ABRUPTO

9.5.05


SCRITTI VENETI



O poder em Veneza é cuidadosamente partilhado. O doge manda, mas num sistema de controlos complexos que permitem sempre aos patrícios-mercadores, os verdadeiros donos de Veneza, o controle último sobre tudo. Quando um doge, Martino Faliero (Marin Falier) que sucedeu a Andrea Dandolo no início da segunda metade do século XIV, quis romper com estes mecanismos e fazer uma “revolução popular”, a justiça do Conselho dos Dez caiu-lhe em cima.
O doge era já um septuagenário e mostrava-se particularmente irritado com as violências dos jovens aristocratas, que incluíam alguns insultos à sua mulher, e espancamentos a cidadãos comuns da Republica. Participa então numa conjura para acabar com o poder da aristocracia e construir uma aliança entre ele, que seria Príncipe, e o “povo”, em particular os trabalhadores do Arsenal que constituíam um corpo paramilitar temível.
Porém Veneza é Veneza e todos falam demais, e todos denunciam todos e em breve o Conselho dos Dez toma conhecimento da conjura e aborta-a. Denunciado o doge, foi julgado e condenado à morte em 17 de Abril de 1355. Numa cena simbólica o seu corno , o chapéu ducal em formato de um solitário corno, foi-lhe tirado da cabeça, e decapitado na escadaria dos Gigantes. A execução foi anunciada da loggia do Palácio e a cabeça seguiu para exposição pública. O dia passou a ser feriado.
Nunca mais nenhum doge “traiu” a Sereníssima. O Conselho dos Dez, como Estaline, preparou-se para manipular a memória, tirando o seu Trotsky da fotografia. Mas os venezianos eram uns meninos de coro comparados com o mestre georgiano. O local do seu retrato na sala do Grande Conselho foi inicialmente coberto com um pano escuro. Mais tarde, quando do incêndio do palácio destruiu a sala, Tintoretto e os seus discípulos tornaram a pintar os retratos. Não apagaram de todo a memória do doge traidor. Lá está até hoje o pano negro, agora pintado, dizendo: “HIC EST LOCUS MARINI FALETRI DECAPITATI PRO CRIMINIBUS” (“este é o lugar de Marini Faletri decapitado pelos seus crimes”).

(Do texto "Olhares sobre Veneza")

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© José Pacheco Pereira
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