| ABRUPTO |
semper idem Ano XIII ...M'ESPANTO ÀS VEZES , OUTRAS M'AVERGONHO ... (Sá de Miranda) _________________ correio para jppereira@gmail.com _________________
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22.1.05
O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: DEPOIMENTO DE FERNANDO SIMÕES, O ÚNICO PORTUGUÊS DIRECTAMENTE ENVOLVIDO NA MISSÃO HUYGENS
Vi alguns textos no vosso blog, e também em outros, e gostaria de tecer alguns comentários. Se acharem útil poderão divulgar esta informação.
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BIBLIOFILIA PARA OS LEITORES DE BERNARDO DE CLARAVAL
Um dos últimos números da Revista Portuguesa de Filosofia é dedicado a Bernardo de Claraval, Bernard de Clairvaux, S. Bernardo, o monge Bernardo, como queiram. (No Abrupto há lá para trás, noutro tempo, uma série de comentários ao De Gradibus Humilitates et Superbiae, do nosso austero monge.) Um artigo muito interessante sobre Bernardo, Abelardo, Heloísa e o amor, e outro sobre a distinção entre Sapientia Dei e Scientia Mundi. O modo como Bernardo fala da Scientia Mundi, lembra-nos que os maus também sabem, sabem muito, mas é um "conhecimento que conduz à vaidade (...) o conhecimento daqueles que são moralmente maus". (url) (url)
UMA TRISTEZA EM TITÃ
“Alguém esqueceu-se de ligar o instrumento”. Pura e simplesmente. “Alguém esqueceu-se de programar o comando para ligar o instrumento”. Para o professor David Atkinson, que passou dezoito anos a preparar um aparelho para medir os ventos em Titã, este falhanço é um momento de grande tristeza. Tudo correu bem, tudo correu melhor que bem. Menos isto. Dezoito anos, quase uma vida. Falha humana. (url)
GRANDES NOMES: A LUA DO LOBO
está a crescer hoje. Nome dado pelos nativos norte-americanos à Lua cheia de 25 de Janeiro. Os lobos estavam à solta no Inverno. (url)
GRANDES NOMES: CHIFRE D'AFFAIRES
Nos anos 60, uma senhora de rara beleza progredia na sociedade lisboeta e aumentava a sua conta bancária, utilizando o seguinte método: arranjava marido rico, traía-o, recebia uma razoável pensão ou dote, em troca de se afastar do cornudo, pondo fim ao escândalo, e passava ao seguinte esposo endinheirado. Era conhecida por Chifre d'Affaires. (ACS) (url)
EARLY MORNING BLOGS 412
E por vezes as noites duram meses E por vezes os meses oceanos E por vezes os braços que apertamos nunca mais são os mesmos E por vezes encontramos de nós em poucos meses o que a noite nos fez em muitos anos E por vezes fingimos que lembramos E por vezes lembramos que por vezes ao tomarmos o gosto aos oceanos só o sarro das noites não dos meses lá no fundo dos copos encontramos E por vezes sorrimos ou choramos E por vezes por vezes ah por vezes num segundo se envolam tantos anos. (David Mourão-Ferreira) * Bom dia! (url)
BIBLIOFILIA EM MODO GALEGO
Dois livros de Rosalia de Castro e um Amor y Corte. La materia sentimental en las cuestiones poeticas del siglo XV de Antpnio Chas Aguión. (url) 21.1.05
REACCIONÁRIOS
Não constitui para mim surpresa o reaccionarismo do Bloco de Esquerda. É-o muito mais do que se pensa, ocultado pelo folclore das “causas fracturantes” e por uma imprensa que o descrimina positivamente. A frase de Louça contra Portas, que tive ocasião de ouvir numa síntese televisiva (de um debate que não vi), " O Senhor não pode falar do direito à vida porque nunca gerou vida. Não sabe o que é gerar vida. Eu tenho uma filha. Eu sei o que é um sorriso de uma criança." é um perfeito exemplo do que daria um pequeno escândalo, fosse o seu autor outro que não Louça. *
A primeira frase pressupõe que o conceito decorre da experiência, o que é uma falsa permissa. A segunda frase contém um "argumentum ad hominem", que constitui uma falácia argumentativa. E a terceira e a quarta frases abrigam um "argumentum ad populum", que constitui também uma falácia argumentativa. Em suma, Françisco Louçã, numa frase, conseguiu não transmitir nada.(Miguel Moura Santos) *
De facto, o Sr. Portas, transmite uma imagem de superioridade de valores, de perfeição e competência, como se de um enviado divino se tratasse. Claro que no calor do debate e quando o Sr. Portas liga a "cassete" do costume, em que fala da "vida" como se fosse o detentor de toda a sabedoria e "a direita" referência na defesa dessa mesma vida, o argumento do Sr. Louçã faz todo o sentido.(Alírio José Camposana) *
O leitor Miguel Moura Santos, em análise restrita ao conteúdo manifesto das palavras do líder do Bloco de Esquerda escreve que "(...) Françisco Louçã, numa frase, conseguiu não transmitir nada". Eu acho que raras vezes ele transmitiu tanto. As pessoas irritam-se e perdem as camadas que as definem como personagens quanto mais se confrontam com elas próprias. Louçã não resistiu à 'proximidade' de Portas.(Paulo Azevedo) *
Louçã considerou (porque considerou mesmo - o argumento do "contexto", invocado pelos seus colegas de partido é uma falácia - honre-se Luís Januário, de Coimbra) que PP não poderia ter falado de "aborto" por não ter "gerado vida" e "não saber o que é o sorriso de uma criança". Ainda que dissesse (entre muitas aspas) que "não podia falar de aborto porque nunca tinha feito um", entender-se-ia, na lógica de um debate televisivo e com o argumento, tão estafado como errado, de que só as mulheres devem falar de um assunto que hipoteticamente só lhes diz respeito.(Mário Cordeiro, Professor de Pediatria e de Saúde Pública) (url)
GRANDES NOMES: "APANÁGIO DO CÔNJUGE SOBREVIVO"
“Apanágio do cônjuge sobrevivo”, direito dos viúvos a serem alimentados pelos rendimentos dos bens deixados pelo falecido. Artigo 2018º do Código Civil. (Sugestão de RM) O Direito das sucessões é pródigo em expressões/nomes bizarros: Cautela sociniana, fideicomisso, substituição pupilar e quase pupilar e por ai fora. Aliás, o Código Civil é cheio de encantos, de entre os quais destaco os artigos 1321º e 1322º sobre animais ferozes fugidos e enxames de abelhas, respectivamente. Reza o 1321º: “Os animais ferozes e maléficos que se evadirem da clausura em que seu dono os tiver, podem ser destruídos ou ocupados livremente por qualquer pessoa que os encontre.” (...) E o 1322º: “1. O proprietário de enxame de abelhas tem o direito de o perseguir e capturar em prédio alheio, mas é responsável pelos danos que causar. 2. Se o dono da colmeia não perseguir o enxame logo que saiba terem as abelhas enxameado, ou se decorrerem dois dias sem que o enxame tenha sido capturado, pode ocupá-lo o proprietário do prédio onde ele se encontre, ou consentir que outrem o ocupe.” Enfim, muito se poderia dizer sobre estas disposições legais, que antecedem aliás as que se pronunciam sobre a mudança de leito, a formação de ilhas ou mouchões, lagos e lagoas, união ou confusão de boa fé, etc, etc, etc. (Ainda há quem ache que a lei não tem interesse nenhum…) (RM) *
(...) confesso que não percebi o sentido que o seu leitor (...) quer dar às suas palavras (...) É que se o sentido em causa conforma um certo escárnio às normas do Código Civil em questão, então tenho que lhe manifestar a minha viva contestação. As expressões do Código Civil, que foram apresentadas como sendo retiradas de um sketch dos Monty Piton, têm todas uma origem e uma razão de ser. Origem essa, na esmagadora maioria dos casos, que se liga à portentosa herança que o Direito Romano deixou um pouco por todos os sistemas jurídicos ocidentais, e donde vêm directamente muitas das palavras hoje usadas.(Alberto Fernandes) *
Bom, perante a viva contestação do leitor Alberto Fernandes pela minha infeliz tentativa de humor à custa do Código Civil, outra solução não me resta senão, nos termos previstos no artigo 1322 do mesmo Código, entrar pelo Abrupto dentro e perseguir e capturar as minhas palavras, após o que me retiro ordeiramente. Suportando os danos causados,claro!(RM) (url)
GRANDES NOMES: MARIA BONITA
"Maria Bonita", nome pelo qual Maria Gomes de Oliveira (1911-1936) se tornou conhecida. Foi a companheira de Lampião desde 1929 e a primeira mulher a participar num grupo de cangaceiros. Como Lampião, tornou-se uma lenda do sertão nordestino e personagem de muitas histórias de cordel. Lampião e Maria Bonita tiveram uma única filha, Expedita, nascida em 1932. (Beatriz Tavares) (url)
GRANDES NOMES: ADOLFO LUXÚRIA CANIBAL
Vocalista dos Mão Morta (sugestão de Manuela D.L. Ramos). Quando se fala com o Adolfo chama-se-lhe "senhor Canibal"? *
Naturalmente que não. Será mais delicado dizer: Dr. Canibal ou então Sr. Advogado Canibal. Esta segunda forma parece-me particularmente adequada.(Luís Aguiar-Conraria) (url)
CRISE DE REPRESENTAÇÃO
Em quem é que eu voto? É a pergunta que mais recebo e mais me fazem. É o sinal de uma crise de representação por parte de um eleitorado que votava PSD ou PS, a que se soma os que já afirmaram que iriam votar em branco. O PSD afasta, o PS não atrai. As sondagens já começam a revelar esta crise: o PS desgasta-se mais longe da maioria, o PSD não descola de um dos resultados piores de sempre, as margens sobem pouco, a abstenção ameaça níveis consideráveis. Esta realidade é mutável, mas enuncia um problema. Voltaremos aqui. (url)
OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: TEMÍVEL GEOMETRIA
(Saturno) Esta é a geometria do tigre : Tiger, tiger, burning bright In the forests of the night, What immortal hand or eye Could frame thy fearful symmetry? (Blake) A da Divina Mão. (url)
DE LONGE
havia o meu mar habitual. Duro, frio, regular. Onda após onda, a uma luz absoluta. O meu mar, entre a água salgada e a água do rio que rasga, sempre pouco doce. O meu mar. Em frente, um amigo que mora, morre aos poucos. Revoltado. Já sem palavras, já sem versos. (url)
EARLY MORNING BLOGS 411
Cantiga do Ódio O amor de guardar ódios agrada ao meu coração, se o ódio guardar o amor de servir a servidão. Há-de sentir o meu ódio quem o meu ódio mereça: ó vida, cega-me os olhos se não cumprir a promessa. E venha a morte depois fria como a luz dos astros: que nos importa morrer se não morrermos de rastros? (Carlos de Oliveira) * Bom dia! (url) 18.1.05
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EARLY MORNING BLOGS 410
Had I not seen the Sun Had I not seen the Sun I could have borne the shade But Light a newer Wilderness My Wilderness has made— (Emily Dickinson) * Bom dia! (url) 17.1.05
O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: "Na mediocridade dos nossos orgulhos está a razão do insucesso dos nossos actos"
Os portugueses entram em êxtase de orgulho nacional a propósito de qualquer sucesso desportivo para o qual nada contribuíram e do qual nenhum ganho receberão. Hoje uma sonda repousa em Titã, depois de sete anos de viagem. Nela uma pequena bandeira portuguesa, junto à de outros países europeus, assinala a nossa contribuição para a ESA. Todos os portugueses que pagam impostos deveriam estar muito orgulhosos. Contribuíram para o sucesso desta extraordinária aventura cientifica. E, a longo prazo, de formas hoje nem sequer sonhadas, toda a Humanidade beneficiará. Mas não estão. A maior parte nem sabe que tem lá uma "parte". Só uma pequena, muito pequena minoria está orgulhosa da nossa contribuição. No número dos orgulhosos não se contarão os nossos governantes, pois estamos em risco de ser expulsos de várias instituições cientificas europeias por falta de pagamento das contribuições anuais. Cada país orgulha-se do que quer. Nessa escolha se pode encontrar explicação para muitos outros equívocos. Afinal, as coisas são de uma simplicidade cartesiana: na mediocridade dos nossos orgulhos está a razão do insucesso dos nossos actos. (Luís Correia) *
Já agora para quem pensa que Portugal participa na Huygens ou na Cassini é melhor não pensar nisso. Embora seja membro da ESA, Portugal não participa nesta missão nem tem nenhuma instituição directamente envolvida. O único português directamente envolvido é o Fernando Simões, do Centro de Estudos Terrestres e Planetários da Universidade de Versalhes, cuja equipa desenvolveu um dos seis instrumentos da sonda, o HASI, para a analisar as propriedades eléctricas da atmosfera e a composição da superfície no local de aterragem. De resto, temos apenas dois investigadores a trabalhar sobre Titã. O David Luz do Observatório Astronómico de Lisboa e agora a trabalhar no Observatório de Paris-Meudon, com uma bolsa de pós-doutoramento e o Alberto Negrão em doutoramento, também no Observatório de Paris. Os dois poderão ter acesso a dados de missão assim como muitos outros investigadores espalhados por essa Europa fora. Agora temos concerteza alguns portugueses em Titã, que mandaram o seu nome a bordo do CD que foi na Huygens (José Matos da Estrela Cansada) (url) (url)
OUVINDO "SKYLARK" DE JOHNNY MERCER
uma das mais belas canções americanas: Have you anything to say to me Won't you tell me where my love can be Is there a meadow in the mist Where someone's waiting to be kissed Oh skylark Have you seen a valley green with spring Where my heart can go a-journeying Over the shadows and the rain To a blossom-covered lane And in your lonely flight Haven't you heard the music in the night Wonderful music Faint as a will o' the wisp Crazy as a loon Sad as a gypsy serenading the moon Oh skylark I don't know if you can find these things But my heart is riding on your wings So if you see them anywhere Won't you lead me there Oh skylark Won't you lead me there (url)
MAIS TITÃ
Depois de dois dias de quase congelamento dos locais da NASA e da ESA, finalmente é colocada uma nova composição fotográfica de Titã visto de dez quilómetros de altura. (url)
A LER
o ressuscitado Linha dos Nodos, com comentários sobre as fotos de Titã, por quem sabe destas coisas. (url)
PRÉMIO DA PETULÂNCIA
Parece que há um cartaz do PP que diz: "a convicção é útil a Portugal". Não tenho dúvida, mas a "convicção" plástica do PP é muito interessante: veja-se só o caso da Europa. Quem se recorda da palmeta, da pêra-rocha, e das catilinárias contra a União Europeia, e os vê (ou o vê), com a mesma "convicção", a votar sim à Constituição Europeia... (url)
INTENDÊNCIA
Actualizado OUVINDO PEGGY LEE. Publiquei Seixos no Portal do Astrónomo. Como se fosse bibliografia para o que publiquei a semana passada no Público intitulado Poeira da Mudança , este artigo do NYT de Tom Zeller, Measuring Literacy in a World Gone Digital. Colocados no VERITAS FILIA TEMPORIS , umas memórias da Livraria Leitura de 1994, e a Lagartixa e o Jacaré 18 sobre a tragédia do maremoto, o Porto e a quota do futebol e os abusos do fisco. (url)
BIBLIOFILIA: A NOSSA TASCHEN NACIONAL
Este pequeno livro ignorado coleciona os nosso ícones como faz a poderosa Taschen. Os Dias da Confiança, Braga, 2004 de responsabilidade da Fundação Bracara Augusta, reproduz as embalagens dos produtos da Saboaria e Perfumaria Confiança. que qualquer nortenho antigo conhece bem, desde 1894.
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GRANDES NOMES: MAFARRICO
Este é um nome de gosto, diz tudo sobre o dito. Como não se sabe a origem da palavra, pode-se sempre suspeitar que foi o Demo, ele próprio, o seu autor.Prova provada que ele não se leva a sério, ou será mesmo o contrário? (url)
GRANDES NOMES: PEDRAS PARIDEIRAS
Sugestão de Desnorte de que transcrevo:
"Na Serra da Freita há um local especial, destino de inúmeras peregrinações até há uns tempos atrás. O motivo dessas peregrinações, as chamadas pedras parideiras. Desenganem-se aqueles que achem que quem por lá encostar o traseiro (!) resolve o problema da infertilidade... Elas têm esse nome por que são pedras que parem pedras, fenómeno antigo e muito raro no mundo, conforme se pode ver na descrição existente no local e nos links que aqui deixo. E já sabe: se parou o carro para ver a aldeia da Castanheira (...), ao regressar não entre logo nele: atravesse antes a rua, suba 50 metros e talvez assista a um histórico e feliz parto!" (url)
MEMÓRIAS DE 1968
"Escrevi em 1968, annus mirabilis, para a "Divulgação", o antigo nome da "Leitura", o meu primeiro texto para um catálogo de exposição de pintura, fazendo uma improvável relação entre Rilke e a Commedia, entre Arlequim e as rochas de Duíno. Tudo a pretexto de uma exposição da Rosa, cuja fotografia belíssima, com um ar perfeitamente grego, aparecia ao lado do texto, tudo decorado com um cinzento suave que fazia parte das cores de que as pessoas gostavam antes da vinda do Arquitecto Taveira. Sépia, mauve, um leve ocre... Depois fiz mais catálogos para exposições do Batarda e do Mouga, escrevi sobre o Ângelo e o Zé Rodrigues, mas este foi o primeiro e o primeiro conta sempre. Mas o mundo dos amáveis ocres estava a acabar depressa de mais. Aliás não estou bem certo que alguma vez tivesse existido, porque talvez na época não olhássemos para essas cores com o ar vagamente blasé e intelectualmente decorativo que temos hoje. Caminhavamos para a política pura, dura e radical que acabava por ser o único caminho ético possível. Eis-nos pois de 1968 a 1970 em ritmo acelerado para nos tornarmos "guardas vermelhos" e eis que a "Leitura" (então "Divulgação") resolveu contribuir poderosamente para a "demarcação entre nós e o inimigo": traz cá, em plena "liberalização" marcelista, Yevgeny Yevtushenko. Hoje deve ser bizarro imaginar a excitação da vinda da terra das estepes, do escritor russo, digo "soviético", mas foi na época um petit scandale. Primeiro, porque a vinda de Yevtushenko era claramente uma concessão pensada do regime marcelista para mostrar o "degelo" do salazarismo; segundo, porque o escritor era um crítico do estalinismo e um símbolo da literatura soviética nos limites da crítica "consentida" ao regime; terceiro e mais fundamental, porque exactamente pelo que disse atrás, Yevtushenko era o representante máximo da "traição" da URSS, o "revisionismo" encarnado. Yevtushenko ajudou à festa - chegou a Lisboa, passeou-se com o establishement literário do PCP e dos seus compagnons de route e depois anunciou ao Diário de Lisboa que queria visitar Fátima para ver as massas rezar. A crise passou de petit scandale para grande escândalo e até o PCP, que devia conhecer alguma coisa das dificuldades de erradicar da alma russa o pathos religioso, ficou incomodado. Como o maoismo estava então ainda em grande parte por organizar e era mais uma revolta cultural do que uma ortodoxia com regras, um grupo de pessoas, no qual me incluía, resolveu ir fazer umas "provocações" ao "revisionista", ou seja, armar uma arruaça ao Yevtushenko e aos seus mentores lisboetas. O local da cena foi a "Divulgação" de Lisboa, irmã da do Porto, e a materialização das provocações foi levar a uma sessão de autógrafos alguns livros pouco inconvenientes para o "poeta" assinar: a Bíblia, as Citações do Presidente Mao Tsé Tung,- das Editions du Seuil e não as chinesas que eram perigosas de mais -, e uns livros claramente "reaccionários". O resultado foi o previsível: Yevtushenko espantado começou a perceber que alguma coisa não estava certa e recusou os autógrafos, houve algum burburinho e eu, mais o Alexandre de Oliveira, penso que o João Bernardo (em vésperas de se tornar o "oportunista Tiago") e uns surrealistas lisboetas, fomos postos na rua pelo Carlos Porto." (Parte de umas "Memórias da Leitura", a livraria, que em breve colocarei no VERITAS FILIA TEMPORIS). (url)
POEIRA DE 17 DE JANEIRO: DIÁRIO DE "RUDY"
Há setenta anos, hoje, Manuel Joaquim Baptista "Rudy", falava de "31s", matinées, chauffeurs, duas palavras novas, e cognac que não era nova. Quase todos os diários são proto-blogues.
(Ver nota BIBLIOFILIA: DIÁRIO MANUSCRITO DE MANUEL JOAQUIM BAPTISTA "RUDY", PINTOR, 1935 ) (url) (url)
EARLY MORNING BLOGS 409
Lot's Wife Do not look behind you. --Gen. 19:17 So simple a mistake. They say I turned to look; instead it was to listen. I did not know: only the dead can stand the music of the spheres made mortal. Caught in my hood, the hard chords of chaos: the childish scream, the mother's litany as she names the loss which instantly unnames her. And then the inconceivable: between the flint blast and the crack of iron, I heard the burning of the scorched moth wing, the lily as its petals crisp to white fire, but more than these, the footfall of a naked man who runs to nothing. And so I chose this brine, now crystals shift. The salt dissolves and I want to speak. Whore of all hopes, I now believe some stories survive in order to remake their endings. (Dana Littlepage Smith) * Bom dia! (url)
VER A NOITE / NÃO VER A NOITE
Há uma hora, a humidade baixa não deixava ver nada. Agora, com surpresa, até o cometa se vê a olho nu (mal, mas vê), e o céu está o melhor de há mais de um mês. (url) 16.1.05
OUVINDO
Debussy, Debussy, Debussy. Obras para orquestra pela Royal Concertgebouw Orchestra dirigida por Bernard Haitink.
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GRANDES NOMES: A "LIVRARIA DO MONDEGO"
Junto a Penacova, depois de ter recebido o Alva (afluente da margem esquerda), o vale do Mondego estrangula-se cada vez mais ao atravessar o contraforte de Entre-Penedos. Aqui, encontram-se «altas assentadas de quartzíticos silúricos, muito fracturados». Dispostos quase verticalmente, como livros inclinados numa estante, deram origem à conhecida «Livraria do Mondego». Mesmo ao pé do Porto da Raiva.
(Contribuição de Ávido) (url)
GRANDES NOMES: O "ERVA PARIETÁRIA"
"O imperador Trajano, de alcunha O Erva Parietária (porque em todos os edifícios que fez mandou pôr o seu nome na parede)..." (Padre Manuel Bernardes) (url)
PARA UMA ANTOLOGIA DA TRAIÇÃO(6): A ABJURAÇÃO DE PEDRO (EVANGELHO DE MATEUS)
"Ora, Pedro estava sentado fora, no pátio; e aproximou-se dele uma criada, que disse: Tu também estavas com Jesus, o galileu. Mas ele negou diante de todos, dizendo: Não sei o que dizes. E saindo ele para o vestíbulo, outra criada o viu, e disse aos que ali estavam: Este também estava com Jesus, o nazareno. E ele negou outra vez, e com juramento: Não conheço tal homem. E daí a pouco, aproximando-se os que ali estavam, disseram a Pedro: Certamente tu também és um deles pois a tua fala te denuncia. Então começou ele a praguejar e a jurar, dizendo: Não conheço esse homem. E imediatamente o galo cantou. E Pedro lembrou-se do que dissera Jesus: Antes que o galo cante, três vezes me negarás. E, saindo dali, chorou amargamente." * Duas criadas denunciam Pedro. À primeira denúncia ele nega. À segunda ele nega e jura. À terceira ele nega e jura e fala de forma diferente. Porque o terceiro denunciante de Pedro diz-lhe “também és um deles pois a tua fala te denuncia”, ou seja, por acompanhar Cristo, Pedro passou a falar diferente. Por isso a terceira abjuração é o cúmulo da traição: Pedro nega, jura e “pragueja”, ou seja muda a língua, torce a língua, para convencer os outros da sua traição. Pedro subiu, degrau a degrau, a escada da traição e quando no fim disse “não conheço esse homem” , o galo lembrou-lhe que também na negação se deixaria de conhecer a si mesmo. No último momento, Pedro não quis perder-se de Pedro e “chorou amargamente”. Poucas histórias nos evangelhos são mais poderosas do que esta. * O que salvou Pedro foi lembrar-se. A sua traição foi completa mas durou pouco. Se tivesse durado mais, ter-lhe-ia poluído a memória e Pedro estaria perdido como Judas. A memória salva da traição. (url)
OUVINDO PEGGY LEE
a cantar Johnny Guitar.
* “There was never a man like my Johnny (Luis Rodrigues) (url) (url)
EARLY MORNING BLOGS 408
In the Next Galaxy Things will be different. No one will lose their sight, their hearing, their gallbladder. It will be all Catskills with brand new wrap-around verandas. The idea of Hitler will not have vibrated yet. While back here, they are still cleaning out pockets of wrinkled Nazis hiding in Argentina. But in the next galaxy, certain planets will have true blue skies and drinking water. (Ruth Stone) * Bom dia! (url)
ENQUANTO NÃO APARECEM AS IMAGENS DEFINITIVAS
um grupo de amadores especializados processou as imagens em bruto e publicou os primeiros resultados. Muito interessante. (url)
POEIRA DE 16 DE JANEIRO
Hoje, há cento e cinquenta e um anos, Tolstoy foi “atingido pela beleza poética do Inverno”. Nevoeiro, humidade. Como nesta noite, depois da chuva, cheira à terra, e a um vago traço de lenha queimada. Ver a noite sozinho , por entre as árvores, as nuvens a passar em cima. Orion, incompleta, espreita e desaparece. Poucas coisas importam. Coisas simples. (url)
© José Pacheco Pereira
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