A Rede é excepcional para a procura utilitária: precisa-se de saber alguma coisa, lá se encontra. (Já é menos capaz para uma procura qualitativa, ou para se "aprender" pela procura, para se aprender pela errância.) As literacias da procura em Rede são conhecimentos vitais sem os quais se é analfabeto funcional, mas implicam conhecimentos que não são evidentes no acto da procura em linha. Implicam ter uma noção de como se devem "ler" os resultados de uma procura e uma noção de como é que esses resultados são produzidos por uma máquina. Por exemplo, é arriscado fazer uma procura sobre a ortografia de uma determinada palavra no Google, presumindo-se que os resultados validam uma grafia. Há sempre em Rede um número significativo de erros de ortografia, para a procura dar resultados aparentes que induzem a possibilidade de se escrever assim, errando. O que acontece é que as literacias que são necessárias para "ler" em Rede comunicam com as que são necessárias para procurar em papel ou noutros meios, umas implicam as outras, e uma aprendizagem de técnicas de procura e investigação é cada vez mais necessária no coração do sistema de ensino e não estão lá. Na "cultura de blogue" aparecem todos os efeitos perversos de "conhecimentos" obtidos em linha, sem qualquer mediação.
No copy-paste a facilidade de o fazer pode tornar-se num empobrecimento, associando-se como é comum, o copy-paste ao browsing. Quase que não é preciso ler, ou não é preciso ler até ao fim. O excesso de facilidade, que se alia à rapidez e ao número gigantesco de possibilidades, impede uma hierarquização e uma escolha forte. Quod abundant nocet. A hierarquização é feita pelos motores de busca, e raras vezes se procura depois da primeira página, ou do artigo da Wikipedia, que a abre. A procura própria é muito pouca, não se caminha nunca no labirinto da informação, como se faz numa biblioteca na estante de referência, ou browsing na estante da poesia, abrindo um livro ou outro. Perde-se a experiência do caminho, a procura espacial, a imersão no meio, o dilema entre escolhas sedutoras, que só tempo lento (ou menos rápido) dá. A escolha tende a acompanhar a facilidade da procura e é por isso mais débil, menos resultado de um pensamento ou de uma leitura e mais da primeira coisa que se encontra e que "serve".
(Continua)
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A minha filha, que é uma vivaça espertalhona, faz um trabalho sobre qualquer coisa, todo bonito e enfeitado, quer em Word, quer em Power Point (geração Sócrates) cheio de efeitos especiais, cores, textos e youtubes só sentada ao computador. Muitos destes trabalhos são impressos, mas muitos vão na pen do MP3 para serem apresentados no computador da escola. Eu sinto-me impotente para controlar ou encarrilar tanta eficiência em frente de um ecrã. A minha memória de fazer trabalhos é certamente muito diferente e muito mais morosa do que a realidade de hoje. No outro dia insistiu que queria imprimir um mapa da Grécia antiga que tinha visto num site qualquer, para estudar para o teste de História. Eu disse que não, que em casa há excelentes Atlas Históricos e que deveria consultá-los pois tinha a certeza de que são bons e bem feitos. Ah, mas eu queria riscá-los, ok, então fazes uma cópia e riscas. Enfim foi um interessante diálogo em que tentei que os textos e os dados em linha não fossem as únicas fontes para os seus trabalhos.
É uma cultura de copy-paste mais do que de print, entre outras coisas porque imprimir é mais caro e esta cultura vive num mundo potencialmente gratuito. Para além disso, o texto impresso é suposto ser lido fora do ecrã, o que também viola os hábitos. Por fim, a maioria das impressoras é boa para texto e má para imagem, em particular imagem a cores.
O uso dominante do copy-paste é para os trabalhos escolares. Muitos professores hoje marcam trabalhos "para serem feitos pela Internet". Um exemplo que já referi e a que assisti: escrever os números em inglês de 1 a 50. Com o copy-paste demorou meia dúzia de segundos, e, com o print, estava feito o trabalho de casa. A adolescente do 6º ano fez o trabalho, com proficiência no uso do copy-paste, no computador de uma biblioteca e ficou a saber rigorosamente o mesmo sobre como se escreviam os números em inglês. A escola e a biblioteca, as duas instituições que era suposto irem mais longe, do copy-paste para o acto de aprender, assistem como espectadoras ou porque não sabem, ou porque não querem, ou porque não podem.
Outro uso frequente do copy-paste, mas criativo, é a utilização de imagens, músicas, videos, frases e textos alheios, tal como estão ou remisturados, em particular em blogues. A facilidade do copy-paste permite uma construção de identidade a partir da citação que é também uma apropriação. Aqui o copy-paste apenas dá uma nova instrumentação tecnológica a um mecanismo mais antigo - falar com as palavras dos outros, para dizer melhor aquilo que queremos dizer.
A "cultura de blogue" aplica-se a uma geração que segue os "assuntos correntes" pelos blogues, e que apenas a complementa por sítios na Rede que fornecem informação mais estruturada para interesses específicos (por exemplo, sobre futebol, sobre sexo).
Seguindo os "assuntos correntes" pelos blogues, secundariamente pela televisão, e só depois e nalguns casos, pelos jornais, a agenda resulta muito diferente: é mais conflitual, e tende a criar um mecanismo de arregimentação e pertença, nem que seja a grupos de blogues "amigos". A tribalização da blogosfera é prévia à dos seus leitores, mas fomenta militantismo e causas e é mais eficaz para posições mais extremas do que para o "meio" moderado. Lendo o actual debate sobre o aborto na blogosfera ele é frontalmente adversarial, um contínuo Prós e Contras, mais agressivo do que os debates televisivos e não tendo zona neutra. Quem se forma numa "cultura de blogues" tende a achar normal a radicalização dos debates e a acentuar paixões tribais e clubísticas, mas também tende a ser mais mobilizado por causas públicas. Este sentimento de envolvimento é tanto maior quanto certos mecanismos (como as caixas de comentários) geram uma ilusão de participação igualitária.
A actual campanha publicitária do Público é interessante porque parece voltada em parte para esse público da "cultura de blogue", apelando às suas referências culturais, para o trazer para a imprensa escrita em papel, o que é uma contradição nos seus termos. A contradição tem a ver com o facto dessa "cultura" ser estruturante e dos seus hábitos não serem "em papel". Não só os hábitos não são "em papel", mas sim no ecrã, como a forma de ler em volume e em profundidade (do hipertexto) é diferente da forma de ler em superfície e sequência (dos textos em papel, dos livros). Os hábitos são também mais de "ver" ( e de "ouvir") do que de "ler", o que explica o sucesso do YouTube como percursor de uma Rede em que se vai "ver" mais do que "ler".
Por isso, a campanha de publicidade resultará mais naqueles que chegaram a uma "cultura da Rede" mais do que a uma "cultura de blogue", ou seja, que não foram feitos "dentro" da "cultura de blogue", mas que ajudaram a fazê-la. Gente mais velha, com os pés em ambas as literacias, as do livro e jornal clássicos e as da Rede. Se foram estas as pessoas que deixaram de ler jornais pela décalage de interesses mais do que pelo facto de serem em papel, a campanha (e presumo que o jornal) terá sucesso, porque fará um produto mais próximo da sua agenda de interesses.
Os que já foram moldados pelos hábitos da Rede, os que se habituaram (como muitos adolescentes a chegarem ou nos primeiros anos na universidade) a olhar para o mundo no modo pick and choose típico dos blogues, nunca mais lerão em papel como se lia antes e não há campanha publicitária que os agarre. Vamos ver.
Vão começar a chegar à universidade, os primeiros produtos daquilo que se pode chamar a "cultura de blogue", embora outras designações correntes como a da “geração YouTube” também sirvam. No caso português, até porque a banda larga é ainda recente e cara, o blogue é a referência mais estruturada, que se sobrepõe à "cultura prática Kazaa" e à "cultura copy-paste", que começa a dominar do ensino básico em diante. Já vi no passado chegarem à universidade outras variantes destas "culturas" formacionais, educativas, que moldam a relação com o saber, que são literacias, vindas quer da escola, quer do "meio" juvenil. Um exemplo, a "cultura da oralidade" no ensino, quando anos de pedagogias não-directivas e de "ensino sedutor" criaram gerações de alunos que estavam habituados a passar as aulas a falar com os professores. Estes era suposto organizarem as suas aulas para os "seduzir" a aprender (era isso que lhes era ensinado nos "estágios pedagógicos") e os alunos tinham imensa dificuldade em sair da conversa para ler e muito maior para escrever, tarefas forçadas, não-sedutoras.
(Continua)
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Diz a certa altura : "Vão começar a chegar à universidade, os primeiros produtos daquilo que se pode chamar a "cultura de blogue", embora outras designações correntes como a da "geração YouTube" também sirvam. "
Permita-me discordar, com a minha experiência pessoal. A dita geração que diz que vai chegar às universidades, já lá está. Pelo menos pela experiência que tenho. Quase todos os colegas que tenho têm um blogue, ou mais. Mas esse não é o ponto mais curioso, é a forma como usam a blogosfera na prática universitária. Blogues criados especialmente para as sub-turmas para partilhas de informação para as diferentes disciplinas, para troca de casos práticos, para avisos dos professores aos restantes colegas, etc.
Professores que criam blogues para colocar trabahos para os alunos fazerem, apontamentos, casos para resolverem em casa, exemplos de testes para treino em casa, onde colocam as notas de avaliação contínua, dos testes.
Blogues criados para se fazer campanhas para as associções de estudantes, para se criticar o que de mal se passa na faculdade e o que de bom por lá se faz. Posso dar muitos exemplos, mas acho que estes chegam para provar que a cultura do Blogue já está enraizada na vida universitária.
(Eduardo Pinto Bernardo, Aluno da Faculdade de Direito de Lisboa)
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Eu, que aprendi a ler com o velhinho Diário Popular - recebido diariamente e gratuito (bons tempos) pelo meu pai, correspondente de aldeia, sou um dependente de jornais e no entanto, nos últimos tempos, tornei-me um viajante da blogosfera. Sem encontrar incompatibilidades entre estas duas formas de ligação, sinto, no entanto, que a dependências por blogues nunca será igual à que tenho por jornais. A minha convivência, já longa, com os segundos e a dificuldade (incapacidade?) de me embrenhar em textos longos nos primeiros, será sem dúvida, a razão de tal diversa aditividade. Os dois mundos (para simplificar: jornais/blogues) assentam em plataformas comunicacionais tão diversas que se torna bastante difícil compará-los. A interactividade, no universo da blogosfera, entre "eu"/ "mundo" e "blogue/blogue", constituem uma realidade nova que não tem equivalência no "velho" mundo da comunicação social.
A sua reflexão (no Público?) há uns tempos atrás entre a variedade de órgãos de comunicação social que podemos encontrar numa "banca de jornais" e a paleta blogosférica, parece-me muito mais interessante. A seriedade, o ecletismo, a temática, a estética, a objectividade e o objectivo ou os interesses, aqui sim comparáveis, serão sem dúvida um dos grandes temas da comunicação social dos próximos tempos. A Antropologia ( como não podia deixar de ser!) se encarregará de o mostrar.