NUNCA É TARDE PARA APRENDER: A BIBLIOTECA DE HITLER
Ambrus Miskolczy, Hitler's Library
Não se sabe muito bem que livros Hitler leu e tinha na sua biblioteca. Apenas uma parte foi recuperada numa mina de sal perto de Berchtesgaden. Outra, sabe-se que se perdeu com a destruição da Chancelaria do Reich. Os livros que sobraram estão na secção de livros raros da Biblioteca do Congresso numa colecção em que estão misturadas várias bibliotecas privadas de altos dignitários nazis. Alguns dos livros têm o ex-libris de Hitler e anotações que lhe podem ser atribuídas, mas são muito poucos aqueles de que há a certeza de ter lido completamente, ou folheado com atenção. Mas o conjunto da biblioteca tem um aspecto interessante: a grande quantidade de obras pseudo-científicas e de ocultismo. Este aspecto do interesse de Hitler e de outros dirigentes nazis pelo oculto é bem conhecido mas, quando se vê à distância a lista dos seus livros, impressiona a mescla indiscriminada de panfletos, bizarras teorias alternativas, opúsculos de absurdas teorias sobre história, psicologia humana, medicina, e, acima de tudo, a raça. Ora, esta biblioteca, típica de uma certa forma de autodidactismo básico, foi feita no preciso momento em que o cientismo progressivista era dominante e a ciência ganhava um fôlego especial com a obra de Darwin, Einstein, a física quântica, a genética mendeliana, quase todas as grandes teorias que sustentam a ciência contemporânea. Esta sub-literatura, afim das teorias da conspiração actuais, era lida por pessoas que não tinham muita formação e escolaridade, mas que queriam ter a "ciência" do seu lado, uma "ciência" que não precisava de ser muito complexa e era uma projecção da sua vontade e ideias sobre sociedade e cultura.
O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: O PROBLEMA É DE OUTRA NATUREZA
Em comunicado oficial do Conselho de Ministros de 19 de Outubro, publicado no Portal do Governo (uma página meio informativa meio propagandística da acção governativa), foi anunciada a aprovação do novo Estatuto do Gestor Público e da nova Lei Orgânica do Banco de Portugal.
Relativamente ao primeiro diploma, escreve o comunicado: "Eliminam-se as regalias e benefícios respeitantes a planos complementares de reforma". Quanto ao segundo, destaca-se "a previsão expressa de que aos membros do conselho de administração do Banco de Portugal [passará a ser] subsidiariamente aplicável o regime previsto no Regulamento do Gestor Público em tudo o que não for previsto na Lei Orgânica do Banco de Portugal".
Mais papistas do que o Papa, os telejornais da RTP de anteontem à noite e de ontem de manhã (pelo menos - não vi os outros) proclamam eufóricos: "Governo acaba com as reformas milionárias no Banco de Portugal". Serão necessárias palavras adicionais? Será necessário explicar aos jornalistas da RTP que a expressão "reformas milionárias" - com a sua carga não neutra e manifestamente qualificativa - não é do universo da informação, mas do universo da propaganda?
Será necessário explicar-lhes que o valor das pensões de reforma é indexado ao valor das remunerações auferidas e que, no caso dos administradores do Banco de Portugal (com salários necessariamente elevados, por força das responsabilidades assumidas), não foi nunca o valor da suas reformas que esteve em causa, mas os critérios excepcionalmente ligeiros da constituição do respectivo direito?
Não, não vale. Nenhum jornalista estagiário ignora estas evidências. O problema é de outra natureza.
(António Cardoso da Conceição)
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Se me é permitida a resposta a José "Von" Barata, esclareceria que o meu comentário inicial era sobre a informação na RTP e não sobre as remunerações dos administradores do Banco Portugal. Acresce que o seu comentário ao meu enferma da corrente falácia conhecida como do "Modus Ponens". Eu disse que, pela responsabilidade que tem, um administrador do Banco de Portugal tem obrigatoriamente que auferir uma remuneração elevada. Não disse nunca que, a contrario, outras cargos e funções devem ser baixamente remunerados. Não me pronunciei sobre o assunto.
(António Cardoso da Conceição)
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Julgo que seria muito pedagógico se todos os anúncios oficiais de «fim dos privilégios e mordomias de (...)» incluíssem uma pequena nota de rodapé dizendo, no essencial: «Esta disposição destina-se a acabar com a actual injustiça, da responsabilidade do Sr. Ministro (...), no ano (...), em que era Primeiro Ministro (...)».
(C. Medina Ribeiro)
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Se por força das tarefas essenciais à vida quotidiana os empregados da recolha do lixo, os enfermeiros das urgências hospitalares ou os condutores de transportes públicos exigissem salários excepcionalmente elevados e consequentemente reformas indexadas a essas remunerações? Ou a responsabilidade assumida na limpeza, na saúde e no transporte dos cidadãos não tem a mesma importância que a administração bancária?
PARA SE COMPREENDER O PORTUGAL DE SALAZAR E O PORTUGAL QUE FEZ SALAZAR 8
Do boletim confidencial dactilografado da Direcção Geral dos Serviços de Censura à Imprensa - Boletim Diário de Registo e Justificação dos Cortes, secção "Propaganda e combate", de 29 de Junho de 1935:
EARLY MORNING BLOGS 860 - Peter, who was very naughty
Once upon a time there were four little Rabbits, and their names were -- Flopsy, ---....Mopsy, ------.....Cotton-tail, -----------..and Peter.
They lived with their Mother in a sand-bank, underneath the root of a very big fir-tree.
"Now, my dears," said old Mrs. Rabbit one morning, "you may go into the fields or down the lane, but don't go into Mr. McGregor's garden: your Father had an accident there; he was put in a pie by Mrs. McGregor." "Now run along, and don't get into mischief. I am going out."
Then old Mrs. Rabbit took a basket and her umbrella, and went through the wood to the baker's. She bought a loaf of brown bread and five currant buns. Flopsy, Mopsy, and Cotton-tail, who were good little bunnies, went down the lane to gather blackberries;
But Peter, who was very naughty, ran straight away to Mr. McGregor's garden, and squeezed under the gate!
PARA SE COMPREENDER O PORTUGAL DE SALAZAR E O PORTUGAL QUE FEZ SALAZAR 7
Do boletim confidencial dactilografado da Direcção Geral dos Serviços de Censura à Imprensa - Boletim Diário de Registo e Justificação dos Cortes, secção "Questões não classificadas", de 25 de Junho de 1935:
LENDO VENDO OUVINDO ÁTOMOS E BITS de 20 de Outubro de 2006 No Público de hoje dizia Francisco Alves, o director da "Rivolução": "Fomos tratados de forma pidesca, com requintes de desumanidade. Mas se somos os perigosos delinquentes que nos querem fazer parecer, por que é que fizeram isto às 6h00 da manhã, nas costas da opinião pública e dos jornalistas?". Uma daquelas frases que dizem tudo: primeiro, que não sabem o que foi a PIDE; segundo, que não sabem o que é uma "desumanidade"; terceiro, que o que lhes correu mal foi não estar lá a televisão nem os jornalistas para mostrarem as suas qualidades de actores. As duas primeiras, revelam mau teatro, um branqueamento da PIDE insultuoso para quem sabe o que é a "forma pidesca" de tratar alguém. A terceira, a obsessão pela visibilidade televisiva como maneira de transpor o enorme fracasso de adesão à causa que torna irónicas todas as alusões à "opinião pública". Mas há um agradecimento a fazer ao Teatro Plástico: deram o pior golpe à "cultura" subsidiada de que me recordo nos últimos tempos. A "opinião pública" felizmente percebeu-os.
Já que não há revolução, o Bloco de Esquerda dedica-se à "Rivolição", a ocupação do Rivoli no Porto, por um grupo de "artistas" ligados ao Teatro Plástico, contra a "privatização" da sala.
[À data em que escrevo, a situação é a seguinte: os do Plástico permanecem dentro do teatro, pouco mais do que 20 pessoas, e cá fora, após apelos sucessivos e apesar da grande cobertura televisiva, estão mais umas dezenas, não chegando o total a cerca de 50. O número de pessoas é escassíssimo. Num comunicado pungente, como se estivessem em prisão maior, e cercados por um exército, os ocupantes do Plástico comunicaram que estão impedidos de "comunicar" por uma porta de vidro e que o ar condicionado foi posto no frio, uma violência inominável do "sr. Rui Rio". O município colocou um processo-crime por ocupação ilegal de instalação, que já obrigou a mudar um concerto de beneficiência para a Casa da Música. À data em que escrevo, uma série de notícias contraditórias refere ou a possibilidade de a ministra da Cultura visitar os ocupantes ou pelo menos recebê-los, tendo a própria já feito declarações públicas de apoio inequívoco que, vindas de um membro dum governo democrático, são pelo menos completamente absurdas. Aconteça o que acontecer, o que já se está a passar permite discutir o significado da "Rivolução" muito para além das peripécias folclóricas da sua dúzia de intervenientes. No entanto, tendo em conta que isto é muito volátil, pode tudo estar mudado quando o artigo sair.]
[NOTA: Sobre as incongruências, contradições, ditos. desditos e não-ditos da Ministra da Cultura ver BLOGUITICA.]
Há nesta "Rivolução" várias coisas que têm a ver com a política local, mas que reflectem problemas da relação entre a cultura e o Estado. No Porto é pior, mas no resto do país é o mesmo com outra dimensão. Os "rivoltosos" representam uma face visível da orfandade que no Porto atingiu uma pequena multidão de "agentes culturais" a quem o Porto, Capital da Cultura e a política "cultural" da municipalidade socialista tinha enchido de dinheiro, subsídios e "prestígio". Essa orfandade atinge uma elite cultural subsidiada numerosa, que alimenta uma nostalgia activa dos bons velhos tempos do binómio futebol-"cultura" de Fernando Gomes. Milhões de euros foram gastos em animação "cultural" nos anos fartos e agora, como veio um tempo de vacas magras e um rebound com a gestão severa de Rui Rio, o autarca "contabilista" que privilegia as despesas sociais, temos a "Rivolução". Repito mais uma vez aquilo que devia ser uma evidência e é uma ocultação: hoje, a "cultura" é o meio mais eficaz para obter propaganda. Desde Malraux e da sua reencarnação em Lang, os governantes mais iluminados perceberam que, investindo na "cultura", essencialmente na "animação cultural", obtêm boa imprensa, legitimidade, figuras de cartaz e "nome". É caro, mas é eficaz, porque tem a enorme vantagem de proteger a propaganda com a intangibilidade da "cultura", que ninguém contesta nem discute, porque a criatividade está acima do debate vulgar da política. Foi esta a política de Santana Lopes, com o teatro e a de Carrilho com as "vanguardas", variando nas clientelas e nos gostos, mas obtendo uma corte fiel e agradecida, sempre disponível para dar o nome e a face em campanhas. Viu-se na campanha das legislativas de Santana Lopes e na autárquica de Carrilho.
No Porto, como em Lisboa e um pouco por todo o lado, à medida que o Estado se foi tornando mecenas, depois produtor-empregador e, por fim, criativo-empregador, foram destruídas todas as iniciativas autónomas, que não eram dependentes dos subsídios, mas sim do interesse do público ou da actividade empresarial no sector. Abra-se um jornal da década anterior ao 25 de Abril e veja-se a página de espectáculos, cinema e teatro, para se perceber a diferença radical. No Porto, nos últimos 20 anos antes do 25 de Abril, o "povo" dispunha de espectáculos de teatro, quer "sério", quer de revista, com a vinda regular das companhias de teatro de Lisboa ao Rivoli e ao Sá da Bandeira. Mais raramente havia ópera, é certo que óperas mais "fáceis" como O Barbeiro de Sevilha, o Rigoletto ou a Cavalaria Rusticana, mas era ópera e os espectáculos conheciam enchentes. A maioria destas iniciativas era de empresários do teatro e a presença do Estado fazia-se sentir essencialmente através da FNAT e da Emissora Nacional que organizavam espectáculos populares e baratos. Havia um défice face a Lisboa, mas não era o deserto que hoje se pensa.
As elites da cidade pagavam e podiam pagar, através de quotizações, preço dos bilhetes e de mecenato, toda uma rede de instituições culturais privadas: o Cineclube do Porto, a Juventude Musical, o Teatro Experimental, que estavam longe de ser únicas. Clubes como os Fenianos e o Ateneu patrocinavam actividades culturais. O TEP era um excelente exemplo de uma iniciativa portuense, apoiada por médicos, empresários, comerciantes, advogados e arquitectos, com o melhor reportório contemporâneo e clássico. Tinha encenadores profissionais e actores profissionais e, desde a Morte de Um Caixeiro Viajante de Miller à Yerma de Lorca, do Morgado de Fafe Amoroso de Camilo a Quem Tem Medo de Virginia Wolf de Albee, tudo por lá passou.
Muitas destas iniciativas, o TEP, o Cineclube, por exemplo tinham a ver com gente da oposição e conheciam perseguições da censura e da polícia, que nunca foram capazes de os matar. Foi após o 25 de Abril que desapareceram, ficando apenas uma Árvore em crise, como sobrevivência deste mundo cultural autónomo e que existia quase sem subsídios. O mundo mudou e hoje este modelo revela-se incapaz de suportar consumos culturais mais democratizados e públicos mais vastos? Duvido, duvido muito que seja esta a maneira correcta de colocar a questão que se destina a justificar o que existe... porque existe.
Os partidários da "Rivolução" explicam a sua iniciativa num dos textos mais significativos do modo como a "cultura" subsidiada se vê a si própria:
"- Que nos sejam dadas garantias de que o Rivoli - Teatro Municipal não será gerido e programado em função da maior ou menor rentabilidade dos objectos que aqui se produzem e/ou difundem, da submissão declarada ou velada aos interesses e desígnios do executivo da CMP, da visibilidade mediática, da pretensa acessibilidade;
- Que nos sejam dadas garantias de que os núcleos de produção da cidade do Porto, emtodos os domínios da criação, terão acesso e lugar no seu teatro municipal, sem prévia censura política e segundo critérios que visem tão-só a manutenção de uma programação de qualidade, isto é - de objectos exigentes para consigo mesmos e para comopúblico a que se destinam;
- Que nos sejam dadas garantias de que a direcção do Rivoli - Teatro Municipal pugnará pela formação contínua do público, desenvolvendo, de todas as maneiras e por todos os meios, acções que visem transformar em bens comuns os objectos produzidos e/ou difundidos na e pela casa, seguindo nomeadamente o singelo critério de que um produto artístico, é um objecto que confronta o seu destinatário com o inesperado, o inaudito, o alargar dos horizontes, o derrubar das fronteiras do possível."
[NOTA: transcrevo aqui uma parte maior do texto que por razôes de espaço não foi incluída no Pùblico. Os textos originais e fotografias aqui reproduzidos estão no blogue No Teatro Rivoli.]
O objectivo deste caderno reivindicativo não é protestar contra qualquer censura existente - é impedir a gestão privada do Rivoli para assegurar que o dinheiro público flua sem custo nem critério, garantir emprego e subsídios sem que nunca ninguém se atreva a contestar a sua qualidade "artística" e os seus resultados e, muito menos, o terem ou não espectadores. Isso só o próprio Teatro Plástico pode julgar, porque "uma programação de qualidade" dá origem a "objectos exigentes para consigo mesmos e para com o público a que se destinam". Reparem no preciosismo que mostra como esta gente sabe muito bem o que está a dizer: não é o público, mas "o público a que se destinam", ou seja, outros grandes artistas com a dimensão estética dos membros do Teatro Plástico.
O Teatro Plástico acaba de apresentar uma semana de "objectos", deliciosa linguagem, no Rivoli com uma média de 30 espectadores, numa sala que custa 11 milhões de euros ao município e cujas receitas de bilheteira pagam apenas 6 por cento dos custos. No caso do Teatro Plástico nem isso. O Teatro Plástico duvida muito justamente que o operador que ganhar o concurso para gerir a programação do Rivoli aceite pagar estes custos fabulosos e quererá "gerir (...) em função da maior (...) rentabilidade dos objectos", não sendo indiferente à "pretensa acessibilidade" que, com toda arrogância do mundo, o Plástico não quer que seja tida em conta.
[Um exemplo típico da estética e do gosto dos "ocupantes" pode encontrar-se neste "poema"
Amigo OCUPANTE de fora Tu que sorris tão-só e passas, desaparecendo noutra multidão Tu que ficaste a casa a tomar conta das horas que passam Tu que te quedas a falar como se o mundo parasse à nossa porta Tu que trazes a família a passear e todos aproveitam para um banho de luta Tu que passas maçãs pelas grades e de paraíso nos alimentas Tu que ainda não nos percebeste mas queres a todo o custo perceber Tu que bebeste à nossa saúde e assim nos embriagaste à distância Tu que tinhas a barriga maior que os olhos e a ofereceste para nos carregar Tu a quem o trabalho humilha e nos deste tuas poucas horas de ócio Tu que trouxeste a bandeira no bolso e a trocaste por duas horas de troca Tu que nem tanto ao mar nem tanto à terra e agora somente tempestade Tu que vento semeias e vento colhes para que o ar se respire Tu que saíste aperaltada e voltaste desfeita como que acabada de nascer Tu que vieste ao engano e voltaste mais verdadeiro Tu que trouxeste as tuas sobras de esperança e eram um banquete Tu que quiseste a noite branca e de manhã choravas por mais Tu que em vale de lençóis nos concedeste vidas nunca vividas Tu e tu e tu e tu e tu e tu e tu e tu e tu e tu e tu e tu Ocupa a rua como nós ocupámos este nosso teatro Pinta a manta e a macaca pinta a negro pinta o sete pinta-te a ti e aos outros Canta para o mal espantar para acordar animar embalar protestar discordar Toca o sino e a trompete toca tambor clarinete toca a caixa e troca o mundo Dança a roda dança a salsa dança o tango dança a valsa baila gira salta pula Faz figas e faz de conta faz a sério ou a brincar faz mais para o mundo mudar Troca tintas troca passos troca cartas troca abraços troca cromos e heróis E, pelo meio, vem até trocar umas ideias, impressões, sensações connosco Até já, até sempre O Grupo de Ocupantes do Rivoli Teatro Municipal. ]
O problema de tudo isto tem a ver com o completo divórcio entre a "cultura" subsidiada e o público, que gera um establishment cultural de muito má qualidade, caro e solipsista, que existe apenas para si próprio e fora de quaisquer critérios que avaliem o uso de dinheiros públicos. Sem crítica, que não existe, e sem público, a quem estes "objectos" nada dizem, a grupos como o Plástico resta apenas o espectáculo tonitruante da defesa do subsídio contra o papão dos ignaros "privados", através de acções para as televisões, a forma moderna de fanfarra. Estão a defender o seu, exigindo continuara a gastar o nosso. Mas não é isso a "rivolução dos nossos dias?
Retratos do trabalho de remoção de um camião acidentado na A3 (ao quilómetro 15). Foi hoje à tarde, por volta das 4 horas. O trânsito foi cortado naquela auto-estrada no sentido Porto Braga. O Porto, com isto e com a chuva que resolveu cair, tornou-se (mais) caótico!
LENDO VENDO OUVINDO ÁTOMOS E BITS de 19 de Outubro de 2006
A única coisa a que assisti na "Rivolução" que, de perto ou de longe, tem a ver com a arte dramática foi o "teatro" que o director do Plástico fez após a expulsão dos ocupantes pela polícia. Ele era a "brutal carga policial", ele era ser acordado por "lanternas", ele era, acima de tudo, essa enorme violência disto ser feito às seis da manhã, sem ser diante das câmaras de televisão.
PARA SE COMPREENDER O PORTUGAL DE SALAZAR E O PORTUGAL QUE FEZ SALAZAR 6
Do boletim confidencial dactilografado da Direcção Geral dos Serviços de Censura à Imprensa - Boletim Diário de Registo e Justificação dos Cortes, secção "Questões de ordem moral", de 22 de Junho de 1935:
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O comentário é um pouco lateral ao lado sociológico da análise que o Boletim Diário de Registo e Justificação dos Cortes pode suscitar.
Deixo apenas a impressão de que, sem censura, a imprensa durante o Estado Novo não seria muito diferente da dos nossos dias. Crime, trocadilhos brejeiros, ataques pessoais, exploração das desgraças alheias (das classes baixas)... a paleta completa.
Não quero com isto concluir que antigamente é que era bom. Leva-me é a concluir que a imprensa livre é mesmo assim e gerará sempre produtos tabloid, para os quais existirá sempre um público fiel, não necessariamente, em meu entender, das classes mais desfavorecidas.
O problema não reside na relação imprensa livre vs censura, mas antes na imprensa livre vs manipulável, ou de uma forma mais geral, informação vs marketing.
Num ambiente informativo com censura podemos sempre acreditar que nos estão a contar a verdade embora seja de elementar bom senso considerar, que a mesma é, no mínimo parcial (se quisermos é a verdade oficial no sentido burocrático do termo). Mas o mesmo é verdade quando existe liberdade para se publicar tudo e mais alguma coisa. Mais do que em âmbiente censurado, a informação livre exige escrutínio público, qualidade de serviço e crítica sistemática.
Ora aquilo que mais me chateia nos jornalistas em Portugal é terem assumido e interiorizado a impossibilidade de serem objecto de critica, sob o argumento de que sempre que se critica um jornalista se está a exercer censura, o que não é de todo verdade. É neste ambiente de inimputabilidade que cresce o marketing e definha a informação, visto nele ser possível fazer passar a mais escandalosa propaganda por rigor, objectividade e isenção.
Tal como na política, na guerra, na justiça, em relação aos políticos, generais e juízes, também a informação pública é um assunto demasiado sério para ser deixado nas mãos dos jornalistas.
EARLY MORNING BLOGS 888 - .... never once considering how in the world she was to get out again.
Alice was beginning to get very tired of sitting by her sister on the bank, and of having nothing to do: once or twice she had peeped into the book her sister was reading, but it had no pictures or conversations in it, 'and what is the use of a book,' thought Alice 'without pictures or conversation?'
So she was considering in her own mind (as well as she could, for the hot day made her feel very sleepy and stupid), whether the pleasure of making a daisy-chain would be worth the trouble of getting up and picking the daisies, when suddenly a White Rabbit with pink eyes ran close by her.
There was nothing so very remarkable in that; nor did Alice think it so very much out of the way to hear the Rabbit say to itself, 'Oh dear! Oh dear! I shall be late!' (when she thought it over afterwards, it occurred to her that she ought to have wondered at this, but at the time it all seemed quite natural); but when the Rabbit actually took a watch out of its waistcoat-pocket, and looked at it, and then hurried on, Alice started to her feet, for it flashed across her mind that she had never before seen a rabbit with either a waistcoat-pocket, or a watch to take out of it, and burning with curiosity, she ran across the field after it, and fortunately was just in time to see it pop down a large rabbit-hole under the hedge.
In another moment down went Alice after it, never once considering how in the world she was to get out again.
LENDO VENDO OUVINDO ÁTOMOS E BITS de 17 de Outubro de 2006
Hoje vai ser um dia muito interessante para perceber a governamentalização da RTP. Eles sabem que eu sei que eles sabem que é assim.
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A experiência do blogue do Público sobre os eventos do Rivoli é interessante de seguir, não só pelo ineditismo nacional, como pelos problemas que suscita a sua elaboração e manutenção. Parecia-me evidente, como o devia ser para quem conhece o modo como funciona a rede e os blogues, que a fórmula inicial de entrada livre sem moderação ia dar torto. Passada uma noite, foi o que se verificou e o blogue teve que mudar as regras. Só que eu leio o comunicado do Director do Público.pt e fico sem perceber quais são as novas regras:
"De forma a facilitar a leitura da situação foram criados dois “utilizadores virtuais”: um chamado Dentro do Rivoli, que se pretendia que reunisse as posições dos ocupantes do Teatro (ainda que cada post devesse ter, além dessa assinatura, uma identificação individual) e outro “utilizador virtual” chamado Fora do Rivoli, que deveria reunir as posições do público em geral.
A vantagem de criar identidades virtuais como estas e de lhes dar privilégios de membro do blog é a visibilidade dos posts – ao invés dos comentários, que apenas estão acessíveis se se clicar num link.
A desvantagem é que, ao conceder esses privilégios, se concede também a esse “utilizador virtual” a capacidade de alterar os “seus” posts – entenda-se: posts do mesmo “utilizador virtual”, que podem ser de facto de um outro utilizador individual.
Quisemos experimentar o sistema para garantir a visibilidade das mensagens de todos e por uma questão de equidade, apesar dos seus riscos, mas o que podia acontecer aconteceu: houve posts apagados ou alterados por utilizadores menos escrupulosos e com menor sentido da intervenção cívica e do debate público.
Decidimos assim anular o utilizador “Fora do Rivoli” e permitir aos visitantes deste blog apenas o recurso ao comentário dos posts de outrem."
Quem é o "outrem"? Eu compreendo que do ponto de vista jornalístico o que escrevem os de "dentro" é mais importante para a construção da notícia do que o que escrevem os de "fora", mas num blogue essa hierarquia não tem sentido, tanto mais que o blogue não tem origem nos de "dentro". Até por suscitar estas questões, a experiência é interessante: saber se o blogue de um jornal se comporta como um verdadeiro blogue ou como um instrumento para "pescar" notícias para o jornal, o que aliás é perfeitamente legítimo.
Já agora, ninguém sugeriu no Público que se fizesse um blogue para cobrir a manifestação de setenta mil pessoas que atravessou Lisboa, ou a greve dos professores em curso, eventos muito mais relevantes, embora menos "na moda", do que a "Rivolução"? E já agora não seria interessante saber que relações têm os ocupantes com a "cultura" subsidiada?
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Interessantíssima, a reportagem esta manhã da TSF: Dizia o locutor com aquele habitual ar de isenção mal disfarçado: “A Câmara do Porto já deu os primeiros sinais de intervenção: cortou a electricidade na zona do Rivoli.” E, na passada, sem reparar (?) no absurdo: “Outra medida foi a de ligar o ar condicionado no máximo, havendo alguns dos ocupantes do Rivoli já com sinais de constipação”. As novas tecnologias são fantásticas. O ar condicionado trabalha sem electricidade, e é telecomandado a partir da Câmara !
(Fernando Gomes da Costa)
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Estou boquiaberto com a invasão do Rivoli, designadamente com o destaque merecido; Mas não é só na imprensa, é no Abrupto. A ver se entendo... Pergunta e bem julgo eu, se um praticamente não evento com 40 pessoas teria tanto destaque se não fosse de maioria BE; por razões ao que me parece, ao nível de "tentar apanhar o comboio", "estar na linha da frente", "na vanguarda tecnológica", "na moda" e outras sabe-se lá quais, uma instituição como o Público, resolve lavrar uma coisa derivativa a que chamaram blogue. E acha que é uma novidade a saudar? Só se for por corporativismo blogosférico ou outro. Um blogue criado nestes moldes, sobre um assunto ao nível do traque, com aspecto e conteúdo a condizer, só se for para anedotário histórico da internet lusitana daqui a meia-dúzia de anos. E também não acho bem uma instituição como o Público, alojar blogues (?) no Blogger, um sinal mais que evidente de amadorismo atroz. Os responsáveis do Guardian, Times, International Herald Tribune, Washington Post, New York Times, El Mundo, Libération, Le Monde... acham o mesmo. O jornal português cria as obras no Blogger, às três pancadas, não se dando sequer ao trabalho de traduzir o "template" -- é uma vergonha. Dizer "um blog do Público.pt", não é sinal que tudo se deve perdoar, mas que tudo se deve exigir. Quanto ao ineditismo nacional e os problemas que suscita na sua elaboração(?) e manutenção, faz-me lembrar um blog, esse sim muito bom, chamado "Uninnovate". É que não se entende onde quer chegar, caro Dr. Pacheco Pereira. A ideia é má, o facto de ser do Público e se chamar "blogue" não faz dela boa, não compete com nada, concorre com coisa nenhuma e se não fosse o Abrupto, tinha dois visitantes, o "fora" e o "dentro".
(José Rui Fernandes)
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O Prós e Contras de ontem foi um programa de televisão notável, sobre o qual se poderia escrever um livro. Um livro sobre Portugal.
Breves notas sobre o debate que comentarei mais em detalhe noutro sítio: Por estranho que possa parecer, fruto também dos nossos preconceitos, os autarcas saíram-se muito melhor do que o Ministro António Costa, apoiado por Saldanha Sanches. Muito, muito melhor. A começar pelo que não se esperava que acontecesse: mostraram um grande domínio da realidade, um muito bom conhecimento dos mecanismos perversos da nova legislação, uma grande capacidade argumentativa e foram ... muito menos demagógicos do que o Ministro. António Costa foi de uma agressividade malcriada, roçando o insulto, autoritário e demagógico até ao limite. Fernando Ruas comportou-se com uma enorme delicadeza de trato face aos golpes baixos do Ministro, aos quais não era alheio um desprezo intelectual pelos seus interlocutores. E de "classe", diriam os marxistas, face a um Portugal a que ele claramente se acha superior. Por muito sofisticado que queira ser esqueceu-se de uma regra que funciona magnificamente em televisão: aqueles homens alguns rudes, outros tímidos, transmitiram muito melhor um sentimento de "dedicação" ao seu "povo" do que o governante, que se ria deles.
A maior parte das suas intervenções tem o toque do propagandista, a repetição até ao limite dos chavões de propaganda que ele quer fazer "passar". Confrontado com dados concretos, a começar pela acusação directa de ser responsável por casos de manipulação informativa, fugiu sempre incomodado, confirmando diante de todos a veracidade das acusações. Viu os seus números confrontados com acusações indesmentíveis, mas mesmo assim repetia-os sempre, de novo, para os fazer "passar". Esteve sempre a falar para fora, para a audiência, indiferente aos seus interlocutores que falavam para ele. Se isto se podia compreender em termos de eficácia propagandística, perdeu o efeito face ao autismo que revelava e, de novo, ao ostensivo desprezo pelos interlocutores.
Um desastre. O muito eficaz gabinete de imprensa de Costa vai ter que trabalhar muito para remediar os estragos.
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De há muito que sou seu ouvinte nas suas intervenções públicas, embora não me situo na sua área política e, muitas vezes estou em desacordo com as suas opiniões. Mas, o meu desacordo em relação ao texto que escreveu sobre o tema em epígrafe é de tal ordem que me leva a enviar-lhe estes comentários:
• Elogia o comportamento da maioria dos autarcas esquecendo que por diversas vezes a moderadora viu-se na necessidade de os repreender e chegou mesmo a ameaçá-los com a saída da sala.
• Do seu pondo de vista os representantes da Associação dos Municípios tiveram um comportamento muito qualificado defendendo muito concreta e correctamente os seus pontos de vista. A minha avaliação é completamente o oposto. Os autarcas limitaram-se a reproduzir um conjunto de acusações, receios e conjecturas, sem qualquer demonstração baseada em dados concretos que pudessem apoiar as suas afirmações.
• Pelo contrário, o Ministro António Costa apoiou a suas afirmações com dados, refutando sistematicamente as afirmações/acusações apresentadas pelos seus oponentes.
• Na verdade, a questão de fundo como diz Vital Moreira na Causa Nossa é a seguinte:
“Sempre que um sector profissional ou uma corporação se sentem ameaçados nos seus interesses por uma reforma, logo vem a ladaínha de que "as reformas só se podem fazer com os interessados". Trata-se, porém, de uma contradição nos termos. Como é que se pode implementar uma reforma "com os interessados", se a única coisa que os interessados querem é justamente manter o "status quo"!? É evidente que as mudanças que implicam perda de regalias ou privilégios só se podem fazer contra os interessados...”
(Carlos da Silva Simão)
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Para já digo que sou simpatizante do PS, mas não uso "freio" e sei ver quando as coisas correm mal (caso do ministro da Economia sobre o "fim da crise"). Mas realmente os assuntos, notícias ou debates podem provocar opiniões tão distantes entre quem as(os) analisa que custa a crer que estiveram a ver/ouvir o mesmo.
No frente a frente entre António Costa e Fernando Ruas, vi de um lado um governante que se preparou com dados concretos sobre a LFL, as muitas vantagens apresentadas e as poucas ou nenhumas desvantagens que encontra. É verdade, com alguma sobranceria, dirigiu-se aos paineleiros do lado contrário.
O certo, é que por parte do líder da ANMP, Fernando Ruas, muito poucos foram os argumentos válidos e demasiado os intuitos políticos e populares (populistas); os chavões do "enfrentar das populações diariamente" , de que os autarcas não eram mentecaptos quando uma esmagadora maioria está contra a LFL. Uma forma de vitimização que já não colhe, entre os que pensam um bocadinho.
De um lado, vi um ministro a afirmar que os autarcas, tal como o Estado central e os portugueses, estão a ser sujeitos a medidas muito restrivas. Um esforço a que os municípios não se querem juntar. Como foi bem dito, os municípios não reclamam mais autonomia. Querem sim continuar a depender do Orçamento de Estado para fazerem as obras necessárias e as acessórias, mas com mais dinheiro nos cofres.
Pena foi que o presidente da ANMP, agora a trepar paredes acima pela LFL que o Governo leva por diante, andasse praticamente mudo ao tempo da Dra. Ferreira Leite, quando começaram os primeiros cortes e a LFL começou a não ser cumprida. Assim se perde a credibilidade...seja qual for o político.
Quanto ao facto de o Dr. ter notado um desprezo intelectual do ministro pelos pelos seus interlocutores, não se esqueça das intervenções públicas que v/exa. costuma protagonizar. Lembra-se de alguma vez ter dado o braço a torcer? Que me recorde, nenhuma...
(Ricardo C.)
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Há anos que o vemos defender a necessidade de reformas no Estado para acabar com o desperdício, a inércia e a má utilização dos dinheiros públicos. É a sua conhecida posição crítica face ao Modelo Social Europeu que, desde o rendimento mínimo garantido português, até ao modelo assistencial dos banlieue de Paris, lhe têm servido para o fustigar. Diga-se em abono da verdade que, em coerência, sempre defendeu isto quer seja com governos do PS quer com governos do PSD. Há, todavia, nesta linha de pensamento doutrinário uma excepção que resulta sempre das suas análises - o Dr. António Costa, Ministro de Estado e da Administração Interna. De facto, quando se trata da análise de políticas públicas que são ou foram da competência de António Costa, o que lhe interessa assinalar nunca é o mérito ou o valor das mesmas, mas sempre um suposto elemento obscuro e sinistro que subjaz por detrás das mesmas. Senão vejamos: Se há utilização indevida de escutas telefónicas na investigação de crimes, a culpa é de António Costa que as moldou na Lei; Se há um combate mais eficaz aos incêndios, através de maior racionalidade e economia de meios, isso não interessa nada porque a responsabilidade, pelo melhor e pelo pior, é apenas da natureza; Se um presidente de câmara afirma, perante milhões de espectadores, que não está de acordo com a amortização obrigatória de dívidas que ele próprio contraiu, a si, o que interessa realçar, é o sorriso do ministro, "malandro, não sente a dedicação às populações"; Se António Costa dá ênfase e acentua a manutenção do mesmo volume de transferências financeiras do orçamento de Estado para as autarquias, o que está ali é apenas "arrogância e superioridade moral"; Se perante essa evidência os autarcas, ainda assim, ameaçam com cortes em serviços essenciais à população, tratam-se apenas e tão só notícias fabricadas pelo ministro e nem sequer uma palavra sobre chantagem e resgate do estado perante poderes fácticos (como tanto gosta de assinalar noutras ocasiões). E os exemplos são intermináveis! Apesar de ainda ser jovem, acompanho o seu pensamento há muitos anos, desde o tempo em que deu rosto a brilhantes análises políticas na última página do Jornal de Notícias do Porto, no início dos anos oitenta, passando pelos textos que, com João Carlos Espada, assinala a sua passagem do pensamento totalitário à democracia, às polémicas que estiveram na base do nascimento do Clube de Esquerda Liberal e por aí fora...Sempre me habituei a ver coerência no seu pensamento político, concordando uma vezes, discordando outras, mas sempre coerente. É por isso que como leitor e cidadão que lê e reflecte sobre o que diz e escreve, tenho o direito de perguntar porque é que quando se trata de António Costa as suas análises deixam de ser políticas e passam a ser uma espécie de "crónicas sociais da política". Dito de outro modo, porque é que quando se trata de António Costa em vez do José Pacheco Pereira de "1984 - A Esquerda Face ao Totalitarismo" nos aparece o Carlos Castro das "Crónicas de Mal Dizer"? É apenas embirração pessoal?
(João Paulo Pedrosa)
PS - gostava, embora sem esperança, que este comentário fosse publicado na habitual rubrica "o abrupto feito pelos seus leitores"
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O debate, de facto, não foi muito instrutivo… houve muito ruído de fundo, da plateia. Se calhar, talvez propositado, não sei. Em todo o caso, pareceu-me sintomático que o Presidente da ANM e o seu acompanhante de Ílhavo se tivessem mostrado muito agastados com as declarações de Saldanha Sanches sobre as … clientelas e as responsabilidades das autarquias decorrentes da cobrança de impostos. Já agora: as autarquias são as entidades que pagam menos emolumentos (relativamente a todas a outras) pelas auditorias do Tribunal de Contas! Porquê as queixas? Concordo consigo no que respeita à demagogia do Ministro … mas, e o que dizer do populismo de Macário Correia quanto ao facto de estar ali (no estúdio, em Lisboa) à uma e tal da manhã e, no dia seguinte, ter de estar às nove horas na CM a atender as pessoas…desde quando os Presidentes de Câmara atendem pessoas directamente às nove da manhã? Confesso que não tenho a certeza sobre quem tem razão, embora me incline (espero não cair) para o lado da proposta do Governo Não me esqueço, de resto, do seu combate a favor da transparência dos cargos políticos e da independência dos titulares de lugares políticos (recordo os tempos a seguir a Cavaco Silva e ao seu combate com Fernando Nogueira), sobretudo da forma como V. defendia essa independência. Ainda hoje a subscrevo, apesar de não ser eleitor do seu Partido. Devo dizer-lhe, aliás, que tenho da gestão do seu amigo Rui Rio uma opinião favorável; desde logo, por uma posição de resistência aos lobby (escrevo à antiga) do futebol, no primeiro mandato; depois, como se tem visto nas últimas horas, em relação aos Okupas do Rivoli… e não só. Devo esclarecer que não sou eleitor do PSD, mas que me preocupo com o estado do País e, principalmente, com as manobras comunicacionais do Poder…
(Pedro Pimentel)
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Sou um seu leitor e ouvidor regular e penso que atento. Como imaginará umas vezes discordo das susa opiniões outras vezes concordo. Esta sua crónica sobre o ministro António Costa no "Prós e Contras" veio confirmar uma sensação que se vem arrastando há já algum tempo, quando o leio ou ouço. Passo a explicar essa sensação . é a de que o Pacheco Pereira está a ficar muito "preso" crítica da forma não se pronunciando sobre o conteúdo. Falando só deste caso gostaria ( ou estaria mais interessado ) em saber se está de acordo com a a proposta de lei da Finanaças Locais. Se ela melhora ou não a actual situação. E se não...quais são as suas sugestões ? A sensação ( mais uma !) que tenho sobre os actuais debates sobre as prpostas governamentais ( todas ou quase ) é de que : 1º - Todos estão de acordo que a situação ( no ensino, na justiça, nas autarquias, etc, etc ) está mal. 2º - Todos ( aqui diria quase ! 9 estão de acordo que é preciso reformar e mudar um certo número de coisas. 3º - Mas quando se vai mudar...está quieto ó mau ! Mais vale ficar quietinho. Ou então o ministro (a) A ou B está a ser bruto e mal educado !!!
Sei que é um espírito reformador e que denuncia muitas situações que outros não têm a capacidade ou a coragem para denunciar, mas ( há sempre um mas ) quando chega a hora de agir parece-me que está a ficar "preso de movimentos" !
Possivelmente conhecerá a famosa frase muito usada no mundo da gestão empresarial : " Pior que uma má decisão é nenhuma decisão ! "
E termino contando uma história que se passou comigo quando trabalhava numa empresa americana de consultadoria de redução de custos. A companhia tinha uma série se SOP ( System Operating Procedures ), ou seja de regras operacionais que eram explicitadas a cada consultor no momento da admissão ( e davam-nos depois a respectiva versão impressa ). Nas reuniões da empresa e sempre que o Presidente estava presente havia muitos de nós que se "revoltavam" contra muitos dos SOP's. Ao que o Presidente dizia sempre : " Meus caros ainda bem que têm ideias novas. Fico à espera que sistematizem as vossas sugestões e me proponham as alterações desejadas. Até lá continuam em vigor as actuais SOP !" Nos 4 anos que lá trabalhei nunca ninguém acabou por apresentar novos procedimentos.
Na actual situação política do país parece que alguém começou a apresentar novos procedimentos ( eventualmente insuficientes, eventualmente com erros e defeitos ) e vai daí é ver e ouvir a oposição ( partidos e sindicatos ) a gritarem : Vá estejam quietos ! Não se altere nada !!!
PARA SE COMPREENDER O PORTUGAL DE SALAZAR E O PORTUGAL QUE FEZ SALAZAR 5
Do boletim confidencial dactilografado da Direcção Geral dos Serviços de Censura à Imprensa - Boletim Diário de Registo e Justificação dos Cortes , secções "Questões de ordem religiosa" e "Questões de ordem moral", de 19 de Junho de 1935:
There was an old person of Hove, Who frequented the depths of a grove; Where he studied his books, With the wrens and the rooks, That tranquil old person of Hove.
LENDO VENDO OUVINDO ÁTOMOS E BITS de 16 de Outubro de 2006
Uma novidade a saudar: um blogue ligado a um jornal, o Público, acompanha em tempo real um evento - o "caso" do Rivoli. Não é um grande "caso", mas a iniciativa é muito positiva porque a blogosfera precisa de competição e este tipo de iniciativas aumenta a concorrência. Acrescento apenas ao que escrevi em baixo: "Será que se eu juntar quarenta pessoas para protestar... o Público também faz logo um blogue?"
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Os Frescos escolhem sempre bem as ligações que sugerem. Não é muito comum manter um equilibrio deste tipo na blogosfera.
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Será que se eu juntar quarenta pessoas para protestar (e garanto que não preciso sequer de um partido), contra a televisão pública ou a "cultura" subsidiada, por exemplo, o evento passa em todos os telejornais com tanto tempo como os protestantes (a maioria do Bloco de Esquerda) junto do Rivoli, com directos e entrevistas, tenho o ministro respectivo logo disposto a receber-me, sou tratado com benevolência como "povo" genuíno e ninguém me tira de dentro do estúdio principal, caso o ocupe impedindo a emissão? Duvido.
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Já deve ter reparado que hoje, dia 16 de Outubro, o Governo manifestou um notável exercício de double speak. No primeiro caso os pais de uma escola pública em Sete Rios, Lisboa fecharam a cadeado a escola pois para 300 alunos existem apenas duas auxiliares de acção educativa. A DREL classificou o facto de "terrorista" e mandou a polícia repôr a ordem. Também hoje, no Porto, um grupo de gente ligada ao teatro ocupou o Teatro Rivoli que é tutelado pelo município. A Ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima, afirmou tratar-se de uma "original e inovadora forma de luta" e até ofereceu os seus bons ofícios para "mediar" o conflito com a Câmara do Porto. É claro que se a Câmara do Porto fosse gerida pelo PS este último acto também seria "terrorismo", parece-me que como para bater em Rui Rio, e não sendo caso virgem, a ministra que por acaso também é do Porto prefere falar em originalidade e inovação das formas de luta.
O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: A INVASÃO DAS MIMOSAS
Esta fotografia é um retrato muito verdadeiro do que está a acontecer em todo o parque nacional da Peneda-Gerês. Como se pode observar, as mimosas (arbustos da família das Acácias) ganham dia após dia terreno às espécies autóctones, devastando importantes encostas e expulsando fauna e flora única no país. São uma praga pior que os eucaliptos porque não só secam o chão como é quase impossível fazê-las desaparercer. Esta encosta perto do campo de futebol da Pereira mesmo em frente à vila do Gerês foi limpa há cerca de três anos, mas como se pode ver tudo voltou ao normal, sendo possível observar mesmo a barreira que separa as mimosas dos pinheiros, barreira essa que diminui dia após dia.
O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: O ENGRAÇADISMO CHEGOU AO GOOGLE
Não será com certeza por insensibilidade, mas esta falta de cuidado, faz impressão.
(Gil Coelho)
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Reparei que reproduziu um texto de um leitor seu sobre aparecer no Google News, na secção entretenimento, notícias sobre incêndios. O sistema é totalmente automatizado, e não permite intervenção humana. Mesmo que os funcionários do Google quisessem, isso não ia ser alterado manualmente. O sistema é imperfeito, e procura pela coincidência de keywords, aferir automaticamente em que local ou categoria cabem as notícias. Às vezes falha. Antes isso que a manipulação humana das notícias ou de onde elas devem caber.
PARA SE COMPREENDER O PORTUGAL DE SALAZAR E O PORTUGAL QUE FEZ SALAZAR 4
Do boletim confidencial dactilografado da Direcção Geral dos Serviços de Censura à Imprensa - Boletim Diário de Registo e Justificação dos Cortes , secções "Ministério da Justiça", "Secretariado da Propaganda Nacional" e "Questões de ordem moral", de 12 de Junho de 1935:
EARLY MORNING BLOGS 886 -... dirige tes talons en arrière et non en avant.
Plût au ciel que le lecteur, enhardi et devenu momentanément féroce comme ce qu'il lit, trouve, sans se désorienter, son chemin abrupt et sauvage, à travers les marécages désolés de ces pages sombres et pleines de poison; car, à moins qu'il n'apporte dans sa lecture une logique rigoureuse et une tension d'esprit égale au moins à sa défiance, les émanations mortelles de ce livre imbiberont son âme comme l'eau le sucre. Il n'est pas bon que tout le monde lise les pages qui vont suivre ; quelques-uns seuls savoureront ce fruit amer sans danger. Par conséquent, âme timide, avant de pénétrer plus loin dans de pareilles landes inexplorées, dirige tes talons en arrière et non en avant.
A propósito de uma exposição da obra de Artur Pastor no Museu do Pão em Seia, com temas relacionados com o pão, foi-me enviada pelo seu filho uma série de fotografias que retratam aspectos do trabalho e que serão publicadas no Abrupto. Como se pode ver, essas fotografias são de uma qualidade excepcional e chamam a atenção para "o seu espólio, composto por mais de 50.000 fotografias, (...) adquirido pela Câmara Municipal de Lisboa em Outubro de 2001" e ainda insuficientemente divulgado. Segundo Artur Pastor (filho) "há uma exposição já finalizada, impressões e textos, pelo serviços do arquivo fotográfico municipal, a guardar melhores ventos de vontade cultural por parte da autarquia." Espera-se que tais "ventos" soprem depressa, muito depressa.
RETRATOS DO TRABALHO EM PORTO GALINHAS- PERNAMBUCO, BRASIL
(...) tirada há uns meses na praia de Porto de Galinhas, Estado de Pernambuco, Brasil. Nela se vê um vendedor ambulante de CD's de música que, sob um calor tórrido, percorre com o seu aparelho móvel a praia de Porto de Galinhas. E numa praia que é frequentada por bastantes turistas portugueses não seria de todo má ideia a venda também de livros...
(E. Vieira Novo)
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Acerca do TRABALHO EM PORTO GALINHAS, diz E. Vieira Novo que «numa praia que é frequentada por bastantes turistas portugueses não seria de todo má ideia a venda também de livros...» mas não sei se terá razão, e explico porquê:
Este ano, como nos anteriores, pude observar em várias praias que mais de metade dos estrangeiros estavam a ler livros - e, dos restantes, muitos estavam a ler jornais. Quanto aos portugueses: quando muito, alguns - poucos - entretinham-se com jornais desportivos e revistas de fofocas.
Em Lagos, inclusivamente, aconteceu-me o seguinte: tendo sabido que acabara de sair o livro «Notas sobre um país grande», de Bill Bryson, dirigi-me à «Loja do Livro» para o comprar. Como não o tinham, pedi que o mandassem vir.
- Tem muita pressa? - foi a resposta/pergunta.
- Hoje é segunda-feira, posso esperar até sexta-feira - respondi.
- Não dá. O melhor é ir comprá-lo a Portimão.
Perguntei então se não havia mais nenhuma livraria em Lagos. Não há, pelo que acabei por comprar o livro em Lisboa.
PARA SE COMPREENDER O PORTUGAL DE SALAZAR E O PORTUGAL QUE FEZ SALAZAR 3
Do boletim confidencial dactilografado da Direcção Geral dos Serviços de Censura à Imprensa - Boletim Diário de Registo e Justificação dos Cortes , secção "Questões de ordem moral", de Junho de 1935:
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Estes boletins da Direcção-Geral dos Serviços de Censura em que podemos ver os casos concretos daquilo que todos sabemos que existia, em que vemos o "making-off" têm sido uma real iluminação. As decisões sobre o que é moral ou imoral intrigam, pois após a leitura destes excertos, sou levada a crer que há uma extraordinária arbitrariedade em tudo, mais do que uma deliberada reflexão sustentada teoricamente por uma precisa ideologia ou filosofia onde se baseassem os conceitos moralidade/imoralidade. Talvez esta forma algo informal, apesar de bem intuída e apreendida, e em sintonia com a "moral" do regime tenha tido os seus perigos pela dificuldade em ser identificada e combatida. É insidiosa e melíflua. Tal como a deliberada ocultação de factos, nomeadamente crimes, ocorridos, que venham abalar a crença de uma vida de "bons costumes". Apesar de saber da existência da censura, fico realmente chocada, pela abrangência e pelos seus tentáculos. É mais difícil perceber a forma como o nosso "viver" foi sendo moldado à imagem de uma falsa mansidão, e a extensão (mesmo temporal) dos efeitos desse fazer, do que perceber a censura, por exemplo, no meio artístico.
de Orion, com seu pequeno cavalo, o seu homem a correr, as chamas de um certo inferno, e as mil e uma coisas que o nosso olhar permite ver. Viajar a esta luz, pelo menos uma vez.
Sundays too my father got up early and put his clothes on in the blueblack cold, then with cracked hands that ached from labor in the weekday weather made banked fires blaze. No one ever thanked him.
I'd wake and hear the cold splintering, breaking. When the rooms were warm, he'd call, and slowly I would rise and dress, fearing the chronic angers of that house,
Speaking indifferently to him, who had driven out the cold and polished my good shoes as well. What did I know, what did I know of love's austere and lonely offices?