ABRUPTO

1.8.08


ESPERANÇAS E TRAGÉDIAS

Na série CAÇA E RECOLECÇÃO recolho objectos, textos, panfletos, manuscritos, revistas, livros e fotografias que encontro um pouco por todo o lado e trago para o meu arquivo. São efemera no verdadeiro sentido, fragmentos do tempo e da vida das pessoas, com as características do tempo, fugazes e rápidas. A CAÇA E RECOLECÇÃO (8) era exemplo de uma espécie de cadernos que já passaram em desuso, entre os álbuns de antigamente, onde se deixavam frases e poemas para as senhoras e raparigas e colecções de autógrafos de colegas e amigos. São um retrato pessoal do tempo, a que se volta com nostalgia para o tentar apanhar de novo na sua passagem ideal, que está sempre no passado. Este era o caderno de um tempo de inocência, o livro de autógrafos de uma rapariga, nos anos cinquenta, cuja identidade me era desconhecida a não ser que se chamava Joana. Uma leitora do Abrupto, Adelaide Chichorro Ferreira reconheceu a letra da mãe numa das dedicatórias e conseguiu identificar a Joana do caderno: Joana Simeão. "Um futuro risonho e muitas felicidades" diz uma das mensagens de amizade, exactamente o que Joana Simeão não teve. Após uma história atribulada entre os últimos anos da colonização de Moçambique e a independência, Joana Simeão foi executada pela FRELIMO acusada de traição. De facto, o tempo destrói a inocência e o futuro nunca existe.

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© José Pacheco Pereira
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