ABRUPTO

23.7.05


COISAS SIMPLES


P. Caulfield, A Ah! this Life is so everyday

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EARLY MORNING BLOGS 548

Dutch Mistress


A hotel in whose ledgers departures are more prominent than arrivals.
With wet Koh-i-noors the October rain
strokes what's left of the naked brain.
In this country laid flat for the sake of rivers,
beer smells of Germany and the seaguls are
in the air like a page's soiled corners.
Morning enters the premises with a coroner's
punctuality, puts its ear
to the ribs of a cold radiator, detects sub-zero:
the afterlife has to start somewhere.
Correspondingly, the angelic curls
grow more blond, the skin gains its distant, lordly
white, while the bedding already coils
desperately in the basement laundry.


(Joseph Brodsky)

*

Bom dia!

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22.7.05


BIBLIOFILIA: GRANDES CAPAS




É uma grande capa, embora haja qualquer coisa de errado na orientação ou da moça ou do Sol, mas também os astros nunca orientaram ninguém. Parece que orientam, mas não é na geografia de Portugal, deve ser na de lá de fora. Ou então é por ser muito cedo e o Sol a nascer é só para alguns. Mas se é a nascer, não devia estar amarelo em vez de vermelho? Estão a ver por que é que os intelectuais não vão a lado nenhum? E a moçoila - que raio de palavra - vai?

*
A propósito da capa da Geografia Primária não me parece que haja qualquer erro. O nascer e o por do sol são fenómenos semelhantes em que a dispersão de Rayleigh gera aqueles tons avermelhados. Da minha janela virada a nascente vejo frequentemente o sol a nascer sobre a ria e digo-me sempre que o nascer do sol é tão belo quanto o por do sol, só que há poucas pessoas àquela hora com disposição para dar por isso… Além disso a pequena camponesa já no campo ao nascer do sol está bem dentro da ideologia da época….
(João AP Coutinho)
*

Pelo que vejo, "por cima" do Sol, aparece a Lua cheia.
Ora a Lua só está nessa fase quando, no céu, está do lado oposto ao Sol.
(CMR)
*
Além da cor do sol (erro menor), há outro erro: a Lua, estando próximo do Sol (na abóbada celeste) não poderia estar em Lua cheia mas em Lua nova.

Quanto ao resto, pela posições relativas da rosa dos ventos e do sol, pode concluir-se que se está no período em que as noites são maiores que os dias. De outra forma o sol, ao nascer, no horizonte não muito acima da altitude da moçoila, nunca estaria entre leste e sul.

Esta "sapiência", nada tem de especial. É pena que tenha sido aprendida antes do 25 de Abril, algures entre o que hoje são os 5 e 7º anos, e hoje já não o possa ser.
(Henrique Martins)

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A LER

para quem "goste" de informação e do seu tratamento - e sem tratamento não é "informação" -, o a Informação.... Vale a pena, mesmo quando tem no subtítulo uma citação do mais assustador que há.

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O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES:
POR QUE É QUE MUDOU O TOM?

No ano passado, apesar da situação bem menos grave em matéria de incêndios, não se via reportagem televisiva sobre os mesmos em que não se perguntasse aos bombeiros se achavam que tinham meios suficientes ou às populações afectadas se achavam que o combate estava a ser eficaz (sim, mesmo aos desgraçados que viam as suas propriedades a arder perante os próprios olhos). O resultado destas perguntas era sempre o esperado: um longo desfiar de críticas ao governo.

Este ano, apesar do maior número de incêndios e área ardida, nem uma pergunta sobre "meios". Quando muito, questiona-se a limpeza das matas. Não critico o jornalismo que está a ser feito - pelo contrário, eliminaram-se excessos que eram cometidos sem qualquer conteúdo jornalístico. Mas ficam as dúvidas quanto à bondade das razões que levaram à alteração de registo - que, aliás, é visível em muitas outras matérias.

Ricardo Prata

*

Estava a ver os telejornais e aflige-me o sofrimento das pessoas no interior devido aos fogos.Acho que se abandonou o País, discute-se as ventoinhas, a Ota e Tgv e o país arde.São pessoas humildes que vêm o pouco que têm , consumido em minutos ou horas.É muito triste.Não me lembro de ver coisa assim nesta dimensão ...e um País tão pequeno.Há teorias para justificar a situação que têm que ver com o abandono, a desertificação do interior, a limpeza de matas inexistente ... mas não acredito que uma boa prevenção não podia afastar tanto incêndio.

Pergunto se uma forte vigilância florestal pelas autoridades do Estado, a adequação de politicas de insersão com trabalho comunitário de limpeza das florestas para beneficiários do RSM ou de substituição de penas de prisão por trabalho comunitário, não era mais adequada do que remediar com mais meios EUREUREUREUR para bombeiros , mais EUREUREUREUR negocios de aviões, mais especulação imobiliária EUREUREUREUR nessas zonas ( A Estrela qq dia é resort de neve artificial... e que morram os pastores ). Afinal onde está o Estado que deve proteger as pessoas e seus bens ?

(António Carrilho)

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INTENDÊNCIA

Actualizada a nota COISAS IMPORTANTES A QUE NÃO SE LIGA NENHUMA.

Em actualização a bibliografia de 2005 dos ESTUDOS SOBRE COMUNISMO.

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A NOSTALGIA DO “AR LAVADO”


Hockney, Praça Vermelha
(Artigo do Público de ontem, a que acrescentei algumas ligações. O poema "Termidor errado" da ligação não é o citado, que não está em linha, mas um da mesma série.)
As antologias dos “poemas da minha vida” publicadas pelo Público, têm sido pouco comentadas em relação a um dos seus aspectos mais interessantes: a de serem espelhos procurados e faces construídas dos seus autores. Nessas antologias há dois tipos de pessoas: as que são escritores, ou ensaístas e que por isso têm um contacto natural e quase quotidiano com a poesia, como Vasco Graça Moura, Alzira Seixo, Urbano Tavares Rodrigues ou mesmo Miguel Veiga, e as daqueles que são figuras públicas essencialmente pela sua acção política. Neste último caso, o que mais me interessa para este artigo, a escolha não é apenas a dos “poemas da minha vida” mas também as dos “poemas que eu quero enumerar como sendo da minha vida”. Dependendo de uns ou outros casos pessoais, leituras, condição social e habitus, e do sentido de intencionalidade política, essas escolhas oscilam entre a primeira e a segunda fórmula.

Uma das antologias que eu esperava com mais interesse era a de Jerónimo de Sousa (JS), o tipo de pessoas a quem habitualmente não se pergunta quais são os poemas da sua vida, inclusive por racismo social e intelectual, muito mais poderoso na nossa sociedade do que se pensa. As escolhas de JS tinham especial interesse porque da lista dos autores era o único que vinha de outra condição social, um antigo operário industrial, tipo de escolaridade – é o único que não é “doutor” - e com uma vida não muito distinta da sua condição social de origem, ou seja, para usar o eufemismo do costume, “modesta”. As minhas expectativas não saíram goradas e a sua antologia é das mais interessantes quanto não só ao “vivido” dos poemas, como àquilo que ele nos quer dizer ao escolher aqueles poemas e não outros.

Claro que eu não sei até que ponto cada autor em particular é o genuíno “autor” dos “poemas da minha vida”. E digo isto não por causa de ser a antologia de JS que estou a comentar, digo-o em geral. Não tenho dúvidas que JS leu muito mais do que muitos arrogantes senhoritos a quem ninguém questiona a sua evidente ignorância e pouca leitura e que no entanto passam por ser mais cultos pelo divino privilégio da classe social e do “Dr.” no início do nome. Mas, como responsável político muito profissionalizado, não sei se pediu sugestões para a realizar, o mesmo se podendo dizer de outras destas antologias.

Seja como for, as escolhas de JS encaixam como uma luva, e com uma consistência maior do que noutras antologias mais politicamente correctas e por isso artificiosas, como é por exemplo a de Marcelo Rebelo de Sousa. Este tem como poemas da sua vida demasiados poemas escritos nos últimos dez anos para suspeitarmos se forjou de facto a sua “vida” apenas nesta última década, lendo Rui Namorado, Lobo Antunes, Ana Luisa Amaral, Maria do Rosário Pedreira, Fernando Pinto do Amaral, Ana Marques Gastão, Francisco José Viegas, Gonçalo M. Tavares, Daniel Faria, Mário Rui de Oliveira, José Luis Peixoto e muitos mais, vivos, publicando ontem, mas ainda votando hoje. Eu duvido sempre de uma antologia de “poemas da minha vida” que não tem os “poemas da vida” de muito mais gente do mesmo meio social e cultural e que evita os poemas que estavam nos manuais escolares e nos livros da “primária”.

Pelo contrário, no livro de Jerónimo de Sousa está aquilo que um operário, autodidacta em grande parte, comunista tanto como anti-clerical, vivendo nos meios associativos populares da Margem Sul, assistindo por obrigação de partido, dedicação ideológica e solidariedade política, à “cultura” que outros intelectuais comunistas traziam a esse mundo muito peculiar, sobrevivência de um Portugal muito pouco conhecido nas classes “altas”, podia “gostar”. E, por isso, a maioria dos poemas escolhidos mais do que poemas da revolução são-no da revolta, da injustiça, do ideal prometaico, da utopia do “sonho”, e muito portuguesmente, de uma apologia racionalista, quase maçónica, do vitalismo da natureza versus as perversões da sociedade. É a nostalgia de um mundo natural ideal, a nostalgia do “ar lavado” que perpassa no “sonho” dessas poemas. E isso é, de há muitos anos, a “cultura” tradicional da aristocracia operária portuguesa, fosse anarquista, republicana, carbonária, radical ou comunista. Poema atrás de poema no livro de JS falam-nos da força da natureza impoluta, panteísta quanto baste, de onde emerge uma pureza que se perde nas desigualdades sociais, na opressão, na violência dos “de cima” contra os “de baixo”.

JS tem no livro alguns poemas de Camões (inclusive o “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades” talvez o mais citado por todos), algum Bocage da “liberdade querida e suspirada” mas nunca teria o Bocage obsceno que Soares cita com o à vontade dos “de cima”, mas que ofende o moralismo tradicional dos meios em que filhas e irmãs fornecem o contingente para a devassidão “dos de cima”, mas para além destes quase tudo o resto são só escolhas que nenhuma outra antologia reproduz, ou o reproduz de forma tão consistente. É o caso de João de Deus e Antero, de Guerra Junqueiro, que eu seria capaz de apostar dobrado contra singelo que teria que estar na antologia de JS, como aliás apostaria, antes de a ler, em Manuel da Fonseca.

Só que na antologia de JS o que está em João de Deus, é o mesmo que está em Antero (daí a escolha de “Luz do Sol. Luz da Razão”), o que está em Guerra Junqueiro, em Cesário Verde, em Florbela, em António Nobre, em Pessoa / Caeiro (nunca esperaria Ricardo Reis, nem lá está). Nestes dois últimos casos, JS mostra o poder de apropriação que consegue ter esta antologia mesmo em relação a autores que podiam estar distanciados da linha vitalista que percorre todo o livro.

Depois, com José Gomes Ferreira, dá-se uma ruptura com esse fundo panteísta da natureza, versus um Divino mau e desnecessário, uma linha anticlerical muito popular, para se enunciar, em termos mais claros, a revolta. E na sua explicitude que pode parecer ingénua, mas que tem a ver com a persona, o grau de frontalidade poética é maior do que o da política. JS publica um poema de José Gomes Ferreira “Termidor errado” claramente contra a democracia parlamentar e dois poemas de nostalgia do “socialismo real”, da URSS revolucionária, de Maiakovski. Á medida que o livro avança, JS não tem problemas em escolher quase só poetas comunistas ou antigos comunistas como Neruda, Brecht, Guillén, Eluard, Agostinho Neto, e os portugueses, Armindo Rodrigues, Carlos de Oliveira, Egito Gonçalves, Arquimedes da Silva Santos, Castrim, Saramago, Ary dos Santos. Maria Velho da Costa, Joaquim Pessoa. Os que o não são ou escreveram poesia de resistência, como Sena, Sophia, Alegre, ou O’Neill, ou são as vozes que se ouviriam, mais do que se leriam, em qualquer recital popular de poesia, como a “Pedra Filosofal” de Gedeão, ou em letras de fado, como o “Maria Lisboa” de David Mourão-Ferreira (quem cita o “Fado Peniche” é Cadilhe…).

Em suma, esta antologia é mesmo de “poemas da vida”, da que se tem e da que se constrói, com uma grande e reveladora consistência:

Em baixo! O que é em baixo?
Em baixo estar que tem?
Ninguém à eterna sombra
Nos condenou! Ninguém!


Disse Jerónimo de Sousa através de Antero. E é verdade.

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AR PURO / COISAS SIMPLES


A. Wyeth

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EARLY MORNING BLOGS 547

Bankers Are Just Like Anybody Else, Except Richer


This is a song to celebrate banks,
Because they are full of money and you go into them and all
you hear is clinks and clanks,
Or maybe a sound like the wind in the trees on the hills,
Which is the rustling of the thousand dollar bills.
Most bankers dwell in marble halls,
Which they get to dwell in because they encourage deposits
and discourage withdrawals,
And particularly because they all observe one rule which woe
betides the banker who fails to heed it,
Which is you must never lend any money to anybody unless
they don't need it.
I know you, you cautious conservative banks!
If people are worried about their rent it is your duty to deny
them the loan of one nickel, yes, even one copper engraving
of the martyred son of the late Nancy Hanks;
Yes, if they request fifty dollars to pay for a baby you must
look at them like Tarzan looking at an uppity ape in the
jungle,
And tell them what do they think a bank is, anyhow, they had
better go get the money from their wife's aunt or ungle.
But suppose people come in and they have a million and they
want another million to pile on top of it,
Why, you brim with the milk of human kindness and you
urge them to accept every drop of it,
And you lend them the million so then they have two million
and this gives them the idea that they would be better off
with four,
So they already have two million as security so you have no
hesitation in lending them two more,
And all the vice-presidents nod their heads in rhythm,
And the only question asked is do the borrowers want the
money sent or do they want to take it withm.
Because I think they deserve our appreciation and thanks,
the jackasses who go around saying that health and happi-
ness are everything and money isn't essential,
Because as soon as they have to borrow some unimportant
money to maintain their health and happiness they starve
to death so they can't go around any more sneering at good
old money, which is nothing short of providential.


(Ogden Nash)

*

Bom dia!

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21.7.05


OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: QUIETUDE


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COISAS IMPORTANTES A QUE NÃO SE LIGA NENHUMA

A decisão do Tribunal Constitucional alemão considerando que o mandado de captura europeu viola a Constituição Alemã, pelo que não é aceite a sua validade para a Alemanha.

*
Acho que o que escreveu pode ser interpretado incorrectamente como se tivesse o TC alemão decidido sobre o mandato de captura europeu em geral e definitivamente, por isso lhe envio o link para o artigo. O que o TC Alemão decidiu foi que a lei alemã que "implementa" a directiva comunitária sobre extradição dentro da UE e inconstitucional, referindo ainda que a decisão se deve em grande parte a falta de possibilidade de recurso para os arguidos. A decisão não é contra a directiva comunitária, mas contra a lei que o Bundestag aprovou. Ou seja, e preciso ter cuidado em como se fazem as leis e certos direitos tem de ser garantidos. A ministra alema da Justica ja anunciou que pretende propor rapidamente nova lei (já o problema da que foi considerada inconstitucional foi por ser também rápida...) e a CDU ja falou em alterar a constituição (mas políticos). Por isso, ainda nada está perdido. Mas tem razão, e importante e, como disse a ministra da Justiça, dificulta o combate ao terrorismo na Europa...
Ana Aguiar (Berlim)

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LENDO OS JORNAIS: DIGAM ADEUS AOS REFERENDOS

"Ao contrário de alguns, a moral que eu tiro destas respostas é que não se deve fazer referendos em alturas de crise económica." (José Sócrates no American Club, citado pelo Público).

Com este novo critério para os referendos, digam-lhes adeus por muito, muito tempo.

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OUVINDO USTAD ALI AKBAR KHAN


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LENDO OS JORNAIS: O CAPITAL INTELIGENTE

Medeiros Ferreira: "Tenho a impressão que, se o dr. Mário Soares fosse candidato, ganhava à primeira volta, com a esquerda unida, o centro, os empresários inteligentes." (Público)

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LENDO OS JORNAIS: PORQUE É QUE É INÚTIL ENTREVISTAR ASSIM LOUÇÃ

(Transcrito do Público de hoje. Perguntas a bold, respostas de Louçã em itálico, comentários meus entre parêntesis rectos)

Pelo que diz concluo que já não é trotskista.

O Trotsky teve um papel fundamental na luta contra o estalinismo, contra a estalinização, contra o que veio a ser o modelo soviético. Não só ele mas muitos outros.

[Não respondeu, o que dá a resposta.]

Ainda se define como trotskista?

Eu nunca me defini como trotskista. Defini-me sempre como marxista.

[Langue de bois. Os maoistas também não diziam que eram maoistas e os estalinistas idem.]

Integrou uma organização trotskista...
[Não “integrou”, dirigiu e não se sabe bem se dirige. Não se percebe porque razão a organização, o PSR, não é nomeada.]

Mas foi uma organização que nunca se definiu como tal, embora, e eu assumo isso por inteiro, o contributo do Trotsky tenha sido fundamental para pensar o socialismo de hoje. Como foi o de outros, como Rosa Luxemburgo ou Gramsci e alguns outros marxistas. A nossa herança é exactamente essa e vivia sempre da mesma forma.

[Langue de bois.]

Entre o Trotsky e a Rosa Luxemburgo há diferenças substanciais...
[Pergunta irrelevante. Seria bom que o leitor soubesse a que diferenças se está a pergunta a referir.]

Com certeza. Mas eu creio que o socialismo aprendeu com essas diferenças.

[Resposta inútil. O que era decisivo nesta conversa fica sempre vago e não nomeado. Trotsky e Rosa Luxemburgo defendiam a violência revolucionária e a versão da Internacional Comunista da revolução e da ditadura do proletariado. Aqui não há diferenças.]

No BE ainda há marxistas-leninistas?

Depende do que quer dizer com o conceito marxista-leninista.
[Esta frase traduzida significa sim.] Há leninistas certamente, há leninistas que são marxistas. Agora o marxismo-leninismo foi entendido muitas vezes como uma representação do estalinismo e isso não há. Como há não marxistas.

Mas o BE como movimento identifica-se com o leninismo?

Não, o BE não tem que se identificar com o leninismo.

[Resposta ambígua, este "não tem que" é mais que dúbio.]

Portanto, não há ideologia única?

Não há nem vai haver. Como sabe, aliás, o BE nasceu e só podia ter nascido assim não por uma fusão ideológica que reinterpretasse o passado, mas por uma definição da agenda política e do programa. O programa constrói-se na luta social, nas alternativas políticas para o país, para a Europa. E foi isso que nos permitiu aprender um nível de política completamente distinto do que a esquerda radical tinha feito em Portugal durante 30 anos. Nós mudámos completamente a capacidade de actuação política e social, tornando-nos uma força política influente

[Fuga em frente, nada é concreto. Um novo conceito aqui se aplica: enguiismo ideológico.]

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AR PURO


Edward Hopper

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EARLY MORNING BLOGS 546

Quem já encontrou uma cabra
que tivesse ritmos domésticos?
O grosso derrame do porco,
da vaca, do sono e de tédio?

Quem encontrou cabra que fosse
animal de sociedade?
Tal o cão, o gato, o cavalo,
diletos do homem e da arte?

A cabra guarda todo o arisco,
rebelde, do animal selvagem,
viva demais que é para ser
animal dos de luxo ou pajem.

Viva demais para não ser,
quando colaboracionista,
o reduzido irredutível,
o inconformado conformista.


(João Cabral de Melo Neto)

*

Bom dia!

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20.7.05


APRENDENDO COM GUIMARÃES ROSA: AQUILO QUE NÃO HAVIA, ACONTECIA.

Nosso pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido assim desde mocinho e menino, pelo que testemunharam as diversas sensatas pessoas, quando indaguei a informação. Do que eu mesmo me alembro, ele não figurava mais estúrdio nem mais triste do que os outros, conhecidos nossos. Só quieto. Nossa mãe era quem regia, e que ralhava no diário com a gente — minha irmã, meu irmão e eu. Mas se deu que, certo dia, nosso pai mandou fazer para si uma canoa.

Era a sério. Encomendou a canoa especial, de pau de vinhático, pequena, mal com a tabuinha da popa, como para caber justo o remador. Mas teve de ser toda fabricada, escolhida forte e arqueada em rijo, própria para dever durar na água por uns vinte ou trinta anos. Nossa mãe jurou muito contra a idéia. Seria que, ele, que nessas artes não vadiava, se ia propor agora para pescarias e caçadas? Nosso pai nada não dizia. Nossa casa, no tempo, ainda era mais próxima do rio, obra de nem quarto de légua: o rio por aí se estendendo grande, fundo, calado que sempre. Largo, de não se poder ver a forma da outra beira. E esquecer não posso, do dia em que a canoa ficou pronta.

Sem alegria nem cuidado, nosso pai encalcou o chapéu e decidiu um adeus para a gente. Nem falou outras palavras, não pegou matula e trouxa, não fez a alguma recomendação. Nossa mãe, a gente achou que ela ia esbravejar, mas persistiu somente alva de pálida, mascou o beiço e bramou: — "Cê vai, ocê fique, você nunca volte!" Nosso pai suspendeu a resposta. Espiou manso para mim, me acenando de vir também, por uns passos. Temi a ira de nossa mãe, mas obedeci, de vez de jeito. O rumo daquilo me animava, chega que um propósito perguntei: — "Pai, o senhor me leva junto, nessa sua canoa?" Ele só retornou o olhar em mim, e me botou a bênção, com gesto me mandando para trás. Fiz que vim, mas ainda virei, na grota do mato, para saber. Nosso pai entrou na canoa e desamarrou, pelo remar. E a canoa saiu se indo — a sombra dela por igual, feito um jacaré, comprida longa.

Nosso pai não voltou. Ele não tinha ido a nenhuma parte. Só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela não saltar, nunca mais. A estranheza dessa verdade deu para. estarrecer de todo a gente. Aquilo que não havia, acontecia.

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COISAS SIMPLES


Laurence Stephen Lowry

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O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES:
UMA BIBLIOGRAFIA MUITO ESPECIAL

Sobre o comentário ao ciclone em Cancun, recomenda-se a leitura do Eça (as catástrofes e as lei da emoção - e o pé desmanchado da Luizinha Carneiro).

Também sobre a política, as quedas dos Governos e os impostos, a crónica das Farpas (crónica II, 1º volume, «os 4 partidos políticos»: “… Na acção governamental as dissensões são perpétuas...” “Como assim?! Mais impostos?!...”

Idem, sobre o estado da Nação, a crónica XI do 2º volume “Autorizadas opiniões sobre o estado da Administração Pública (“… O Sr, Luciano de Castro, chefe da oposição…”)

E nas duas crónicas sobre o exército e a marinha (crónicas XVII e XVIII), onde está tudo dito e (na XVIII) onde se pode ler o que, para mim, é uma das mais belas e mais corrosivas frases do Eça: “… todavia, a nossa marinha, ausente dos mares, sulca profundamente o orçamento!”.

(Luis Rodrigues)

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O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES:
EUFORIA EÓLICA

Quando o Eng. Carlos Pimenta e outros falam em acabar com as burocracias da expansão eólica, infelizmente e talvez sem saberem, referem-se à supressão dos pareceres do ICN que à falta de dinheiro não pode ser mais célere, mas que é a única instituição capaz de prever a amplitude do impacto a vários níveis (paisagístico, geológico, ambiental). Há alguns meses atrás estava em reunião com uma pessoa do ICN, que me informa ter acabado de receber um despacho para os pareceres de parques eólicos receberem aprovação imediata, e só depois se estudariam os impactes. Isto quando as empresas que fazem os estudos de impacte ambiental nem sequer verificam se o monte em que vão construir é oco por dentro e desaba com o primeiro camião que por lá passar (como pode acontecer com frequência na Serra de Aire e Candeeiros).

(Jorge Gomes)


Neste último caso (eólica), (post Montes, Cumeadas, Cimo dos Montes), as suas preocupações são também as minhas preocupações. Infelizmente não existe uma cartografia (feita, por exemplo, pelo Instituto de Conservação da Natureza) sobre as áreas non edificandi (chamamos-lhe assim) para a instalação de aerogeradores. Quando estamos a falar de 2500 MW de potência, significa, pelo menos, 1250 ventoinhas e qualquer coisa como 125 parques eólicos (regra geral, cada parque tem 10 aerogeradores). Fácil é imaginar que a maior parte das serranias mais apetecíveis para a energia eólica são área protegidas (não apenas do ponto de vista ecológico, mas sobretudo cénico). Ou seja, adeus paisagem como a conhecemos... E não são apenas os aerogeradores: vamos começar a ter serras rasgadas com caminhos, linhas de alta tensão, etc., etc..

No entanto, nesta euforia (ontem parecia que a crise seria levada qual "e tudo o vento levou") a favor dos parques eólicos, esquece o Governo (e não sabe este país tão pouco atreito à matemática) que o problema energético (e o crescimento das importações de combustíveis fósseis) se deve sobretudo à ineficiência energética.

Sobre qual será o verdadeiro impacte destes 2500 MW de eólica perante o alucinante crescimento do consumo de electricidade em Portugal (quem nos dera que o PIB tivesse igual crescimento...), veja-se o Estrago da Nação, onde abordo num último post esta questão de uma forma que penso ser bastante acessível.

(Pedro Almeida Vieira)

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O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES:
SERRA DA ESTRELA (EM TEMPO REAL)





É assim pela Serra da Estrela, uma Área Protegida. Na semana passada, em dois dias arderam para cima de 1500 hectares.Ficam as imagens. Até já nem são novidade.

(Angelina)

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O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES:
A GUERRA DOS MUNDOS OU VEM AÍ OS MARCIANOS (EM TEMPO REAL)




Este rio Tejo anda doido: ele é luar, ele é porta-aviões… eu bem tento ter uma vida tranquila, mas não consigo. Chego a casa minding my own business e dou de caras com o porta-aviões. É a primeira vez que vejo um “ao vivo”. Só os conhecia ou de telejornais, ou, ainda melhor de filmes (“Batalha de Middway”, etc) Andamos excitadíssimos a de telescópio e binóculo de longo alcance em punho (quem vive onde eu vivo tem que estar devidamente equipado!), mas ele está em contra luz, e hoje há canícula o que não torna a tarefa fácil, mas já percebemos que: é enorme, comprido e alto, é dos EUA, a bandeira vê-se bem, tem largas dezenas de aviões, há barcos, tipo cacilheiros, a transportar gente para terra, para poderem dizer que visitaram Lisboa. Está também uma fragata portuguesa (uma das maiores, mas não consegui ver o nome) estacionada perto com alguns homens na proa também de binóculo em punho (pudera, muitos deles nunca devem ter visto tal cidade bélica flutuante).

(J.)

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19.7.05


AR PURO


Ansel Adams, Rain, Beartrack Cove, Glacier Bay National Monument, Alaska

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EARLY MORNING BLOGS 545

"Eu vim preguntar a vosmecê uma opinião sua explicada..."

Carregara a celha. Causava outra inquietude, sua farrusca, a catadura de canibal. Desfranziu-se, porém, quase que sorriu. Daí, desceu do cavalo; maneiro, imprevisto. Se por se cumprir do maior valor de melhores modos; por esperteza? Reteve no pulso a ponta do cabresto, o alazão era para paz. O chapéu sempre na cabeça. Um alarve. Mais os ínvios olhos. E ele era para muito. Seria de ver-se: estava em armas — e de armas alimpadas. Dava para se sentir o peso da de fogo, no cinturão, que usado baixo, para ela estar-se já ao nível justo, ademão, tanto que ele se persistia de braço direito pendido, pronto meneável. Sendo a sela, de notar-se, uma jereba papuda urucuiana, pouco de se achar, na região, pelo menos de tão boa feitura. Tudo de gente brava. Aquele propunha sangue, em suas tenções. Pequeno, mas duro, grossudo, todo em tronco de árvore. Sua máxima violência podia ser para cada momento. Tivesse aceitado de entrar e um café, calmava-me. Assim, porém, banda de fora, sem a-graças de hóspede nem surdez de paredes, tinha para um se inquietar, sem medida e sem certeza.

— "Vosmecê é que não me conhece. Damázio, dos Siqueiras... Estou vindo da Serra..."


(João Guimarães Rosa)

*

Bom dia!

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18.7.05


COM QUE ENTÃO O MUNDO NÃO MUDA?

Um cidadão vai aos Frescos e verifica que, na última hora, actualizou-se um O céu sobre Lisboa, uma Grande Loja do Queijo Limiano, um ou uma BLOGUITICA,um afixe, um Diário da República, uma Semiramis, um O Acidental, o Quartzo, Feldspato &; Mica, um desBlogueador de conversa, um Miniscente, um Insurgente, as Blasfémias, um Bicho Carpinteiro, um Casmurro, uma Linha dos Nodos e um Abrupto, pouco antes. Onde é que estão os adultos?

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DILEMAS

Como é que um disciplinado amador da história, que estes dias se preocupa (sempre para acabar o malfadado volume terceiro) com minudências sobre saber se o dirigente X do PC da Africa do Sul estava matriculado em 1946 na Universidade de Witvatersrand, Wits para os conhecedores, – sim, chega-se aí da prisão de Peniche, pelo V Congresso do PCP, para os comunistas moçambicanos e destes para a terra do ouro e dos diamantes… - e cai na asneira de ligar o Mezzo e ver um magnifico programa sobre Ustad Gulam Hassan Shagan, e se tornar, por uma hora, num puro multiculturalista?

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SILLY SEASON

O nosso centro do mundo noticioso são as férias em Cancun prejudicadas por um malvado ciclone. "Tão pequeno burguês!", diria o tenebroso subversivo que há em mim.

*
Abjecto! É o mínimo que se pode dizer da forma como os canais nacionais tratam a tragédia que assola o México. Sim, porque quero acreditar que um furacão que assola uma zona em que a população vive em estado de pobreza, muitas vezes extrema, ainda cabe na designação de tragédia. É que nos nossos telejornais, a coisa aparece sob a forma de "Furacão estraga as férias a milhares de turistas". Portanto, qualquer turista é mais importante que a população local que fica para apanhar os cacos da catástrofe.... As mesmas pessoas que há uns dias se uniam à dor londrina, ultrapassam os dramas frequentes do 3º mundo e lastimam apenas as férias estragadas. Já na semana passada, o atentado que vitimou 24 crianças no Iraque passou para segundo plano nos nossos telejornais face, por exemplo, à novela Miguel vs Benfica. Enfim, parece que para muita gente o sofrimento é inerente à condição de 3º mundo, não merecendo por isso grande comiseração por parte do mundo ocidental. Triste, no mínimo... não?
(Rita Amado)

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MONTES, CUMEADAS, CIMO DOS MONTES

caminham para ser uma espécie em extinção. Eu sou inteiramente a favor da energia eólica e reconheço-lhe todos os méritos. Mas qualquer coisa do que conheço do meu país, me diz que daqui a anos não haverá cumeadas livres de ventoinhas. Já começou e vai a toda a velocidade, porque parece que é um excelente negócio. Não deve aqui também haver um esforço de ordenamento antes de ser tarde de mais? Ou já é tarde de mais?

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COISAS COMPLICADAS


George Segal, Street Crossing

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EARLY MORNING BLOGS 544

Before Sleep


The lateral vibrations caress me,
They leap and caress me,
They work pathetically in my favour,
They seek my financial good.

She of the spear stands present.
The gods of the underworld attend me, O Annubis,
These are they of thy company.
With a pathetic solicitude they attend me;
Undulant,
Their realm is the lateral courses.


Light!
I am up to follow thee, Pallas.
Up and out of their caresses.
You were gone up as a rocket,
Bending your passages from right to left and from left to right
In the flat projection of a spiral.
The gods of drugged sleep attend me,
Wishing me well;
I am up to follow thee, Pallas.


(Ezra Pound)

*

Bom dia!

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17.7.05


COISAS COMPLICADAS


Joseph Kosuth

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EARLY MORNING BLOGS 543

Todo estará en sus ciegos volúmenes. Todo: la historia minuciosa del porvenir, Los egipcios de Esquilo, el número preciso de veces que las aguas de Ganges han reflejado el vuelo de un halcón, el secreto y verdadero nombre de Roma, la enciclopedia que hubiera edificado Novalis, mis sueños y entresueños en el alba del catorce de agosto de 1934, la demostración del teorema de Pierre Fermat, los no escritos capítulos de Edwin Drood, esos mismos capítulos traducidos al idioma que hablaron los garamantas, las paradojas que ideó Berkeley acerca del Tiempo y que no publicó, los libros de hierro de Urizen, las prematuras epifanías de Stephen Dedalus que antes de un ciclo de mil años nada querrán decir, el evangelio gnóstico de Basílides, el cantar que cantaron las sirenas, el catálogo fiel de la Biblioteca, la demostración de la falacia de ese catálogo. Todo, pero por una línea razonable o una justa noticia habrá millones de insensatas cacofonías, de fárragos verbales y de incoherencias. Todo, pero las generaciones de los hombres pueden pasar sin que los anaqueles vertiginosos -los anaqueles que obliteran el día y en los que habita el caos- les hayan otorgado una página tolerable.

(Jorge Luis Borges)

*

Bom dia!

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© José Pacheco Pereira
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