| ABRUPTO |
semper idem Ano XIII ...M'ESPANTO ÀS VEZES , OUTRAS M'AVERGONHO ... (Sá de Miranda) _________________ correio para jppereira@gmail.com _________________
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2.8.08
LENDOVENDO OUVINDO ÁTOMOS E BITS de 2 de Agosto de 2008 Para que serve a RTP? Para nos falar do "portátil português" "Magalhães", patrocinado pelo Governo, de forma completamente propagandista e falsa (Telejornal das 20 horas), exactamente quando ele começa a ser criticado. Será que os jornalistas da RTP já leram alguma da informação disponível em Portugal e fora dele sobre o computador "português" (alguma aqui e aqui), ou, pior ainda, leram (ou alguém por eles) e resolveram insistir na propaganda para ver se passam por entre os pingos da chuva? A peça repete falsidades (o "computador português" p.e.) um sem número de vezes a ver se pega, mostra uma ignorância abissal, e é completamente desprovida de qualquer distanciação em relação às "mensagens" que o Governo quer passar. (Imagem do "computador português" Classmate da Intel.)* Toda a razão : Aposto que se Cavaco Silva tivesse feito a declaração ao país num dia qualquer de Novembro, ou Janeiro ou Abril, dizendo exactamente o que disse, as reacções teriam sido diferentes. Às vezes não se percebe onde acaba o incómodo e enfado pelas declarações terem sido feitas a 31 de Julho - dia maldito para pensar em coisas “dessas", e começa o comentário genuíno ao seu conteúdo. (url) (url)
COISAS DA SÁBADO: A SAGA IMPERFEITA DE CRAVINHO
Cravinho tem razão em tudo o que diz e na urgência com que o diz. Já não tem razão em muitas das suas propostas que reforçariam o já hiper-reforçado estado judicial e diminuiriam direitos, liberdades e garantias que nem a luta contra a corrupção justifica. Tomadas à letra, inverteriam o bom princípio da presunção da inocência que obriga o estado a provar o crime e não o individuo a provar a inocência. Num país como Portugal levariam, a breve prazo, ao seu uso para perseguições políticas ad hominem, mesmo sem qualquer substância num crime.Mas não é por isso que o PS as recusa, um PS disposto em muitas outras matérias a fazer tábua rasa das liberdades, direitos e garantias a favor de melhores mecanismo de controlo dos cidadãos, como se viu e vê nas finanças. Não, o PS não vai por aí, porque como partido no poder (como o PSD no passado) esconde o tipo muito especial de corrupção que hoje cada vez mais se encobre nos grandes negócios entre a governação e os “privados”, a forma eufemistica de dizer os interesses dos grandes grupos económicos que sabem que em Portugal é junto do estado que se fazem os melhores negócios. Cravinho também sabe, daí o seu salutar sentimento de urgência e emergência, que cada vez mais tudo se decide entre os gabinetes ministeriais, os grandes escritórios de advogados e os “privados”, sem verdadeiro escrutínio, sem concursos públicos, sem divulgação de contrapartidas, sem rastro. O programa de avultadas obras públicas que caracteriza este governo é um exemplo típico e a sonegação da informação que o acompanha também. Quando o governo diz que não vai gastar um tostão, porque são os privados que pagam tudo, todas as antenas deveriam levantar-se, ouriçar-se, mas é o silêncio que impera. Com que então subitamente tudo o que no passado custava milhões e milhões aos contribuintes é agora um bom negócio para as empresas, a tal ponto que elas fazem o serviço público de construir auto-estradas para o interior, sem trânsito que pague os custos? Se pensarmos bem e se tomássemos à letra o que nos diz o governo Sócrates, então não haveria problema para o estado em voltar às suas funções clássicas, porque portos, aeroportos, auto-estradas, hospitais, mercados, comboios, escolas, etc., são tão bons negócios que não há razão para gastar aí um tostão. Claro que umas almas daninhas podem duvidar, podem fazer perguntas indiscretas sobre que recursos públicos são dados de graça, que mecanismos financeiros vão beneficiar estas obras, que contrapartidas para a década de 10 e 20 estão previstas e que não é conveniente saber hoje, que tradeoffs foram combinados na grande partilha dos bens escassos, os nossos bens escassos, para que o Primeiro-ministro continue a apresentar uns powerpoints futuristas. Estas perguntas estão implícitas nas questões que Cravinho tem suscitado e por isso incomodam tanto o PS. É verdade que Cravinho fragilizou a sua posição ao aceitar um presente envenenado, um cargo de nomeação governamental, que o afastou do lugar onde estava a fazer este combate e que, neste caso, era o lugar próprio. Hoje o PS, com despudor, atira-lhe isso à cara. Mas mesmo assim deve ser ouvido com urgência e emergência, porque este é o tipo de governação, pelo método, pelos procedimentos, pela obscuridade, pela “gabinetização” dos contactos, que abre caminho à alta corrupção política. (url) 1347 - Account The history of my stupidity would fill many volumes. Some would be devoted to acting against consciousness, Like the flight of a moth which, had it known, Would have tended nevertheless toward the candle’s flame. Others would deal with ways to silence anxiety, The little whisper which, though it is a warning, is ignored. I would deal separately with satisfaction and pride, The time when I was among their adherents Who strut victoriously, unsuspecting. But all of them would have one subject, desire, If only my own—but no, not at all; alas, I was driven because I wanted to be like others. I was afraid of what was wild and indecent in me. The history of my stupidity will not be written. For one thing, it’s late. And the truth is laborious. (Czeslaw Milosz) (url) 1.8.08
ESPERANÇAS E TRAGÉDIAS Na série CAÇA E RECOLECÇÃO recolho objectos, textos, panfletos, manuscritos, revistas, livros e fotografias que encontro um pouco por todo o lado e trago para o meu arquivo. São efemera no verdadeiro sentido, fragmentos do tempo e da vida das pessoas, com as características do tempo, fugazes e rápidas. A CAÇA E RECOLECÇÃO (8) era exemplo de uma espécie de cadernos que já passaram em desuso, entre os álbuns de antigamente, onde se deixavam frases e poemas para as senhoras e raparigas e colecções de autógrafos de colegas e amigos. São um retrato pessoal do tempo, a que se volta com nostalgia para o tentar apanhar de novo na sua passagem ideal, que está sempre no passado. Este era o caderno de um tempo de inocência, o livro de autógrafos de uma rapariga, nos anos cinquenta, cuja identidade me era desconhecida a não ser que se chamava Joana. Uma leitora do Abrupto, Adelaide Chichorro Ferreira reconheceu a letra da mãe numa das dedicatórias e conseguiu identificar a Joana do caderno: Joana Simeão. "Um futuro risonho e muitas felicidades" diz uma das mensagens de amizade, exactamente o que Joana Simeão não teve. Após uma história atribulada entre os últimos anos da colonização de Moçambique e a independência, Joana Simeão foi executada pela FRELIMO acusada de traição. De facto, o tempo destrói a inocência e o futuro nunca existe.
(url) (url) ANÚNCIOS DO GOVERNO E REALIDADES INFOCID Relembro que continua por atribuir o prémio de €50 que será entregue à primeira pessoa que, em qualquer ponto do país, consiga encontrar um único destes quiosques Infocid que funcione como tal. O que se vê na imagem é o "monumento tecnológico" existente no edifício do Ministério do Trabalho e da Segurança Social, em Lisboa. (C. Medina Ribeiro) VIA CTT Voltando a um tema antigo no "Abrupto", o da ineficácia dos CTT, junto anexo imagem da mensagem que recebo sempre que na via CTT (serviço a que em má hora aderi) tento aceder à minha última factura da EDP. Escusado será dizer que, sem o acesso a essa factura, não tenho o código de "entidade", a "referência" e a data limite de pagamento da mesma. Como é óbvio, se não me deslocar a um serviço da EDP, vou entrar em mora no pagamento da minha conta da luz. (António Cardoso da Conceição) * Estou a ver a Quadratura do Círculo e ouço falar do "Via CTT"... Este mês ficou uma encomenda na alfândega dos correios e foi-me solicitado que enviasse a factura para o mail internacional@ctt.pt o que fiz de imediato. "Bounce" (foi devolvida). Enviei novamente. "Bounce" outra vez. Foi necessário introduzir a factura num bom e velhinho envelope e enviar por correio registado. Se utilizassem um endereço do gmail, isto não aconteceria. Fui ler o discurso de apresentação do "Via CTT" proferido pelo ministro Mário Lino e fiquei encantado com o correio do futuro que passamos a ter em 2006, hoje um longínquo passado (José Rui Fernandes) * Penso que já se falou disto aqui no Abrupto há algum tempo, mas queria só referir que aderi de pronto ao Via CTT (a designação é profética, como quem diz: eu via os CTT e deixei de os ver...) e nunca em circunstância alguma cheguei a utilizá-lo. Qual EDP, qual água, etc., etc. Nada. Zero. Pura e simples medida de cosmética de um Governo que atirava umas atoardas (está tão moribundo que já nem isso), sem qualquer consequência prática. O Via CTT foi um exemplo perfeito disso mesmo. O problema é que, como também já se falou aqui no Abrupto, os próprios CTT não estão melhores: desde AR’s que se perdem, até correspondência que é extraviada, passando por antipatias e burrices burocráticas várias. A título de exemplo, no noutro dia uma colaboradora minha deslocou-se a um balcão dos correios que estava vazio. Eu perguntei o que era “vazio” e ela disse-me para entender à letra. Pois bem, parece que se gerou um efeito “gato fedorento” porque quando ela tentou ser atendida, a funcionária pediu-lhe a senha, ao que ela retorquiu que não havia ninguém, logo para quê a senha. Não senhora, desculpe, mas a senhora tem que tirar a senha senão não a atendo, etc., etc. Não incomodo mais os leitores do Abrupto com a historieta, que acabou com uma queixa escrita e mais não sei o quê, a qual, como é óbvio, não altera (nem tão pouco contribui para alterar...) mentalidades. É o país que temos. (Rui Esperança) "MAGALHÃES" Quanto ao Magalhães, apresentado como "o primeiro computador português" é apenas uma encarnação cosmética do Classmate da Intel, cujo presidente afirmou que não investiu um cêntimo no seu fabrico cá. O modelo parece ter sido concebido para os países em desenvolvimento e destinado a competir com o OLPC (One Laptop Per Child) de Nicholas Negroponte. Também me pareceu ver o Linux instalado (*), o que em si não encerra nenhum mal, mas está de certa forma em rota de colisão com a Microsoft e com aqueles protocolos assinados pelo governo todo em fila indiana. Windows na sala de aula, Linux no pequeno portátil... Seria bom existir estratégia para além da táctica. E por falar em propaganda, o primeiro ministro fala em exportar, mas primeiro devia ter pensado num nome pronunciável fora da CPLP... A menos que vá utilizar Magellan, mas é uma marca tão registada que duvido muito. (José Rui Fernandes) (*) Nota de JPP: tem o Linux e o primeiro ecrã é a pergunta se quer Windows ou Linux, o que para crianças do Básico é obra. O Linux está lá pelo politicamente correcto. * O cientista Nicholas Negroponte criou um computador resistente a tudo, água, pó, choque e recarregável por manípulo, com ligação à Web através de antena. Melhor, a bateria é recarregável pela mesma antena e pelo próprio ecrã. Esse computador é fornecido a todas as crianças de países em vias de desenvolvimento, tendo um custo de 50 dólares. A associação por ele criada visa levar o mundo e com o mundo a educação, a tudo e a todos. A Intel tem feito tudo para contornar este projecto, criando o compuatdor hoje apresentado pelo 1º ministro. Como é que não vejo uma única pergunta por parte da imprensa, sobre o porquê deste gigante da informática e não o pc desenvolvido por Negroponte? Porque é que ninguém questiona estes negócios? É esta sensação de conformismo dos media que me dá a impressão de que estamos todos a viver num limbo em que o governo e as suas centrais de comunicação nos meteram. A questão é meramente económia e política, pois então. Se existe no mercado um equipamento que provou em África, no Brasil, na Ásia, que funciona, porque é que ninguém questiona? Acho estranho que nem um jornalista tenha preparado uma pergunta para fazer ao 1º ministro sobre esta decisão. (Jaime Dias) * Óptimo! Crianças já pouco habituadas a raciocinar, a concentrarem-se numa aula, a respeitarem normas de vivências escolar com um computador para usar quando, como e com que supervisão? Os computadores devem estar nas escolas para pesquisas e navegações com fins pedagógicos e até lúdicos. Mas isto cheira-me mais a uma versão do Governo Sócrates do frigorífico propagandístico do Valentim Loureiro. Eu sei a diferença entre o que é escrever uma frase na cabeça e depois no papel ou escrevê-la e corrigi-la com correctores ortográficos e raciocínio fragmentado em computador. Não concordo com esta medida, devia haver experiências piloto. Não é ser reaccionária, apenas ajudar as crianças a pensar e concentrarem-se, a pesquisarem com esforço, a terem o prazer da descoberta… São duas coisas diferentes… num país em que muitos não têm livros em casa nem conseguem seguir uma história, é com computadores que os incentivamos para a aprendizagem e para a curiosidade… O saber não está à distância de um click… é muito estreito esse caminho, (Filipa Guimarães) * O computador que, com "estrondo" o governo quis lançar e quer fazer, "made in Portugal", é basicamente um produto Intel que a J.P. Sá Couto vai fabricar - enquanto for rentável. Se não diversificar ... lá acabam, mais tarde ou mais cedo, os ansiados postos de trabalho e que bem precisos são. Ver, p.ex, algumas informações aqui e aqui. Claro que podem fazer uma alteração ou outra no hardware ... Quanto ao software, para ser + barato virá, segundo consta, com o Linux como sistema operativo e sempre há, desse modo, todo/algum software livre, "open source" (* ) ( ex.:Openoffice - não sei se é compatível é com as baixas especificações do hardware ) compatível com a versão do Linux que trará. Mas basicamente é o "classmate" da Intel ( 2ª versão) baptizado pelo governo como "Magalhães". Cá para mim, o nome mata 2 coelhos com uma cajadada só ! : Possivel homenagem ao Fernão de Magalhaes e ao seu espírito inovador e aventureiro e uma palmadinha nas costas do José Magalhães ( porque não ? ), secretário de Estado com algum curriculum e pioneiro da Internet em Portugal, autor do " Roteiro Prático da Internet", entre outros (?) e participante de outras iniciativas: Ver aqui. Eu até acho que ele tem mais ligação - é óbvio, em termos práticos - com a Internet, do que o nosso antepassado longínquo ... não desmerecendo em relação aquele que completou ( ou quase... ) a viagem de circum-navegação ! E não se esqueçam de ver o computador que a Intel concebeu e que querem dizer que é nosso, só lhes falta dizer "o computador português" (!) não sei porquê ... http://www.classmatepc.com/ http://www.intel.com/intel/worldahead/classmatepc/ "Made in" ... Portugal ..ainda pode ser ... mas nada de confusões ! As patentes não são portuguesas, claro! Só o apelido "magalhães" ! Entretanto, diz-se que a Microsoft e a Samsung já estão interessadas no " Magalhães" . Será que vamos ter um Windows para o Magalhães ? E a Samsung ? Que "inovem" que nós esperamos . Mas onde estes "gigantes" da informática entram, deixam marcas da sua tentacular vocação "monopolista"...a não esquecer! ( *) Software livre , com código aberto - Projecto GNU / Linux (J. Alcino) (url)
COISAS DA SÁBADO: “COMO DIZIA RAMBEAU...”
Era o que dizia uma legenda de um documentário sobre os habitantes de Havana que tentam sobreviver nas ruínas das grandes casas do passado. Um escritor cubano, proscrito por Fidel, disse “como dizia Rimbaud” e o autor da tradução e das legendas, como é ignorante até dizer chega, escreveu o som da palavra naquilo que ele pensava ser um “Rambeau”. Isto é tão infelizmente comum nas traduções de filmes que deveria suscitar medidas de controlo de qualidade como as salsichas, deveria concitar uma ASAE especial para punir as mercearias que vendem “Rambeau” em vez de Rimbaud. Mas continua impune, dia após dia, com tradutores de meia tigela a dizerem asneiras monumentais, a traduzirem de forma aflitiva frases que não compreendem, a enganarem-nos com traduções inventadas quando não sabem o que significa uma palavra, e a fazerem uma espécie de transcrição fonética dos nomes dos autores que não conhecem. Que tal introduzir um sistema de multas, primeiro para a RTP (foi na RTP2 que isto se passou), depois na empresa que faz estas traduções, que devia fazer parte de um rating por número de asneiras, de modo que quem a contrata sabe o que compra, e por aí adiante?* É claro que o exemplo de escrever Rambaud em vez de Rimbaud é um entre muitos. Eis mais alguns: (url) (url) 1346 - Talking in Bed Talking in bed ought to be easiest, Lying together there goes back so far, An emblem of two people being honest. Yet more and more time passes silently. Outside, the wind’s incomplete unrest Builds and disperses clouds in the sky, And dark towns heap up on the horizon. None of this cares for us. Nothing shows why At this unique distance from isolation It becomes still more difficult to find Words at once true and kind, Or not untrue and not unkind. (Philip Larkin) (url) 30.7.08
(url) 1345 - The Waking I wake to sleep, and take my waking slow. I feel my fate in what I cannot fear. I learn by going where I have to go. We think by feeling. What is there to know? I hear my being dance from ear to ear. I wake to sleep, and take my waking slow. Of those so close beside me, which are you? God bless the Ground! I shall walk softly there, And learn by going where I have to go. Light takes the Tree; but who can tell us how? The lowly worm climbs up a winding stair; I wake to sleep, and take my waking slow. Great Nature has another thing to do To you and me; so take the lively air, And, lovely, learn by going where to go. This shaking keeps me steady. I should know. What falls away is always. And is near. I wake to sleep, and take my waking slow. I learn by going where I have to go. (Theodore Roethke) (url) (url) 29.7.08
KARL MARX E O SEU DESTINO Apresentação a Marx, Manifesto do Partido Comunista / Manuscritos Económico-Filosóficos de 1844 / O Capital (Edição Popular), 2008 (edição internacional distribuída pelo Diário de Notícias).(...) Marx continua por todo o lado, mas está muito diferente daquilo que foi. A impregnação do marxismo em tudo, a começar pelo “texto escolar” e pelo discurso comunicacional, tornou-se tão normal, tão habitual que temos dificuldade em distingui-lo da “ideologia dominante” que ele esconjurava. É um marxismo deslavado, desprovido das suas intenções revolucionárias, longe dos seus actores históricos, transformado num mero discurso sobre a sociedade, sobre o conflito, sobre os “ricos e os pobres” já sem esse nome, perpassando no discurso da alter-globalização, nos debates sobre o preço do petróleo, mesmo nalguma vulgata ecológica, nas discussões esquerdistas sobre o Império. Deslavado, descaracterizado, mas também marxismo. Marx continua forte nos livros de sociologia e de economia, menos forte nos de filosofia, menos nos de política. Na academia, o seu sucesso segue uma geografia bizarra, forte nos campus das universidades americanas, em França, na América Latina, mas esse marxismo universitário que ainda alimenta algumas revistas com o seu nome, já não é o mesmo Marx do “marxismo” que conhecíamos. Não é o mesmo Marx de Engels, de Lenine, de Staline, de Cunhal, mesmo de Lukács, Garaudy e Althusser, mas um Marx intelectualizado, transfigurado em mil teorias críticas que, do cinema ao feminismo, da antropologia bosquímana aos estudos de arquitectura apocalíptica, continuam a produzir centenas de livros e milhares de artigos por ano. A Internet está também cheia de Marx, mas acompanhado agora pelos vários marxismos que o fim do comunismo deixou de considerar desviantes. Onde antes estava um Marx solitário, lido numa linha única por Engels, Lenine, e Staline, propriedade dos partidos comunistas que simbolicamente o tinham colocado numa estátua no centro de Berlim Leste e lhe publicavam a Marx-Engels-Gesamtausgabe (MEGA), a edição estandardizada dos textos, entre as academias de Moscovo e Berlim, há agora o Marx do Internet Marxist Archive, que inclui o caribenho C.L.R. James, o americano branco Hal Draper, o indiano Roy, os “esquerdistas” e conselhistas alemães e holandeses, os bordiguistas italianos, Gramsci, Guevara, Rosa Luxemburgo, mil e uma vozes que se digladiaram entre si, exactamente pela interpretação que faziam de Marx. Como deixou de haver uma legitimidade política da interpretação, primeiro em 1960 com o conflito entre o PC da China e o PC da União Soviética, quando Marx era único e tinha uma linha de interpretadores autorizados, passou-se para uma multidão de vozes, afro-caribenhas, indías, feministas, homossexuais, chinesas, anarco-comunistas, marxistas-libertárias, marxistas críticas, psico-marxistas, etc., etc., todas dele se reclamando (Texto integral a ser colocado nos Estudos sobre o Comunismo em breve.) (url)
O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: "NÃO PODEM LER A BUENA DICHA"
![]() SIGLAS: A- – Alvará AA. – Alvarás Avis. - Aviso C.R. – Carta Régia D. – Decreto D.D. - Decretos L. – Lei Provis.R. – Provisão Régia ![]() (João Boaventura) * É muito interessante o seu post, com a reprodução de um repertório sobre as penas aplicáveis aos ciganos, que ilustra bem a discriminação jurídica de que eram alvo no séc. XIX. Nos nossos dias, essa discriminação não deixou de se manter, ainda que sob formas mais insidiosas. Recorde-se que há uns anos houve uma Câmara Municipal que solicitou à Polícia que expulsasse os ciganos da área do seu município. Lembrem-se ainda as dificuldades que noutra altura um Governador Civil, Pedro Bacelar de Vasconcelos, teve que enfrentar apenas para evitar a discriminação de uma família de ciganos. (url) EXTERIORES: CORES DESTES DIAS
Clicando na fotografia fica na boa dimensão. Para se ver ![]() ![]() ![]() Mercado Municipal de Viseu. (Sandra Bernardo) Berlinenses de regresso a casa após o discurso de Barack Obama diante da Siegessäule, no final da tarde de 24 de Julho. (Vítor Magalhães) ![]() Trovoada. (Emil Andersen) Campo de Golfe RTA, Louredo, Amarante. (Helder Barros) (url) 1344 - A Song On the End of the World On the day the world ends A bee circles a clover, A fisherman mends a glimmering net. Happy porpoises jump in the sea, By the rainspout young sparrows are playing And the snake is gold-skinned as it should always be. On the day the world ends Women walk through the fields under their umbrellas, A drunkard grows sleepy at the edge of a lawn, Vegetable peddlers shout in the street And a yellow-sailed boat comes nearer the island, The voice of a violin lasts in the air And leads into a starry night. And those who expected lightning and thunder Are disappointed. And those who expected signs and archangels’ trumps Do not believe it is happening now. As long as the sun and the moon are above, As long as the bumblebee visits a rose, As long as rosy infants are born No one believes it is happening now. Only a white-haired old man, who would be a prophet Yet is not a prophet, for he’s much too busy, Repeats while he binds his tomatoes: No other end of the world will there be, No other end of the world will there be. (Czeslaw Milosz) (url) 28.7.08
(url) (url) KARL MARX E O SEU DESTINO Apresentação a Marx, Manifesto do Partido Comunista / Manuscritos Económico-Filosóficos de 1844 / O Capital (Edição Popular), 2008 (edição internacional distribuída pelo Diário de Notícias).Após mais de 150 anos a dominar o mundo, sim o mundo, como poucos, para onde foi Karl Marx depois de cair o último muro que defendia o “seu” território em 1989? O corpo maciço, peito, cabelo e barbas abundantes, sólido como um rochedo, pousado sobre a pedra com um centro de gravidade seguro, só parecido no bronze com o Balzac de Rodin, foi, em muitas terras do “socialismo real”, retirado da peanha e levada para esses “museus do comunismo” que atraem turistas americanos nas capitais do lado de lá do Muro. Como o seu túmulo verdadeiro estava escondido num cemitério suburbano de Londres, onde ocasionalmente delegações búlgaras ou mongóis deixavam um ramo de flores, eram essas estátuas a personificação do poder real da personagem, uma das que mais alto marca o século XIX e o século XX. Por onde anda hoje aquele que os maoístas peruanos chamavam a “primeira espada”? (Texto integral a ser colocado nos Estudos sobre o Comunismo em breve.) (url) 1343 - Siren Song This is the one song everyone would like to learn: the song that is irresistible: the song that forces men to leap overboard in squadrons even though they see the beached skulls the song nobody knows because anyone who has heard it is dead, and the others can’t remember Shall I tell you the secret and if I do, will you get me out of this bird suit? I don’t enjoy it here squatting on this island looking picturesque and mythical with these two feathery maniacs, I don’t enjoy singing this trio, fatal and valuable. I will tell the secret to you, to you, only to you. Come closer. This song is a cry for help: Help me! Only you, only you can, you are unique At last. Alas it is a boring song but it works every time. (Margaret Atwood) (url) 27.7.08
(url) 1342 - Earth-Moon Once upon a time there was a person He was walking along He met the full burning moon Rolling slowly toward him Crushing the stones and houses by the wayside. He shut his eyes from the glare. He drew his dagger And stabbed and stabbed and stabbed. The cry that quit the moon’s wounds Circled the earth. The moon shrank, like a punctured airship, Shrank, shrank, smaller, smaller, Till it was nothing But a silk handkerchief, torn, And wet as with tears. The person picked it up. He walked on Into moonless night Carrying this strange trophy. (Ted Hughes) (url)
© José Pacheco Pereira
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