ABRUPTO

3.12.11


ESPÍRITO DO TEMPO: HOJE


Passagem do tempo por um banco do jardim de S. Amaro. (RM)

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  ESTA SEMANA DE NOVO 



  • CENSURA – RELATÓRIO Nº 4704 (28 DE ABRIL DE 1952) / RELATIVO A “MAÇONARIA” DE FERNANDO PESSOA
  • CENSURA – RELATÓRIO Nº 5728 (12 DE JULHO DE 1956) / RELATIVO A “PÃO DA VIDA” DE AFONSO RIBEIRO
  • CENSURA – RELATÓRIO Nº 2764 (6 DE FEVEREIRO DE 1945) / RELATIVO A “PASSAGEIROS SEM BILHETE” DE AFONSO RIBEIRO
  • CENSURA – RELATÓRIO Nº 3026 (7 DE JULHO DE 1947) / RELATIVO A “POVO” DE AFONSO RIBEIRO
  • CENSURA – RELATÓRIO Nº 3149 (6 DE MAIO DE 1960) / RELATIVO A “ESCADA DE SERVIÇO” DE AFONSO RIBEIRO
  • CENSURA – RELATÓRIO Nº 2945 (31 DE DEZEMBRO DE 1946) / RELATIVO A “VIRÁ AMANHÃ?” DE JOSÉ RABAÇA
  • CENSURA – RELATÓRIO Nº 8791 (12 DE JANEIRO DE 1970) / RELATIVO A “ALENTEJO DESENCANTADO” DE MÁRIO VENTURA
  • EUA – ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS DE 2004 – LIBERTARIAN PARTY – MICHAEL BADNARIK – RICHARD CAMPAGNA
  • EUA – ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS DE 2000 – LIBERTARIAN PARTY – HARRY BROWNE –
  • EUA – ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS DE 1988 – LIBERTARIAN PARTY – RON PAUL – ANDRE MARROU
  • EUA – ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS DE 2008 – LIBERTARIAN PARTY – BOB BARR / WAYNE ROOT
  • EUA – ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS DE 1996 – LIBERTARIAN PARTY – HARRY BROWNE / JO JORGENSEN
  • EUA – ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS DE 1984 – LIBERTARIAN PARTY – DAVID BERGLAND / JAMES “JIM” LEWIS
  • EUA – ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS DE 1980 – LIBERTARIAN PARTY – ED CLARK / DAVID KOCH
  • EUA – ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS DE 1976 – LIBERTARIAN PARTY – ROGER MACBRIDE / DAVID BERGLAND
  • NOTA
  • EUA – ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS DE 1992 – LIBERTARIAN PARTY – ANDRE MARROU
  • IV INTERNACIONAL – EMBLEMAS, PINS
  • ASSOCIAÇÃO DE MORADORES DO PRÉDIO COUTINHO – VIANA DO CASTELO
  • EUA – VOTERS FOR PEACE
  • GRÉCIA – COLIGAÇÃO DOS MOVIMENTOS DA ESQUERDA E DA ECOLOGIA ( ΣΥΝΑΣΠΙΣΜΟΣ ΤΗΣ ΑΡΙΣΤΕΡΑΣ ΤΩΝ ΚΙΝΗΜΑΤΩΝ ΚΑΙ ΤΗΣ ΟΙΚΟΛΟΓΙΑΣ )
  • FOLHAS VOLANTES COM POEMAS E CANÇÕES POPULARES
  • CENSURA – RELATÓRIO Nº 7444 (14 DE FEVEREIRO DE 1964) / RELATIVO A “O HÓSPEDE DE JOB” DE JOSÉ CARDOSO PIRES
  • SINDICATO NACIONAL DOS OPERÁRIOS DA CONSTRUÇÃO CIVIL DO DISTRITO DE LISBOA
  • CENSURA – RELATÓRIO Nº 8738 (6 DE ABRIL DE 1970) / DOCUMENTOS ANEXOS / RELATIVO A “REGRESSAR PARA QUÊ?” DE VICTOR SÁ
  • CENSURA – RELATÓRIO Nº 5058 (28 DE OUTUBRO DE 1953 / RELATIVO A “RUA” DE MIGUEL TORGA
  • ANGOLA – AGOSTINHO NETO – CARTAZES
  • ESPANHA – CATALUNHA – PARTIT FEMINISTA / BLOC D’ESQUERRA D’ALLIBERAMENT NACIONAL
  • RAS – PROGRESSIVE FEDERAL PARTY (PFP)

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    COISAS DA SÁBADO: PROPORÇÕES (4) 

    Onde há muito tempo há situações de violência bem mais graves, admitidas como normais e com indiferença, é no futebol. Mais uma vez essa violência manifestou-se às claras nas ruas, com os exércitos ululantes das claques a exporem os seus torsos nus acompanhados de gestos obscenos e gritando impropérios aos adversários. Se algum aparecesse desprevenido numa esquina levava uma tareia logo e é por isso preciso mobilizar centenas de polícias (e não só os oitenta da Assembleia) para encurralar os cortejos guerreiros na sua “caixa” própria. 

    A retórica agressiva dos dirigentes desportivos e a hipocrisia das lamentações quando há excessos é revoltante porque se percebe com clareza que são eles, primeiro e antes que tudo, que fomentam um ódio tribal que depois a massa consumidora da cerveja e do cachecol, materializa nas ruas. Tudo desta vez culminou num incêndio num estádio, que teve alguma dimensão porque as imagens do fogo são sempre espectaculares, e no enésimo ataque a uma casa de um clube de Lisboa que está sediada em território inimigo. Como estes energúmenos que ameaçam, agridem, partem, roubam, incendeiam, tudo em nome de um clube de futebol, continuam a poder ir aos jogos continuar a sua actividade e a polícias e as autoridades fecham os olhos e balbuciam quando a violência é do futebol, não admira que depois subam pelas paredes acima quando a violência lhes parece “política”.

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    2.12.11


      ESTA SEMANA DE NOVO 



  • CENSURA – NOTA DE PROIBIÇÃO DE “JUSTIÇA” DE ROLÃO PRETO (11 DE JUNHO DE 1937)
  • CENSURA – RELATÓRIO Nº 5069 (29 DE OUTUBRO DE 1953) / RELATIVO A “BICHOS” DE MIGUEL TORGA
  • CENSURA – NOTA DE PROIBIÇÃO DE “MONTANHA” DE MIGUEL TORGA (25 DE ABRIL DE 1941)
  • CENSURA – RELATÓRIO Nº 5066 (29 DE OUTUBRO DE 1953) / RELATIVO AO “DIÁRIO” DE MIGUEL TORGA
  • CENSURA – RELATÓRIO Nº 5057 (28 DE OUTUBRO DE 1953) / RELATIVO À “A CRIAÇÃO DO MUNDO” DE MIGUEL TORGA
  • ITÁLIA – PARTITO MARXISTA-LENINISTA ITALIANO (PMLI)
  • EUA – UNITED FARM WORKERS
  • ITÁLIA – ELEIÇÕES REGIONAIS (28-29 DE MARÇO DE 2010) – LOMBARDIA – LEGA NORD
  • CENSURA – RELATÓRIO Nº 8178 (7 DE DEZEMBRO DE 1967) / RELATIVO A “VIDAS NOVAS” DE LUANDINO VIEIRA
  • CENSURA – RELATÓRIO Nº 8590 RELATIVO AOS “ESCRITOS POLÍTICOS” DE MÁRIO SOARES (6 DE MARÇO DE 1969)
  • CENSURA – RELATÓRIO Nº 7539 (15 DE SETEMBRO DE1965) / RELATIVO A “UM AUTO PARA JERUSALÉM” DE MÁRIO CESARINY DE VASCONCELOS
  • CENSURA – PORTUGAL E A GUERRA POR ALFREDO PIMENTA (24 DE JULHO DE 1942)
  • CENSURA – RELATÓRIO Nº 8207 (1968) RELATIVO A AGOSTINHO DA SILVA
  • GRÉCIA – MOVIMENTO PAN-HELÉNICO CONTRA AS PORTAGENS (ΠΑΝΕΛΛΑΔΙΚΟΥ ΣΥΝΤΟΝΙΣΤΙΚΟΥ ΕΠΙΤΡΟΠΩΝ ΑΓΩΝΑ ΚΑΤΑ ΤΩΝ ΔΙΟΔΙΩΝ)
  • INTERNACIONAL – GAUCHE UNITAIRE EUROPÉENNE – GAUCHE VERTE NORDIQUE (GUE/NGL) / EUROPEAN UNITED LEFT / NORDIC GREEN LEFT / EUROPEAN PARLIAMENTARY GROUP

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    COISAS DA SÁBADO: PROPORÇÕES (3) 

    O risco seria outro, esse sim merecedor de alarmismo mais consistente do que estas escaramuças inconsequentes, se os que tentassem subir as escadas do parlamento viessem da manifestação da CGTP, por exemplo, das fileiras musculadas dos estivadores ou dos guardas prisionais que tiveram uma grande presença na rua. Estão a ver para onde é que tinham ido os oitenta polícias, mesmo os vestidos à Robocop, se tivessem que defrontar quinhentas ou seiscentas pessoas, do sexo masculino na sua maioria, mas certamente apoiadas pelas mulheres que, como se sabe, incendeiam mais uma manifestação do que os homens, determinadas a subir as escadas e a entrar no parlamento? Então é que seria mesmo a sério. 

    Se um dia qualquer coisa semelhante acontecer, o que não é impossível, mas para já muito pouco provável, então é que se justifica que ministro e polícias venham falar-nos de violência e de ordem pública. Agora poupem-nos de dar importância a coisas sem importância, porque isso os distrai para o que pode ser bem mais grave.

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    COISAS DA SÁBADO: PROPORÇÕES (2) 

    Fora disso, os escassos manifestantes que queriam “molho” com a polícia, sem muita convicção aliás, pouco têm a ver com as dezenas de milhares de pessoas que antes se tinham manifestado, nem sequer com a mescla de jovens que estavam atrás de si, muitos dos quais tentaram tudo para se separar dos “indignados” da linha da frente e foram-se embora quando começaram as escaramuças. “Nós somos um movimento pacífico, pá, eu vim cá com o meu namorado e fomos agredidos pela polícia, acho que me vou embora”, “disse mais ou menos assim uma jovem para quem estas confusões são claramente demais. 

    A “indignação” de que estes radicais se reclamam, como minoria da minoria dos “indignados”, é politizada e mimética com acções feitas e conduzidas por intelectuais que se acham herdeiros do anarquismo ou de um leninismo órfão de partido, que, como sempre, estão na vanguarda da legitimação da violência e não compreendem como é que Portugal não tem cenas de tumultos como as que se vêem na Grécia ou em Londres. Eles querem imitar os radicais gregos e o black blok, como outros querem imitar os “anonymous” e são a cópia nacional dos novos grupos radicais que tem vindo a crescer pela Europa fora, cuja influência, no nosso caso, quase que não passa dos blogues. Não é por aí que vamos ter muitas razões de preocupação quanto à violência de rua, embora os coktails Molotov já apontem para coisas mais sérias. De qualquer modo, podem os corações amantes da ordem sossegar que por estas bandas ainda não estamos na Grécia.

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    EARLY MORNING BLOGS  
     2144

    "He that can have patience can have what he will. "
     

    (Benjamin Franklin)

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    1.12.11


    COISAS DA SÁBADO: PROPORÇÕES (1) 

    Quando vi, quase em directo, as imagens de alguns incidentes ocorridos na manifestação dos “indignados” diante da Assembleia da República pensei de imediato: vamos ter histeria informativa. E tivemos. Uma cena que envolveu no máximo dez ou vinte pessoas, que claramente queriam provocar um incidente qualquer para as câmaras da televisão, abriu vários noticiários, provocou discussões preocupadas, declarações ministeriais e títulos absolutamente exagerados para a dimensão do que acontecera. No dia em que houver um incidente a sério não sei que palavras vão ser utilizadas. 

    O facto de estes incidentes terem ocorrido no dia da greve geral mostra uma vontade de ligar determinadas acções violentas com a greve, mas seria errado pensar que existe uma relação de causa e efeito entre os coktails Molotov artesanais contra as repartições de Finanças e a greve da CGTP e da UGT. A relação destes incidentes com o crescente mal-estar e conflitualidade social é uma relação de pano de fundo: tudo o que acontecer nestes dias, de um suicídio de um desempregado a uma garrafa atirada à polícia tem o mesmo pano de fundo da crise económica e social. Ponto.

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      ESTA SEMANA DE NOVO 
  • EUA – ANONYMOUS – AUTOCOLANTES
  • AGRADECIMENTOS E OUTRAS NOTAS
  • MOÇAMBIQUE – CAPULANA
  • GRÉCIA – COLIGAÇÃO DA ESQUERDA RADICAL (Συνασπισμός Ριζοσπαστικής Αριστεράς) – SYRIZA (ΣΥΡΙΖΑ)
  • DAGBLADET ARBEJDEREN – CARTAZES
  • COMITÉ DE APOIO ÀS LUTAS OPERÁRIAS (CALO)
  • COMITÉ DE APOIO À LUTA DA E.[MPRESA] F.[ABRIL] M.[ALHAS]
  • DAGBLADET ARBEJDEREN
  • ITÁLIA – ELEIÇÕES REGIONAIS (28-29 DE MARÇO DE 2010) – LOMBARDIA – PARTITO DEMOCRATICO
  • SUIÇA – CANTÕES DE GENÈVE E NEUCHÂTEL – REFERENDO SOBRE O SALÁRIO MÍNIMO (27 DE NOVEMBRO DE 2011)
  • EUA – FREE MUMIA!
  • LIVROS USADOS PARA ESTUDAR, ORGANIZAR (E PRESERVAR) OS MATERIAIS DO EPHEMERA (57) : MOVIMENTOS A FAVOR DOS DIREITOS DOS ANIMAIS
  • ITÁLIA – ELEIÇÕES REGIONAIS (28-29 DE MARÇO DE 2010) – LOMBARDIA – LEGA NORD – MASSIMILIANO ORSATTI
  • ITÁLIA – ELEIÇÕES REGIONAIS (28-29 DE MARÇO DE 2010) – LOMBARDIA – LEGA NORD – DAVIDE BONI
  • CÃMARA MUNICIPAL DE LISBOA – ORÇAMENTO PARTICIPATIVO 2011
  • MOVIMENTOS CONTRA AS PORTAGENS
  • SINDICATO DOS TRABALHADORES DA AVIAÇÃO E AEROPORTOS (SITAVA)
  • ALEMANHA – BERLINER BÜNDNIS FREIHEIT FÜR MUMIA ABU JAMAL
  • ITÁLIA – ELEIÇÕES REGIONAIS (28-29 DE MARÇO DE 2010) – LOMBARDIA – LEGA NORD – FABRIZIO CECCHETTI
  • ITÁLIA – ELEIÇÕES REGIONAIS (28-29 DE MARÇO DE 2010) – VENETO – UNIONE DI CENTRO – PAOLO AGOSTINO DALLA PIETÁ
  • AEFCL – ELEIÇÕES (1963 – 1964)
  • CARICATURAS DA CRISE ESTUDANTIL DE 1969 EM COIMBRA
  • ANNUAL REVIEW
  • ANIMAL DEFENDER
  • BOLETIM
  • MOVIMENTO “OCUPAR”
  • ANONYMOUS – LEGION PORTUGAL
  • B.I.
  • COMISSÃO PARA A REUNIFICAÇÃO NACIONAL DA GALIZA E PORTUGAL
  • MARCHA PELO FIM DA VIOLÊNCIA CONTRA AS MULHERES (LISBOA, 25 DE NOVEMBRO DE 2011)
  • PRIMA FOLIA COOPERATIVA CULTURAL
  • INICIATIVA PARA UMA AUDITORIA CIDADÃ
  • EUA – MANIFESTAÇÃO CONTRA A GUERRA NO VIETNAM (WASHINGTON, 15 DE NOVEMBRO DE 1969)
  • MANIFESTAÇÕES EM DIA DE GREVE GERAL (LISBOA, 24 DE NOVEMBRO DE 2011) – 4ª SÉRIE
  • COMITÉS DE DEFESA DA REVOLUÇÃO

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    EARLY MORNING BLOGS  
     2143 - Night Life


    Disturbed at 2 a.m. I hear a claw
    scratching the window, tapping at the pane,
    and then I realise, a broken branch,
    and yet I can’t turn back to sleep again.
     
    Slowly, not to wake you, I get up,
    thinking of food, perhaps a quiet read.
    A cockroach runs across the kitchen floor,
    its lacquered shell as quick and dry as seed.
     
    Outside the chalice lily lifts its cup
    in adoration to the mirrored moon,
    full of purpose as it trembles there,
    collecting drops of moisture on its spoon.
     
    Noises of the night, it’s all alive,
    birds shifting in the steady trees,
    slugs and snails eating fallen flowers,
    a moth freighted with fragilities.
     
    Nocturnal life, the other side of things,
    proceeding whether we observe or not,
    like rows and rows of brown coastal ants
    transporting food from here to another spot.
     
    (Vivian Smith)

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    27.11.11


    ESPÍRITO DO TEMPO: HOJE


    Passagem do tempo por um banco do jardim de S. Amaro. (RM)

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    EMPOBRECER OS BOLSOS E A CABEÇA 



    A greve veio e a greve passou. Andámos umas semanas a ouvir disparates de escasso verniz democrático sobre a decisão da CGTP e da UGT de convocarem uma greve geral, explicando-nos, com pouco contido furor, todos os malefícios da dita para o país, de como se tratava de um acto de total irrelevância, perturbador da vontade dos portugueses que queriam trabalhar para o progresso da nação e da troika, um crime contra a economia, uma aberração estratégica, um atentado contra o unanimismo que deve ser mantido a todo o custo "para os mercados".

    Façamos aquilo que os cientistas chamam um thought experiment, com o tempo a andar para trás. Andemos no tempo para o período antes da comunicação dramática do primeiro-ministro sobre os cortes na função pública e outras medidas de austeridade e aumento de impostos. Aquelas propostas foram para todos uma surpresa, tanto mais que a proposta do corte de meio subsídio de Natal foi apresentada como excepcional apenas para o ano de 2011.

    Imaginemos que o mesmo primeiro-ministro ou o ministro das Finanças disseram nesse fim de tarde cruel que era preciso cortar um dos subsídios na função pública, o subsídio de férias por exemplo, toda a gente louvaria a sageza e a necessidade absoluta desse corte. E se houvesse um economista mais duro e que dissesse que era preciso cortar dois, o de férias e do Natal, haveria um coro a dizer asneira, excesso, atentado contra a economia, atentado contra o mínimo social que o Governo benevolamente queria garantir contendo os sacrifícios ao "indispensável". Seria então o corte único, o "indispensável". O mesmo se passaria se o mesmo primeiro-ministro dissesse que era preciso cortar três meses, dois de subsídio e um de salários na função pública, com o mesmo choque e pavor que suscitou o corte de dois e que suscitaria o corte de um. Estaria hoje toda a gente a dizer que tinha mesmo que ser assim. Muito bem, muito bem!

    Estamos num tempo de não-pensamento, mas de obediência e ordem e em que o hegelianismo de "o que tem que ser tem muita força" tem muita força. Aliás, como de costume, o que "o poder disser que tem que ser é que tem muita força". Como o debate escasseia e é puramente posicional - quem não é por nós é contra nós, ou se é da situação ou da oposição, ou se é do Sócrates ou do Passos Coelho -, tudo é simples, tudo é a preto e branco e que ninguém pie. E depois há toda uma violência verbal incontida que jorra logo por todo o lado, quando aparece qualquer dissenso, qualquer objecção e dúvida. O Presidente da República já provou desse cálice de fel, Rui Rio, Manuela Ferreira Leite e eu próprio, o quarteto maldito pelos serventuários do poder, mancomunado numa qualquer conspiração, merece logo os mais violentos epítetos. O não-pensamento acompanha muitas vezes a raiva, vem nos livros para quem os costuma ler, esse hábito demasiado subversivo em tempos de miséria intelectual.

    Voltemos à greve, porque a greve, para além das suas razões ou irrazões, para além de como foi ou podia ter sido, toca na intangibilidade do poder, perturba, incomoda. Num programa de televisão disse umas coisas de trivial doutrina democrática sobre o direito à greve, que, imaginem!, são muito próximas do que Sá Carneiro disse em seu tempo. Ouviram-se de imediato as bocas espumarem com "uma vez comunista, sempre comunista". Como eu nunca fui do PCP, que é o que para eles significa ser "comunista", presumo que se devem referir a Passos Coelho, que, esse sim, foi comunista de papel passado. Eu fui outra coisa certamente pior, maoísta, radical, ultracomunista, esquerdista, e, portanto, na versão muito comum de que há uma psicologia da patologia ideológica, uma espécie de malformação genética, como os cromossomas de Lombroso, a ideia de que uma vez uma coisa, sempre essa mesma coisa permanece firmemente entrincheirada nos ataques ad hominem. Curiosamente nunca se diz de ninguém que "uma vez fascista, sempre fascista", talvez porque à direita faz-se muito bem essa reciclagem sem memória nem culpa. Gente que andou de braço erguido e palma estendida na "saudação romana" antes e depois do 25 de Abril pelos vistos não padece desta patologia ideológica, que só existe para o lado oposto, para o lado do Mal puro.

    Mas quem é que podia deixar de esperar que houvesse uma greve? Só quem pretendesse que subitamente a sociedade portuguesa prescindisse da conflitualidade social e que muitos milhões de portugueses que estão a empobrecer se sentassem numa sala escura, abatidos e deprimidos, à espera da salvação. É verdade que a greve não foi "geral", muito longe disso. É igualmente verdade que a acção sindical está confinada a certos sectores da sociedade portuguesa, a certas faixas etárias, a certos grupos de trabalhadores. É também verdade que certos interesses representados nos sindicatos são conservadores e um bloqueio a medidas que podiam ser necessárias para o progresso do país. É verdade que os jovens que estão do lado dos "indignados" são também "prejudicados" pelos pais que estão do lado dos sindicatos. Mas que se espera? Que um estivador, ou um maquinista da Carris, ou um professor, ou um oficial de justiça aceitem perder salários e regalias, para que o filho licenciado entre aonde? Numa fábrica, que não há, no funcionalismo público que não recruta, numa câmara municipal, sem ser com cunha? By the book, as coisas deveriam funcionar assim, mas hoje o grau de perturbação da sociedade e da economia está longe de o garantir. Por isso, em tempos de miséria, cada um agarra-se ao que tem. Sucede, queiramos ou não, que essa é a atitude mais racional que pode tomar.

    Depois, há os argumentos quanto ao significado da dimensão da greve, para interpretar o impacto que pode ter na sua leitura política. Mas já que estamos numa de thought experiments, usemos outro. Vamos imaginar que todos os que não puderam deslocar-se ao local de trabalho eram contra a greve e apareceriam no emprego, o que significava que algumas escolas funcionariam, alguns hospitais idem e o mesmo pode ser dito para repartições e algumas áreas da função pública. Vamos também acrescentar aos não-grevistas alguns trabalhadores que têm receio dos piquetes de greve ou de serem mal vistos pelos seus colegas que fizeram greve. Sabemos que há sempre pessoas nesta situação e podemos acrescentá-las aos não-grevistas e engrossar as fileiras dos que podiam abrir uma escola ou permitir um julgamento num tribunal, diminuindo o impacto da greve. Estaríamos com uma greve ainda menos geral, em que apenas um núcleo duro de trabalhadores, mesmo assim mais vasto do que o normal, estaria disposto a fazer greve com todas as suas consequências, perda de salários e os olhos em cima do chefe ou do patrão.

    Muito bem, agora vamos à cena contrária: vamos admitir que todos os que não fizeram greve porque não podiam perder o salário de um dia, e só mesmo esses, em estado de necessidade, se somavam aos grevistas. Convenhamos que seriam muitos e superariam certamente os que retirámos do número geral anterior de grevistas à força. E, por último, acrescentemos todos os que desejariam manifestar o seu protesto através de uma greve, caso não sentissem que haveria qualquer consequência na sua situação laboral, não seriam prejudicados nas suas carreiras e salários, e, acima de tudo, não seriam despedidos. Então, meus amigos, garanto-vos que a greve seria muito mais próxima do "geral" que esta foi e o sector privado teria uma importante participação. O país pararia mesmo.

    O exercício assenta na vontade, como se esta fosse pura e simplesmente isenta de consequências negativas, o que não é do domínio deste mundo e muito menos da conflitualidade social, que implica risco e custo. E é por isso que a greve é um direito fundamental de expressão de interesses numa sociedade democrática, constitucionalmente protegido, e esses interesses têm custos, como o tem a liberdade de expressão, de associação e as decisões dos eleitores. A greve teve custos e a decisão de votar Sócrates em 2009 também não teve? Em democracia os "custos" dos direitos não os põem em causa e é por isso que há para aí uma vaga antidemocrática, demasiado unanimista, que nos empobrece a cabeça numa altura em que também empobrecemos nos nossos bolsos. E a verdade é que o empobrecimento do pensar, a raiva contra o dissenso, o unanimismo do único, tem efeitos ainda mais devastadores do que a troika. E para mim já me basta esta, para que agora me ponha na fila do rebanho. Tem também custos, mas quero lá saber.

    (Versão do Público de 26 de Novembro de 2011.)

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    EARLY MORNING BLOGS  
     2142

    Liberty, according to my metaphysics is a self-determining power in an intellectual agent. It implies thought and choice and power. 

    (John Adams)

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