ABRUPTO

2.8.08


COISAS DA SÁBADO: A SAGA IMPERFEITA DE CRAVINHO


Cravinho tem razão em tudo o que diz e na urgência com que o diz. Já não tem razão em muitas das suas propostas que reforçariam o já hiper-reforçado estado judicial e diminuiriam direitos, liberdades e garantias que nem a luta contra a corrupção justifica. Tomadas à letra, inverteriam o bom princípio da presunção da inocência que obriga o estado a provar o crime e não o individuo a provar a inocência. Num país como Portugal levariam, a breve prazo, ao seu uso para perseguições políticas ad hominem, mesmo sem qualquer substância num crime.

Mas não é por isso que o PS as recusa, um PS disposto em muitas outras matérias a fazer tábua rasa das liberdades, direitos e garantias a favor de melhores mecanismo de controlo dos cidadãos, como se viu e vê nas finanças. Não, o PS não vai por aí, porque como partido no poder (como o PSD no passado) esconde o tipo muito especial de corrupção que hoje cada vez mais se encobre nos grandes negócios entre a governação e os “privados”, a forma eufemistica de dizer os interesses dos grandes grupos económicos que sabem que em Portugal é junto do estado que se fazem os melhores negócios. Cravinho também sabe, daí o seu salutar sentimento de urgência e emergência, que cada vez mais tudo se decide entre os gabinetes ministeriais, os grandes escritórios de advogados e os “privados”, sem verdadeiro escrutínio, sem concursos públicos, sem divulgação de contrapartidas, sem rastro.

O programa de avultadas obras públicas que caracteriza este governo é um exemplo típico e a sonegação da informação que o acompanha também. Quando o governo diz que não vai gastar um tostão, porque são os privados que pagam tudo, todas as antenas deveriam levantar-se, ouriçar-se, mas é o silêncio que impera. Com que então subitamente tudo o que no passado custava milhões e milhões aos contribuintes é agora um bom negócio para as empresas, a tal ponto que elas fazem o serviço público de construir auto-estradas para o interior, sem trânsito que pague os custos? Se pensarmos bem e se tomássemos à letra o que nos diz o governo Sócrates, então não haveria problema para o estado em voltar às suas funções clássicas, porque portos, aeroportos, auto-estradas, hospitais, mercados, comboios, escolas, etc., são tão bons negócios que não há razão para gastar aí um tostão.

Claro que umas almas daninhas podem duvidar, podem fazer perguntas indiscretas sobre que recursos públicos são dados de graça, que mecanismos financeiros vão beneficiar estas obras, que contrapartidas para a década de 10 e 20 estão previstas e que não é conveniente saber hoje, que tradeoffs foram combinados na grande partilha dos bens escassos, os nossos bens escassos, para que o Primeiro-ministro continue a apresentar uns powerpoints futuristas. Estas perguntas estão implícitas nas questões que Cravinho tem suscitado e por isso incomodam tanto o PS.

É verdade que Cravinho fragilizou a sua posição ao aceitar um presente envenenado, um cargo de nomeação governamental, que o afastou do lugar onde estava a fazer este combate e que, neste caso, era o lugar próprio. Hoje o PS, com despudor, atira-lhe isso à cara. Mas mesmo assim deve ser ouvido com urgência e emergência, porque este é o tipo de governação, pelo método, pelos procedimentos, pela obscuridade, pela “gabinetização” dos contactos, que abre caminho à alta corrupção política.

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© José Pacheco Pereira
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