ABRUPTO

29.6.11


NOVO TESTAMENTO 

Depois do último Ponto Contraponto recebi pessoalmente e através do correio da  SICN muitos pedidos para indicar onde seria possível ter acesso ao curso de Dale Martin "Introdução ao Novo Testamento" sem ser no iPad. Aqui vai a ligação.  Infelizmente não existe nenhuma tradução em português.

*
Dado que divulgou n'o Abrupto uma ligação para o site do AcademicEarth, propor-lhe-ia que divulgasse também os do YouTube/edu (www.youtube.com/edu), que está organizado por universidades (para quem estiver interessado, os cursos do Leonard Susskind, de Stanford, sobre quase todos os tópicos fundacionais da Física Teórica são excelentes). Por outro lado e para minha frustração, o Technion colocou lá uma série de cursos sobre várias áreas da Matemática...em hebraico; aqui, encontro-me numa situação dual da sua: percebo o que está no quadro, mas não faço ideia do que o professor está a dizer (consigo adivinhar algumas partes). 

Outros dois sites interessantes, mas mais dedicados a seminários do que a cursos, são:
(1) VideoLectures (videolectures.net)
(2) IASVideo (video.ias.edu) (o IAS é o Institute for Advanced Study, cuja história e reputação falam por si).

(João Soares)
 
*
(...) a frase "Infelizmente não existe nenhuma tradução em português." não é correcta.(...)

A ligação que forneceu aos leitores do blog remete para o academicearth, um repositório que agrega vídeos de aulas, palestras, obtidas de várias fontes e disponibiliza-as em RealPlayer, perdendo-se algumas funcionalidades associadas ao vídeo no serviço original. A Yale University disponibiliza muitas aulas (assim como tantas outras "unis" dos EUA, do UK, do Canadá, Austrália,...) e fá-lo directamente numa página própria no Youtube; neste caso: http://www.youtube.com/user/YaleCourses. É essa a fonte original.

Só que Yale faz mais. Adiciona a "transcription" da palestra (feita por humanos). Isso resulta que o Youtube nem tem de recorrer o serviço "Translate Audio" (ainda em versão Beta). Ao carregar no botão vermelho "CC" imediatamente passa a visualizar o texto que Yale produziu. É um texto perfeito, sem gralhas, com as citações entre parêntesis, com toda a pontuação. Poderá mesmo ler as palavras em Latim ou as gregas (como "Paideia") sem qualquer gralha.

Sobre legendas no Youtube c.f. http://www.youtube.com/t/captions_about

Mas pode fazer mais. Como todo o texto original foi inserido num inglês sem mácula, o outro serviço em "versão beta" (o "Translate Captions)", funciona razoavelmente bem e consegue apresentar a legendagem traduzida para muitas línguas, incluindo o Português (tal como falado no Brasil, pelo que aparecerá nas legendas "banheiro dos romanos", tratamento por "você", etc).

Pode também escolher o tipo de caracteres com que quer que as legendas sejam produzidas no écran e pode até clicar em cima delas e move-las para o local da imagem que preferir de forma a não tapar algo importante.

Em suma, é necessário aceder aos vídeos originais no Youtube, activar as "CC" e depois alterar para Português.

--
Francisco Monteiro
Engineering Department
University of Cambridge
United Kingdom



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ESPÍRITO DO TEMPO: HOJE


Passagem do tempo por um banco do jardim de S. Amaro. (RM)

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COISAS DA SÁBADO
PROMESSAS A CUMPRIR, PROMESSAS QUE NÃO PODEM SER CUMPRIDAS E PROMESSAS QUE NÃO DEVEM SER CUMPRIDAS

Eu bem sei que isto é matéria árdua e muito mais complicado de dizer do que de fazer, principalmente se for a palavra dos próprios que está em causa. Mas um dos lastros da campanha eleitoral e do carácter assertivo nas opiniões de alguns dos ministros pode vir a constituir um problema complicado. Aquilo que em tempos normais seria uma qualidade, cumprir as promessas que se fazem, pode vir a ser um defeito e mesmo um desastre. Veja-se uma caso típico: o governo com dez ministros e vinte e cinco secretários de estado. A ideia e o número redondo é populista, a sua execução pode revelar-se péssima. Ficamos em onze ministros por que o PSD tinha prometido dez e o CDS defendido doze e tirou-se a média. Já alguém soprou para os jornais que com onze ministros se poupam 100.000 euros por mês.

O “povo” gosta, mas temo que se tenham criado vários ministérios ingovernáveis, e se tenham acrescentado inúmeras dificuldades para a governação rápida e eficaz que se deseja. Primeiro, porque verdadeiramente não se fundiram os ministérios, o que só era possível com novas leis orgânicas e com a afectação do pessoal que sobra a outras funções. Os ministérios estão por isso na mesma. Segundo, porque a máquina que resulta desta fusão no papel, ou vai exigir equipas de secretários de estado gigantescas, o que contraria a intenção da redução de ministérios, ou vai criar labirintos e confusões que podem emperrar a execução rápida das medidas*. Os ministros como o da economia ou o da agricultura não vão saber para onde se virar, nem vão poder acompanhar a dimensão europeia da governação porque não tem tempo para ir a todas as reuniões. E mandar secretários de estado não é a mesma coisa. O que vai acontecer é que áreas inteiras vão ficar desleixadas ou tratadas atabalhoadamente, e as prioridades confusas no meio da selva burocrática.

Sir Humprey do Yes Prime Minister gostaria imenso desta fusão de ministérios que aumenta o poder da burocracia. E se a única redução prática for nos gabinetes de topo ainda ficará mais contente, porque onde antes estava uma cabeça muito grande para um corpo mais reduzido, agora pode-se ficar com uma cabeça muito pequena para um corpo gigantesco. É que, como sempre nos ensinou um dos primeiros grandes teóricos da burocracia, Max Weber, as acções dos políticos raramente dão o resultado pretendido, antes pelo contrário.
* O que se veio a confirmar. À data em que escrevi este texto ainda não era conhecido o número final de secretários de estado, que acabou por ser muito acima do prometido e próximo do do número do governo Sócrates que tinha muitos mais ministros. Isto significa que a deformidade de alguns ministérios como o da Economia é confirmada pela necessidade de ter seis secretários de estado.  As afirmações de que alguns secretários de estado são "quase ministros", são também de mau agoiro.

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28.6.11


EARLY  MORNING BLOGS

2051

Tous les vices à la mode passent pour vertus.

(Molière)

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27.6.11

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NOBRE, OS ACAMPADOS E A "DEMOCRACIA VERDADEIRA, JÁ!"


O comentário político está tão subserviente e balofo, salvo honrosas excepções, que funciona por simples moldes virais, mais ou menos formatados, entre a adesão ao poder sem disfarces, a propaganda pura e o wishfull thinking. Enquanto na era Sócrates esses moldes virais, frases, pseudo-argumentos, contra-argumentos, eram preparados profissionalmente, agora ainda dependem muito do entusiasmo entre o ingénuo e o servil que por aí anda entre blogues, jornais e televisões. Com o tempo, virá a profissionalização e também teremos a nossa nova câmara corporativa governamental para que não faltam voluntários. Não admira que haja quem queira sanear os comentários que não alinham com o modo dominante, uma pulsão que eu conheço muito bem e já de há muitos anos. Acentuou-se muito com o governo Santana Lopes, onde atingiu Marcelo Rebelo de Sousa, ganhou foros de obsessão com Sócrates que não se coibiu de roçar a ilegalidade para garantir o saneamento dos jornalistas considerados hostis e agora move a patrulha de amigos de Miguel Relvas, de quem ele foi e é fonte e patrocinador. É, aliás, muito pedagógico ver o movimento de jornalistas para os gabinetes governamentais, uma transumância que devia ter tanta transparência e exposição pública como a de ministros e secretários de Estado. Mas este escrutínio, de um modo geral, a comunicação social hesita em fazer.


Vejamos o "caso Nobre". Declaro desde já que não penso que este episódio deixe marcas na governação e que a sua conclusão seja uma "derrota" de Passos Coelho. Os problemas que o Governo vai afrontar são de tal monta que o "caso Nobre" é um epifenómeno que será rapidamente esquecido. Quanto ao facto de ele ser revelador da fragilidade da coligação, também não penso que acrescente alguma coisa ao que já era mais que visível se se estivesse atento: a coligação assenta numa desconfiança entre PSD e CDS e entre Portas e Passos Coelho muito maior do que a anterior coligação de 2002-2004. Na coligação de 2002, ambos os partidos tinham sido inimigos em campanha de forma clara e frontal, e, como muitas vezes acontece, é mais fácil entender-se entre inimigos do que entre semiamigos, que é o terreno da coligação de 2011. Há por isso um ambiente de competição mais acentuado e mais complicado do que em 2002, mas daí não se pode inferir que a coligação falhe. Há enormes pressões exógenas para um bom comportamento governamental que pode dar origem a uma coligação que resulte. Vamos ver.

Quanto a Nobre, vejamos a razão por que me parece de um simplismo atroz a discussão de chavões que por aí anda, que se centra no molde viral de que Nobre é um cavaleiro da "independência" e a sua derrota na Assembleia significa uma vitória do "aparelhismo partidário" contra uma pessoa que vem de fora para mudar de alto a baixo o sistema político e reformar a Assembleia. Passos Coelho seria o campeão desta entrada dos "independentes" na vida política e cumpriu a sua palavra ao insistir na apresentação falhada de Nobre no Parlamento. Este é o tipo de "argumentos" que para aí circulam, que têm a natureza de serem facilmente reversíveis: por exemplo, pode-se dizer que Passos Coelho queria de Nobre apenas os votos e que a história da "independência" também é jogar com os ventos dominantes para efeitos eleitorais. Experimentem perguntar a Passos Coelho se ele é a favor de listas "independentes" para as eleições legislativas quebrando o monopólio partidário. E podia dizer-se que se Passos Coelho merece elogios por cumprir a sua palavra, Nobre quebrou a sua mantendo-se no Parlamento. Etc., etc.

A minha opinião sobre Nobre é de há muito negativa e nunca o escondi. Cito-me, por excepção, para que as palavras tenham data e não possam ser inquinadas pelo que aconteceu a seguir. Escrevi durante a campanha para as presidenciais o seguinte (e cito apenas uma muito pequena parte, o resto ainda é pior):
"Nobre tem a pior das posturas, pessoal e nos debates, uma mistura de vaidade e aproveitamento biográfico sem pudor, populismo e ignorância. Nobre acha que são virtudes, porque ele é o único que não veio da política, mas são política do pior."

A sua campanha foi de uma vacuidade impressionante, nada tinha a dizer ao país e o que lhe dizia era puro populismo grosseiro, contra os partidos e a "política" (que é sempre a política da democracia). Teve quinhentos mil votos nas presidenciais, com a mesma natureza conjuntural do milhão em Manuel Alegre. Nem vale a pena estar aqui a perder tempo a explicar qual foi a conjuntura, que todos percebem o papel que a candidatura teve nas divisões internas ao PS, para além do óbvio facto de hoje o populismo dar votos.

Por isso a minha objecção contra Nobre tem pouco a ver com as dicotomias "independente" versus "partidocracia", de "fora da política" contra "classe política", "cidadão impoluto" contra a "corrupção parlamentar". Não tinha a ver com o facto de Nobre não ser filiado em nenhum partido, mas sim com as ideias que traduziam a sua "independência" e que são, a meu ver, pura e simplesmente antidemocráticas. Esta é a razão principal pela qual o PSD nunca o devia ter convidado para as suas listas.

Aliás, significativo do actual "situacionismo" é que ninguém faz a comparação óbvia entre as ideias de Nobre e outros movimentos que também as professam, como sejam os participantes das acampadas de Lisboa, Coimbra e Porto e mentores das manifestações do "democracia verdadeira já!". O que estes defendem é a substituição da democracia parlamentar por uma espécie de democracia directa, em que as decisões passem a ser tomadas em "assembleias" e referendos, sem necessidade de existirem partidos políticos nem eleições. É isso que eles têm tentado levar à prática, embora de uma forma tão grotescamente ridícula que desvia a atenção apenas para a parafernália mais ou menos sórdida dos acampamentos e as manifestações folclóricas, com desatenção para as ideias que estão por trás. As ideias têm muito maior expressão do que as poucas centenas de pessoas que têm aparecido nos eventos e tenho poucas dúvidas que se a comunicação social lhes desse alguma da simpatia e proselitismo que deu à manifestação da "geração à rasca", as manifestações teriam um grande sucesso.


O que os "acampados" têm feito é uma paródia da democracia directa que tomam a sério como sendo a "democracia verdadeira". Os cartazes das manifestações podem ser sintetizados num único: "O povo unido não precisa de partidos". O "povo unido" são eles, uma entidade orgânica que expele do seu seio, os "políticos", o antipovo. Juntos em assembleia "popular", "o povo unido" não precisa de deputados, nem de partidos, nem em bom rigor de eleições como as da "democracia falsa" que para aí existe. O sistema político parlamentar é apresentado num panfleto como sendo um "sistema político de falsa democracia".

Como se trata de um movimento de intelectuais acentua-se que a alternativa está "num debate intelectualmente sério sobre o assunto", sem "aproveitamentos partidários", mas a verdade é que a coreografia do movimento é a de dar à "democracia verdadeira já!" o modelo da democracia directa. Como na linguagem do engsoc orwelliano, os ajuntamentos de dezenas de pessoas, que são a representação mimética da Assembleia da República, chamam-se "assembleias populares", porque o "povo" está ali "verdadeiramente" representado. E os "amigos" no Facebook e os "gosto" ou "não gosto" da Internet são as "verdadeiras" eleições.

fotografia (1)


Num boletim de voto de um "referendo" realizado numa das "acampadas" perguntava-se: "Sente-se representado no actual sistema democrático?". Uma centena de pessoas decide pelo país que "não", porque, como se teoriza num panfleto sobre a "natureza da Assembleia", deve ser "ela a dominar a estrutura e não a estrutura que domine a Assembleia". Por aí adiante. Era ali que Nobre deveria estar, entre os manifestantes da acampada e os seus contrapartes mais à direita do grupo, "um milhão de pessoas na avenida para demitir a classe política".

Estas ideias não só novas, são aliás velhíssimas. Esta mistura de basismo, de recusa da representação, de redução do direito de decidir apenas aos activistas, mergulha em determinadas formas de anarquismo, mas também de certas tradições conselhistas e obreiristas que acompanharam as dissidências do comunismo. E hoje comunicam com o populismo dos saudosistas de Salazar e dos remailers que activamente na Internet contam a história do general de Singapura que faz um golpe de Estado, manda fuzilar os políticos corruptos e depois faz eleições e tem 100% dos votos. Democracia verdadeira já!

As ideias de Nobre são uma variante elitista deste tipo de concepções. A suprema ironia é de que um homem com estas ideias quisesse ser presidente do órgão por excelência que, ao existir, as nega em democracia.

(Versão do Público de 25 de Junho de 2011.)

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ESPÍRITO DO TEMPO: HOJE



Passagem do tempo por um banco do jardim de S. Amaro. (RM)


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LATE  MORNING BLOGS


2050

For they are yet ear-kissing arguments.

(William Shakespeare)

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23.6.11


COISAS DA SÁBADO: O DISCURSO DO PODER INTERIORIZADO

Mas que bom o novo governo ter Isto e não Aquilo. Mas se o novo governo tivesse Aquilo em vez de Isto, que bom seria ter Aquilo e não Isto. E por aí adiante. Elogia-se a importância do que se pensa que há, esconjura-se a irrelevância, mesmo o malefício, daquilo que não há. Se fosse ao contrário, elogiava-se na mesma. Como o governo é novo de idade, valoriza-se a juventude. Se fosse um pouco mais velho, valorizava-se o mix de gente nova com homens experimentados. Se fosse ainda mais velho valorizar-se-ia a experiência de gente com gravidade que aceitou, num período de dificuldades, servir o país. O poder de atracção do Primeiro-ministro estaria em todas as análises. Se tivesse mais políticos valorizar-se-ia a experiência da causa pública, como tem mais técnicos, valoriza-se o saber especializado. Se fossem do “meio” elogiar-se-ia conhecerem “os cantos da casa”, como não são do “meio” valoriza-se a ruptura com os maus hábitos instalados. Etc., etc.

Ouvem-se comentários sobre comentários e para além da mais piegas adoração da “situação”, para além do wishfull thinking, podia passar o dia todo e a Sábado toda com este tipo de ladainha que é o discurso do poder interiorizado. Mas que balofice nacional que nos assaltou!

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ESPÍRITO DO TEMPO: HOJE




Passagem do tempo por um banco do jardim de S. Amaro. (RM)

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22.6.11


EARLY  MORNING BLOGS

2049

"Ordenar bibliotecas es ejercer de un modo silencioso el arte de la Critica."

(Jorge Luis Borges)



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21.6.11



ÍNDICE DO SITUACIONISMO (130)

A questão do situacionismo não é de conspiração, é de respiração.
E, nalguns casos, de respiração assistida.

Encerra-se aqui o índice do situacionismo da era Sócrates e inicia-se o da era Passos Coelho, em que, a julgar pelo que se vê, ouve e lê, não vão faltar exemplos. Voltar-se-á atrás sempre que for necessário para proveito e exemplo, até porque algumas das personagens são as mesmas. Estou aliás a pensar publicar em livro o Índice do Situacionismo - Era Sócrates para que se perceba melhor a "respiração" e a "respiração assistida".

Boa sorte para mim próprio porque, como se percebe, esta é uma maneira excelente de arranjar amigos e ter "boa imprensa". 

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ESPÍRITO DO TEMPO: HOJE




Passagem do tempo por um banco do jardim de S. Amaro. (RM)

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EARLY  MORNING BLOGS


2048


Nada é mais favorável à paz do espírito do que pura e simplesmente não ter opiniões.

(Georg Christoph Lichtenberg)

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20.6.11


QUE VIVAS EM TEMPOS INTERESSANTES!


A frase "que vivas em tempos interessantes" é conhecida como uma maldição chinesa. Para escrever este texto fiz algumas procuras na Rede e em dicionários de citações e afinal parece que a frase não é chinesa, mas podia ser. Aliás não se sabe muito bem de onde veio, e é mais provavelmente inglesa, já como chinoiserie, do que chinesa ou persa ou judaica, como outras atribuições sugeridas. A entrada na Wikipédia sintetiza as dúvidas sobre a origem da frase e refere que o mais parecido que se encontrou em chinês foi um provérbio que diz "mais vale ser um cão em tempos de paz do que um homem em tempos de caos". Não está mal, mas não é a mesma coisa.

Mas, para nosso mal, vivemos mesmo em tempos da maldição chinesa e não adianta fazer imprecações à normalidade, que ela não existia, não existe e não existirá. Não é a anormalidade que está em causa, pois ela própria já é demasiado normal há muito tempo, mas sim o facto "interessante" de ter dado origem a uma situação com algum grau de novidade em relação ao passado. A anormalidade deu origem a uma conjuntura nova, e é nela que vivemos os nossos "tempos interessantes".

É sempre possível encontrar algum paralelismo histórico como, por exemplo, com a crise de 1917-9, com a guerra, a "crise das subsistências", o bolchevismo no horizonte, a pneumónica e Nossa Senhora a falar aos portugueses. Só que agora o agravamento da anormalidade gerou uma situação que não tem de facto nenhum verdadeiro precedente na nossa história contemporânea: um país falido (não é novidade, mas também não é muito comum na nossa história), um governo tutelado ao minuto pela Alemanha (uma novidade, costumava ser a Inglaterra ou os EUA), com um governo de um país ocupado (não é novidade veja-se Beresford), um agravamento brutal e rápido das condições de vida da classe média (uma novidade muito perigosa) e um empobrecimento dos mais pobres (com menos novidade, mas, mesmo assim, com enormes estragos no tecido social). Depois acrescenta-se o facto de a nossa aliança estratégica central com a União Europeia estar debilitada pelo nosso estado de necessidade e impotência face a uma crise mais geral da própria União, do "modelo social europeu", e uma crise ainda mais geral do Ocidente enquanto modo de vida e poder mundial. Para usar palavras alheias, uma "tempestade perfeita".

Por isso, vamos ter que, em plena anormalidade, compreender a novidade, defrontar uma situação para que nenhuma experiência prévia serve muito. As comparações são por isso muito enganadoras, como seja a comparação da situação actual com anteriores intervenções do FMI. Se estivéssemos na Revolução Francesa, podíamos fazer um calendário novo, começando no ano actual como ano 0, o início da nova era. Se fosse assim, o período de 2000 (Antes da Crise) até 2008 (AC) seria o período do Declínio do Antigo Regime e os anos de 2008 (AC) a 2010 (AC) os da Queda do Antigo Regime. Como serão os anos Depois da Crise (DC)? Não sei, mas que serão muito bizarros, serão, a julgar pelos Sinais.

Alguns desses Sinais já se podem perceber. Por exemplo, imaginem um debate parlamentar entre António José Seguro (líder do PS e da oposição) e Pedro Passos Coelho (primeiro-ministro e líder do PSD). Ambos têm a mesma formação política, ambos vêm da mesma escola política, as "jotas", ambos já fizeram várias vezes pactos "geracionais", ou seja, afirmaram uns aos outros "tu tomas conta do teu partido e eu do meu e depois colaboramos" (isto não é ficção), ambos falam o mesmo politiquês, ambos têm a mesma extrema atenção aos poderes interiores nos partidos, que são a sua base de apoio e o factor da sua ascensão.

Ninguém se pergunta por que razão António José Seguro, um homem pessoalmente amável, mas que nunca marcou a vida pública nacional com um único traço visível da sua existência política, pode ganhar um partido com a importância, a história e o peso na vida pública nacional, como o PS? A resposta é: "Ele é o homem do aparelho". Seguro não existe fora das federações e secções do PS, das mil e uma personagens cinzentas que estão sempre lá, no grupo parlamentar nos lugares anódinos, de eleição para eleição, do senhor A que controla a emigração, do senhor B que tem os votos dos socialistas de Viseu, etc., etc. Que fora do PS seja uma inexistência, isso não impede, no sistema político português, que António José Seguro esteja a caminhar para primeiro-ministro. Os amadores da anormalidade terão, por isso, num debate parlamentar entre António José Seguro e Pedro Passos Coelho o retrato da mais absoluta normalidade, mesmo que durmam em pé. E, no entanto, há algo de terrivelmente errado nisto tudo.

Outra manifestação cheia de significado simbólico dos tempos de hoje é o retorno ao agro. Escrevo ontem para quem me lê hoje. Mas não tenho dúvidas que amanhã, num golpe publicitário genial do Continente, milhares e milhares de pessoas invadirão Lisboa, mais vários rebanhos de ovelhas, varas de porcos, manadas de vacas, cortiços de abelhas, capoeiras de galinhas, patos, perdizes e pintos, searas de trigo, campos de milho, pomares de maçãs, pêras, alperces, kiwis, hortas com exércitos de couves, pepinos, batatas, rabanetes, tomates, alcachofras, couves-flores, brócolos, alfaces, abóboras, primícias diversas, chegarão à Avenida da Liberdade e ao Parque Eduardo VII, em boa ordem em camiões, contentores, empilhadoras, tudo às centenas e aos milhares. E só não virão os sobreiros, carvalhos, oliveiras (talvez haja "oliveiras da CEE", mais pequenas), porque são grandes de mais, mas talvez haja castanhas, cortiça ou azeitonas.

E virá povo, muito povo, por causa do Tony Carreira, mas também porque muita gente da cidade nunca viu um pinto, e suspeita vagamente de que os ovos são feitos à máquina, e todos têm uma memória difusa do campo, uns da agricultura em que os seus avós ainda faziam, outros da "ingrícola" com que gozavam no café do bairro no meio da cerveja e dos tremoços. E de onde virão os tremoços? E passearão no meio das vagens por muitas razões, curiosidade, pelo espectáculo de tanta horta, nostalgia de um mundo que acabou, e uma réstia difusa de esperança de que pode não haver euro, nem dinheiro para os salários, mas sempre se pode sobreviver com as couves da velha tia que é viúva e ficou numa aldeia remota que só se visita de vez em quando. E virão também porque a agricultura conhece uma moda ilusória, uma fuga em frente típica da nossa miséria actual, em que à míngua de fábricas e minas, sempre acreditamos que temos terra para amanhar como último recurso. Não há quem a amanhe, a não ser bandos de moldavos, mas isso é outra coisa. E não há agricultura que sobreviva a não ser a industrializada, fortemente subsidiada, e a comercializada, que exige know-how, transportes, prazos e frigoríficos. E o Continente...

Sinais bizarros, como são os sinais típicos da novidade. Estranhezas. O mundo DC será assim, com o enorme peso da inércia do mundo AC e com as condições presentes, mas ainda fantasmáticas, do mundo DC. O Controlador, que deve estar a chegar à Portela um destes dias, vai começar a varrer o nevoeiro fantasmático, e então espero que tenham levado muitas batatas, hambúrgueres e feijão para casa. Vão ser precisos, porque vamos viver em "tempos interessantes".

(Versão do Público de 18 de Junho de 2011.)

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EARLY  MORNING BLOGS


2047 - Salmo 91

1. Aquele que habita sob a protecção do Altíssimo
e mora à sombra do Omnipotente,

2. pode exclamar: "Senhor, Tu és o meu refúgio,
a minha cidadela, o meu Deus, em quem confio!"

3. Ele há-de livrar-te da armadilha do caçador
e do flagelo maligno.

4. Ele te cobrirá com as suas penas;
debaixo das suas asas encontrarás refúgio;
a sua fidelidade é escudo e couraça.

5. Não temerás o terror da noite,
nem da seta que voa de dia,

6. nem da peste que alastra nas trevas,
nem do flagelo que mata em pleno dia.

7. Podem cair mil à tua esquerda
e dez mil à tua direita,
mas tu não serás atingido.

8. Basta abrires os olhos,
para veres a recompensa dos ímpios.

9. Pois disseste: "O Senhor é o meu único refúgio!"
Fizeste do Altíssimo o teu auxílio.

10. Por isso, nenhum mal te acontecerá,
nenhuma epidemia chegará à tua tenda.

11. É que Ele deu ordens aos seus anjos,
para que te guardem em todos os teus caminhos.

12. Eles hão-de elevar-te na palma das mãos,
para que não tropeces em nenhuma pedra.

13. Poderás caminhar sobre serpentes e víboras,
calcar aos pés leões e dragões.

14. "Porque acreditou em mim, hei-de salvá-lo;
hei-de defendê-lo, porque conheceu o meu nome.

15. Quando me invocar, hei-de responder-lhe;
estarei a seu lado na tribulação,
para o salvar e encher de honras.

16. Hei-de recompensá-lo com longos dias
e mostrar-lhe a minha salvação."

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19.6.11


ESPÍRITO DO TEMPO: HOJE


Passagem do tempo por um banco do jardim de S. Amaro. (RM)

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EARLY  MORNING BLOGS


2047 - The Pobble Who Has No Toes


The Pobble who has no toes
Had once as many as we;
When they said “Some day you may lose them all;”
He replied “Fish, fiddle-de-dee!”
And his Aunt Jobiska made him drink
Lavender water tinged with pink,
For she said “The World in general knows
There’s nothing so good for a Pobble’s toes!”

The Pobble who has no toes
Swam across the Bristol Channel;
But before he set out he wrapped his nose
In a piece of scarlet flannel.
For his Aunt Jobiska said “No harm
Can come to his toes if his nose is warm;
And it’s perfectly known that a Pobble’s toes
Are safe,—provided he minds his nose!”

The Pobble swam fast and well,
And when boats or ships came near him,
He tinkledy-blinkledy-winkled a bell,
So that all the world could hear him.
And all the Sailors and Admirals cried,
When they saw him nearing the further side—
“He has gone to fish for his Aunt Jobiska’s
Runcible Cat with crimson whiskers!”

But before he touched the shore,
The shore of the Bristol Channel,
A sea-green porpoise carried away
His wrapper of scarlet flannel.
And when he came to observe his feet,
Formerly garnished with toes so neat,
His face at once became forlorn,
On perceiving that all his toes were gone!

And nobody ever knew,
From that dark day to the present,
Whoso had taken the Pobble’s toes,
In a manner so far from pleasant.
Whether the shrimps, or crawfish grey,
Or crafty Mermaids stole them away—
Nobody knew: and nobody knows
How the Pobble was robbed of his twice five toes!

The Pobble who has no toes
Was placed in a friendly Bark,
And they rowed him back, and carried him up
To his Aunt Jobiska’s Park.
And she made him a feast at his earnest wish
Of eggs and buttercups fried with fish,—
And she said “It’s a fact the whole world knows,
That Pobbles are happier without their toes!”

(Edward Lear)

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18.6.11

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EARLY  MORNING BLOGS

2046 -Limericised Classics


IV – “TO LUCASTA, ON GOING TO THE WARS”

“Lucasta,” said Terence O’Connor,
“I’m drafted – I guess I’m a goner!
I know it will grieve you
To death, when I leave you—
But gosh! how I’m stuck on my honor!”

(Edwin Meade Robinson)

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17.6.11


MUNDO DOS LIVROS


Estante na Harvard Coop com os livros publicados por professores da universidade.

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COISAS DA SÁBADO: O CHEIO E O VAZIO



CHEIO: IMAGENS QUE VALEM MAIS DO QUE MIL PALAVRAS

As imagens mais significativas da noite eleitoral foram publicadas pelo Expresso e tiradas no sancta sanctorum de Passos Coelho, a suite do hotel onde esperou pelos resultados. Uma delas é particularmente reveladora. Aí está o núcleo duro do poder actual no PSD, logo no estado, logo no governo, que não sendo inteiramente a mesma coisa, são quase a mesma coisa pela hegemonia dos partidos na vida pública. Aí está o gestor Passos Coelho, o empresário luso-cabo-verdiano-brasileiro Miguel Relvas, e o vice-presidente da Câmara Municipal de Gaia, administrador do Metro do Porto, cônsul da Bielorrússia, Marco António, respectivamente, Presidente do PSD e próximo Primeiro-ministro, o secretário-geral do PSD e o Vice-Presidente do PSD. Também está um profissional da agência de comunicação que trata da “imagem” de Passos Coelho, e a comunicação social na pessoa de, pelo menos, um fotógrafo. Este teve o especial privilégio de ouvir o telefonema de Passos Coelho com José Sócrates a pretexto de imortalizar o momento. O facto de a tríade anterior não conseguir dar um passo sem ser “na cama com” a comunicação social e com agências de comunicação, é também significativo. Aqui Sócrates não se foi embora. E também Sócrates não se foi embora no gadget que todos manipulam, o telemóvel, aquela que é a arma preferida de todas as “jotas”, sem a qual não sabem viver. Passos olha para a televisão, os operacionais consultam os telemóveis pelos quais têm os resultados em tempo mais real do que o Ministério da Administração Interna. Olhem bem as fotografias. Está lá tudo.

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COISAS DA SÁBADO: O CHEIO E O VAZIO


CHEIO: “LIBERTAR” O ESTADO NÃO É PERMITIR UM PRÉDIO DE VINTE ANDARES NA COSTA VICENTINA

A natureza da relação entre o poder económico e o poder político na era Sócrates não é a mesma na era Passos Coelho. O PS (como aliás o PSOE espanhol, o melhor exemplo) manteve sempre uma relação de grande cumplicidade com os interesses económicos e vice-versa. Os bancos e os grandes grupos empresariais (salvo as honrosas excepções conhecidas) faziam parte da espinha dorsal do “socratismo”, que ajudaram a chegar ao poder, elogiaram, apoiaram e, por sua conta, combateram a oposição que o PSD lhe fez, quando a fez. Protegeram Sócrates de tudo que podiam proteger, até quase aos últimos dias em que o deixaram só. Um segundo nível de protecção foi dado pelas empresas ligadas ao estado, seja por via da golden share, seja pelas nomeações para a administração de comissários políticos, seja por mil e outras maneiras. Na questão da TVI e do seu controlo, encobriram e mentiram por ele, para o proteger.

Mas, onde antes estava cumplicidade entre diferentes, que o PS geria ao modo jacobino e o poder económico ao modo dos interesses, agora há uma “comunidade”, uma proximidade que pode pôr em risco a autonomia e a supremacia democrática do poder político em relação ao poder económico. À identidade de ideias e experiências, soma-se a perigosa tentação de que tudo se justifica pela necessidade de “crescimento económico”. Temo por isso que um estado que já tinha feito da regulação uma caricatura (veja-se o caso do Banco de Portugal e dos combustíveis), entre agora num processo de desregulação que nos coloque nas mãos dos mesmos que andaram atrás de Sócrates, só que mais “soltos”.

(Continua.)

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© José Pacheco Pereira
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