ABRUPTO

17.1.04


PÁGINA DE DONATIVOS DO WEBLOG

Este é o endereço da página de donativos voluntários do serviço Weblog.com.pt, resultado do trabalho dedicado de Paulo Querido, a que muita gente deve o facto de ter blogues alojados em Portugal gratuitamente. É o caso dos Estudos sobre o Comunismo. Existe uma página de donativos para minimizar os custos suportados, que creio dever ser apoiada sem reservas, porque sou da escola dos que pensam que “não há almoços grátis”; felizmente posso pagar os meus, e mais alguma coisa para que mesmo os que não os podem pagar, os recebam. Felizmente o Estado ainda não é dono da blogosfera portuguesa - lá chegará um dia, ou já chega com o Sapo - e por isso pretendo contribuir para uma das raras actividades culturais que não vive de subsídios.

Embora o Abrupto esteja alojado no Blogger, coloco este apelo aqui porque penso ser mais eficaz.

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O QUE É QUE SE LÊ NA MORTE?



Será que o paraíso é assim? Será que se vai poder ler?

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EARLY MORNING BLOGS 117

De há muito tempo que faltava Cavafy na manhã, arrastando um mundo que se vê sempre a acabar como se estivesse a começar, o mundo que se olha com os olhos do fim, mas que não sabemos se está apenas no principio. Quando esse olhar está nas terras certas, onde à frente está o mar, o mar onde tudo aconteceu, o mar dos deuses, o mar de Ulisses , o mar dos náufragos, o mar dos marinheiros, “hei de deter-me aqui”.

MAR DA MANHÃ

Hei de deter-me aqui. Também eu contemplarei um pouco a natureza.
Do mar da manhã e do céu inube
azuis brilhantes, e margem amarela; tudo
belo e grandiosamente iluminado.

Hei de deter-me aqui. E me enganar que os vejo
(em verdade os vi por um momento ao deter-me)
e não também aqui minhas fantasias,
minhas recordações, as imagens do prazer.


[51, 1915]

ΘΑΛΑΣΣΑ ΤΟΥ ΠΡΩΙΟΥ

Εδώ ας σταθώ. Κι ας δω κ’ εγώ την φύσι λίγο.
Θάλασσας του πρωιού κι ανέφελου ουρανού
λαμπρά μαβιά, και κίτρινη όχθη• όλα
ωραία και μεγάλα φωτισμένα.

Εδώ ας σταθώ. Κι ας γελασθώ πως βλέπω αυτά
(τα είδ’ αλήθεια μια στιγμή σαν πρωτοστάθηκα)•
κι όχι κ’ εδώ τες φαντασίες μου,
τες αναμνήσεις μου, τα ινδάλματα της ηδονής.


[51, 1915]

(Tradução de R. M. Sulis, M. P. V. Jolkesky, A. T. Nicolacópulos, em arquivo.cavafis)

Nota: sendo esta atmosfera o que é, muita gente se vai irritar com o grego, muita gente se irrita com o que ignora. Mas há quem saiba grego (não é o caso do Abrupto que tem escassos conhecimentos escolares de grego) e, quando se pode dar mais informação em vez de menos, dá-se mais.

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16.1.04


PERGUNTA COMPLETAMENTE PROVOCATÓRIA



Qual será a situação do "não pagamos, não pagamos", com entoação?

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VER A NOITE

Brilha, com intensidade, a "estrela da tarde". Também lá chegaremos.

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LUA, MARTE, TUDO 3 (FEITO PELOS LEITORES DO ABRUPTO)

Constatei que de facto a missão da ISS perdeu muita da sua popularidade nos EUA após o acidente ocorrido com o Vaivém no passado Verão. Os custos desde esse acidente aumentaram brutalmente do lado americano, visto que e' o Vaivém o principal veiculo usado para chegar ate' 'a ISS. Para alem disso parece ter havido uma derrapagem geral das contas da missão.

Li o seu texto "Lua, Marte, Tudo" depois de ter assistido ontem na CNN ao debate sobre o discurso feito por George Bush. Parece-me haver um óbvio entusiasmo na NASA com este anúncio, basta ver o sítio da NASA, mas alguns dos cientistas entrevistados mostraram-se bastante cépticos e acharam algumas declarações confusas. E' difícil definir a fronteira entre a boa vontade de empreender um projecto destes e a campanha eleitoral para as próximas presidenciais americanas. Os intervenientes no debate mostraram de forma clara esta preocupação.

Como ja referi em email anterior a ESA tem um programa ja ha dois anos com o objectivo de levar uma missão tripulada a Marte, o programa Aurora. Nesta página pode ver o calendário previsto.

Chegada entre 2030 e 2033. O Canada já se associou 'a missão.
Por isso não faz muito sentido a sua classificação de "o habitual", em relação aos objectivos europeus.
A Europa/ESA/ESO neste momento esta envolvida em todas as "aventuras" mais importantes que se seguem nos próximos anos, a saber:

- O programa Aurora que culminara com uma missão tripulada a Marte.

- O projecto ALMA ao qual se vão juntar os EUA e o Japao.

- O próximo telescópio espacial para o visível, em conjunto com os EUA

Para alem disso neste momento a Europa através da ESA e do ESO tem dois projectos que são lideres: o VLT (ESO) que e' só o melhor "telescópio" jamais construído pelo homem, e o INTEGRAL que e' o melhor instrumento que temos no espaço para observar radiação de alta energia (raios X e raios gama). Estes não são projectos menores ou missões habituais. São grandes projectos, que representam em si grandes aventuras técnicas, menos mediáticas do que pisar um planeta, mas cientificamente bem mais relevantes.


(Rui Silva , Klepsydra)


Creio que ninguém contesta – pelo menos aqui – a ideia de se tentar ir a Marte. Eu não tenho perdido uma única das conferencias de imprensa da NASA, desde que o primeiro rover deu sinal de vida e a maioria dos meus amigos esta tão excitada como eu.

O que se discute e o facto desta administração andar a retirar dinheiro das universidades, ter metido um yuppie do CityBank a frente do Smithsonian, nao honrar a promessa do Bill Clinton de dar dinheiro a NOAA (a NASA do fundo do mar) e vir agora falar de Marte em ano de eleições. Ainda por cima ninguém percebe porque e que esta administração quer excluir a Europa do programa espacial (American supremacy in space foi a expressao do presidente).

Sobretudo quando o deficit já vai a caminho de meio trilião de dólares, a guerra e um atoleiro sem saída, e cada vez e mais claro que quem vai pagar a factura e a classe media.


(Filipe Castro , Texas, USA )

O cidadão comum não está em condições de poder formular juízos acerca do mérito científico, tecnológico ou mesmo civilizacional, do programa ora anunciado pelo Presidente do EUA.
Contudo, qualquer cidadão, nomeadamente se for potencial eleitor em Novembro próximo, o que nos está vedado a nós - portugueses -, pode e deve questionar-se sobre o significado desse anúncio e do momento escolhido.
Se o Chefe de Estado dos EUA não nos tivesse habituado, nas últimas décadas, a inúmeros anúncios sobre os mais diversos assuntos que dizem respeito à vida da sociedade estadunidense e por arrastamento a uma parte significativa da comunidade humana, eu ficaria surpreso: Afinal alguém assumia a responsabilidade de apontar um rumo a uma Humanidade carente de ideias catalisadoras que dessem um novo sentido à sua difícil Existência.
Mas, afinal, confesso, não passa de um logro:A actual comunidade humana vai, dia-a-dia, continuar a defrontar-se com os mesmos problemas de sempre, independentemente de estarem reunidas ou não as condições políticas, orçamentais,científicas e tecnológicas para iniciar tão utópico projecto.
Crédito teria se tal anúncio fosse antecipado de humilde manifestação de vontade de líderes incontestados da comunidade científica e tecnológica ao apresentar uma proposta fundamentada da real necessidade presente e/ou futura de tal aventura.

(João M. Farias da Silva)

Uma das mais fortes emoções da minha vida, tive-a ao ver partir uma das missões do Space Shuttle. Não é tanto o ambiente de grande festa popular e de alegria genuína que se instala à volta, em pequenas cidades «com vista» para o lançamento ou nas estradas próximas, com «six-packs», e música, e risos e conversas. Nem as chamas dos foguetes, que de repente fazem dia a meio da noite. Nem o som que chega uns segundos mais tarde, reverberando, fazendo tremer o chão. É sobretudo pensar-se que gente sonha uma coisa daquelas, e lhe dedica a vida, a a realiza, e que gente vai lá no nariz de toda aquela força e perigo terrível. É gente do melhor, seguramente, valentes, sonhadores, poetas, grandes corações e cabeças. Um anti-americanista primário (e secundário também) ficaria perplexo vários dias antes de voltar a acoitar-se na sua rotina e azedume.

(José Mendonça da Cruz)

Um programa de pesquisa espacial bem feito, do tipo a que duma forma geral nos habituaram os americanos da NASA e, que infelizmente a Agência Espacial Europeia não o conseguiu em plenitude, é um feito de que os humanos se podem e devem orgulhar, porque demonstra engenho. Além do mais os resultados científicos e tecnológicos adquiridos, aplicados ao nosso quotidiano são sempre uma mais valia.

Quem não se recorda das aplicações resultantes das tecnologias usadas nos projectos Gemini e Apolo e, ainda em fase de estudo do Space Shuttle, aplicadas às ciências que assistem o comum dos mortais? Os campos da meteorologia, da medicina, da cirurgia, das comunicações, da electrónica, ficaram enriquecidos por esses avanços tecnológicos. Em resumo, o programa espacial americano da NASA poderá certamente, mais uma vez, ter aspectos técnicos altamente positivos. É, portanto, de apoiar entusiasticamente este projecto, do ponto de vista científico e técnico.

Cumpre aos especialistas analisar esse programa, de forma a criticar o que nele está mal e contribuir para o melhorar.

Outra coisa é as considerações políticas acerca deste assunto.

Neste caso, as aplicações militares, a oportunidade e, outros considerandos, são temas para análise política. Quanto aos custos deste investimento, porque se trata realmente dum investimento, que naturalmente são elevados, não devem ser discutidos na base de se não seria melhor a sua aplicação noutros projectos.

Com efeito, o que se deveria discutir não são os custos deste programa, mas sim de outros, como por exemplo os de armamento, os custos de guerras preventivas, os de obras sumptuárias e quejandos. A qualidade de vida mede-se pelos resultados dos investimentos e uma racional utilização dos recursos e, por isso, um programa espacial é um meio para a melhorar.


(Rui Silva)

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LUA, MARTE, TUDO 2

Tenho recebido muita correspondência sobre esta nota. Não está esquecida, mas só amanhã poderei publicá-la. Obrigado pelo interesse.

Vejam entretanto, no endereço da NASA , as primeiras fotos do "espírito" livre.

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15.1.04


LUA, MARTE, TUDO

Muito do que se lê sobre o anúncio do programa espacial americano, para além do habitual anti-bushismo e das graçolas ignorantes, mostra uma enorme indiferença e insensibilidade ao tipo de desafio, ao tipo de aventura (esta é das poucas coisas que hoje merece esse nome), que é a exploração espacial. Pode-se contestar quase tudo no programa americano ( bom, poder pode, mas não deve, a coisa é feita por cientistas da matéria e, por muito estúpidos que se ache serem os políticos americanos, não foram eles que escreveram o papel), mas sem ele pouca coisa haverá no próximo meio século para além do habitual. O habitual é necessário, e aí os europeus têm um papel, mas sem o excepcional não se avança.

Talvez a mais revolucionária proposta do programa seja o abandono do Space Shuttle e a construção de raiz de um novo veículo espacial.

*

"Estou de acordo que o programa espacial americano só deve ser criticado por pessoas com competência técnica para o fazerem, mas isto só se refere a críticas ao programa em si. Em contrapartida, se se levantar o problema de se querer saber se aquele dinheiro não seria melhor empregue noutra coisa, aí já estamos a discutir política e não ciência. E aí, numa sociedade democrática, todos podem expressar as suas opiniões. Quero acrescentar que, pessoalmente, tenho grande dificuldade em imaginar alguma actividade na qual aquele dinheiro fosse mais bem empregue. Quem, por exemplo, teria apostado em 1910 que a aviação teria o futuro que teve?"

(José Carlos Santos)

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EARLY MORNING BLOGS 116

É difícil escrever melhor sobre a noite como faz em "Insônia" o nosso Álvaro de Campos. É dificil escrever melhor sobre "a alegria dessa esperança triste" que vem com a madrugada. A juntar ao poema de Larkin, na série mais negra destes poemas matinais.

Não durmo, nem espero dormir.
Nem na morte espero dormir.
Espera-me uma insônia da largura dos astros,
E um bocejo inútil do comprimento do mundo.

Não durmo; não posso ler quando acordo de noite,
Não posso escrever quando acordo de noite,
Não posso pensar quando acordo de noite —
Meu Deus, nem posso sonhar quando acordo de noite!

Ah, o ópio de ser outra pessoa qualquer!

Não durmo, jazo, cadáver acordado, sentindo,
E o meu sentimento é um pensamento vazio.
Passam por mim, transtornadas, coisas que me sucederam
— Todas aquelas de que me arrependo e me culpo;
Passam por mim, transtornadas, coisas que me não sucederam
— Todas aquelas de que me arrependo e me culpo;
Passam por mim, transtornadas, coisas que não são nada,
E até dessas me arrependo, me culpo, e não durmo.

Não tenho força para ter energia para acender um cigarro.
Fito a parede fronteira do quarto como se fosse o universo.
Lá fora há o silêncio dessa coisa toda.
Um grande silêncio apavorante noutra ocasião qualquer,
Noutra ocasião qualquer em que eu pudesse sentir.

Estou escrevendo versos realmente simpáticos —
Versos a dizer que não tenho nada que dizer,
Versos a teimar em dizer isso,
Versos, versos, versos, versos, versos...
Tantos versos...
E a verdade toda, e a vida toda fora deles e de mim!

Tenho sono, não durmo, sinto e não sei em que sentir.
Sou uma sensação sem pessoa correspondente,
Uma abstração de autoconsciência sem de quê,
Salvo o necessário para sentir consciência,
Salvo — sei lá salvo o quê...

Não durmo. Não durmo. Não durmo.
Que grande sono em toda a cabeça e em cima dos olhos e na alma!
Que grande sono em tudo exceto no poder dormir!

Ó madrugada, tardas tanto... Vem...
Vem, inutilmente,
Trazer-me outro dia igual a este, a ser seguido por outra noite igual a esta...
Vem trazer-me a alegria dessa esperança triste,
Porque sempre és alegre, e sempre trazes esperança,
Segundo a velha literatura das sensações.

Vem, traz a esperança, vem, traz a esperança.
O meu cansaço entra pelo colchão dentro.
Doem-me as costas de não estar deitado de lado.
Se estivesse deitado de lado doíam-me as costas de estar deitado de lado.
Vem, madrugada, chega!

Que horas são? Não sei.
Não tenho energia para estender uma mão para o relógio,
Não tenho energia para nada, para mais nada...
Só para estes versos, escritos no dia seguinte.
Sim, escritos no dia seguinte.
Todos os versos são sempre escritos no dia seguinte.

Noite absoluta, sossego absoluto, lá fora.
Paz em toda a Natureza.
A Humanidade repousa e esquece as suas amarguras.
Exatamente.
A Humanidade esquece as suas alegrias e amarguras.
Costuma dizer-se isto.
A Humanidade esquece, sim, a Humanidade esquece,
Mas mesmo acordada a Humanidade esquece.
Exatamente. Mas não durmo.


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14.1.04


DELORS

Publicou uma espécie de memórias em entrevista, que não comprei e não li. Talvez venha a comprar, mas os livros políticos franceses deste tipo são sempre muito decepcionantes, feitos à pressa e demasiado jornalísticos. Mas, à noite, vi uma longe entrevista a Delors no terceiro canal francês, conduzida por Christine Ockrent e com o apoio de vários jornalistas como Serge July. A entrevista era amável e respeitosa, mas Delors mostrava todas as suas qualidades, rápido, irónico e experiente. Aquele homem já viu muito, já teve que aturar muito, já negociou muito. Não custa reconhecer a marca de um político de qualidade, mesmo que não se concorde com o que diz.

Se a entrevista fosse mais curta, ficaria pelo parágrafo anterior. Mas, à medida que avançava, em particular quando entrou July a perguntar, ou a querer que Delors fizesse um eco das suas afirmações, numa cumplicidade incomodativa para quem via, alguma coisa se começou a deteriorar. Cada vez que Delors falava uma falta crescia, uma ausência se tornava cada vez mais real: os povos, os europeus, as pessoas... a democracia. E cada vez mais emergia esse traço do currículo dos politicos franceses, a alta administração pública, o pensamento de um burocrata sofisticado, efectivamente indiferente ao valor da legitimação democrática do que está a fazer. Ele está convencido de que está a fazer bem e conhece todos os mil e um mecanismos para fazer as coisas "andar". Mas também é ele que sabe qual é a direcção para onde devem "andar" e não lhe passa pela cabeça perguntar a ninguém.

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EARLY MORNING BLOGS 115

genuinamente populares, do povo. Como o autor do Abrupto recebe muitas vezes conselhos bem intencionados para ser "mais populista", e menos "elitista", algum dia teria que ceder à tentação. Eis pois hoje quatro provérbios meteorológicos sobre a manhã, cheios da intensa sabedoria de quem se levanta cedo, anda nos campos e tem que prever o tempo e dorme (quando pode) a sesta:

Aurora ruiva: vento ou chuiva.

Rigor da noite: chuva de manhã.

Sol que muito madruga pouco dura.

Manhã de névoa: tarde de sesta.


*

Aqui onde estou está uma "manhã ruiva", logo vento e "chuiva". Não sei como está a pátria. Bom dia!

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13.1.04


ONDE É QUE EU JÁ OUVI ISTO?

"Je sais que vous savez que j'ai su que vous aviez découvert celui qui savait que vous ne saviez pas ce que je savais, etc."

Paul Valery, Cahiers 1894-1914 , v. VIII, p.399

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PROTO-BLOGUISMO : CADERNOS DE CAMUS E DE VALERY 2

Há muitas diferenças de conteúdo, estilo e algumas na forma. De um modo geral, as entradas de Valery são mais afirmativas que as de Camus, mas os tempos também são outros: Valery concentra-se nos anos 1894-1914 e os de Camus vão de 1935 a 1959. As certezas de Valery são mais expostas, mas a verdade é que Camus também as têm, o que acontece é que as coloca muitas vezes como dúvidas. Nesse sentido os Cadernos de Camus estão mais próximos da nossa sensibilidade e os de Valery são de matéria mais "clássica". Há partes parecidas com as de textos de Goethe, preocupações semelhantes Mas isto são primeiras impressões que tem normalmente o defeito de desaparecerem à medida que a leitura vai progredindo.

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PROTO-BLOGUISMO : CADERNOS DE CAMUS E DE VALERY

Tenho estado a comparar os Cadernos de Camus, com os de Valery, para ver da sua semelhança com esta espécie de proto-blogues. Não tenho dúvidas sobre a adequação dos de Camus, mas os de Valery, muito mais extensos - quase quatro vezes mais do que os de Camus - não os conhecia. Tenho estado a lê-los com a vantagem de andar para trás e para a frente, de volume em volume, e só esta forma de leitura já revela diferenças. Os Cadernos de Camus podem mais facilmente ser lidos sem ordem , os de Valery , como mantém uma unidade de matéria por muitas dezenas de notas, são mais difíceis de ler desta forma errática.

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PROTO-BLOGUISMO

Interessa-me procurar uma espécie de genealogia do tipo de escrita dos blogues. Diários, cadernos de notas, colecções de ditos, aforismos, tem a forma próxima e, nalguns casos, mais do que a forma, dos blogues. E não só : obras fragmentadas também encaixam bem no modelo, obras que desapareceram e de que ficaram apenas fragmentos como as dos pré-socráticos.

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TRIVIA (Actualizada)

De manhã, num carro, com dois amigos italianos. O motorista pára num semáforo. Ao lado um esgoto de águas pluviais entupido. Nada de especial, em Portugal ninguém ligaria nenhuma, só uma poça de água que leva os peões a terem que se desviar. Aqui não, a eficácia alemã é perturbada pela agua castanha à vista de todos. Um carro dos serviços municipais chega e dois homens tiram a tampa e enfiam uma mangueira no buraco para o desentupir. No carro, ninguém consegue tirar os olhos da operação, a mais trivial das tarefas, a não ser o motorista que não se interessa. Todos esperavam o momento em que a água se sumisse rapidamente pelo buraco desimpedido, o momento perfeito, a teoria das catástrofes em acto. O semáforo mudou antes do fim da operação, o carro arranca. Se a nossa cabeça mandasse ficaria ali, à espera.

De facto , os homens gostam mesmo de ordem. Alguns homens. Intelectuais.

*

"Conclusão errada. Só tem a haver com o facto de vocês virem duma classe privilegiada que se pode preocupar com coisas como um esgoto entupido. O motorista estava a pensar em coisas mais sérias. "

(Maria Cristina Perry)

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12.1.04


OS CÉUS DA FRANÇA

estão inabitáveis. Aterrar em Paris com ventos quase ciclónicos é pouco recomendável.

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11.1.04


BIBLIOFILIA 9 / FARENHEIT 451

Os livros que se estragam, apanham água e colam, comem-se por dentro, perderam sentido; sem capa, sem parte das folhas, estão irremediavelmente perdidos, mesmo para mim que os conservo até ao limite. Queimo-os. É um destino mais nobre que o papel a peso. As cinzas são um bom adubo. Hoje é dia de queima.

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OBJECTOS EM EXTINÇÃO

Agora que os seus objectos em extinção parecem estar extintos, gostava de lhe dar conta de um objecto extinto algo curioso para os nossos dias. Trata-se de um cartão do Ministério do Exército, do Serviço de Recenseamento e Mobilização de Solípedes, em que se descrevem os traços físicos de um solípede, cujo proprietário «Em caso de mobilização ou de emergência grave [...] deverá - sob pena de prisão militar ou na de incorporação em Depósito Disciplinar e da apreensão do solípede acima mencionado sem direito a qualquer indemnização - apresentá-lo no local, dia e horas que forem indicados por edital, jornais, rádio ou aviso individual.» Pelo mesmo documento, o proprietário é obrigado a levar o pobre solípede a uma inspecção anual. O cartão data de 1954.

(Alexandra Soares Rodrigues)


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EARLY MORNING BLOGS 114

Eu que, em muitos dias, aqui desejo os bons-dias e que, no início do ano, desejei os bons-anos, encontro-me com este sermão do Padre António Vieira, no qual ele mostra a avareza do nosso desejar:

"Em um Mundo, digo, tão avarento de bens, onde apenas se encontra com um bom-dia, ter obrigação de dar bons-anos, dificultoso empenho! E na minha opinião cresce ainda mais esta dificuldade, porque isto de dar bons-anos, entendo-o de diferente maneira do que comummente se pratica no Mundo. Os bons-anos não os dá quem os deseja, senão quem os assegura. A quantos se desejaram nesta vida, a quantos se deram os bons-anos, que os não lograram bons, senão mui infelizes? Segue-se logo, própria e rigorosamente falando, que não dá os bons-anos quem só os deseja, senão quem os faz seguros".

(Como isto está tudo ligado, o genial padre fez este sermão cerca de quarenta anos antes dos trabalhos de Pepys, que temos acompanhado na Londres dos Fanáticos.)

Bom dia!

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VER A MESMA NOITE

outra vez, quando está a acabar. Há pássaros que só cantam nesta altura da noite.

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VER A NOITE

Nevoeiro, poeira de água por todo o lado. Há um pássaro diferente a piar. Ou talvez um mocho, atrasado no seu dever.

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COMO SE TIVESSE POUCAS COISAS PARA FAZER 2

agora vou todos os dias ler o “dia” de Samuel Pepys.

Há 344 anos, no dia de hoje, Samuel Pepys andou a passear por Londres, de um lado para o outro, a tratar dos seus assuntos e a conversar sobre as malfeitorias dos Fanáticos. A sua mulher fez o mesmo, indo a casa do Senhora Hunt, uma amiga. Pepys encontrou-a aí:

So to Mrs. Hunt, where I found a Frenchman, a lodger of hers, at dinner, and just as I came in was kissing my wife, which I did not like, though there could not be any hurt in it..”

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© José Pacheco Pereira
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