| ABRUPTO |
semper idem Ano XIII ...M'ESPANTO ÀS VEZES , OUTRAS M'AVERGONHO ... (Sá de Miranda) _________________ correio para jppereira@gmail.com _________________
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31.1.04
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ORGULHO 7 / NOTAS SOBRE AS FORMAS DE SENSIBILIDADE ANTIGAS
Bernardo está cansado, tem febre, tem frio. Mas, no grau do orgulho sobre o qual está a escrever, estão as grandes verdades de Deus e da experiência humana dos erros do “curioso”, do “culpado”. Bernardo sabe que não está a escrever para ninguém. Passados meia dúzia de séculos, tempo irrisório para a verdade, ninguém sequer o vai entender. A sua pena paira no vazio, como a maldição que Jorge Luís Borges encontrou para Melanchton em “Um teólogo na Morte”:
Os anjos me disseram que, quando Melanchton morreu, lhe foi oferecida no outro mundo uma casa ilusoriamente igual àquela que possuíra na Terra. (A quase todos os recém-chegados à eternidade acontece o mesmo e por isso acreditam que não morreram). Os objetos domésticos eram iguais: a mesa, a escrivaninha com suas gavetas, a biblioteca. Quando Melanchton despertou nessa casa, reatou suas tarefas literárias como se não fosse um morto e escreveu durante alguns dias sobre a salvação pela fé. Como era seu hábito, não disse uma palavra sobre a caridade. Os anjos notaram essa omissão e mandaram pessoas a interrogá-lo. Melanchton lhes falou: "Demonstrei de maneira irrefutável que a alma pode dispensar a caridade e que para entrar no céu basta a fé". Dizia isso com soberba e não sabia que já estava morto e que seu lugar não era o céu. Quando os anjos ouviram essa afirmativa o abandonaram. Em poucas semanas, os móveis começaram a se encantar até se tornarem invisíveis, com exceção da poltrona, da mesa, das folhas de papel e do tinteiro. Além disso, as paredes do aposento se mancharam de cal e o assoalho de um verniz amarelo. Sua própria roupa já estava muito mais ordinária. Continuava, entretanto, escrevendo, mas como persistia na negação da caridade, foi transferido para uma sala subterrânea, onde estavam outros teólogos como ele. Ali ficou preso alguns dias e começou a duvidar de sua tese e lhe deram permissão de voltar. A roupa que vestia era de couro cru, mas procurou imaginar que a que tivera antes fora uma simples alucinação e continuou elevando a fé e denegrindo a caridade. Uma tarde, sentiu frio. Então percorreu a casa e comprovou que as demais peças já não correspondiam às de sua casa na Terra. Uma delas estava cheia de instrumentos desconhecidos; outra estava tão reduzida que era impossível entrar nela; outra não tinha sofrido modificação, mas suas janelas e portas davam para grandes dunas. A do fundo estava cheia de pessoas que o adoravam e lhe repetiam que nenhum teólogo era tão sábio quanto ele. Essa adoração agradou-o, mas como uma das pessoas não tinha rosto e outras pareciam mortas, acabou se aborrecendo e desconfiando delas. Determinou-se então a escrever um elogio da caridade, mas as páginas que escrevia hoje apareciam apagadas amanhã. Isso aconteceu porque eram feitas sem convicção. Recebia muitas visitas de gente morta recentemente, mas sentia vergonha de mostrar-se num lugar tão sórdido. Para fazer-lhes crer que estava no céu, entrou em acordo com um feiticeiro dos que estavam na peça dos fundos, e este os enganava com simulacros de esplendor e serenidade. Era só as visitas se retirarem, reapareciam a pobreza e a cal; às vezes isso acontecia um pouco antes. As últimas notícias de Melanchton dizem que o mágico e um dos homens sem rosto o levaram até as dunas e que agora ele é como que um criado dos demônios. Mas Bernardo tem uma missão, como Melanchton. Agora defronta um dos mais intímos sinais do pecado do orgulho: as “desculpas”, a que o Profeta chamava as “palavras da malícia”. (url)
HOJE , NOTÍCIAS DE BLOOMSBURY
Hoje, 31 de Janeiro de 1932, Harold Nicholson vê um rato morto na “lily-pond” (como traduzir?). Escreve no seu diário : “I feel like that mouse – static, obese and decaying.”Vita Sackville-West, a mulher de Nicholson, não se impressiona, discute as finanças caseiras. Mas Nicholson está mal disposto. “Arrange my books sadly. Weigh myself sadly. Have put on eight pounds. Feel ashamed of myself, my attainements, and my character. Am I a serious person at all?”. Vita quer que ele escreva, podia ganhar 2000 libras num romance. Nicholson quer lá saber. Não é um dia brilhante em Bloomsbury. (url) (url)
ORGULHO 6 / NOTAS SOBRE AS FORMAS DE SENSIBILIDADE ANTIGAS
Presunção. A presunção é o último grau do orgulho antes de entrarmos no pecado, nos graus do pecado. Bernardo sabe que agora já não é apenas a ilusão do “curioso”, a sua agitação, o seu progressivo autismo, a perda de exigência, a facilidade cómoda, o conforto psicológico que estão em causa. Agora trata-se de escolhas fora da graça divina, agora trata-se de cair numa vertente inclinada sem retorno.
Bernardo pergunta-se: com que mão escrevo? A que pune ou a que esquece? A do fogo ou a da água? Bernardo olha para a neve lá fora. Na primeira frase está a palavra “culpado”, porque Bernardo preza a severidade, uma alta exigência consigo próprio, detesta as flutuações do humor. (Não é de sensibilidades antigas que falamos?) O “culpado” continua a justificar-se, agora no patamar de se perder : Je n'ai point fait cela; ou bien il dit: Je l'ai fait il est vrai, mais j'ai bien fait, ou si j'ai eu tort de le faire, la faute n'est pas grande, d'autant plus que je ne l'ai pas fait avec mauvaise intention. Palavras, palavras servem para tudo – pensa o monge. Bernardo fora poeta na sua juventude, agora já não é. Sabe bem como há palavras para justificar tudo (como as minhas? Hesita). E continua: Si, comme Adam et Ève, il est convaincu de l'avoir fait, il s'efforce d'en rejeter la faute sur un autre qui l'a conseillé. Or, comment celui qui entreprend avec cette audace de justifier les fautes les plus manifestes, pourra-t-il jamais aller découvrir avec humilité, à son abbé; les mauvaises pensées qui se glissent secrètement dans son coeur? (url)
EARLY MORNING BLOGS 127
Fragmento de um dos grandes poemas do século XX, Zone, de Apollinaire, esta “rua industrial”, para os meus momentos urbanos matinais: J'ai vu ce matin une jolie rue dont j'ai oublié le nom Neuve et propre du soleil elle était le clairon Les directeurs les ouvriers et les belles sténo-dactylographes Du lundi matin au samedi soir quatre fois par jour y passent Le matin par trois fois la sirène y gémit Une cloche rageuse y aboie vers midi Les inscriptions des enseignes et des murailles Les plaques les avis à la façon des perroquets criaillent J'aime la grâce de cette rue industrielle Située à Paris entre la rue Aumont-Thiéville et l'avenue des Ternes * Bom dia, les belles sténo-dactylographes! (url) 30.1.04
OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: ESPÍRITO E OPORTUNIDADE A TRABALHAR
As duas sondas começam a fornecer elementos sem precedentes na exploração espacial: primeira análise microscópica de uma rocha num planeta que não a Terra (Spirit), primeira análise do espectro de uma rocha num planeta que não a Terra (Spirit), e primeiro modelo a três dimensões feito no interior de uma cratera (Opportunity). Está tudo aqui. (url) (url) 29.1.04
ENCONTRO
com vítimas do terrorismo. Corpos estragados, sem pernas. Cicatrizes na cara. Lábios reconstruídos. Apertar uma mão que quase não tem ossos, com os dedos em posições impossíveis. Como se faz? Que pressão se usa? Em que posição coloco os meus dedos? Não há nada como ver. Ver bem. Sentir. Apertar a mão. (url)
ORGULHO 5 / NOTAS SOBRE AS FORMAS DE SENSIBILIDADE ANTIGAS
A jactância é descrita por Bernardo como uma excitação permanente, uma vontade de se mostrar, uma permanente publicidade de si mesmo. O "curioso", preso pelo orgulho, procura intensamente interlocutores, procura conversas, procura polémicas. O "curioso" moderno podia telefonar muito ou ter um blogue:
"Il a faim et soif de gens qui l'entendent, à qui il débite toutes ses vanités; devant qui il répande toutes ses pensées et à qui il dise ce qu'il est et ce qu'il vaut. L'occasion de parler lui est-elle offerte, si la conversation roule sur les lettres, on l'entend citer les anciens et les modernes, les jugements se succèdent sur ses lèvres, et les expressions ampoulées résonnent. " O monge mais grave observa com humor - Bernardo trai-se aqui - o "rio de vaidades", a torrente de "graças", o "fluxo de palavras" que revela a jactância. Observa o "curioso" a soçobrar no grau seguinte do orgulho : a singularidade. Acha-se único, acha-se predestinado, acha que o que lhe acontece é singular. Passa de imediato à arrogância. O "curioso" arrogante convence-se: "ele acredita em tudo o que lhe dizem, louva tudo o que faz e torna-se desatento sobre o caminho que segue". Perdeu o seu verdadeiro caminho, segue o caminho dos outros, mas não o sabe. Desde que sinta que agradou a alguém, distrai-se de procurar em si o caminho de Deus. Torna-se susceptível à lisonja. Caminha para a presunção. ( Em que pensa Bernardo na sua cela? Pensa em Abelardo, o adversário, pensa nos monges, o exército de Deus, pensa nos homens pelos quais não tem caridade. Ou melhor , pelos quais não começa por ter caridade. No fim do Tratado rezará por eles.) (url)
EARLY MORNING BLOGS 126
Há manhãs assim. De Cesare Pavese (cortesia de Maria Teresa Goulão): Pensieri di Deola Deola passa il mattino seduta al caffè e nessuno Ia guarda. A quest'ora in città corron tutti sotto il sole ancor fresco dell'alba. Non cerca nessuno neanche Deola, ma fuma pacata e respira il mattino. Fin che è stata in pensione, ha dovuto dormire a quest'ora per rifarsi le forze: la stuoia sul letto la sporcavano con le scarpacce soldati e operai, i clienti che fiaccan la schiena. Ma, sole, è diverso: si può fare un lavoro più fine, con poca fatica. Il signore di ieri, svegliandola presto, l'ha baciata e condotta (mi fermerei, cara, a Torino con te, se potessi) con sè alla stazione a augurargli huon viaggio. E' intontita ma fresca stavolta, e le piace esser lihera, Deola, e bere il suo latte e mangiare brioches. Stamattina è una mezza signora e, se guarda i passanti, fa solo per non annoiarsi. A quesr'ora in pensione si dorme e c'è puzzo di chiuso - la padrona va a spasso - è da stupide stare lì dentro. Per girare Ia sera i locali, ci vuole presenza e in pensione, a trent'anni, quel pò che ne resta, si è perso. Deola siede mostrando il profilo a uno specchio e si guarda nel fresco del vetro. Un po' pallida in faccia: non è il fumo che stagni. Corruga le ciglia. Ci vorrebbe la voglia che aveva Marì, per durare in pensione (perchè, cara donna, gli uomini vengon qui per cavarsi capricci che non glieli toglie nè la moglie nè l'innamorata) e Marì lavorava instancabile, piena di brio e godeva salute. I passanti davanti al caffè non distraggono Deola che lavora soltanto la sera, con lente conquiste nella musica del suo locale. Gettando le occhiate a un cliente o cercandogli il piede, le piaccion le orchestre che la fanno parere un'attrice alla scena d'amore con un giovane ricco. Le basta un cliente ogni sera e ha da vivere. (Forse il signore di ieri mi portava davvero con sè). Stare sola, se vuole, al mattino, e sedere al caffè. Non cercare nessuno. (Poesie, Einaudi, Torino 1961) (url)
VER A NOITE
Neve, neve, neve. Diferente da chuva, a neve com o vento sobe, contra a gravidade. Contra a gravidade. (url) 28.1.04
ORGULHO 4
Ele mergulhou a mão na neve, para a limpar do contacto com o impuro, e continuou. Ele, servo de forças terríveis, ele, a voz da obediência, ele, o inclemente, ele. Prossigamos. Sigamos a ordem. A jactância. (url)
ORGULHO 3 / NOTAS SOBRE AS FORMAS DE SENSIBILIDADE ANTIGAS
Os textos de Bernardo sobre o segundo e o terceiro graus do orgulho são muito claros na descrição da natureza humana do orgulhoso, preso na "ligeireza do espírito " e na "alegria imbecil". Escrevendo há mil anos, o nosso monge sabe do que fala.
O "curioso", dominado pela "mobilidade dos seus olhos", começa então a olhar para cima e para baixo, num momento de contradição que em breve abandonará: “ d'un côté il sèche misérablement de jalousie et de l'autre il sourit dans son orgueil à de puérils sentiments de grandeur; vain ici, mauvais là, il est partout orgueilleux ; car ce n'est que par amour de sa propre excellence qu'il ne peut voir sans douleur qu'il a des supérieurs, de même qu'il ne peut songer qu'il a des inférieurs sans en ressentir de la joie. » Fala então por todo o lado , com "palavras tão abundantes quanto vãs, tanto cheias de risos como de lágrimas, mas sempre insensatas". Mas este é um momento de transição , porque o olhar do “curioso” sofre uma interessante mutação : com o tempo deixa de olhar para cima e passa apenas a olhar para baixo. « Il restreint donc sa curiosité, du côté où elle e ne peut lui montrer que son propre néant et l'excellence d'autrui, pour la reporter; tout entière dans le sens opposé, afin de noter avec soin en quoi il lui semble qu'il excelle lui-même sur les autres et de ne rien perdre de sa joie en ne voyant plus rien de ce qui l'afflige. De cette manière, son coeur qui avait commencé par être tour à tour en proie à la joie et à la tristesse, commence à ne plus éprouver qu'une sotte joie. » Bernardo compara o orgulhoso neste estado a um balão cheio de ar, cheio do “vento da vaidade”, explodindo de actividade: « Il y a de la bouffonnerie dans ses manières, l'enjouement brille sur son visage et la vanité éclate dans toute sa démarche; il plaisante volontiers, volontiers aussi il s'abandonne au rire ; cela se conçoit, car en même temps qu'il a effacé de sa mémoire le souvenir de tout ce qu'il y a en lui de méprisable et de triste, il a groupé sous les yeux de son âme tout le bien qu'il se connaît ou qu'il se suppose, attendu qu'il ne pense que ce qu'il lui plaît et se met peu en peine du reste, s'il le peut; enfin il ne peut plus ni retenir ses rires ni dissimuler sa sotte joie. » Abre-se o caminho à jactância, o grau (o degrau) seguinte do orgulho. (url)
NEVE
Neve, neve a perder de vista. Finalmente. Camus dizia que o vento era a "coisa mais limpa do mundo". A neve também. Coisa lustral, primeira, de gente dura e "limpa". (url) 27.1.04
PITON DE LA FOURNAISE HOJE
De regresso aos vulcões. Acabou a erupção do Piton de la Fournaise do fim do ano passado. Foi pequena. Começou agora outra. (url)
SOBRE A "A MINHA RÚSSIA"
"Se percebi bem, das diferentes crueldades do passado vividas pela população russa, a atenção prioritária deveria ser dada à da "grande guerra patriótica", pelo argumento de que está naturalmente mais presente o impacto emocional (nomeadamente nas famílias das vítimas) do que em outros momentos de grande dor. Das minhas leituras e reflexões, e dos dois anos e tal que levo de viver em Moscovo, conversas com russos incluídas, confesso que continuo a ter o mesmo préjugé com que aqui cheguei: enquanto a Rússia não fizer o "trabalho de casa" do que foi realmente a Revolução, a conquista e manutenção no poder dos bolcheviques, a Guerra Civil, a perversão de valores que se instalou durante o Stalinismo (como a resignação à cobardia, como alertou Bulgakhov) - não haverá futuro democrático como o entendemos. A análise (ou auto-análise pelos russos) de outros períodos-chave (como a invasão do território nacional russo pelos alemães ou a Guerra Fria) parece-me, perdoe-me a franqueza, uma distracção, como aqueles devaneios que desviam o estudante da obrigacão mais chata de estudar a matéria principal. Muita e boa historiografia concorda que a Grande Guerra Patriótica foi um enorme balão de oxigénio para o regime stalinista, que lhe deu uma legitimidade (imerecida) por ter desempenhado a função de salvaguardar a independencia da Nação. Como um evento brilhante que apagasse as mazelas anteriores que ninguém quer revisitar. Assim como se apelou, muito justamente, ao fim do processo de "denial" em França relativamente à repressão na Argélia, ao "denial" americano em relação ao Vietname, ou até ao nosso em relação à experiência colonial, há que ver a importância de superar o imenso "denial" russo em relação aqueles momentos anteriores de dor, mesmo se desses está já quase tudo morto." (Jorge Torres Pereira) (url) (url)
MASTURBAÇÃO DA DOR 2 (Actualizado)
"Há quem se enoje, sim. Só espero que receba dezenas de milhar de respostas como a minha e delas dê nota no ABRUPTO, para reconforto de quem faz da decência o ideal possível desta vida. Tão assediada pelas "estratégias velhacas" de que falava Camilo (a propósito de gatos, mas não interessa, o epigrama assenta como luva ao comportamento, hoje generalizado, dos nossos concidadãos)." (J V Mascarenhas) "As reacções em termos de comentários, oscilaram entre o insultuoso - "Quem diria: a flor mais sensível da blogosfera a dar uma de durão, que nem quer saber. És obtuso, estúpido, bruto e, ainda por cima, finges que não és. Os meus parabéns, deves ter feito o pleno" - o indignado - "Se for estupidez ficar comovido com a morte, em directo, de um homem, então eu sou muito estúpido. Como fui estúpido no 11 de Setembro de 2001. Uma morte é triste. Uma morte em directo é comovente. Lamento que não seja capaz de o sentir! Lamento por si" - o do espectador empatizante - "Às vezes são acontecimentos como este que no abanam e nos fazem perceber que nos andamos a preocupar com coisas que não valem a pena e aí voltamos a casa de damos um abraço especial a quem amamos porque fomos abanados" - e o apoiante - "Nunca pensei dizer isto, mas concordo inteiramente contigo. Só a vida em directo é perceptível??! E o resto? Nunca morreu ninguém antes disto? Mas devemos ser opinião isolada na blogoesfera" Poucos ficam indiferentes. É quase como se o húngaro fosse a nossa Princesa Diana. E pergunto-me: e se fosse o Figo ou o Nuno Gomes? Teriam direito ao mesmo tipo de emoção caso se tratasse da morte em combate de um dos nossos GNR's no Iraque? Agora que é um caso passível de sofrer um bom estudo sociológico, é. Lembro-me que o que me deixou mais perto deste estado catatónico em que vejo as maior parte dos meus concidadãos, alimentados que são pela verdadeira shark frenzy dos OCS, numa serpente ourobouros de sentimentos exacerbados, foi assistir à explosão da Challenger - fiquei de boca aberta, descrente, frente ao televisor. E não sei dizer o porquê desta diferença; só posso invocar o facto de o futebol me ser perfeitamente indiferente." (Alexandre Monteiro) "O problema da nossa comunicação social vem sempre depois… Assisti a um realizador da SportTV que se recusou durante essa perturbadora emissão a fazer um grande plano do jogador que lutava pela vida. Ouvi os locutores da Rádio (TSF) sem conseguirem racionalizar tudo a que assistiam. Vi o ar transtornado do jornalista da TVI e do Prof. Marcelo Rebelo de Sousa quando deram a notícia durante o habitual comentário. Ouvi os repórteres de pista (Rádio e TV) com imensa dificuldade em descrever tudo que se passava. Penso que no meio desta atmosfera emotiva se um de nós pensar, sentir que a ambulância demorou mais um minuto daquilo que poderia demorar, que faltava aparentemente um aparelho qualquer, não será natural um momento de interrogação de indignação, mais ligada ao desespero do que à razão? Nada disso é racional, poderá ser extremamente injusto, mas nada tem haver com o que li algures na blogesfera e descrevia a atitude dos jornalistas como; “avidamente procurada num eventual bode expiatório que daria alimento aos abutres por muitos e largos dias.” Durante aqueles breves, mas eternos momentos não acredito na existência de qualquer tipo de “raça de abutres”. O problema vem depois. Quando a mesma imagem (uma imagem de morte) é repetida centenas de vezes. Minuto após minuto, hora após hora, dia após dia, até deixar de nos chocar/emocionar e deixar de “vender”. Será que ninguém nas nossas televisões se questiona?" (Rui M.) "Porquê polemizar até na morte ? Bastava um “até sempre Fehér “ em vez do post com o infeliz titulo que escolheu ." (Jorge Bento) (url)
ORGULHO 2
Antes de entrar na “ligeireza do espírito”, leia-se este fabuloso texto em que Bernardo se dirige a Lúcifer, tratando-o por tu, e como o Anjo perdido, com uma familiaridade sem sombra de medo. Para Bernardo, o demónio parece ser ainda um deles, irremediavelmente perdido pelo orgulho, mas feito da matéria dos anjos. Usa os três nomes para o designar: o que traz a luz, o que traz a noite, o que traz a morte.
“O toi qui te levais le matin, Lucifer, ou plutôt Noctifer et même Mortifer, jadis tu prenais ton essor de l'Orient au Midi, et voilà que, changeant de direction, je te vois tendre vers l'Aquilon! Mais plus ton vol est rapide pour t'élever, plus je te vois tomber vite vers le Couchant. je voudrais bien pourtant, ô ange curieux, examiner moi-même de plus près la pensée intime de ta curiosité : «J'élèverai, dis-tu, mon trône à l'Aquilon (Isa., XIV, 13). » Il ne peut être question dans ta bouche d'un Aquilon ni d'un trône matériels, puisque tu es un pur esprit; « l'Aquilon » pourrait donc bien signifier les futurs réprouvés et « ce trône, »le pouvoir qui t'est accordé sur eux. Plus ta science te rapproche de la prescience de Dieu, en comparaison du reste des anges, plus aussi tu distingues avec perspicacité ceux qui ne reçoivent pas un rayon de la sagesse et ne se font point remarquer par la ferveur de l'esprit. Les trouvant vides, tu établis en eux ton empire, tu les remplis de la lumière de ton astuce, tu les enflammes des ardeurs de ta malice et, de même que le Très-Haut se trouve par sa sagesse et sa bonté à la tète de tous les fils de l'obéissance, ainsi tu te trouves à la tête de tous les fils de l'orgueil; tu es leur roi, tu les gouvernes par ton astucieuse perversité et par ta perverse fourberie, et voilà comment tu prétends ressembler à Dieu. “ “Encontrando-os vazios, tu estabeleceste neles o teu império”, tu “estás à frente de todos os filhos do orgulho” e leva-los para a condenação. Como o orgulho é uma forma de cegueira, dominados pela falsa segurança, os homens esquecem-se que Lúcifer não detém os “fios” últimos do poder, os “fios da obediência”. Lúcifer não foi capaz de prever a sua queda. A sua surpresa é o acto do poder de Deus, a punição do orgulho, a mais humana das punições “Mais je me demande si tu as prévu ta chute en présence de Dieu aussi bien que tu avais prévu ta principauté sous ses yeux? Si tu l'as prévue, quelle ne fut point ta folie de vouloir dominer au prix de semblables malheurs et d'aimer mieux régner à des conditions si misérables que de servir dans la félicité? Ne valait-il pas mieux pour toi participer à ces plaies lumineuses que d'être le prince des ténèbres? Mais j'aime mieux croire que tu n'as rien prévu, soit, comme je l'ai dit plus haut, que ne songeant qu'à la bonté de Dieu, tu te sois dit: Il ne me punira point, et que cette pensée impie t'ait porté à l'irriter ou, qu'à la vue du premier rang à occuper, la poutre de l'orgueil se soit tout à coup tellement accrue dans ton oeil qu'elle t'ait empêché de voir le précipice.” Em que teria pensado Lúcifer enquanto caía? Reproduziria a sua soberba, explicando-se, justificando tudo pela inevitabilidade das coisas, pela fraqueza de si? Ou teria percebido? Bernardo não responde; Milton fê-lo mais tarde, de outra maneira. (url) (url)
CADERNOS DE CAMUS 11
Novos textos publicados. O que escrevi ontem em "Dois Caminhos" não significa que vá abandonar os Cadernos de Camus. Enquanto não existir uma equipa que tome conta deles, e já há vários voluntários, garanto a sua publicação com as contribuições enviadas. (url)
EARLY MORNING BLOGS 125
Quando as manhãs são as mesmas e trazem consigo o benefício dos gestos de sempre, os poetas ingleses contam-nas com forte dose de secura atenta. Hoje há um poema de Jonathan Swift, meio sórdido, meio feito do habitual, mas o tom não é tão diferente como pode parecer de um poema de Eliot que aqui se publicou. A Description of the Morning Now hardly here and there a hackney-coach Appearing, show'd the ruddy morn's approach. Now Betty from her master's bed had flown, And softly stole to discompose her own. The slip-shod 'prentice from his master's door Had par'd the dirt, and sprinkled round the floor. Now Moll had whirl'd her mop with dext'rous airs, Prepar'd to scrub the entry and the stairs. The youth with broomy stumps began to trace The kennel-edge, where wheels had worn the place. The small-coal man was heard with cadence deep; Till drown'd in shriller notes of "chimney-sweep." Duns at his lordship's gate began to meet; And brickdust Moll had scream'd through half a street. The turnkey now his flock returning sees, Duly let out a-nights to steal for fees. The watchful bailiffs take their silent stands; And schoolboys lag with satchels in their hands. (Swift) * Bom dia à Betty e à Moll! (url) 26.1.04
MASTURBAÇÃO DA DOR
Será que ainda há alguém saudável a quem enoje esta gigantesca encenação de masturbação da dor, em que fora de qualquer respeito, equilíbrio, genuína e recatada tristeza, se entrega o país sob o comando do espectáculo televisivo? Há, de certeza. Com vontade de fugir desta insuportável mediocridade. Desta falta de respeito pelos mortos. Desta falta de dignidade. Desta falta de ar. (url)
TRIÂNGULO AMOROSO
Dizia-se antigamente que o triângulo amoroso perfeito era entre a Kolkoziana, o operário e o tractor. A minha versão moderna é entre mim, a sonda Spirit e a sonda Oportunity. Enquanto durar, este é o sítio que mais visito para ver os meus dois outros lados. (url) (url)
ORGULHO 1
Continuando. O melhor texto que conheço sobre o orgulho é de Bernardo de Clairvaux. É um texto severo , como se podia esperar, impregnado de uma disciplina última face ao divino, mas, em cada linha , um retrato inultrapassável dum sentimento que , se pensarmos um pouco, é estranho. Se o virmos do lado prometaico, como os românticos o viam, ele é o fundamento da humanidade: sem orgulho o homem não rouba o fogo divino. Mas essa forma de orgulho não é a mais interessante.
Bernardo percebe essa estranheza, mas vê-a com uma sensibilidade diferente. O orgulho não é para ele um sentimento evidente nos homens, é, num certo sentido, um sentimento puramente diabólico. Como nasce o orgulho? Na parte II do Tratado dos Doze Graus do Orgulho (utilizo a versão francesa das obras de Bernardo que se encontra aqui ) ele começa onde menos se esperava, mas acertando completamente. Começa na “curiosidade” , na “curiosidade” como “agitação do corpo”: "Le premier, degré de l'orgueil est la curiosité. Vous la reconnaîtrez à ces signes. Si vous voyez un moine dont jusqu'alors vous étiez parfaitement sûr, commencer, partout où il se trouve, debout, en marche ou assis, à tourner les yeux de côté et d'autre, à lever la tête et à avoir s l'oreille au guet, tenez pour certain que ces changements extérieurs sont le signe d'un changement intérieur ; car « l'homme qui se pervertit, fait des signes des yeux, frappe du pied et parle avec les doigts (Prov., VI, 12); » cette agitation inaccoutumée du corps est l'indice d’une maladie de l'âme qui débute et qui la rend moins circonspecte, insouciante de ce qui la concerne et curieuse, au contraire, de ce qui a rapport aux autres. " A que se deve esta desatenção? Aos sentidos, à distracção dos sentidos, à desatenção de si, à perda do “coração” por via dessas “duas aberturas”, os olhos e as orelhas. Eva e Lúcifer foram curiosos e perderam-se por isso. Bernardo procura um espelho capaz para essas “duas aberturas”, encontra-o na terra "Où vas-tu donc, ô curieux, quand tu sors de toi et, pendant ce temps-là, à quel gardien te confies-tu? D'ailleurs comment oses-tu bien lever les yeux au ciel contre lequel tu as péché ? Regarde la terre pour apprendre à te connaître; elle te remettra en face de toi, car tu n'es que de la terre et tu retourneras à la terre." O que ele diz é : antes de te distraíres no mal, antes de cederes ao orgulho de olhar para cima, confronta-te com a tua mortalidade, porque é mais verdadeira. Mas, se continuares “curioso”, chegarás ao “segundo grau” do orgulho : a “ligeireza de espírito”. (Continua) (url)
DOIS CAMINHOS
Nestes dias de dois caminhos, às vezes penso que devia deixar Camus a outrem. Gosto de Camus porque escreve sobre a culpa sem culpa, contrariamente a quase tudo que se faz e diz hoje, que construímos um mundo impregnado pela culpa. (O Mystic River, para usar um exemplo contemporâneo, retrata isso mesmo, um mundo mergulhado em culpa, no que não se fez e devia fazer, no que nos aconteceu e a culpa é nossa, na culpa dos outros que também é nossa, como se um pecado universal de omissão fizesse parte da comunidade dos homens, ou o pecado original nos conduzisse a um mundo sem salvação. O nosso destino é sentir culpa. Muito judeu, muito católico-americano, muito americano pós-guerra civil, muito Nova Iorquino das classes altas, muito Woody Allen, sem o humor e sem a mãe judia.). Camus é demasiado dos nossos dias. O seu absurdo é quotidiano, está também inscrito no modo como se vê tudo hoje. A descrença preparou o mundo para a “existência”, para esse mundo angustiado da permanente medida com o que nos falta. De novo, Camus faz a diferença com o culto da alegria, com uma sensibilidade que quase é nietzschiana sem a confiança dos golpes de martelo de Zaratustra. Mas tudo medido, talvez me deva voltar para outro lado. A mim interessam-me as formas de sensibilidade arcaicas, alheias, antigas, não este mundo pegajoso da culpa, ou o ar cinzento do absurdo. Devia dedicar-me a outros escritos que nos são tão alheios como Plutão. Como, por exemplo, os desse homem tão terrível como Bernardo de Clairvaux, S. Bernardo para os cristãos. Era sobre ele que devia abrir um blogue. (url) (url)
EARLY MORNING BLOGS 124
Há dias, há manhãs, de dois caminhos. Como em Robert Frost, há um que não se segue. Prefere-se sempre o Holzwege. The Road Not Taken Two roads diverged in a yellow wood, And sorry I could not travel both And be one traveler, long I stood And looked down one as far as I could To where it bent in the undergrowth; Then took the other, as just as fair, And having perhaps the better claim, Because it was grassy and wanted wear; Though as for that the passing there Had worn them really about the same, And both that morning equally lay In leaves no step had trodden black. Oh, I kept the first for another day! Yet knowing how way leads on to way, I doubted if I should ever come back. I shall be telling this with a sigh Somewhere ages and ages hence: Two roads diverged in a wood, and I-- I took the one less traveled by, And that has made all the difference. (Robert Frost) (url) (url) 25.1.04
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HOJE, EM 1851,
Leão Tolstoy foi a uma festa e perdeu a cabeça – apaixonou-se “ou imaginou” que se apaixonara. A cabeça não devia de facto estar muito boa, porque também comprou um cavalo, “que não precisava de todo”. (url)
CADERNOS DE CAMUS 8
Il les exécutait de sa propre main : “II faut, disait-il, payer de sa personne.” (Carnets III , Mars 1951- Décembre 1959) (url)
CADERNOS DE CAMUS 7
Pour rester un homme dans le monde d'aujourd'hui, il ne faut pas seulement une énergie sans défaillance et une tension ininterrompue, il faut encore un peu de chance. (Carnets III , Mars 1951- Décembre 1959) (url) (url) (url) (url)
PIDES ALFARRABISTAS
"Há dias, em conversa com um antigo colega de curso, este contou-me uma história que lhe foi contada pelo professor José Morgado (um excelente professor, de quem fui aluno em cinco cadeiras) que imediatamente me fez lembrar o seu texto «PORTUGAL NO SEU MELHOR – OS PIDES FILATELISTAS». Por diversas vezes, agentes da PIDE que fizeram rusgas em casa do professor Morgado roubaram-lhe livros (e realço que estou a falar realmente de roubos e não de apreensões) que depois venderam a livrarias. Por mais que uma vez o professor Morgado teve que fazer uma ronda pelas livrarias para os recuperar, pagando-os, naturalmente. Chegou a haver livros que teve que comprar por três vezes: uma em condições normais e duas voltando a comprá-los a livreiros." (José Carlos Santos) (url)
O PS JÁ TEM CANDIDATO PRESIDENCIAL
Nos tempos mais recentes, é difícil ver iniciativa mais estúpida do que a do PS, ao encher Lisboa de cartazes atacando Santana Lopes nominalmente, dando-lhe o relevo político e a visibilidade que ele (mais que tudo) pretende. Os cartazes são inócuos como ataque político. O PS devia compreender que, num município, nunca se faz oposição eficaz cá fora se não se faz lá dentro. E lá dentro a teia de interesses paralisa a oposição municipal socialista, que até agora não se ouviu. O advogado que suscitou as questões do túnel criou mais incómodo do que o PS todo junto. Mas causou-o também ao PS porque revelou a enorme ambiguidade do seu discurso de oposição que, em tudo o que é relevante, balbucia ao lado. (url)
TORTURAS DA PIDE
Num artigo de hoje do Público, São José Almeida escreve o seguinte sobre as torturas utilizadas pela PIDE: “Os métodos [de tortura] usados passavam, por exemplo, por queimar os presos com cigarros. Era também usual interrogar os presos despidos, sobretudo quando se tratava de mulheres.” Nenhuma destas coisas é verdade, a não ser excepcionalmente. A PIDE torturava e torturava por sistema, não é isso que está em causa. Mas não utilizava queimaduras que deixavam marcas e muito menos despia as mulheres “usualmente”. Há um ou outro relato , muito raro, de queimaduras de cigarro, e, a não ser num caso de mulheres presas do Couço, em que humilhações directas de carácter sexual foram utilizadas, desconhecem-se testemunhos nesse sentido. A PIDE insultava as “companheiras” de tudo quanto havia, mas não as despia. Afirmar isto é não compreender de todo os quadros de mentalidade que presidiam ao regime. A lei não chegava à PIDE, como os PIDEs se gabavam, mas chegava a mentalidade e a “moral” sexual (ou a falta dela). É completamente inverosímil o que se diz no artigo. (url)
EARLY MORNING BLOGS 123
Pouco para dizer, muito para ler, muito para fazer. Muito para dizer. Como as marés e as manhãs. The Tide Rises, the Tide Falls The tide rises, the tide falls, The twilight darkens, the curlew calls; Along the sea-sands damp and brown The traveller hastens toward the town, And the tide rises, the tide falls. Darkness settles on roofs and walls, But the sea, the sea in darkness calls; The little waves, with their soft, white hands, Efface the footprints in the sands, And the tide rises, the tide falls. The morning breaks; the steeds in their stalls Stamp and neigh, as the hostler calls; The day returns, but nevermore Returns the traveller to the shore, And the tide rises, the tide falls. (Henry Wadsworth Longfellow) (url)
© José Pacheco Pereira
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