ABRUPTO

12.5.05


MEMÓRIAS DE BIBLIOTECAS
(O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES)

A biblioteca municipal de Sintra, antes de mudar para o actual Palacete Mantero, na Estefânia, estava instalada no Palácio Valenças, na descida de S.Pedro, a entrar na Vila, um pouco antes do actual Museu do Brinquedo. Antes da direcção iluminista do (Prof.) Vítor Serrão, que esquartejou os elegantes salões do rés-do-chão para poder prestar um serviço em condições à população escolar do Secundário que ia aumentando inexoravelmente a partir final dos anos 70, a Biblioteca era mais uma biblioteca de casa particular abastada ou de clube inglês, de atmosfera tranquila, e pequeno terraço com mobília de palhinha, que os serviços municipalizados de apoio à leitura em que se tornou.

As funcionárias, com a elegância e o porte de secretárias dum 5º piso do MI5, acharam-me simpático, ou talvez as tivesse impressionado favoravelmente a minha precoce sofreguidão por novos livros, sempre novos livros. A verdade é que deixaram de me acompanhar à Sala Principal, onde estavam os armários de rede de galinheiro com um enorme espólio. Davam-me a chave e eu deambulava, abrindo e fechando o acesso às estantes, até perfazer o meu resgate. Havia uma política de só deixar sair para leitura um máximo de três livros, e apenas por uma semana. No final do Verão, quando as visitas à Biblioteca se tinham tornado tri-semanais e as funcionárias se convenceram que eu lia mesmo o que levava e que trazia os livros sem falta, aceitaram uma excepção. Levei para casa, no início de Outubro do ano de 1970 dos meus catorze anos, a “A La Recherche du Temps Perdu”, em 15 volumes cartonados. Só os devolvi, em bloco, passados meses.

Estou seguro que o Tio Marcel teria gostado de se sentar numa cadeira de palhinha, no terraço de canto, do primeiro andar do Palácio Valenças, a ler uma edição amarelecida e perfumada de mofo pelos nevoeiros da Serra.

(J.T.P.)

(url)

© José Pacheco Pereira
Site Meter [Powered by Blogger]