ABRUPTO

19.10.06


PARA SE COMPREENDER O PORTUGAL DE SALAZAR E O PORTUGAL QUE FEZ SALAZAR 6

Do boletim confidencial dactilografado da Direcção Geral dos Serviços de Censura à Imprensa - Boletim Diário de Registo e Justificação dos Cortes, secção "Questões de ordem moral", de 22 de Junho de 1935:



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O comentário é um pouco lateral ao lado sociológico da análise que o Boletim Diário de Registo e Justificação dos Cortes pode suscitar.

Deixo apenas a impressão de que, sem censura, a imprensa durante o Estado Novo não seria muito diferente da dos nossos dias. Crime, trocadilhos brejeiros, ataques pessoais, exploração das desgraças alheias (das classes baixas)... a paleta completa.

Não quero com isto concluir que antigamente é que era bom. Leva-me é a concluir que a imprensa livre é mesmo assim e gerará sempre produtos tabloid, para os quais existirá sempre um público fiel, não necessariamente, em meu entender, das classes mais desfavorecidas.

O problema não reside na relação imprensa livre vs censura, mas antes na imprensa livre vs manipulável, ou de uma forma mais geral, informação vs marketing.

Num ambiente informativo com censura podemos sempre acreditar que nos estão a contar a verdade embora seja de elementar bom senso considerar, que a mesma é, no mínimo parcial (se quisermos é a verdade oficial no sentido burocrático do termo). Mas o mesmo é verdade quando existe liberdade para se publicar tudo e mais alguma coisa. Mais do que em âmbiente censurado, a informação livre exige escrutínio público, qualidade de serviço e crítica sistemática.

Ora aquilo que mais me chateia nos jornalistas em Portugal é terem assumido e interiorizado a impossibilidade de serem objecto de critica, sob o argumento de que sempre que se critica um jornalista se está a exercer censura, o que não é de todo verdade. É neste ambiente de inimputabilidade que cresce o marketing e definha a informação, visto nele ser possível fazer passar a mais escandalosa propaganda por rigor, objectividade e isenção.

Tal como na política, na guerra, na justiça, em relação aos políticos, generais e juízes, também a informação pública é um assunto demasiado sério para ser deixado nas mãos dos jornalistas.

(Mário Almeida)

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© José Pacheco Pereira
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