ABRUPTO

14.5.05


INTENDÊNCIA

Continua a ser completada a bibliografia dos ESTUDOS SOBRE COMUNISMO.

Actualizada a nota GRANDES NOMES.

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AFINAL HÁ LENDAS URBANAS QUE SÃO VERDADEIRAS 9

VULCANOLOGIA



EMÍLIO NUM QUADRO DE CHIRICO



Esta belíssima capa de Walter Trier, que veio com a edição alemã, tem um ambiente que parece o dos quadros de Chirico. Que se entendesse que dava uma capa apelativa para um livro de literatura juvenil diz alguma coisa sobre a qualidade das edições da época. A edição portuguesa é de 1932. Trier era um convicto opositor de Hitler que saiu da Alemanha e emigrou para Inglaterra, onde trabalhou como desenhador e participou na propaganda anti-nazi. Foi depois para os EUA e para o Canadá. Walt Disney convidou-o a fazer desenhos animados, mas ele recusou. Hoje está quase esquecido.

UM LIVRO REALMENTE ÚTIL



Na capa dá-se o melhor exemplo: "Rende-te! Rends-toi! Do you render! Bendieren Sie sich! (Rendiren Zi zixe!)". Mesmo assim, com este arremedo de transcrição fonética para o alemão. Estamos a ver o nosso soldadinho da I Guerra na Flandres a berrar ao boche "Rendiren Zi zixe!" e ele a obedecer.

UM SALGARI VINTAGE


Edição de 1938.

HOMENS: UM CRIMINOSO, UM INOCENTE, E UM CONDENADO




Não sei se o 411 estava inocente, nem onde é que o Adolfo Coelho, uma espécie de jornalista do Crime da época, foi buscar o boxeur ou o cadastrado que posa com a metralhadora, mas como se vê as queixas contra a justiça são já antigas e produzem abundante literatura.

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COISAS COMPLICADAS


Ícone russo do século XIV

1 Sucedeu que, quando o SENHOR estava para elevar a Elias num redemoinho ao céu, Elias partiu de Gilgal com Eliseu.
2 E disse Elias a Eliseu: Fica-te aqui, porque o SENHOR me enviou a Betel. Porém Eliseu disse: Vive o SENHOR, e vive a tua alma, que não te deixarei. E assim foram a Betel.
3 Então os filhos dos profetas que estavam em Betel saíram ao encontro de Eliseu, e lhe disseram: Sabes que o SENHOR hoje tomará o teu senhor por sobre a tua cabeça? E ele disse: Também eu bem o sei; calai-vos.
4 E Elias lhe disse: Eliseu, fica-te aqui, porque o SENHOR me enviou a Jericó. Porém ele disse: Vive o SENHOR, e vive a tua alma, que não te deixarei. E assim foram a Jericó.
5 Então os filhos dos profetas que estavam em Jericó se chegaram a Eliseu, e lhe disseram: Sabes que o SENHOR hoje tomará o teu senhor por sobre a tua cabeça? E ele disse: Também eu bem o sei; calai-vos.
6 E Elias disse: Fica-te aqui, porque o SENHOR me enviou ao Jordão. Mas ele disse: Vive o SENHOR, e vive a tua alma, que não te deixarei. E assim ambos foram juntos.
7 E foram cinquenta homens dos filhos dos profetas, e pararam defronte deles, de longe: e assim ambos pararam junto ao Jordão.
8 Então Elias tomou a sua capa e a dobrou, e feriu as águas, as quais se dividiram para os dois lados; e passaram ambos em seco.
9 Sucedeu que, havendo eles passado, Elias disse a Eliseu: Pede-me o que queres que te faça, antes que seja tomado de ti. E disse Eliseu: Peço-te que haja porção dobrada de teu espírito sobre mim.
10 E disse: Coisa difícil pediste; se me vires quando for tomado de ti, assim se te fará, porém, se não, não se fará.
11 E sucedeu que, indo eles andando e falando, eis que um carro de fogo, com cavalos de fogo, os separou um do outro; e Elias subiu ao céu num redemoinho.
12 O que vendo Eliseu, clamou: Meu pai, meu pai, carros de Israel, e seus cavaleiros! E nunca mais o viu; e, pegando as suas vestes, rasgou-as em duas partes.
13 Também levantou a capa de Elias, que dele caíra; e, voltando-se, parou à margem do Jordão.
14 E tomou a capa de Elias, que dele caíra, e feriu as águas, e disse: Onde está o SENHOR Deus de Elias? Quando feriu as águas elas se dividiram de um ao outro lado; e Eliseu passou.
15 Vendo-o, pois, os filhos dos profetas que estavam defronte em Jericó, disseram: O espírito de Elias repousa sobre Eliseu. E vieram-lhe ao encontro, e se prostraram diante dele em terra.


(Biblía, Reis, Cap.2)

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GRANDES NOMES:
O DIREITO DO MAIS FORTE À LIBERDADE / O MEDO CORRÓI A ALMA / LAGRIMAS AMARGAS DE PETRA VON KANT


G. Proença sugeriu como um grande nome As Lagrimas Amargas de Petra von Kant (Die bitteren Tränen der Petra von Kant) filme de Rainer Werner Fassbinder, e eu acrescento O amor é mais frio que a morte (Liebe ist kälter als der Tod) e, em particular, o título português de "Faustrecht der Freiheit", O Direito do Mais Forte à Liberdade, e O Medo Corrói a Alma (Angst essen Seele auf).

*
Se a evocação de títulos também pode contribuir para reavivar memórias de Fassbinder, sugiro-lhe mais dois: Liebe ist kälter als der Tod/O Amor é Mais Frio que a Morte e Warnung vor einer heilingen Nutte/Cuidado Com Aquela Puta Sagrada. Mas já agora também o de uma outra importante obra do "jovem cinema alemão", Die Artisten in der Zirkuskuppel: Ratlos/Os Artistas sob a Cupúla de Circo - Perplexos de Alexander Kluge.

(Augusto M. Seabra)

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EARLY MORNING BLOGS 492

Rough Country


Give me a landscape made of obstacles,
of steep hills and jutting glacial rock,
where the low-running streams are quick to flood
the grassy fields and bottomlands.
A place
no engineers can master–where the roads
must twist like tendrils up the mountainside
on narrow cliffs where boulders block the way.
Where tall black trunks of lightning-scalded pine
push through the tangled woods to make a roost
for hawks and swarming crows.
And sharp inclines
where twisting through the thorn-thick underbrush,
scratched and exhausted, one turns suddenly
to find an unexpected waterfall,
not half a mile from the nearest road,
a spot so hard to reach that no one comes–
a hiding place, a shrine for dragonflies
and nesting jays, a sign that there is still
one piece of property that won't be owned.


(Dana Gioia)

*

Bom dia!

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VER A NOITE

Amena, como há muito não estava. Os luzeiros brilham devidamente, a lua ainda está pequena, Zéfiro voltou.

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13.5.05


AFINAL HÁ LENDAS URBANAS QUE SÃO VERDADEIRAS 8

MAIS MULHERES: A MÃE, A DE CORAÇÃO DE BARRO, A ASSASSINA E A TOUTINEGRA




E A QUE PASSA



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OS LIVROS DA SÁBADO

Para além do texto completo dos artigos da Sábado que coloco no VERITAS FILIA TEMPORIS, passarei a reproduzir no Abrupto as notas sobre livros. Esta é a da semana passada, a actual é sobre o livro de Fernando Galhano Páginas de Cultura e Arte.

EU SOU SUSPEITO

porque sou amigo do Vasco Graça Moura, mas que o último livro de poemas que publicou, Laocoonte, Rimas Várias, Andamentos Graves é um magnifico livro, é. Eu sou ainda mais suspeito porque alguns desses poemas foram publicados inéditos no Abrupto, e porque conheço noutros a “biografia” que lhe está por detrás. Também vivi a mesma Bruxelas, do regresso a casa à noite…Mas eu não suspeito de mim, sei que não sou propriamente partidário do amiguismo na crítica, e que o livro é magnifico, é. Depois, dentro do livro, eu sou também suspeito de gostar daquele movimento entre falas e autorias, que caminha de um poema para outro, e um é de Horácio em latim e Graça Moura em português que soa a latim que soa a português, outro é uma tradução, mais à frente uma versão, mais à frente uma citação. O poema de Blake do tigre, “brilho em brasa”, caminha assim entre palavras dele e nossas. Eu sou suspeito de gostar de ler um livro assim porque acho que este é o cerne da poesia ocidental, uma conversa interior entre textos, uma “alta” conversa mas mesmo assim uma conversa, de corpo para corpo, de tempestade para tempestade, de música para música, de verso para verso, de palavras para palavras, de emoções para emoções. Um dos poemas fala disso, do mundo que já coube e que já não cabe na poesia, mas fala na voz de um “fabro” como Dante chamava a Arnaut Daniel e Eliot a Pound. E o Vasco está no cerne dessa tradição central do “fabro”, a mais clássica de todas, da poesia que se ergue como uma fábrica de palavras, em que os sentimentos são fortes porque são domados por disciplinas antigas como os decassílabos, para não serem vulgares, sendo, como humanamente são, vulgaríssimos.

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EARLY MORNING BLOGS 491

Brise marine


La chair est triste, hélas ! et j'ai lu tous les livres.
Fuir ! là-bas fuir ! Je sens que des oiseaux sont ivres
D'être parmi l'écume inconnue et les cieux !
Rien, ni les vieux jardins reflétés par les yeux
Ne retiendra ce cœur qui dans la mer se trempe
Ô nuits ! ni la clarté déserte de ma lampe
Sur le vide papier que la blancheur défend
Et ni la jeune femme allaitant son enfant.
Je partirai ! Steamer balançant ta mâture,
Lève l'ancre pour une exotique nature !
Un Ennui, désolé par les cruels espoirs,
Croit encore à l'adieu suprême des mouchoirs !
Et, peut-être, les mâts, invitant les orages
Sont-ils de ceux qu'un vent penche sur les naufrages
Perdus, sans mâts, sans mâts, ni fertiles îlots...
Mais, ô mon cœur, entends le chant des matelots !


(Mallarmé)

*

Bom dia!

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12.5.05




AFINAL HÁ LENDAS URBANAS QUE SÃO VERDADEIRAS 7

FOTOGRAFIAS DE GUERRA







Os livros caminham de maneiras misteriosas. Este, desenterrado da pilha, é um album de fotografias intitulado Siege, uma obra célebre do fotógrafo e cineasta Julien Bryan. São fotografias do blitzkrieg alemão na Polónia, no início da guerra, que ele testemunhou. Mas há mais: o livro tem uma dedicatória de Bryan, datada de Lima em Outubro de 1940, a R. Henry Norweb que foi diplomata e depois embaixador em Portugal em 1944-5. A minha perplexidade inicial - como é que este livro foi parar ao Ribatejo - foi resolvida pela dedicatória.





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AFINAL HÁ LENDAS URBANAS QUE SÃO VERDADEIRAS 6

ICONOLOGIAS: ALEMÃES COM CAVEIRA




ZOLA


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A MÃO DO FINADO QUE NÃO É DE DUMAS MAS DE ALFREDO POSSOLO HOGAN

"O que me leva a escrever-lhe é a reprodução da capa de “A Mão do Finado”, livro a que se refere como “um Dumas sinistro”. Não conheço a edição reproduzida na imagem. Eu tenho uma da Lello, em 2 volumes, integrada na colecção das obras de Alexandre Dumas.

Não sei se lhe estou a dar alguma novidade, mas este livro tem uma história curiosa, que me levou mesmo, em tempos, a propor a sua inclusão na colecção de clássicos da literatura Juvenil que o PÚBLICO lançou.

É que a obra não é da autoria de Alexandre Dumas, mas sim de um português chamado Alfredo Possolo Hogan, que nasceu em Lisboa em 1830, e morreu na mesma cidade, muito novo, em 1865. Era empregado dos Correios e publicou várias novelas, entre as quais “A Mão do Finado”, que apresentou como continuação de “O Conde de Monte-Cristo”, de Dumas pai.

Não sei que informação virá na edição cuja capa o “Abrupto” reproduz. A da Lello dá o livro como sendo de Dumas, sem fazer qualquer referência a Possolo Hogan.

O mais curioso, no entanto, é que o livro foi depois traduzido e editado em França e na Alemanha (e talvez noutros países)."

(luís miguel queirós)

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INTENDÊNCIA

Actualizada a última INTENDÊNCIA...

Actualizada COISAS SIMPLES / GRANDES CAPAS com uma pequena biografia de Marques Gastão, feita por sua filha Ana Marques Gastão.

Em breve mais notícias sobre as toneladas de papel em forma de livro, de que estão a chegar mais neste momento.

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LIVROS NO ESTADO LÍQUIDO

Os livros chegam em contentores assim e são descarregados em cestos de vindima. Não vale a pena fazer de outra maneira. Lá dentro são despejados como se fossem uvas para um lagar. É a primeira vez que vejo livros a comportarem-se no estado líquido. Ou será a cornucópia da abundância? Ou a caixa de Pandora? (Onde é que eu já ouvi isto?. Depois fica um monte tipo cofre-forte do Tio Patinhas. Por fim, a inevitável Ordem e o inefável Progresso chegam, e os livros começam a ser amontoados como deve ser em caixas para perderem qualquer veleidade de atitude, ou andarem a distribuir folhas por tudo quanto é sítio.

Terror! Começou a chover.

*

O reverso da medalha ou outra medalha no Rato de Livraria.

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AFINAL HÁ LENDAS URBANAS QUE SÃO VERDADEIRAS 5

MULHERES: A CEGUINHA, A PERVERSA, A ADÚLTERA E A SEVERA



Detalhe da ADÚLTERA

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MEMÓRIAS DE BIBLIOTECAS
(O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES)

A biblioteca municipal de Sintra, antes de mudar para o actual Palacete Mantero, na Estefânia, estava instalada no Palácio Valenças, na descida de S.Pedro, a entrar na Vila, um pouco antes do actual Museu do Brinquedo. Antes da direcção iluminista do (Prof.) Vítor Serrão, que esquartejou os elegantes salões do rés-do-chão para poder prestar um serviço em condições à população escolar do Secundário que ia aumentando inexoravelmente a partir final dos anos 70, a Biblioteca era mais uma biblioteca de casa particular abastada ou de clube inglês, de atmosfera tranquila, e pequeno terraço com mobília de palhinha, que os serviços municipalizados de apoio à leitura em que se tornou.

As funcionárias, com a elegância e o porte de secretárias dum 5º piso do MI5, acharam-me simpático, ou talvez as tivesse impressionado favoravelmente a minha precoce sofreguidão por novos livros, sempre novos livros. A verdade é que deixaram de me acompanhar à Sala Principal, onde estavam os armários de rede de galinheiro com um enorme espólio. Davam-me a chave e eu deambulava, abrindo e fechando o acesso às estantes, até perfazer o meu resgate. Havia uma política de só deixar sair para leitura um máximo de três livros, e apenas por uma semana. No final do Verão, quando as visitas à Biblioteca se tinham tornado tri-semanais e as funcionárias se convenceram que eu lia mesmo o que levava e que trazia os livros sem falta, aceitaram uma excepção. Levei para casa, no início de Outubro do ano de 1970 dos meus catorze anos, a “A La Recherche du Temps Perdu”, em 15 volumes cartonados. Só os devolvi, em bloco, passados meses.

Estou seguro que o Tio Marcel teria gostado de se sentar numa cadeira de palhinha, no terraço de canto, do primeiro andar do Palácio Valenças, a ler uma edição amarelecida e perfumada de mofo pelos nevoeiros da Serra.

(J.T.P.)

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COISAS SIMPLES


Morandi

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EARLY MORNING BLOGS 490

XXXV. Les Fenêtres


Celui qui regarde du dehors à travers une fenêtre ouverte, ne voit jamais autant de choses que celui qui regarde une fenêtre fermée. Il n'est pas d'objet plus profond, plus mystérieux, plus fécond, plus ténébreux, plus éblouissant qu'une fenêtre éclairée d'une chandelle. Ce qu'on peut voir au soleil est toujours moins intéressant que ce qui se passe derrière une vitre. Dans ce trou noir ou lumineux vit la vie, rêve la vie, souffre la vie.

Par-delà des vagues de toits, j'aperçois une femme mûre, ridée déjà, pauvre, toujours penchée sur quelque chose, et qui ne sort jamais. Avec son visage, avec son vêtement, avec son geste, avec presque rien, j'ai refait l'histoire de cette femme, ou plutôt sa légende, et quelquefois je me la raconte à moi-même en pleurant.

Si c'eût été un pauvre vieux homme, j'aurais refait la sienne tout aussi aisément.

Et je me couche, fier d'avoir vécu et souffert dans d'autres que moi-même.

Peut-être me direz-vous: "Es-tu sûr que cette légende soit la vraie?" Qu'importe ce que peut être la réalité placée hors de moi, si elle m'a aidé à vivre, à sentir que je suis et ce que je suis?


(C. Baudelaire)

*

Bom dia!

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11.5.05


EARLY MORNING BLOGS 489

XLVI. Perte d'auréole


"Eh! quoi! vous ici, mon cher? Vous, dans un mauvais lieu! vous, le buveur de quintessences! vous, le mangeur d'ambrosie! En vérité, il y a là de quoi me surprendre.

- Mon cher, vous connaissez ma terreur des chevaux et des voitures. Tout à l'heure, comme je traversais le boulevard, en grande hâte, et que je sautillais dans la boue, à travers ce chaos mouvant où la mort arrive au galop de tous les côtés à la fois, mon auréole, dans un mouvement brusque, a glissé de ma tête dans la fange du macadam. Je n'ai pas eu le courage de la ramasser. J'ai jugé moins désagréable de perdre mes insignes que de me faire rompre les os. Et puis, me suis-je dit, à quelque chose malheur est bon. Je puis maintenant me promener incognito, faire des actions basses, et me livrer à la crapule, comme les simples mortels. Et me voici, tout semblable à vous, comme vous voyez!

- Vous devriez au moins faire afficher cette auréole, ou la faire réclamer par le commissaire.

- Ma foi! non. Je me trouve bien ici. Vous seul, vous m'avez reconnu. D'ailleurs la dignité m'ennuie. Ensuite je pense avec joie que quelque mauvais poète la ramassera et s'en coiffera impudemment. Faire un heureux, quelle jouissance! et surtout un heureux qui me fera rire! Pensez à X, ou à Z! Hein! comme ce sera drôle!"


(C. Baudelaire)

*

Bom dia

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10.5.05


APRENDENDO COM JORGE LUIS BORGES

"La Biblioteca existe ab aeterno. De esa verdad cuyo colorario inmediato es la eternidad futura del mundo, ninguna mente razonable puede dudar. El hombre, el imperfecto bibliotecario, puede ser obra del azar o de los demiurgos malévolos; el universo, con su elegante dotación de anaqueles, de tomos enigmáticos, de infatigables escaleras para el viajero y de letrinas para el bibliotecario sentado, sólo puede ser obra de un dios. Para percibir la distancia que hay entre lo divino y lo humano, basta comparar estos rudos símbolos trémulos que mi falible mano garabatea en la tapa de un libro, con las letras orgánicas del interior: puntuales, delicadas, negrísimas, inimitablemente simétricas."

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BIBLIOFILIA: ENTUSIASMOS


O meu último entusiasmo, não apenas gosto, mas entusiasmo, por um livro português de não ficção foi para a publicação da correspondência Óscar Lopes – António José Saraiva. Fiz tudo para lhe fazer propaganda, no Abrupto, em artigos, na televisão. O livro já saiu em 2ª edição, corrigindo-se um defeito da primeira, a falta de um índice onomástico.

Agora tenho outro, que para um velho leitor temperado pelas estações, como se diria na loura Albion, já não é mau. Esse entusiasmo é a edição dos artigos publicados por Fernando Galhano, nos anos sessenta no Comércio do Porto, onde aliás fiz, in illo tempore , crítica literária, semana sim, semana não com Óscar Lopes, (estão a ver como o mundo é pequeno …). Chama-se Páginas de Cultura e Arte, é editado pela Caixotim, e vale a pena exigir à livraria mais perto que o mande vir, dado que a distribuição é errática. É tudo bom, os textos, os desenhos, o que lá está dentro. Uma nota mais detalhada vai ser publicada na Sábado.

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INTENDÊNCIA

Retomo a bibliografia dos ESTUDOS SOBRE O COMUNISMO.

Actualizada nota PRÍNCIPIOS BÁSICOS PARA SE PERCEBER PORTUGAL.

Não estão esquecidos OS CINQUENTA MOMENTOS ... e a identificação dos textos anónimos. É apenas falta de tempo.

E já agora uma precisão. Eu não disse ao Público: "sou muito crítico em relação ao blogues cujos autores não se identificam. Nenhuma coisa que lá se diz me merece credibilidade", mas sim, "Nos blogues políticos ou de opinião política, sou muito crítico em relação ao blogues cujos autores não se identificam. Nenhuma coisa que lá se diz me merece credibilidade.». E acrescentei: "nada tenho contra o anonimato nos blogues pessoais ou intimistas". A frase foi truncada e tornada absoluta, ou seja, falsa como expressão da minha opinião. Mas vale mesmo a pena estar a fazer estes esclarecimentos? Duvido, porque quem se mete por aí não faz outra coisa.

*
Aprecio a distinção que faz entre blogs políticos e blogs pessoais, em relação ao anonimato. Os blogs anónimos possibilitam um acto de imortalidade que me fascina: se o blogger dispuser de um sistema informático que lhe permita automatizar as actualizações da sua página (o que é relativamente fácil, para quem tenha alguns conhecimentos de informática), pode continuar a publicar regularmente os seus textos, largos anos depois de ter morrido (desde que assegure previamente o pagamento do serviço onde aloja a sua página), sem que ninguém o saiba.


(Paulo Almeida)

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COISAS SIMPLES / GRANDES CAPAS



*

Jornalista e escritor, Marques Gastão nasceu a 30 de Abril de 1914, em Lisboa e morreu a 29 de Novembro de 1995. Iniciou a sua vida profissional no «Diário de Lisboa» e no «Século», tendo colaborado em grande parte dos jornais portugueses e fundado, em 1943, o Gabinete de Imprensa do Aeroporto de Lisboa que funcionou sob a sua direcção até 1962 , e de onde viria a ser expulso. Chefiará, entretanto, a redacção da ex-Emissora Nacional. Em 1969, passa a dirigir os Serviços de Imprensa da Fundação Calouste Gulbenkian, onde desempenhará as funções de director-adjunto do Serviço da Presidência.

Tem vários livros de entrevistas publicados, entre os quais «As Portas do Mundo», «Figuras do Meu Tempo», «Os Homens do Mundo Falaram», «O México, Grande Nação», «Pedras do Sonho», «Diálogos com Escritores e Artistas Portugueses» e «Relações Culturais Luso-Brasileiras». Entrevistou personalidades como Sartre, Françoise Sagan, André Maurois, Alberto Moravia, Stephen Spender, Giovanni Papini, Graham Greene, Tennessee Williams, Aldous Huxley, José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Cecília Meireles, Diego Rivera e os Papas João XXIII e Paulo VI. São ainda muitas as suas colectâneas de reportagens, de «As Confissões que me Fizeram» à série «Carnet do Repórter». Da sua vasta obra como ficcionista, no domínio do romance, do conto e da novela, destacam-se «Três Vidas»; «Porta Maior», «O Dia Já Nasceu Noite» ; «Avalanche», «Ânfora de Pérolas», «Destroços», «Suykim», «A Voz de Eleonora e «Maria da Luz sem Olhos». Na área da investigação histórica, escreveu «São João de Deus, Sua Vida e Sua Obra», «Algumas Notas sobre Frei Domingos Luís Vieira» e «O Casamento da Infanta D. Leonor com o Imperador Frederico III da Alemanha» (inédito). Traduziu autores como Malaparte ou Moravia. Deixou, inédito, um diário.

(Ana Marques Gastão)

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EARLY MORNING BLOGS 488

The Secret Work


Nadezhda Mandelstam has told the story. In Strunino, after her husband's arrest, working the night shift in a textile factory, she runs, sleepless and distraught, among the machines, chanting his forbidden poems to herself to preserve them. And so for twenty-five years in Perm, in Moscow, in Voronezh, Leningrad, Ulyanovsk, Samatikha...

A man with chills hugs himself,
rejoicing in his fever. She,
the frozen century's daugher, rejoices
in her secret, hugs to herself
the prophet hiding in her breath,
the infant she keeps close, safe, swaddled,
speaking.
She covers over, makes him
smaller, safer, no bigger than
a seed, a spark—search where they will,
they will not find him here, yet here
he is, a little voice praying,
an enormous voice prophesying,
this live coal held on her tongue
burning behind clenched teeth.

To herself, in herself, over
and over, what must not
be said aloud, not written down,
not whispered in corners or left
to be smelled out clotting
at the ends of broken phrases
...the poems of Mandelstam
going out in Siberia's night.


(Irving Feldman)

*

Bom dia!

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9.5.05


AR PURO
(O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES)


Tirada da aldeia no sopé do glaciar Franz-Josef, Nova Zelândia.
Fotografia de João Amaral.

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SCRITTI VENETI



O poder em Veneza é cuidadosamente partilhado. O doge manda, mas num sistema de controlos complexos que permitem sempre aos patrícios-mercadores, os verdadeiros donos de Veneza, o controle último sobre tudo. Quando um doge, Martino Faliero (Marin Falier) que sucedeu a Andrea Dandolo no início da segunda metade do século XIV, quis romper com estes mecanismos e fazer uma “revolução popular”, a justiça do Conselho dos Dez caiu-lhe em cima.
O doge era já um septuagenário e mostrava-se particularmente irritado com as violências dos jovens aristocratas, que incluíam alguns insultos à sua mulher, e espancamentos a cidadãos comuns da Republica. Participa então numa conjura para acabar com o poder da aristocracia e construir uma aliança entre ele, que seria Príncipe, e o “povo”, em particular os trabalhadores do Arsenal que constituíam um corpo paramilitar temível.
Porém Veneza é Veneza e todos falam demais, e todos denunciam todos e em breve o Conselho dos Dez toma conhecimento da conjura e aborta-a. Denunciado o doge, foi julgado e condenado à morte em 17 de Abril de 1355. Numa cena simbólica o seu corno , o chapéu ducal em formato de um solitário corno, foi-lhe tirado da cabeça, e decapitado na escadaria dos Gigantes. A execução foi anunciada da loggia do Palácio e a cabeça seguiu para exposição pública. O dia passou a ser feriado.
Nunca mais nenhum doge “traiu” a Sereníssima. O Conselho dos Dez, como Estaline, preparou-se para manipular a memória, tirando o seu Trotsky da fotografia. Mas os venezianos eram uns meninos de coro comparados com o mestre georgiano. O local do seu retrato na sala do Grande Conselho foi inicialmente coberto com um pano escuro. Mais tarde, quando do incêndio do palácio destruiu a sala, Tintoretto e os seus discípulos tornaram a pintar os retratos. Não apagaram de todo a memória do doge traidor. Lá está até hoje o pano negro, agora pintado, dizendo: “HIC EST LOCUS MARINI FALETRI DECAPITATI PRO CRIMINIBUS” (“este é o lugar de Marini Faletri decapitado pelos seus crimes”).

(Do texto "Olhares sobre Veneza")

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COISAS COMPLICADAS


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EARLY MORNING BLOGS 487

In a Country

My love and I are inventing a country, which we
can already see taking shape, as if wheels were
passing through yellow mud. But there is a prob-
lem: if we put a river in the country, it will thaw
and begin flooding. If we put the river on the bor-
der, there will be trouble. If we forget about the
river, there will be no way out. There is already a
sky over that country, waiting for clouds or smoke.
Birds have flown into it, too. Each evening more
trees fill with their eyes, and what they see we can
never erase.

One day it was snowing heavily, and again we were
lying in bed, watching our country: we could
make out the wide river for the first time, blue and
moving. We seemed to be getting closer; we saw
our wheel tracks leading into it and curving out
of sight behind us. It looked like the land we had
left, some smoke in the distance, but I wasn't sure.
There were birds calling. The creaking of our
wheels. And as we entered that country, it felt as if
someone was touching our bare shoulders, lightly,
for the last time.


(Larry Levis)

*

Bom dia!

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8.5.05


AFINAL HÁ LENDAS URBANAS QUE SÃO VERDADEIRAS 4


LITERATURA POPULAR




LITERATURA DE GUERRA



OUTRA LITERATURA




LIVROS ÚTEIS


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COISAS COMPLICADAS

(Agradecendo ao Almocreve das Petas)



Manobras necessárias a um automóvel para fazer uma curva mais estreita, do L'Art de Bien Conduire Une Automobile.

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© José Pacheco Pereira
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