| ABRUPTO |
semper idem Ano XIII ...M'ESPANTO ÀS VEZES , OUTRAS M'AVERGONHO ... (Sá de Miranda) _________________ correio para jppereira@gmail.com _________________
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29.4.05
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EARLY MORNING BLOGS 479
En un lugar de la Mancha, de cuyo nombre no quiero acordarme, no ha mucho tiempo que vivía un hidalgo de los de lanza en astillero, adarga antigua, rocín flaco y galgo corredor. Una olla de algo más vaca que carnero, salpicón las más noches, duelos y quebrantos los sábados, lentejas los viernes, algún palomino de añadidura los domingos, consumían las tres partes de su hacienda. El resto della concluían sayo de velarte, calzas de velludo para las fiestas con sus pantuflos de lo mismo, los días de entre semana se honraba con su vellori de lo más fino. Tenía en su casa una ama que pasaba de los cuarenta, y una sobrina que no llegaba a los veinte, y un mozo de campo y plaza, que así ensillaba el rocín como tomaba la podadera. Frisaba la edad de nuestro hidalgo con los cincuenta años, era de complexión recia, seco de carnes, enjuto de rostro; gran madrugador y amigo de la caza. Quieren decir que tenía el sobrenombre de Quijada o Quesada (que en esto hay alguna diferencia en los autores que deste caso escriben), aunque por conjeturas verosímiles se deja entender que se llama Quijana; pero esto importa poco a nuestro cuento; basta que en la narración dél no se salga un punto de la verdad. Es, pues, de saber, que este sobredicho hidalgo, los ratos que estaba ocioso (que eran los más del año) se daba a leer libros de caballerías con tanta afición y gusto, que olvidó casi de todo punto el ejercicio de la caza, y aun la administración de su hacienda; y llegó a tanto su curiosidad y desatino en esto, que vendió muchas hanegas de tierra de sembradura, para comprar libros de caballerías en que leer; y así llevó a su casa todos cuantos pudo haber dellos; y de todos ningunos le parecían tan bien como los que compuso el famoso Feliciano de Silva: porque la claridad de su prosa, y aquellas intrincadas razones suyas, le parecían de perlas; y más cuando llegaba a leer aquellos requiebros y cartas de desafío, donde en muchas partes hallaba escrito: la razón de la sinrazón que a mi razón se hace, de tal manera mi razón enflaquece, que con razón me quejo de la vuestra fermosura, y también cuando leía: los altos cielos que de vuestra divinidad divinamente con las estrellas se fortifican, y os hacen merecedora del merecimiento que merece la vuestra grandeza. Con estas y semejantes razones perdía el pobre caballero el juicio, y desvelábase por entenderlas, y desentrañarles el sentido, que no se lo sacara, ni las entendiera el mismo Aristóteles, si resucitara para sólo ello. No estaba muy bien con las heridas que don Belianis daba y recibía, porque se imaginaba que por grandes maestros que le hubiesen curado, no dejaría de tener el rostro y todo el cuerpo lleno de cicatrices y señales; pero con todo alababa en su autor aquel acabar su libro con la promesa de aquella inacabable aventura, y muchas veces le vino deseo de tomar la pluma, y darle fin al pie de la letra como allí se promete; y sin duda alguna lo hiciera, y aun saliera con ello, si otros mayores y continuos pensamientos no se lo estorbaran. Tuvo muchas veces competencia con el cura de su lugar (que era hombre docto graduado en Sigüenza), sobre cuál había sido mejor caballero, Palmerín de Inglaterra o Amadís de Gaula; mas maese Nicolás, barbero del mismo pueblo, decía que ninguno llegaba al caballero del Febo, y que si alguno se le podía comparar, era don Galaor, hermano de Amadís de Gaula, porque tenía muy acomodada condición para todo; que no era caballero melindroso, ni tan llorón como su hermano, y que en lo de la valentía no le iba en zaga. En resolución, él se enfrascó tanto en su lectura, que se le pasaban las noches leyendo de claro en claro, y los días de turbio en turbio, y así, del poco dormir y del mucho leer, se le secó el cerebro, de manera que vino a perder el juicio. Llenósele la fantasía de todo aquello que leía en los libros, así de encantamientos, como de pendencias, batallas, desafíos, heridas, requiebros, amores, tormentas y disparates imposibles, y asentósele de tal modo en la imaginación que era verdad toda aquella máquina de aquellas soñadas invenciones que leía, que para él no había otra historia más cierta en el mundo. (Miguel de Cervantes, Don Quijote, como o sublinhei, há já muito tempo.) * Bom dia! (url) 28.4.05
O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: O DEBATE FRANCÊS DA CONSTITUIÇÃO EUROPEIA
Em qualquer debate existe ou deveria existir uma lógica de preparação prévia para o confronto argumentativo. Deste ponto de vista, o debate sobre o Tratado Constitucional que se pensa estar a existir em França não o é. No máximo, é um pseudo debate em que, por definição, quem tem o papel de argumentar em sentido negativo está sempre mais à vontade. Os elementos desta situação podem ser a alimentação do medo no receptor, a introdução de elementos de confusão independentemente da sua ligação ou pertinência com o assunto do debate, a excessiva simplificação da lógica argumentativa com o objectivo expresso de vedar a quem ouve a totalidade ou quase totalidade dos elementos de ponderação e, por vezes, a proclamação de inverdades que, ao não serem desmentidas com clareza, se tornam argumentos voando no ar das sérias conversas de rua ou mesmo das seríssimas tertúlias em casa. Para fins de consolidação pode ser acrescentado um etc. a esta enumeração. É verdade que, em teoria, todos os elementos utilizados por uma argumentação também podem ser utilizados pela outra. Mas só em teoria, porque a lógica diz-nos que é muito mais simples destruir do que construir. Note-se que no caso específico deste texto os termos destruir e construir são neutros. Nem são positivos nem negativos, são, no máximo, operacionais. Tudo parece depender do contexto e da mensagem que cada atitude argumentativa pretende fazer valer. E neste sentido, em França, a situação parece bem particular porque tal como penso ser o caso de outros países, existe um profundo e generalizado desconhecimento do tema em discussão. O exemplo caricato de um argumento agitado ontem num debate televisivo por um dos defensores mais mediáticos do Não – Philippe de Villiers - foi o de dizer que com o Tratado Constitucional o direito comunitário derivado passa a ter a primazia jurídica sobre o direito interno (como se se pudesse subentender que ainda não o tem então !!). O problema disto é que, apesar das tentativas de desmentir esta alegação, os oponentes no debate, defensores do Sim, não o conseguiram fazer de forma eficaz. De facto, os defensores do Sim encontram-se na posição de ter de ensinar o Tratado Constitucional aos franceses e ao mesmo tempo debater das suas virtudes ou defeitos. Por isso é que se torna fácil admitir a dificuldade do debate sobre o Tratado Constitucional em França. Logicamente, esta conclusão só verifica elementos endógenos ao próprio debate. Se a isto acrescentássemos o contexto político em França a análise deveria ser muito mais complexa. Estarão os defensores do Sim desculpados? Um grande NÃO é a resposta. Mais do que carregar os defensores do Não com alguma falta de honestidade intelectual, é necessário salientar a impreparação dos defensores do Sim. Os defensores do Não citam, bem ou mal, com pertinência ou não, uma quantidade notável de artigos de Constituição europeia. Os defensores do Sim nem a Constituição parecem trazer para os debates. Pelo menos não se dão ao trabalho de rebater de forma clara as interpretações feitas pelos defensores do Não. Escondem-se atrás do biombo da arrogância intelectual que consiste em dizer que a interpretação em causa é uma idiotice. Em consequência nem deve ser tida em conta. O problema é que para quem ouve, a mensagem que ficou foi a de um argumento sem resposta com situação agravante do tipo de atitude de quem não quis responder. Mas ainda mais importante ainda, os defensores «oficiais» do Não deixam transparecer uma visão errada das preocupações, legítimas aliás, que levanta o Tratado Constitucional para os franceses. No mesmo debate em que participava Villiers, Max Gallo e Jean-François Copé estava o Presidente do Parlamento Europeu Josep Borrell. Borrell por mais do que uma vez deixou transparecer a estupefacção com o tipo de desenvolvimentos do debate. Deve ser dito que este exemplo não é único. Basta acompanhar o processo mediático do referendo em França para que uma lista possa ser elaborada. Num país como este, uma tal deriva, é uma tristeza politica e social mas é sobretudo uma tristeza intelectual. Seja como for, sejamos a favor ou contra o Tratado Constitucional, a verdade é que para bem dos debates parece necessária alguma preparação. Sobretudo se se trata de um processo cuja realização implica uma mediatização. Desde Weber que sabemos ser relativamente simples de fazer frutificar o modernamente chamado populismo. O problema é que no final de todas as contas quem acaba por perder são os créditos de confiança das classes políticas e também das elites em relação à sustentação popular que pretendem conservar. A longo prazo o povo acaba por contradizer Weber. (Sérgio Ribeiro, Lyon) (url)
O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: TEORIA DOS ORGASMOS A PARTIR DO GRANDE HOTEL
Do Abrupto, a proposito dos números antigos da revista pinga-amor «Grande Hotel», que o JPP comprou num alfarrabista: «(...) O Vasco Graça Moura encontrou uma ontem: "no canto inferior esquerdo do fragmento do Grande Hotel que reproduz, lê-se: "breves, amenas conversas, mas que deixam na alma de Lucrécia uma trépida doçura". Uma "trépida doçura" será uma doçura a aquecer com um ruído de motor a gasóleo?". Sim, se descontar o ruído. Apesar das fórmulas muitas vezes ingénuas, autores como esse da «Grande Hotel» ainda usavam a língua portuguesa com alguma sabedoria e correcção. Em minha opinião, o que o autor (ou, mais provavelmente, autora) tinha em mente é que a Lucrécia estava de tal modo apaixonada que tinha orgasmos só com a conversa. Bons tempos, esses da «Grande Hotel». Informam-me várias senhoras que a coisa feminina é mais complicada que a masculina: ao que parece, existem os «orgasmos grandes» isolados, por vezes capazes de dar cabo da mobília e dos ouvidos dos vizinhos, que são os tais que se vêem com mais frequência nos filmes de Hollywood que no dia a dia, e existem os «orgasmos pequenos», que vêm em sucessao sem sismos de grau superior a 9, e as mais das vezes ficam por ai'. De modo que a trépida doçura que permeava a alma da Lucrécia devia ser um pouco como aqueles riachos do Camilo que corriam a tremer: «As trépidas fontinhas, espelhando na limpidez dos seus meandros a inquieta alvéola que as roçava com as asas...» (Mulher Fatal, cap.2). É claro que, se em vez de ter sido a «Grande Hotel» a descrever pequenitas burguesices, tivesse sido a Santa Teresa de Ávila a descrever extâses místicos, a compreensão teria sido imediata. Grande vida, a dos poetas... (Fr. Inácio) (url)
IDENTIFICAR TEXTOS ANÓNIMOS
Alguém conhece qualquer programa que sirva para identificar, ou definir com uma certa probabilidade, a autoria de um texto anónimo? Não se assustem (ou assustem-se a sério) os autores anónimos, que coisas deste tipo já existem certamente nas polícias e nos serviços de informação, mas não a público. Um programa que permita realizar uma base de dados de textos assinados, e a partir daí encontrar semelhanças vocabulares, lexicais, estilísticas e outras com textos não assinados, de modo a indicar com probabilidade o seu autor. Tenho uma ideia como isso se pode fazer e parece-me bem simples para quem tenha um mínimo de experiência de programação, mas admito que algo já possa existir poupando-me o trabalho. Eu explico a necessidade: trabalhando nos meus estudos com textos quase exclusivamente anónimos – artigos da imprensa clandestina, relatórios, etc. – ser-me-ia útil poder precisar ou ter uma indicação de probabilidade de autoria. Como muitos dos autores desses textos – Bento Gonçalves e Cunhal por exemplo – são autores de muitos textos publicados com o seu nome, seria interessante poder identificar textos anónimos. Um exemplo: saber se foi Cunhal que escreveu no Avante! dos anos trinta um artigo sobre o aborto na URSS ou resolver a controvérsia sobre o relatório atribuído a Bento Gonçalves ( ou feito por “Pável”?) apresentado em 1935 à Internacional. * O professor Eric Johnson, da Universidade Estatal do Dakota, é autor de um texto sobre identificação de autores anónimos, "Comparing Texts and Identifying Authors" e também escreveu um software, chamado Ident, precisamente para esse fim, mas creio que não está disponível online. (url)
COISAS COMPLICADAS
![]() N. Poussin, O Tempo revelando a Verdade perante a Inveja e a Discórdia (url) (url)
EARLY MORNING BLOGS 478
Prevención para la vida y para la muerte Si no temo perder lo que poseo, ni deseo tener lo que no gozo, poco de la Fortuna en mí el destrozo valdrá, cuando me elija actor o reo. Ya su familia reformó el deseo; no palidez al susto, o risa al gozo le debe de mi edad el postrer trozo, ni anhelar a la Parca su rodeo. Sólo ya el no querer es lo que quiero; prendas de la alma son las prendas mías; cobre el puesto la muerte, y el dinero. A las promesas miro como a espías; morir al paso de la edad espero: pues me trujeron, llévenme los días. (Quevedo) * Bom dia! (url) 27.4.05
BIBLIOFILIA: PORTUGAL NA ELITE DO TURISMO
![]() Encontrei este magnífico Le Portugal de Doré Ogrizek, editado na colecção "Le Monde en Couleurs - Les Livres de l'Elite Touristique", das Edições Odé de Paris em 1950, sob os auspícios e os financiamentos do Secretariado da Informação Nacional, o SNI de Ferro e Salazar. O livro está ilustrado por alguns dos melhores ilustradores portugueses, incluindo Botelho e Paulo Ferreira, como se pode ver pelo desenho que reproduzo. Estava numa feira de rua numa cidade da Provença, entre sabões de Marselha, queijos, panos e essência de lavanda.
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INTENDÊNCIA MAIOR
Sobre SERVIÇO PÚBLICO acrescentar o nome da realizadora do excelente filme sobre Eduardo Lourenço, Anabela Saint-Maurice, "que lutou dentro da RTP contra tudo e contra todos para que o documentário se fizesse" (MJD). Ainda bem. Sobre a BIBLIOFILIA: A LETRA DE UM ESPIÃO, agradecer a identificação do almirante português a quem Remy tinha oferecido o seu livro, feita por dois homens com ligação próxima à nossa marinha, Henrique Jorge e Luís Rodrigues. Cito Luís Rodrigues: "O Almirante a quem o livro é dedicado só pode ser um, o único Almirante Nuno Frederico de Brion, guarda-marinha em 1917, comandante do 1º submarino “Espadarte”, como 2º tenente de 1922 a 1923, 1º tenente da escola de submarinos em vésperas do 28 de Maio, acaba a carreira como contra-almirante em 1953.A ambos , obrigado. Anunciar que OS CINQUENTA MOMENTOS POLÍTICOS MAIS IMPORTANTES DEPOIS DO 25 DE ABRIL não estão esquecidos e que a última versão será muito em breve publicada. (url)
EARLY MORNING BLOGS 477
Of Hartford in a Purple Light A long time you have been making the trip From Havre to Hartford, Master Soleil, Bringing the lights of Norway and all that. A long time the ocean has come with you, Shaking the water off, like a poodle, That splatters incessant thousands of drops, Each drop a petty tricolor. For this, The aunts in Pasadena, remembering, Abhor the plaster of the western horses, Souvenirs of museums. But, Master, there are Lights masculine and lights feminine. What is this purple, this parasol, This stage-light of the Opera? It is like a region full of intonings. It is Hartford seen in a purple light. A moment ago, light masculine, Working, with big hands, on the town, Arranged its heroic attitudes. But now as in an amour of women Purple sets purple round. Look, Master, See the river, the railroad, the cathedral... When male light fell on the naked back Of the town, the river, the railroad were clear. Now, every muscle slops away. Hi! Whisk it, poodle, flick the spray Of the ocean, ever-fresherning, On the irised hunks, the stone bouquet. (Wallace Stevens) * Bom dia! (url) 26.4.05
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EARLY MORNING BLOGS (476) PROVENÇAIS
Les Amours de Psyché - Éloge de l'Oranger Sommes-nous, dit-il, en Provence ? Quel amas d'arbres toujours verts Triomphe ici de l'inclémence Des aquilons et des hivers ? Jasmins dont un air doux s'exhale, Fleurs que les vents n'ont pu ternir, Aminte en blancheur vous égale, Et vous m'en faites souvenir. Orangers, arbres que j'adore, Que vos parfums me semblent doux ! Est-il dans l'empire de Flore Rien d'agréable comme vous ? Vos fruits aux écorces solides Sont un véritable trésor ; Et le jardin des Hespérides N'avait point d'autres pommes d'or. Lorsque votre automne s'avance, On voit encor votre printemps ; L'espoir avec la jouissance Logent chez vous en même temps. Vos fleurs ont embaumé tout l'air que je respire : Toujours un aimable zéphyre Autour de vous se va jouant. Vous êtes nains ; mais tel arbre géant, Qui déclare au soleil la guerre, Ne vous vaut pas, Bien qu'il couvre un arpent de terre Avec ses bras. (La Fontaine) * Bom dia! (url) 25.4.05
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NOTAS PROVENÇAIS: A FRANÇA E O NOVO PAPA
A França tem um problema com o novo papa. Medido pelo grande critério francês, a francofilia, Ratzinger é muito mais “amigo” da França que Woytila. Pela sua formação e na sua vida, Ratzinger manteve ligações próximas com o pensamento católico francês, enquanto que o papa polaco era mais próximo dos alemães. Por outro lado, medido pelo critério dominante dos media, o “conservadorismo” do papa é pouco francês… (url)
SERVIÇO PÚBLICO
O excelente documentário que a RTP1 está a passar sobre e com Eduardo Lourenço. (url)
NOTAS PROVENÇAIS: MEDIAS, UMA REVISTA FRANCESA SOBRE OS MEDIA
Não conhecia a revista, mas já tem mais de um ano. Comprei-a um pouco a medo porque o que se escreve em França é, de um modo geral, pouco interessante sobre a comunicação social. Um país que tem Ramonet como o grande teórico na área, reflecte pouco sobre os media. A revista confirma a suspeita, a começar por um grafismo ultrapassado e, embora seja injusto generalizar só com um número, a impressão fica. Os índices dos outros números não destoam. Excepções no número quatro: uma boa ideia, fazer entrevistas a pessoas com “má imprensa”, neste caso fundamentalistas muçulmanos; e uma boa entrevista com Raphael Sorin sobre o estado actual da crítica literária e a confusão entre o métier da crítica e os programas sobre livros de Bernard Pivot. (url)
EARLY MORNING BLOGS (475) PROVENÇAIS
C'était sur un chemin crayeux C'était sur un chemin crayeux Trois châtes de Provence Qui s'en allaient d'un pas qui danse Le soleil dans les yeux. Une enseigne, au bord de la route, - Azur et jaune d'oeuf, - Annonçait : Vin de Châteauneuf, Tonnelles, Casse-croûte. Et, tandis que les suit trois fois Leur ombre violette, Noir pastou, sous la gloriette, Toi, tu t'en fous : tu bois... C'était trois châtes de Provence, Des oliviers poudreux, Et le mistral brûlant aux yeux Dans un azur immense. (Paul-Jean Toulet) * Bom dia! (url)
NOTAS PROVENÇAIS: BIBLIOFILIA
![]() Jean-Jérôme Crosnier Mangeat, Sainte-Victoire, voyage en pays de lumières, Aix-en-Provence, Nature d'Images, 2004. Para além das fotografias da montanha de Cézanne, um prefácio de Jacqueline de Romilly, que acabou de publicar um novo livro sobre L'élan démocratique dans l'Athènes ancienne. Soprava forte o Mistral quando a vi, de novo, sempre diferente, com as mil cores em que está sempre a mudar. (url) 24.4.05
NOTAS PROVENÇAIS: SCHELLING, STEINER E RATZINGER
1. O livro tem um título convidativo Dix Raisons (Possibles) à la Tristesse de Pensée e o texto bilingue ajudava à recusa que tenho de ler traduções quando posso ler o original. Nas páginas pares inglês, nas ímpares, francês. Depois comecei a lê-lo, do lado inglês e muitas vezes entrava sem me aperceber na página seguinte em francês, tradução da anterior, sem dar por ela que estava a ler a mesma página. Uma, duas, três vezes. Atribui esse deslize ao cansaço, às circunstâncias, ao sono, à ligeireza das leituras de viagem. Depois desconfiei que o mal vinha do texto. Só me apercebia quando se repetia o mesmo exemplo e a mesma citação. Era um livro de Steiner, o mestre, mas parecia mais uma redacção do que um ensaio.2. A citação que dá o mote ao livro é daquelas que nos atiram com força para o texto, com a força de uma frase que já diz muito e ajuda a dizer mais. Para o amador destas “ideias” empurrava de imediato para o texto e para a leitura compulsiva. Era um frase de Schelling citada duplamente no original alemão e traduzida em francês: “Tal é a tristeza inseparável de toda a vida finita (…) uma tristeza (…) que nunca se torna efectiva e serve para dar a alegria eterna de a ultrapassar. De lá vem o véu de aflição que se estende sobre toda a natureza, a melancolia profunda e inalterável de toda a vida” ( A frase completa de Schelling, sem os cortes, é esta : "Dieß ist die allem endlichen Leben anklebende Traurigkeit, und wenn auch in Gott eine wenigstens beziehungsweise unabhängige Bedingung ist, so ist in ihm selber ein Quell der Traurigkeit ... Daher der Schleier der Schwermuth, der über die ganze Natur ausgebreitet ist, die tiefe unzerstörliche Melancholie alles Lebens." *) 3. Steiner arranca bem, usando no meio do texto inglês daquela perfeição “teórica” do alemão, que na filosofia é a única que rivaliza com o grego e o latim clássico na capacidade conceptual e neste caso, quase afectiva (devia haver e há certamente uma palavra alemã melhor para este “quase afectiva”…). Steiner quer dar as razões “possíveis” para esta “Traurigkeit”, para esta “tristitia” e depois perde-se num texto superficial, muito menos “pensado” do que centenas de páginas da filosofia ocidental e milhares de páginas de literatura. 4. O pensamento é “triste” porque é raro, é incompleto, é raras vezes consequente, não atinge a verdade, é pouco “útil”, não funda uma moral? E depois? O pensamento é tudo isso, mas basta uma linha para o sabermos. Mas é “triste” por isso? É “triste” porque não atinge a verdade? Se nos ficarmos pela psicologia comum chega, mas então a fé dos que a têm, a crença dos que acreditam? Essa não é “triste” pela sua natureza. Pode-se sempre dizer que não é pensamento, mas na definição que usa Steiner, ou melhor, na descrição que usa Steiner, a do pensamento como fluxo contínuo e imparável de uma conversa connosco próprios (e uma das melhores partes deste texto é esta descrição empírica da impossibilidade do silêncio interior), a fé dos que a têm, é “pensar”. 5. Lendo Steiner no meio dos debates papais, sabendo que a questão de Schelling vem de D’Alembert, do “malheur de l’Existence”, Ratzinger meteu-se no meio. Na verdade, quando D’Alembert e Schelling falam da “Melancholie alles Lebens”, falam da crise da personalidade no mundo em que o saber se defronta com a sua solidão terrena, num mundo em que Deus não está presente a não ser, no limite, como uma dúvida, como uma possibilidade. Ratzinger deu o outro lado da mesma questão, quando escreveu sobre Sakharov (cito em francês do Le Monde) e criticou a “liberdade” nascida do iluminismo, a mesma que gera a “melancolia”: "La liberté ne garde sa dignité que si elle reste reliée à son fondement et à sa mission éthiques. Elle a besoin d'un contenu communautaire que nous pourrions définir comme la garantie des droits de l'homme. Pour l'exprimer autrement, le concept de liberté requiert d'être complété par deux autres concepts : le droit et le bien (...). 6. Eu não digo que esta resposta de Ratzinger elimine o problema ou seja a resposta ao problema, mas sim que é parte do problema e Steiner ilude-a para simplificar o texto. Ora a descrença e a crença estão no cerne da “tristeza” como aliás não era preciso ir mais longe do que a própria frase de Schelling já dizia: “a tristeza inseparável da vida finita”. Está lá o “finito” e talvez a resposta mais simples seja que a “tristeza” do pensamento venha da finitude da vida para quem não crê. Ou seja, da recusa do pensamento em extinguir-se, em morrer, em parar de pensar. 7. Mesmo nos próprios termos “descrentes” de Steiner (que são também os meus, ou seja, são também os mesmos em que eu os coloco nesse diálogo interior do pensar), a “tristeza” não é inevitável. A verdade é impossível, mas não é impossível procurar a verdade. Nada sabemos, o nómeno foge-nos no véu do fenómeno mesmo quando pensamos que sabemos, e depois? O jogo do saber não pode ser “feliz”, não pode acomodar-nos, mesmo no erro, dando-nos uma felicidade psicológica na descoberta? Kuhn fez todo um livro a mostrar como o sistema ptolomaico resistiu como “ciência” porque entre outras coisas explorava o logro psicológico de que, por via da ciência, dominamos o mundo. Sabemos que o Sol não anda à volta da terra, mas também sabemos que a terra não anda à volta do Sol exactamente da forma que Galileu ou Newton pensavam. Hoje achamos que a terra anda à volta do Sol como Einstein pensava. Amanhã será diferente. Mas isto faz-nos “infelizes” porque nos mostra o carácter inatingível da verdade, a começar por aquela que pensamos ter instrumentos para compreender? Duvido. 8. Existe um carácter vital no pensar, Steiner dixit. Mas desde quando o pensamento produz tristeza a não ser neste mundo dominado pela “vivência” romântica da incompletude psicológica? Nos termos de Steiner grande parte do pensamento antigo, greco-romano por exemplo, não é explicável porque não tem esta “tristeza”, no fundo tão moderna e recente, no seu âmago. A partir de S. Agostinho, eu percebo estes termos, mas eles não são os de Platão e Aristóteles. Platão podia pensar que estavamos condenados ao erro, mas não à "tristeza". Estas são algumas notas que explicam porque me parece muito débil este último texto de Steiner. Não avança com questões ao problema que coloca, o que seria de menos se avançasse com o problema. Nem uma coisa, nem outra. * Tradução sugerida por Vasco Graça Moura do conjunto da frase: "Esta é a tristeza ligada a toda a vida finita, e ainda que em Deus esteja uma condição independente pelo menos a tal respeito, também está nele mesmo uma fonte da tristeza... Daí o véu de melancolia que se estende sobre toda a Natureza, a funda melancolia indestrutível de toda a vida." (url)
NOTAS PROVENÇAIS: O ATELIER DE CÉZANNE
Há muito tempo que não voltava a este lugar, um dos meus sítios íntimos. Lá está tudo quase na mesma: a mesma cadeira de lona a desfazer-se, a mesma caveira, as mesmas reproduções de Delacroix, as mesmas paletas, os mesmos objectos das mesmas naturezas mortas. A pintura da escada está diferente, o jardim está naturalmente diferente, mas tem o mesmo ar meio abandonado. Algumas coisas estão piores: por detrás das árvores e das sebes percebem-se as urbanizações modernas, mesmo ao lado. A língua dominante continua a ser o inglês com sotaque americano. Não admira, Cézanne foi e é muito estimado pelos americanos e a estes se deve a preservação do atelier. A história da salvação do edifício e do seu escasso conteúdo, é um exemplo fabuloso da incúria burocrática francesa e da dedicação de meia dúzia de americanos que, contra tudo e contra todos, compraram a casa e depois queriam dá-la aos franceses... que não a queriam receber. Mas se há simples sala que nos ajude a repousar ou a perturbar no génio de Cézanne é esta sala cinzenta, iluminada por todos os lados, desenhada pelo próprio pintor, com a Montanha de St. Victoire a ver-se ao fundo e a catedral de Aix. As laranjas e as maçãs secam e apodrecem, mirram e desaparecem no meio do bolor. Não sei com que critérios as mudam. Mas é o olhar de Cézanne que nos faz vê-las assim, como formas dentro de formas, para além da estrutura exterior, do brilho, da cor, o mesmo olhar que Bracque e Picasso levaram mais longe, mas a partir daqui. Desta sala. (url)
© José Pacheco Pereira
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