Insustentável, outros surgirão.

*

Um documento , entre muitos, já disponível, de autoria de Miguel Geraldes Cardoso:
Em 2003 foi posta a Consulta Pública um documento de impacto ambiental do aeroporto aos munícipes do Concelho de Alenquer. Como engenheiro tinha estado no grupo de trabalho de estudo prévio do aeroporto e respondi à Consulta, resposta que anexo ( aeroporto.DOC.) A resposta é datada mas talvez tenha interesse.
*

Alguns estudos que já estão em linha referenciados aqui.

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COISAS COMPLICADAS


Lucian Freud, The Egyptian Book

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EARLY MORNING BLOGS 564

Portugal


Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!

*

Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,
não há “papo-de-anjo” que seja o meu derriço,
galo que cante a cores na minha prateleira,
alvura arrendada para o meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.
Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós...


(Alexandre O'Neill)

*

Bom dia!

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29.7.05


OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: ÁGUA, ÁGUA, ÁGUA EM MARTE


(Vale a pena alargar a imagem aqui.)

Ainda iremos lá bebe-la. Fresca e pura. Quando cá faltar. Já não falta muito.

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MICRO-CAUSAS:
PODE O GOVERNO SFF COLOCAR EM LINHA OS ESTUDOS SOBRE O AEROPORTO DA OTA PARA QUE NA SOCIEDADE PORTUGUESA SE VALORIZE MAIS A “BUSCA DE SOLUÇÕES” EM DETRIMENTO DA “ESPECULAÇÃO”?

No Bloguítica.no Blasfémias , no Ciberjus , no Von Freud , na Grande Loja do Queijo Limiano, no [ai-dia], no A destreza das dúvidas , no crackdown, no ContraFactos & Argumentos , n' A Esquina do Rio , no Almocreve das Petas, no Um prego no sapato, no ...bl-g- -x-st-, no sorumbático, no Portuense, e noutros que não pude recensear, também se apoia esta divulgação. A causa é micro, mas é mais que justa e não pode ser considerada "contra" o governo. Bem pelo contrário, se o fizer, e podermos perceber melhor como se formou a decisão do governo nos seus aspectos técnicos, este sai reforçado.

O Ministro da Economia, que acompanha a blogosfera, tem aqui uma oportunidade para concretizar um dos aspectos desejáveis do "plano tecnológico": uma melhor democracia, mais esclarecida, usando as possibilidades de audiência, acessibilidade e livre análise da rede.

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MICRO-CAUSAS:
PODE O GOVERNO SFF COLOCAR EM LINHA OS ESTUDOS SOBRE O AEROPORTO DA OTA PARA QUE NA SOCIEDADE PORTUGUESA SE VALORIZE MAIS A “BUSCA DE SOLUÇÕES” EM DETRIMENTO DA “ESPECULAÇÃO”?

"Respeito muito os signatários, mas há sociedades que valorizam mais a especulação e a análise, enquanto outras valorizam mais a busca de soluções." (Manuel Pinho, Diário Económico, 28-07-07)

Todos nós ficaríamos mais informados e poderíamos discutir melhor, aceitando inclusive as razões do governo para tão vultuoso e controverso investimento. Não há nada a temer pois não? Não há segredos de estado, pois não? Não há razões para não se conhecerem, pois não? Até já deviam estar na rede. Eles devem estar feitos em suporte digital, é suposto. Por isso, ainda hoje podem ficar em linha, ou este fim-de-semana. Não há razões para demora.

Sugiro também, para no governo se ouvir melhor, que outros blogues e mesmo os meios de comunicação social possam todos os dias repetir a pergunta, o pedido, até ele ter a única resposta razoável. SFF.

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COLECCIONADOR DE EFEMERA:
FRAGMENTOS DE PORTUGAL NO SEU MELHOR


A esperança em estado impuro. As longas filas soviéticas nas tabacarias para entregar os papelinhos para ganhar o Euromilhões. Sofrimento do comprador dos jornais.



A vingança em estado puro. O tanque dos piranhas do Circo Cardinale onde “uma jovem mergulhadora dará de comer carne crua aos terríveis peixes piranhas”. Cuidado, inimigos do Circo Cardinale!



A simplicidade em estado puro. Uma das partes da “palavra” que penso ter sempre percebido bem é a da “simplicidade” que leva ao Reino dos Céus. Mas ainda me espanto quando a vejo em acto, quando alguém me chama para saber qual é o “plano de Deus para a tua vida” e o faz a sério. A sério, mesmo, e com estacionamento gratuito.

(Continua)

*

Relativamente ao texto «FRAGMENTOS DE PORTUGAL NO SEU MELHOR», mais precisamente no que se refere ao euromilhões: sabe o que é que o biólogo francês Albert Jacquard chama a este tipo de coisas? Imposto sobre o desespero.
(José Carlos Santos)
*

Tomando como referencial da mensagem acerca de um Culto Evangélico, um folheto de convite, JPP viu o «invisível» – que é do domínio da Fé . A simplicidade em estado puro. E muito bem fez um comentário «hermenêutico» sobre a dita simplicidade que leva ao Reino dos Céus. E é verdade. Foi o próprio Senhor Jesus Cristo que o afirmou.
Relativamente ainda ao evento anunciado no folheto «Está Convidado», uma nota apenas. Trata-se de um convite para assistir ao Culto Evangélico de domingo à tarde na Assembleia de Deus do Funchal. Na Madeira, afinal, não há défice democrático em relação aos Evangélicos, eles não são com certeza considerados próximos dos «talibans», nem dos «fundamentalistas» que em nome de um ícone islâmico ( não de Deus ou de Allá) espalham o terror. Nunca ouvi o Alberto dizer isso, mas já ouvi o Mário dizê-lo. Por isso receio que se o Mário ganhar as presidenciais, folhetos como aquele possam estar sob suspeita.
(João Tomaz Parreira)

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COISAS SIMPLES / COISAS COMPLICADAS


Nan Goldin, Twilight at the Arena (Arles)

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CANDIDATOS PRESIDENCIAIS E FUNÇÃO PRESIDENCIAL

(Artigo do Pùblico de ontem.)

Quando soube que Mário Soares se preparava para ser candidato presidencial, a notícia surpreendeu-me. Não devia. Várias vezes perguntado, durante o período de activismo anti-Bush mais agudo de Soares, sobre se “será que ele quer mesmo ser Presidente outra vez?”, eu respondia qualquer coisa como isto: “se achar que pode ter um papel decisivo, como seja tirar agora a GNR do Iraque, ele concorre de certeza”. Agora vejo que me enganei não na possibilidade mas sim no “decisivo”. Ou seja, Soares concorre não porque haja qualquer coisa “decisiva” que justifique a sua candidatura, mas para servir uma vontade de poder e pretensões intervencionistas, que deviam incomodar em primeiro lugar Sócrates e o seu governo.

Soares concorre porque não lhe passa pela cabeça qualquer partilha do poder socialista. Ele é um homem de partido, com uma cultura jacobina do poder, quer no estado, quer no partido, e pouco propício a partilha-la com quem acha que não é da família ou da tribo. Nesta pulsão reconhece-se o mesmo Soares que empurrou o grupo socialista do Parlamento Europeu para uma estratégia do “tudo ou nada”, e que o levou ao “nada”. Depois, quando perdeu, chamou com despeito “dona de casa” à sua concorrente, que ainda por cima era uma mulher. O mesmo tipo de atitude existe para um Cavaco que ele achará sempre que é um parvenu na “sua” democracia. Para ele seria uma quase afronta que Cavaco fosse Presidente, no lugar que foi o seu, e “mandasse” no PS. Irritava-o o que achava ser uma complacência dos socialistas perante a inevitabilidade de Cavaco. Convenceu-se que só ele o pode impedir, e não desdenha mostrar essa capacidade salvífica combatendo para o evitar, o que aliás é mérito seu, porque combativo será sempre.

Mas, se este factor, quase de repulsa por poder ter um estranho na “sua” casa, o motiva, ainda mais o motiva poder pôr na ordem o PS e encaminha-lo para uma esquerda mais radical, “social” no sentido anti-capitalista, anti-globalizadora, anti-americana e gaullista-europeista extremada, que é o núcleo duro do seu pensamento actual. Ironicamente, para quem meteu o socialismo na “gaveta”, o seu pensamento económico, ou melhor, a sua ideologia económica, é hoje claramente anti capitalista e o apoio que dá aos movimentos anti-globalização, simbolizados no fórum de Porto Alegre, e que representam hoje o “socialismo terceiro-mundista” que combateu no passado, tem poucas nuances. Soares é hostil às políticas de liberalização da OMC, combateria aquilo a que chama “capitalismo selvagem” e a “dominação” do globo pelo “pensamento único”, pelo “neo-liberalismo”, ou seja, a mundialização da economia de mercado que o fim do “socialismo real” permitiu.

Soares apoiaria um eixo Paris-Berlim-Moscovo e deseja uma Europa federada, uns Estados Unidos da Europa mesmo que sem este nome, uma Europa que se dotasse dos meios de defesa e intervenção que lhe dessem capacidade para se medir com a super potência americana. O seu ideal seria uma Europa armada que substituiria o lugar da URSS como a outra super potência, e com uma política externa essencialmente de contenção anti-americana. Faria tudo para combater o “império”, ou seja os EUA, e para o isolar e condenar sob todas as formas nas instituições internacionais, apoiaria a retirada imediata ou quase das tropas da coligação e da NATO do Afeganistão e no Iraque. Por aí adiante.

Ora, quem tem este programa em Portugal é o Bloco de Esquerda e não o PS e se isso não soa o alarme no governo, é porque perderam qualquer capacidade analítica e não têm ouvido e lido Mário Soares nos últimos anos. Nestes anos, Soares não tem feito outra coisa que não seja tentar influenciar o PS com todos os meios ao seu alcance. Apoiou a candidatura de João Soares, elogiou Alegre, atacou Guterres, Gama e Sócrates, manifestou múltiplas vezes o seu descontentamento com todas as políticas seguidas que lhe pareciam ir noutro sentido diferente do seu. Os elogios ao BE não foram circunstanciais, mas substantivos. Não é concebível, a não ser por fraqueza ou por má fé, a convicção da derrota de Soares, que Sócrates não tema um Soares intervencionista, como o será mais que nunca, na Presidência.

Contrariamente ao que se ouve por aí, penso que a candidatura de Mário Soares é uma boa notícia para Cavaco Silva, saiba este e os seus perceberem que a dicotomia que a candidatura do PS suscita é a da estabilidade / instabilidade. Cavaco Silva pode ser, de forma bem mais credível, o referencial de estabilidade para a Presidência que Soares não será. Para o ser não precisa de abdicar nem de um átomo, do seu pensamento sobre a função presidencial, formado exactamente em resposta ao intervencionismo de Soares. Quando Soares, no seu segundo mandato, se comportou como Eanes, fazendo tudo para derrubar o governo e para criar um ambiente de usura e hostilidade, Cavaco reagiu falando de “forças de bloqueio”. A expressão tinha ambiguidades, mas a verdade é que tudo aquilo que na altura o PSD apontou como “forças de bloqueio” veio mais tarde a ser entendido por todos, a começar pelo PS e pelos seus governos, como sendo de facto “forças de bloqueio”, embora nunca as nomeando como tal.

Cavaco Silva, sendo o primeiro a governar Portugal com um governo de maioria, e pelo seu perfil executivo, desenvolveu uma compreensão dos problemas de governabilidade de que ele foi sempre um defensor activo, contra as contínuas perturbações que Soares instigava todos os dias. A sua frase, às vezes incompreendida e mal interpretada, de que a ganhar as eleições preferia que um partido qualquer, o PS inclusive, o fizesse com maioria absoluta, vai nesse sentido. Ele sempre defendeu governos de maioria parlamentar, que cumprissem os tempos plenos do seu mandato e que pudessem, no respeito da lei e das instituições equilibradoras, cumprir os seus programas eleitorais. Num momento de crise económica e social como o que atravessamos, será sempre avesso a introduzir factores de perturbação, mesmo que não concorde com as políticas do governo socialista. Ele sabe, melhor do que ninguém e certamente melhor do que Soares, que nesse teste já chumbou, que na Presidência não se governa.
Duvido que o seu pensamento quanto ao exercício das funções presidenciais seja diferente destas suas posições no passado, e que as suas posturas mais recentes só o confirmam. Se tivermos Soares versus Cavaco, será este o dilema central das eleições.

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EARLY MORNING BLOGS 563

Table de sagesse



Pierre cachée dans les broussailles, mangée de limon, profanée de fientes, assaillie par les vers et les mouches, inconnue de ceux qui vont vite, méprisée de qui s'arrête là,

Pierre élevée à l'honneur de ce Modèle des Sages, que le Prince fit chercher partout sur la foi d'un rêve, mais qu'on ne découvrit nulle part

Sauf en ce lieu, séjour des malfaisants : (fils oublieux, sujets rebelles, insulteurs à toute vertu)

Parmi lesquels il habitait modestement afin de mieux cacher la sienne.

(Victor Segalen)

*

Bom dia!

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28.7.05


COISAS COMPLICADAS


André Kertész, Praça Bocskay, Budapeste

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EARLY MORNING BLOGS 562

Qual é mesmo a palavra secreta? Não sei é porque a ouso? Não sei porque não ouso dizê-la? Sinto que existe uma palavra, talvez unicamente uma, que não pode e não deve ser pronunciada. Parece-me que todo o resto não é proibido. Mas acontece que eu quero é exatamente me unir a essa palavra proibida. Ou será? Se eu encontrar essa palavra, só a direi em boca fechada, para mim mesma, senão corro o risco de virar alma perdida por toda a eternidade. Os que inventaram o Velho Testamento sabiam que existia uma fruta proibida. As palavras é que me impedem de dizer a verdade.

Simplesmente não há palavras.


(Clarice Lispector)

*

Bom dia!

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27.7.05


COISAS SIMPLES


Georgia O'Keeffe, Barn Rooftops

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EARLY MORNING BLOGS 561

Scrambled Eggs and Whiskey

Scrambled eggs and whiskey
in the false-dawn light. Chicago,
a sweet town, bleak, God knows,
but sweet. Sometimes. And
weren't we fine tonight?
When Hank set up that limping
treble roll behind me
my horn just growled and I
thought my heart would burst.
And Brad M. pressing with the
soft stick and Joe-Anne
singing low. Here we are now
in the White Tower, leaning
on one another, too tired
to go home. But don't say a word,
don't tell a soul, they wouldn't
understand, they couldn't, never
in a million years, how fine,
how magnificent we were
in that old club tonight.

(Hayden Carruth)

*

Bom dia!

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26.7.05


CANDIDATURAS PRESIDENCIAIS - A IDADE

O mais estúpido dos argumentos contra Soares é a idade (será que a apologia publicitária e mediática da juventude nos faz esquecer que vivemos numa sociedade de velhos?). Não é a idade, é a política!

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LENDO OS JORNAIS: FINALMENTE SEI O QUE É A SOCIEDADE CIVIL

Segundo o Público, que consultou a dita "sociedade", esta é constituída por: Pedro Abrunhosa, a piloto todo-terreno Elisabete Jacinto, o fadista Camané, a professora Eduarda Dionísio, Eduardo Prado Coelho, Margarida Martins, Presidente da Abraço, Lúcia Sigalho, actriz, Pedro Mexia, publicista, Luís Represas, cantor e compositor, Julião Sarmento, pintor, Sobrinho Simões, médico e professor, Joaquim Gomes, director da Volta.

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COISAS SIMPLES


Nobuyoshi Araki

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EARLY MORNING BLOGS 560

MONSTRUOS


Qué vergüenza
carezco de monstruos interiores
no fumo en pipa frente al horizonte
en todo caso creo que mis hueso
son importantes para mí y mi sombra
los sábados de noche me lleno de coraje
mi nariz qué vergüenza no es como la de Goethe
no puedo arrepentirme de mi melancolía
y olvido casi siempre que el suicidio es gratuito
qué vergüenza me encantan las mujeres
sobre todo si son consecuentes y flacas
y no confunden sed con paroxismo
qué vergüenza diosmío no me gusta Ionesco
sin embargo estoy falto de monstruos interiores
quisiera prometer como Dios manda
y vacilar como la gente en prosa
qué vergüenza en las tardes qué vergüenza
en las tardes más oscuras de invierno
me gusta acomodarme en la ventana
ver cómo corre la llovizna corre a mis acreedores
y ponerme a esperar quizás a esperarte
tal como si la muerte fuera una falsa alarma.

(Mario Benedetti)

*

Bom dia!

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25.7.05


INTENDÊNCIA

Alimente o geógrafo que há em si, na actualização da nota BIBLIOFILIA: GRANDES CAPAS.

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OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: O SOM DE SATURNO



O som de Saturno pode ser ouvido aqui. Não é só cá que as coisas andam estranhas.

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CANDIDATURAS PRESIDENCIAIS – ALGUMAS OBSERVAÇÕES

Este vosso autor foi o último a confrontar eleitoralmente Mário Soares, nas eleições europeias de 1999. Não serve de argumento de autoridade, mas talvez convenha lembrar que, quando Soares anunciou a candidatura, se previu um cataclismo para o PSD. Marcelo Rebelo de Sousa tinha iniciado uma AD com Paulo Portas e tinha escolhido Leonor Beleza para estar à frente da lista das europeias.

Depois tudo mudou, rompeu-se a coligação, Marcelo foi-se embora e fui eu o candidato contra Soares, quando as sondagens davam 18% ao PSD mais o PP e uma mais que maioria absoluta a Soares. O PP avançou com Paulo Portas na sua fase mais radical da palmeta e da pêra-rocha. Soares esgrimiu na campanha a sua quase inevitável ascensão à Presidência do Parlamento Europeu, e apelou a que os portugueses votassem no “Presidente” do Parlamento Europeu.

No fim, o PS ganhou, mas se houve “efeito Soares” como toda a gente antecipava, foi no roubar de votos e deputados ao PP e ao PCP, porque ao PSD não tirou nenhum. O PSD manteve o mesmo número de deputados e esta foi a única eleição, entre várias nesses anos guterristas, em que o PSD não perdeu nem lugares, nem posições. A seguir Mário Soares empurrou o grupo socialista do Parlamento Europeu para uma estratégia suicidária de ou tudo ou nada, que conduziu ao nada.

Digo isto para lembrar que serei certamente o último a “aterrorizar-me” (ridícula expressão) com a candidatura de Mário Soares.

Acrescento que fiz parte do MASP I e II, ou seja que apoiei sempre as candidaturas presidenciais de Mário Soares e há para mim uma diferença essencial entre essas candidaturas e a actual: Soares está hoje longe de ser um candidato que mobilize o mesmo espaço político das suas anteriores candidaturas. Se quisermos utilizar os posicionamentos clássicos, Soares ia buscar votos essencialmente ao centro-esquerda e ao centro-direita e tinha dificuldades entre os comunistas e na direita. Tinha aliás mesmo dificuldades no PS, que só por arrastamento apoiou a candidatura na segunda volta de 1986. Hoje Soares tem mais entusiasmos no BE e nos sectores mais à esquerda do PS (embora Soares se tenha portado mal nestes dias com Alegre), do que no próprio eleitorado moderado do PS.

Quando vierem para cima da mesa as posições ultra-radicais de Soares, expressas nos últimos anos, em directa contradição com as posições do PS, perceber-se-á porque razão digo que Soares é a certeza, insisto, a certeza, da instabilidade política para o governo actual. Não é só a natureza das posições de Soares, é o dogmatismo e a irritabilidade com que as defende. Soares na Presidência não actuará contra o PS, porque tem uma cultura jacobina de partido, mas será frontalmente contra “este” PS. Só não vê quem não quer ver.

(Continua)

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COISAS SIMPLES / AR PURO


André Kertész, Snow Covered Bench, Washington Square Park, Dec. 21

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EARLY MORNING BLOGS 459

The Snow Man


One must have a mind of winter
To regard the frost and the boughs
Of the pine-trees crusted with snow;

And have been cold a long time
To behold the junipers shagged with ice,
The spruces rough in the distant glitter

Of the January sun; and not to think
Of any misery in the sound of the wind,
In the sound of a few leaves,

Which is the sound of the land
Full of the same wind
That is blowing in the same bare place

For the listener, who listens in the snow,
And, nothing himself, beholds
Nothing that is not there and the nothing that is.


(Wallace Stevens)

*

Bom dia!

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24.7.05


CANDIDATURAS PRESIDENCIAIS

Se se confirmar uma candidatura de Mário Soares ela dará de imediato todo sentido a uma eventual candidatura de Cavaco Silva. A candidatura de Soares será o protótipo do intervencionismo presidencial, ao modelo do seu segundo mandato, dominado pela utilização do lugar presidencial para derrubar a todo o custo o governo. Este intervencionismo será agravado pelas posições extremistas de Mário Soares em matérias tão importantes como a política externa, onde Soares está mais próximo do BE do que do PS, ou na economia, onde Soares tem hoje teses anti-capitalistas próximas dos movimentos anti-globalizadores, ou em matéria europeia, em que é um europeísta radical. Com Soares, mesmo para o PS e sobretudo para o governo do PS, a sua candidatura é sinónimo de instabilidade. Cavaco Silva, pelo contrário, é mais sensível ao que é meritório na actual situação: possibilidade de estabilidade política, governo de legislatura, política com elementos de austeridade (ver-se-á se continua...), moderação na política externa.

Soares será o candidato da instabilidade e Cavaco da estabilidade.

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© José Pacheco Pereira
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