Na Quadratura do Círculo
comparei o modo como o primeiro-ministro falou na entrevista da SIC com
o discurso de um gestor enviado para pôr em ordem uma empresa que está
falida. Como de costume, as almas frágeis que acham que qualquer crítica
à actual governação é "socratismo" arrepelaram-se em saúde pelo
atrevimento. Há-de passar-lhes e ainda verei muitos deles, quando vier o
tempo certo, dizer cobras e lagartos do actual Governo, quando este
estiver na mó de baixo. Aconteceu o mesmo com os louvaminheiros de
Sócrates, que, quando viram que ele ia cair, se passaram com armas e
bagagens para a oposição. Os nossos costumes são estes, a fome é muita e
os bens escassos, como sempre repito.
A comparação com um
administrador ou um gestor de falências, ou da "massa falida", tem razão
de ser perante uma entrevista em que o economês se tornou o politiquês.
A redução da política a uma determinada forma de pensar a economia,
vista da perspectiva de uma empresa e não de um país, uma nação, é um
erro ou uma perigosa errância política. Embora pareça desprovido de
ideologia e passe por ser uma linguagem "científica" com a
intangibilidade que habitualmente se dá à ciência (como à cultura), o
economês-politiquês é profundamente ideológico e bem pouco científico,
contém um programa público e uma agenda parcialmente escondida, e é
típico também dos momentos de transição, de "ajustamento".
Quem
diga, e há quem o diga, que o país deve ser administrado como uma
empresa não está no terreno da democracia porque uma empresa não é
democrática, nem tem que ser. Pelo contrário, numa democracia que quer
sobreviver, o discurso político tem que ser dador de sentido, tem que
relacionar o que se decide com o "bem comum" que se deseja, e é a ultima ratio
dessa frágil construção cultural que é a democracia. Isto não significa
que se seja demagogo, mentiroso, enganador e vendedor de ilusões, tudo
aquilo de que tirámos um curso nos últimos seis anos, mas que é
obviamente um risco muito real em democracia. O populismo e a demagogia
são talvez, a médio prazo, o maior risco da política portuguesa, e o
politiquês-economês prepara-lhe muito bem a cama.
O que faz um administrador de falências, nomeado pelo tribunal, aqui pela troika,
e pelo voto de rejeição de Sócrates? De um modo geral o resultado dessa
actividade é o encerramento da empresa, ou em alternativa a
"reestruturação" da empresa, ou como agora se diz, o "ajustamento".
Fazem-se em primeiro lugar despedimentos, e/ou abaixamento de salários e
mudanças nas condições de trabalho para a pequena minoria que fica na
fábrica ("flexibiliza-se a mão-de-obra"), vendem-se instalações e
máquinas que o patrão não levou para um offshore (como nas
privatizações), e, nalguns casos, se se conseguir evitar a falência
imediata, tenta-se mudar de ramo (ou de "negócio"). Depois, paga-se aos
credores, em muitos casos primeiro aos credores externos e só depois aos
trabalhadores, que podem esperar mais de dez anos para receber a sua
parte da "massa falida"
Eu não digo que esta actividade por parte
de um administrador com esta incumbência infeliz seja um mal ou em erro
em si, e muito menos a desqualifico "moralmente" como faz o Bloco de
Esquerda, que transformou a sua crítica ao capitalismo num ajuste de
contas moral pela "justiça na economia". Mas governar um país em
democracia não pode ficar a este nível de propostas e de discurso,
porque isso significa governar mal e falhar mesmo nos objectivos
propostos.
Voltemos à entrevista da SIC, somando-lhe os
discursos do ministro das Finanças e das afirmações avulsas do ministro
da Economia, e encontramos o pano de fundo deste economês-politiquês e
também a enorme ambiguidade em que assenta o actual discurso do poder.
Ele centra-se na austeridade, ou seja, na passagem dos portugueses por
um período de perda do seu rendimento, um empobrecimento, associado a
uma reforma do Estado que lhe modifique o carácter de modo a dar-lhe a
medida dos nossos recursos. Este discurso tem duas partes, uma sobre as
pessoas, outra sobre a instituição Estado, mas indissoluvelmente
associadas num mesmo pensamento sobre a economia e a política. Deixemos
agora de lado a questão do Estado, para nos concentrarmos no discurso
governamental sobre a austeridade sobre as pessoas, o empobrecimento
anunciado.
Ele é apresentado como inevitável e aí eu não divirjo: as alternativas à austeridade, no quadro do cumprimento do acordo com a troika,
são mais austeridade, associada ao caos social e a uma penúria
garantida para muitos anos. Pode ser que a austeridade, no contexto do
cumprimento do acordado com a troika, conduza também ao caos
social e à penúria. Mas entre um programa de austeridade e um programa
de "renegociação da dívida", ou de "não pagamos", o segundo é uma
certeza do desastre, e o primeiro apenas uma probabilidade.
Dito
isto, há que analisar o que está em cima e em baixo da mesa, no modo
como o Governo pensa a austeridade. Aqui há um problema: é que os nossos
governantes têm sido ambíguos, oscilando entre proclamações
ideológicas, em que o economês é o veículo, e tentativas de acalmar a
contestação social, em que o politiquês é o veículo. Se formos ver o
papel da austeridade, ou melhor do empobrecimento, no discurso
governativo nós encontramos uma oscilação contínua entre a noção de que a
austeridade/empobrecimento é um estado virtuoso, e a noção de que a
austeridade é um instrumento. Num caso, a austeridade é um estado (um status), noutro a austeridade é uma necessidade temporária.
Isto
dá origem a muitas flutuações no discurso governativo como é o caso do
fim dos subsídios do Natal e de férias, apresentados ao mesmo tempo como
temporários e como exemplo de como o Estado deve "emagrecer", acabando
com a distância entre os privilégios dos funcionários públicos e os
trabalhadores do privado. Se a austeridade é um estado virtuoso, em que
existe uma adequação do Estado à nossa debilidade económica, a "viver
com as nossas posses", então não se compreende que daqui a dois anos
voltem os subsídios cujo corte foi apresentado como estrutural. Se, pelo
contrário, o corte foi conjuntural e se destina apenas ao cumprimento
das obrigações do défice, então, uma vez cumprido o acordo com a troika,
esses subsídios devem ser repostos, que é o que primeiro-ministro e
ministro das Finanças têm dito. O mesmo se aplica aos impostos
apresentados como extraordinários e temporários, adoçados pela
designação "de solidariedade", que terão prazo para acabar. São duas
políticas muito diferentes, uma de conjuntura, outra remetendo para uma
ideia, ou, se se quiser, para uma ideologia, sobre o papel do Estado, da
sociedade, das empresas e dos trabalhadores.
Neste último caso,
em que a austeridade é vista como um instrumento de reforma, logo como
uma virtude, então é necessário discutir não só as medidas mas também o
modo de as apresentar como temporárias quando não serão o modelo de
sociedade para que se caminha e os seus efeitos sociais. E aí há todo um
vasto conjunto de contradições que mereceriam mais discussão, mas que
apenas enuncio.
Por exemplo, como se pode pensar numa sociedade
empresarial dinâmica e competitiva, sem classe média forte, exactamente
uma das vítimas principais desta austeridade e que vai sair depauperada
destes anos? O modelo da nossa competitividade vai assentar nos salários
baixos ou numa qualificação da mão-de-obra? Ora, a degradação do
sistema de ensino, já de si ineficaz, resultante inevitável dos cortes
na educação, tem como consequência que vamos recuar num dos principais
óbices à nossa competitividade, a baixa qualificação da mão-de-obra.
Estamos
ou não a gerar uma sociedade em que as disparidades sociais são ainda
mais acentuadas, logo com muito maior conflitualidade inscrita? É que
"embaratecer" a mão-de-obra, ou como agora se diz "fazer uma
desvalorização fiscal", vai aumentar o fosso entre os mais ricos e os
mais pobres e acentuar as dualidades flagrantes da sociedade portuguesa.
Estamos a defender o emprego e vamos destruir um dos principais
reservatórios desse emprego que é a restauração (e, diga-se de
passagem, a economia paralela)? Ou será que por detrás do ataque fiscal à
restauração existe uma ideia de que ela representa um atraso no nosso
tecido empresarial, que consome recursos que são precisos para
reindustrializar, mesmo com empresas de pequena dimensão, e que seria
melhor para o pais que o parco dinheiro com que se abre um café ou um
restaurante de esquina deveria ir para criar uma empresa de costura ou
de sucatas ou de rolhas, como acontecia por todo o lado no concelho de
Vila da Feira, ou a fazer cobertores como durante a guerra colonial? É
que, se é assim, não se percebe nem a política, nem os seus instrumentos
sociais.
É por tudo isto que é preciso exigir mais ao Governo do que a gerência da "massa falida".
MAIS DO QUE NUNCA CONVÉM COMEÇAR A PREPARAR UM REFERENDO SOBRE O NOVO TRATADO EUROPEU
O que se está a passar na União Europeia, a caminho de terminar com a soberania dos países endividados e de reforçar a soberania sobre eles dos que o não estão, consolidado tal processo num novo tratado cuja natureza é substancialmente diferente de todos feitos até agora e do projecto original dos fundadores da Europa, exige-se que haja referendo em Portugal e noutros países europeus.
As modificações em vista, sugeridas por alemães e franceses, mesmo que não inteiramente coincidentes, são as mais importantes de sempre no carácter da UE, que passa a institucionalizar uma "soberania" europeia sobre a política financeira (logo sobre a política económica) dos estados, retirando aos parlamentos nacionais o seu direito fundamental de decidir e controlar as receitas e as despesas do estado, o núcleo duro da ideia de que "sem representação, não há impostos" sem a qual os parlamentos perdem sentido.
Politicamente, um tratado assente no pressuposto da perda total da soberania, em nome de um "governo económico" da Europa, decidido, como aconteceu com o inútil Tratado de Lisboa, fugindo ao compromisso referendário com truques e sofismas, será uma receita ideal para movimentos populistas que, em conjunto com a crise económica e social, se voltarão contra quem apareça como sendo os novos "senhores" da Europa, também agora "senhores" directos e sem disfarces de Portugal. É só uma questão de tempo. O terreno para uma conflitualidade nacional na Europa será cada vez maior e a alienação já grande entre os "povos" e Bruxelas e o seu directório tornar-se-á agressiva e violenta. Um tratado que institucionalize quem manda e quem obedece, viola as intenções de homens como Jean Monnet, Schuman, De Gasperi e Adenauer, que sabiam muito bem que uma Europa assim nunca será nem unida, nem Europa.
Em 2007, criei um blogue SIM AO REFERENDO destinado a defender a necessidade de um referendo europeu, que estava prometido pelo PS, PSD e CDS, partidos que quebraram esse compromisso. O blogue nunca arrancou porque se soube de imediato que o compromisso ia ser esquecido e violado, mas o seu programa de intenções permanece actual. A necessidade do debate é hoje ainda mais premente, sob pena de entrarmos num simulacro de democracia, em que eleitos que nunca o foram para tomar tão graves decisões, se preparam para institucionalizar Portugal como uma região da Europa, um protectorado, quando não uma colónia.
From her window marshland stretched for miles.
If not for egrets and gulls, it reminded her of the moors
behind the parsonage, how the fog often hovered
and descended as if sheltering some sweet compulsion
the age was not ready to see. On clear days the jagged
skyline of Atlantic City was visible—Atlantic City,
where all compulsions had a home.
"Everything's too easy now," she said to her neighbor,
"nothing resisted, nothing gained." Once, at eighteen,
she dreamed of London's proud salons glowing
with brilliant fires and dazzling chandeliers.
Already her own person—passionate, assertive—
soon she'd create a governess insistent on rights equal
to those above her rank. "The dangerous picture
of a natural heart," one offended critic carped.
She'd failed, he said, to let religion reign
over the passions and, worse, she was a woman.
Now she was amazed at what women had,
doubly amazed at what they didn't.
But she hadn't come back to complain or haunt.
Her house on the bay was modest, adequate.
It need not accommodate brilliant sisters
or dissolute brothers, spirits lost or fallen.
Feminists would pay homage, praise her honesty
and courage. Rarely was she pleased. After all,
she was an artist; to speak of honesty in art,
she knew, was somewhat beside the point.
And she had married, had even learned to respect
the weakness in men, those qualities they called
their strengths. Whatever the struggle, she wanted men
included. Charlotte missed reading chapters to Emily,
Emily reading chapters to her. As ever, though, she'd try
to convert present into presence, something unsung
sung, some uprush of desire frankly acknowledged,
even in this, her new excuse for a body.
(Stephen Dunn)
Onde há muito tempo há situações de violência bem mais graves, admitidas como normais e com indiferença, é no futebol. Mais uma vez essa violência manifestou-se às claras nas ruas, com os exércitos ululantes das claques a exporem os seus torsos nus acompanhados de gestos obscenos e gritando impropérios aos adversários. Se algum aparecesse desprevenido numa esquina levava uma tareia logo e é por isso preciso mobilizar centenas de polícias (e não só os oitenta da Assembleia) para encurralar os cortejos guerreiros na sua “caixa” própria.
A retórica agressiva dos dirigentes desportivos e a hipocrisia das lamentações quando há excessos é revoltante porque se percebe com clareza que são eles, primeiro e antes que tudo, que fomentam um ódio tribal que depois a massa consumidora da cerveja e do cachecol, materializa nas ruas. Tudo desta vez culminou num incêndio num estádio, que teve alguma dimensão porque as imagens do fogo são sempre espectaculares, e no enésimo ataque a uma casa de um clube de Lisboa que está sediada em território inimigo. Como estes energúmenos que ameaçam, agridem, partem, roubam, incendeiam, tudo em nome de um clube de futebol, continuam a poder ir aos jogos continuar a sua actividade e a polícias e as autoridades fecham os olhos e balbuciam quando a violência é do futebol, não admira que depois subam pelas paredes acima quando a violência lhes parece “política”.
O risco seria outro, esse sim merecedor de alarmismo mais consistente do que estas escaramuças inconsequentes, se os que tentassem subir as escadas do parlamento viessem da manifestação da CGTP, por exemplo, das fileiras musculadas dos estivadores ou dos guardas prisionais que tiveram uma grande presença na rua. Estão a ver para onde é que tinham ido os oitenta polícias, mesmo os vestidos à Robocop, se tivessem que defrontar quinhentas ou seiscentas pessoas, do sexo masculino na sua maioria, mas certamente apoiadas pelas mulheres que, como se sabe, incendeiam mais uma manifestação do que os homens, determinadas a subir as escadas e a entrar no parlamento? Então é que seria mesmo a sério.
Se um dia qualquer coisa semelhante acontecer, o que não é impossível, mas para já muito pouco provável, então é que se justifica que ministro e polícias venham falar-nos de violência e de ordem pública. Agora poupem-nos de dar importância a coisas sem importância, porque isso os distrai para o que pode ser bem mais grave.
Fora disso, os escassos manifestantes que queriam “molho” com a polícia, sem muita convicção aliás, pouco têm a ver com as dezenas de milhares de pessoas que antes se tinham manifestado, nem sequer com a mescla de jovens que estavam atrás de si, muitos dos quais tentaram tudo para se separar dos “indignados” da linha da frente e foram-se embora quando começaram as escaramuças. “Nós somos um movimento pacífico, pá, eu vim cá com o meu namorado e fomos agredidos pela polícia, acho que me vou embora”, “disse mais ou menos assim uma jovem para quem estas confusões são claramente demais.
A “indignação” de que estes radicais se reclamam, como minoria da minoria dos “indignados”, é politizada e mimética com acções feitas e conduzidas por intelectuais que se acham herdeiros do anarquismo ou de um leninismo órfão de partido, que, como sempre, estão na vanguarda da legitimação da violência e não compreendem como é que Portugal não tem cenas de tumultos como as que se vêem na Grécia ou em Londres. Eles querem imitar os radicais gregos e o black blok, como outros querem imitar os “anonymous” e são a cópia nacional dos novos grupos radicais que tem vindo a crescer pela Europa fora, cuja influência, no nosso caso, quase que não passa dos blogues. Não é por aí que vamos ter muitas razões de preocupação quanto à violência de rua, embora os coktails Molotov já apontem para coisas mais sérias. De qualquer modo, podem os corações amantes da ordem sossegar que por estas bandas ainda não estamos na Grécia.
Quando vi, quase em directo, as imagens de alguns incidentes ocorridos na manifestação dos “indignados” diante da Assembleia da República pensei de imediato: vamos ter histeria informativa. E tivemos. Uma cena que envolveu no máximo dez ou vinte pessoas, que claramente queriam provocar um incidente qualquer para as câmaras da televisão, abriu vários noticiários, provocou discussões preocupadas, declarações ministeriais e títulos absolutamente exagerados para a dimensão do que acontecera. No dia em que houver um incidente a sério não sei que palavras vão ser utilizadas.
O facto de estes incidentes terem ocorrido no dia da greve geral mostra uma vontade de ligar determinadas acções violentas com a greve, mas seria errado pensar que existe uma relação de causa e efeito entre os coktails Molotov artesanais contra as repartições de Finanças e a greve da CGTP e da UGT. A relação destes incidentes com o crescente mal-estar e conflitualidade social é uma relação de pano de fundo: tudo o que acontecer nestes dias, de um suicídio de um desempregado a uma garrafa atirada à polícia tem o mesmo pano de fundo da crise económica e social. Ponto.