| ABRUPTO |
semper idem Ano XIII ...M'ESPANTO ÀS VEZES , OUTRAS M'AVERGONHO ... (Sá de Miranda) _________________ correio para jppereira@gmail.com _________________
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20.10.06
A "RIVOLUÇÃO" DOS NOSSOS DIAS Já que não há revolução, o Bloco de Esquerda dedica-se à "Rivolição", a ocupação do Rivoli no Porto, por um grupo de "artistas" ligados ao Teatro Plástico, contra a "privatização" da sala.[À data em que escrevo, a situação é a seguinte: os do Plástico permanecem dentro do teatro, pouco mais do que 20 pessoas, e cá fora, após apelos sucessivos e apesar da grande cobertura televisiva, estão mais umas dezenas, não chegando o total a cerca de 50. O número de pessoas é escassíssimo. Num comunicado pungente, como se estivessem em prisão maior, e cercados por um exército, os ocupantes do Plástico comunicaram que estão impedidos de "comunicar" por uma porta de vidro e que o ar condicionado foi posto no frio, uma violência inominável do "sr. Rui Rio". O município colocou um processo-crime por ocupação ilegal de instalação, que já obrigou a mudar um concerto de beneficiência para a Casa da Música. À data em que escrevo, uma série de notícias contraditórias refere ou a possibilidade de a ministra da Cultura visitar os ocupantes ou pelo menos recebê-los, tendo a própria já feito declarações públicas de apoio inequívoco que, vindas de um membro dum governo democrático, são pelo menos completamente absurdas. Aconteça o que acontecer, o que já se está a passar permite discutir o significado da "Rivolução" muito para além das peripécias folclóricas da sua dúzia de intervenientes. No entanto, tendo em conta que isto é muito volátil, pode tudo estar mudado quando o artigo sair.] [NOTA: Sobre as incongruências, contradições, ditos. desditos e não-ditos da Ministra da Cultura ver BLOGUITICA.]Há nesta "Rivolução" várias coisas que têm a ver com a política local, mas que reflectem problemas da relação entre a cultura e o Estado. No Porto é pior, mas no resto do país é o mesmo com outra dimensão. Os "rivoltosos" representam uma face visível da orfandade que no Porto atingiu uma pequena multidão de "agentes culturais" a quem o Porto, Capital da Cultura e a política "cultural" da municipalidade socialista tinha enchido de dinheiro, subsídios e "prestígio". Essa orfandade atinge uma elite cultural subsidiada numerosa, que alimenta uma nostalgia activa dos bons velhos tempos do binómio futebol-"cultura" de Fernando Gomes. Milhões de euros foram gastos em animação "cultural" nos anos fartos e agora, como veio um tempo de vacas magras e um rebound com a gestão severa de Rui Rio, o autarca "contabilista" que privilegia as despesas sociais, temos a "Rivolução". Repito mais uma vez aquilo que devia ser uma evidência e é uma ocultação: hoje, a "cultura" é o meio mais eficaz para obter propaganda. Desde Malraux e da sua reencarnação em Lang, os governantes mais iluminados perceberam que, investindo na "cultura", essencialmente na "animação cultural", obtêm boa imprensa, legitimidade, figuras de cartaz e "nome". É caro, mas é eficaz, porque tem a enorme vantagem de proteger a propaganda com a intangibilidade da "cultura", que ninguém contesta nem discute, porque a criatividade está acima do debate vulgar da política. Foi esta a política de Santana Lopes, com o teatro e a de Carrilho com as "vanguardas", variando nas clientelas e nos gostos, mas obtendo uma corte fiel e agradecida, sempre disponível para dar o nome e a face em campanhas. Viu-se na campanha das legislativas de Santana Lopes e na autárquica de Carrilho. No Porto, como em Lisboa e um pouco por todo o lado, à medida que o Estado se foi tornando mecenas, depois produtor-empregador e, por fim, criativo-empregador, foram destruídas todas as iniciativas autónomas, que não eram dependentes dos subsídios, mas sim do interesse do público ou da actividade empresarial no sector. Abra-se um jornal da década anterior ao 25 de Abril e veja-se a página de espectáculos, cinema e teatro, para se perceber a diferença radical. No Porto, nos últimos 20 anos antes do 25 de Abril, o "povo" dispunha de espectáculos de teatro, quer "sério", quer de revista, com a vinda regular das companhias de teatro de Lisboa ao Rivoli e ao Sá da Bandeira. Mais raramente havia ópera, é certo que óperas mais "fáceis" como O Barbeiro de Sevilha, o Rigoletto ou a Cavalaria Rusticana, mas era ópera e os espectáculos conheciam enchentes. A maioria destas iniciativas era de empresários do teatro e a presença do Estado fazia-se sentir essencialmente através da FNAT e da Emissora Nacional que organizavam espectáculos populares e baratos. Havia um défice face a Lisboa, mas não era o deserto que hoje se pensa. As elites da cidade pagavam e podiam pagar, através de quotizações, preço dos bilhetes e de mecenato, toda uma rede de instituições culturais privadas: o Cineclube do Porto, a Juventude Musical, o Teatro Experimental, que estavam longe de ser únicas. Clubes como os Fenianos e o Ateneu patrocinavam actividades culturais. O TEP era um excelente exemplo de uma iniciativa portuense, apoiada por médicos, empresários, comerciantes, advogados e arquitectos, com o melhor reportório contemporâneo e clássico. Tinha encenadores profissionais e actores profissionais e, desde a Morte de Um Caixeiro Viajante de Miller à Yerma de Lorca, do Morgado de Fafe Amoroso de Camilo a Quem Tem Medo de Virginia Wolf de Albee, tudo por lá passou. Muitas destas iniciativas, o TEP, o Cineclube, por exemplo tinham a ver com gente da oposição e conheciam perseguições da censura e da polícia, que nunca foram capazes de os matar. Foi após o 25 de Abril que desapareceram, ficando apenas uma Árvore em crise, como sobrevivência deste mundo cultural autónomo e que existia quase sem subsídios. O mundo mudou e hoje este modelo revela-se incapaz de suportar consumos culturais mais democratizados e públicos mais vastos? Duvido, duvido muito que seja esta a maneira correcta de colocar a questão que se destina a justificar o que existe... porque existe. Os partidários da "Rivolução" explicam a sua iniciativa num dos textos mais significativos do modo como a "cultura" subsidiada se vê a si própria: "- Que nos sejam dadas garantias de que o Rivoli - Teatro Municipal não será gerido e programado em função da maior ou menor rentabilidade dos objectos que aqui se produzem e/ou difundem, da submissão declarada ou velada aos interesses e desígnios do executivo da CMP, da visibilidade mediática, da pretensa acessibilidade;O objectivo deste caderno reivindicativo não é protestar contra qualquer censura existente - é impedir a gestão privada do Rivoli para assegurar que o dinheiro público flua sem custo nem critério, garantir emprego e subsídios sem que nunca ninguém se atreva a contestar a sua qualidade "artística" e os seus resultados e, muito menos, o terem ou não espectadores. Isso só o próprio Teatro Plástico pode julgar, porque "uma programação de qualidade" dá origem a "objectos exigentes para consigo mesmos e para com o público a que se destinam". Reparem no preciosismo que mostra como esta gente sabe muito bem o que está a dizer: não é o público, mas "o público a que se destinam", ou seja, outros grandes artistas com a dimensão estética dos membros do Teatro Plástico. O Teatro Plástico acaba de apresentar uma semana de "objectos", deliciosa linguagem, no Rivoli com uma média de 30 espectadores, numa sala que custa 11 milhões de euros ao município e cujas receitas de bilheteira pagam apenas 6 por cento dos custos. No caso do Teatro Plástico nem isso. O Teatro Plástico duvida muito justamente que o operador que ganhar o concurso para gerir a programação do Rivoli aceite pagar estes custos fabulosos e quererá "gerir (...) em função da maior (...) rentabilidade dos objectos", não sendo indiferente à "pretensa acessibilidade" que, com toda arrogância do mundo, o Plástico não quer que seja tida em conta. [Um exemplo típico da estética e do gosto dos "ocupantes" pode encontrar-se neste "poema"O problema de tudo isto tem a ver com o completo divórcio entre a "cultura" subsidiada e o público, que gera um establishment cultural de muito má qualidade, caro e solipsista, que existe apenas para si próprio e fora de quaisquer critérios que avaliem o uso de dinheiros públicos. Sem crítica, que não existe, e sem público, a quem estes "objectos" nada dizem, a grupos como o Plástico resta apenas o espectáculo tonitruante da defesa do subsídio contra o papão dos ignaros "privados", através de acções para as televisões, a forma moderna de fanfarra. Estão a defender o seu, exigindo continuara a gastar o nosso. Mas não é isso a "rivolução dos nossos dias? (No Público de 19 de Outubro de 2006) (url)
© José Pacheco Pereira
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