| ABRUPTO |
semper idem Ano XIII ...M'ESPANTO ÀS VEZES , OUTRAS M'AVERGONHO ... (Sá de Miranda) _________________ correio para jppereira@gmail.com _________________
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22.10.05
ROSTOS / RESTOS 4 (De uma pilha de fotografias à venda num alfarrabista) ![]() Ódios. Não é só nos filmes: alguém recortou esta fotografia, com esforço porque a cartolina onde está colada é muito dura, eliminando pelo menos duas figuras, ambas masculinas. Amores, amizades quebradas, mortes que não se querem lembrar, infidelidades da memória. Ficaram dois pés de um ausente. (url) COISAS DA SÁBADO: ESTAMOS VELHOS, MAIS VALE NÃO DISFARÇAR ![]() Existe um blogue “não oficial de apoio à candidatura de Mário Soares à Presidência da República” chamado Super Mário . A coisa não deixa de ter graça e ser …infinitamente reveladora. É uma tentativa de reeditar o “Soares é fixe” de 1985, dando o ar primaveril e de juventude, que ninguém é capaz de descortinar na candidatura. Suspeito até que o candidato é o mais novo de todos eles, porque depois é tudo como aqueles “jovens” do Konsomol que, com quarenta anos, “representavam” as juventudes comunistas soviéticas. O boneco é muito juvenil, o lettering a imitar os jogos de consola, mas já muito moderadamente porque o bom gosto grave impede de ir mais longe. Sugeria aliás que fizessem o “Super Mário” correr aos saltinhos numa tira por baixo, em vez de o colocar estático ao lado. A recolher bolinhas e a coleccionar estrelinhas, ou, porque não, votinhos e a gritar coisas de italiano de pizaria. E a pisar o nefando Alegre, amador de peixe grelhado e não de pizas, para no último dia, da última hora, encontrar no Passeio da Avenida a incarnação do mal, o seco Cavaco. Depois é tudo “oficial” a começar pelo “não oficial”. Fosse o blogue uma iniciativa de jovens, nunca lhes ocorreria o pomposo “não oficial” e fariam as maiores aleivosias à candidatura … divertindo-se. Mas não, é tudo gente séria e respeitável, que começa logo por nos explicar: “no nome do blog há uma ironia e uma homenagem. Uma ironia porque Soares não é, evidentemente, nenhum super-herói”, com medo de parecer politicamente incorrecta. E não é que o imperialismo americano está demasiado presente... No Blogspot? Sediado nos EUA, o Grande Satã? Depois escrevem “blog” e não “bloc” como mandam os franceses, o pilar anti-americano da Europa, e nem sequer aportuguesam para “blogue”. E depois, há lá alguma coisa mais culturalmente globalizadora do que os jogos da Sony, da Nintendo, da Playstation, da X-Box? Vá lá, acertem ao menos no juvenil disfarce. Boa sorte, Super Mário, cuidado com os alçapões! (url) ROSTOS / RESTOS 3
(De uma pilha de fotografias à venda num alfarrabista) ![]() Os de cima ![]() Os de baixo (url) O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: BOATOS E DESINFORMAÇÃO ![]() De onde surge o boato (chamo-o de boato precisamente por desconhecer a sua veracidade) que circula na internet, que indica o nome do candidato à presidência Mário Soares como proprietário dos terrenos na Ota onde, presumivelmente, se construirá o famoso aeroporto? O texto que circula indica a autoria de Miguel Sousa Tavares, o que é absolutamente falso. Sousa Tavares escreveu um artigo para o Público intitulado " Um crime na Ota", no qual não consta nenhuma "História de dois aeroportos". Este é o título que tem passado de mail em mail e que contém a tal revelação sórdida sobre a pertença dos terrenos da Ota. Como trabalho num ambiente em que todos os colegas têm acesso à internet e onde há espaço para comentar informação, este tem sido um ponto de polémica. Não faltam colegas prontos a acreditar em tudo o que leêm mas, como toda esta história me parece tão perigosa e sinistra, resolvi apelar para quem tem a isenção necessária (talvez não toda a informação, mas esta é apenas uma tentativa) para apontar alguma luz nesta direcção. (Susana Cunha) * Como muitas vezes acontece, o módulo original é genuíno (o texto sobre os aeroportos, ver explicação no Blasfémias, a que depois se acrescenta o boato e a desinformação (a acusação a Soares, havendo variantes do mesmo texto envolvendo outros dirigentes políticos). Este é um exemplo entre muitos de uma prática comum na rede (mais nos e-mail do que nos blogues) e nas redacções dos jornais, só que, nestas últimas, o mecanismo da edição impede, por regra, a sua publicação. Em períodos de luta política, este tipo de boatos intensificam-se, e associam-se ao recrudescimento de intrigas com origem em fontes anónimas. Aqui, jornalista prevenido vale por uma redacção inteira, embora as intrigas “passem” bem na imprensa, e os boatos não. Do mal, o menos. Quanto aos boatos, há várias escolas de pensamento sobre o modo de os defrontar. Penso que devem ser tratados caso a caso, como excepções à regra de os ignorar. No caso de boatos sobre património, como é este caso, um esclarecimento rápido e incisivo pode ajudar a combater o boato. Mas, insisto, não há regra estabelecida. * "Assim começam os boatos: Faz-se um resumo do estudo apresentado por Rui Rodrigues em 21 de Março de 2005, acrescenta-se "por Miguel Sousa Tavares" e termina com "dono dos terrenos da Ota... Pois é... (!) o Dr. Mário Soares". Autoria do Miguel Sousa Tavares sobre este artigo, não existe, apenas do título. Se o Dr. Mário Soares é dono, ou não? Também não vem mencionado em nenhum lado. A única verdade são os números apresentados sobre os dois aeroportos e retirados do estudo apresentado com autoria de Rui Rodrigues." (url) BIBLIOTECA
![]() António Leal, Biblioteca da M. 11 (url) O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: O DISCURSO DO PAI NATAL ![]() Que o actual comunismo chinês viesse ameaçar de forma tão assustadora o actual socialismo europeu é algo que quase ninguém poderia imaginar. O "medo" da invasão dos produtos chineses nos mercados europeus com o consequente fecho de muitas indústrias, aumento do desemprego e instabilidade social (que agora se designa por precaridade no trabalho) é algo de muito presente nos discurso político da maioria dos nossos agentes económicos. Curiosamente (ou talvez não) estes mesmos agentes económicos viram-se para o Estado como o seu último recurso , exigindo medidas de protecção contra o que designam como "concorrência desleal" (os chineses estão a escravizar as suas criançinhas, etc.). O Estado, por sua vez, cumpre o seu dever: proteger os seus cidadãos (ou alguns dos seus cidadãos) das ameaças externas, particularmente desta terrível e nova ameaça chinesa. O nosso conforto socialista necessita de estabilidade e não de rupturas, de gradualismo para se adaptar, de tempo para se re-organizar, não podemos abrir as nossas fronteiras desta forma tão descarada, principalmente a quem vai destruir o nosso simpático modo de vida. Embora o tempo das benesses esteja a chegar ao fim, pode sempre telefonar-se para Bruxelas e ver o que se pode arranjar.A oligarquia burocrática de Bruxelas faz o que pode quanto mais não seja para proteger os seus empregos. O que existe de curioso neste discurso é a sua imensa capacidade para o auto-engano, para a auto-ilusão, é um pouco como o Natal e as crianças: nós , os adultos, já não acreditamos no Pai Natal, mas para felicidade das crianças fingimos que acreditamos e lá fazemos a festa. Por sua vez, as crianças fingem que acreditam para não desiludirem os adultos de quem tanto gostam. Afinal de contas se eles se dão a tanto trabalho porquê estragar a sua felicidade. O amor é recíproco e genuíno embora sejam ambos amores enganados. As crianças vão todas à escola: eles cedo descobrem que o Pai Natal não existe, não é real. O que é real, o que verdadeiramente existe, são as sapatilhas Nike com rodinhas, fabricadas na China. E é todo um mundo que desaba: é suposto as crianças acreditarem no Pai Natal (para receberem presentes), é suposto não os desapontarmos nesta sua ingenuidade comovente (porque os amamos). E é sempre com imensa expectativa e alguma ansiedade que todos aguardamos a chegada do Pai Natal. Em Portugal o discurso político é o discurso do Pai Natal: o ritual perpetua-se na esperança da chegada dos presentes. (João Costa) (url)
EARLY MORNING BLOGS 638
A las estrellas Esos rasgos de luz, esas centellas que cobran con amagos superiores alimentos del sol en resplandores, aquello viven, si se duelen dellas. Flores nocturnas son; aunque tan bellas, efímeras padecen sus ardores; pues si un día es el siglo de las flores, una noche es la edad de las estrellas. De esa, pues, primavera fugitiva, ya nuestro mal, ya nuestro bien se infiere; registro es nuestro, o muera el sol o viva. ¿Qué duración habrá que el hombre espere, o qué mudanza habrá que no reciba de astro que cada noche nace y muer (Pedro Calderón de la Barca) * Bom dia! (url) 21.10.05
ROSTOS / RESTOS 2
(De uma pilha de fotografias à venda num alfarrabista) ![]() Homens ![]() Mulheres (url) ROSTOS / RESTOS (De uma pilha de fotografias à venda num alfarrabista) ![]() Violência infantil. ![]() Vestidos maiores que a vida. (url) OS CAVALEIROS DO APOCALIPSE ![]() A história da humanidade é a história de três dos quatro cavaleiros do Apocalipse: o da fome, o da peste e o da guerra. O bom cavaleiro, com o cavalo branco, esse não conta. No nosso confortável mundo europeu, 50 anos de paz fizeram-nos esquecer o cavaleiro da guerra, mas ele não se fez esquecer e, nos Balcãs e no Cáucaso, voltou a bater às portas do nosso recanto. Tinha andado por Ásia e África, mas 50 anos não é nada, nós é que pensávamos que era já definitivo. O cavaleiro da fome também está esquecido na Europa. Malthus ameaçou-nos com ele, mas a revolução industrial adiou as suas previsões, e nós, como de costume, pensamos que ele só estaria para lá longe, em África, O da peste espreitou recentemente com a sida e fugiu de novo para a tenebrosa África, a terra de todos os males, pensávamos também nós, seguros da nossa poderosa medicina. Mas a nossa terra livre de cavaleiros do Apocalipse vai ter em breve a visita de um deles, o da peste, e, sabemos pela história, que qualquer um anuncia os outros, ou abre o caminho aos outros. "Peste" é uma palavra que passou a figura literária, e só nos recantos africanos e nos filmes de ficção científica permanecia no sentido original. É verdade que no "coração da escuridão" vírus demasiado mortíferos continuam a emergir, das margens do rio Ébola, ou numa missão perdida, ou num sítio onde se comem macacos. Mas essas "pestes" não são histórias de sucesso viral: o Ébola, por exemplo, é um vírus pouco eficaz, mata mais depressa do que viaja e por isso elimina tão rapidamente o seu hospedeiro que nunca vai longe. É por isso fácil de conter, contrastando a simples eficácia da gripe. A gripe é o símbolo da doença benigna, da doença a que nos acostumamos sazonalmente. Toda a gente tem gripe uma vez por ano, e lá nos habituamos à ligeira febre, ao nariz tapado, às dores de garganta, aos arrepios. Falta-se ao emprego um dia ou dois, as crianças não vão à escola com algum contentamento, os namorados insinuam amabilidades como "vou-te pegar a gripe", "pega, pega", os beijos sociais diminuem porque se está constipado. Os hedonistas têm um prazer especial em meter-se na cama, confortados com os seus 37,5º, voltando a uma infância perdida, mas cheia de cuidados maternais. Em suma, uma "fruta da época", como a chuva e o frio. Os médicos sabem que a gripe comum não é tão benigna como isso e mesmo as estirpes mais pacíficas matam milhares de velhos e doentes todos os anos. Mas, como as mortes do Verão tórrido em França mostraram, é possível morrer muita gente à nossa volta, que só as estatísticas mostram o incremento do trabalho da ceifeira. Só que desta vez pode não ser assim, tudo indica que não seja assim. Entramos agora no fino e impossível equilíbrio entre o pânico inconsiderado e a legítima preocupação. Como é que devo escrever o que vou escrever? Talvez começando por dizer que há muitas probabilidades de termos uma pandemia de gripe com uma variante viral muito agressiva. Embora o cálculo dessas probabilidades seja muito difícil de fazer, pode-se considerar que, tudo ponderado, é mais provável que haja do que não haja. Claro que também pode não acontecer nada, como quando do susto americano com a "gripe dos porcos" no tempo do Presidente Ford, que acabou por não se verificar. Mas agora tudo indica que se verificará, não sabemos é daqui a quanto tempo, um ano, dez anos? Parece uma questão de tempo. Depois, tudo o resto são incógnitas e patamares que se podem subir ou descer. Voltamos pois à peste, ao quotidiano da peste. Como o terrorismo, a peste também se modernizou, por linhas de fragilidades muito semelhantes: a sociedade de massas urbanizada, global, dá imensas oportunidades novas à doença, ao mesmo tempo que pareceu eliminar as antigas. Pouco a pouco, à nossa volta, a biologia tumultuosa para os humanos e os seus bichos domésticos começa a especializar-se. Sem a produção de carne e leite em série, a doença das vacas loucas, ou a hecatombe de carneiros provocada pela febre aftosa não teriam levado às imagens do "massacre dos inocentes" em que se converteram muitas quintas modelo da agricultura da PAC. Graças a Darwin, percebemos hoje muito bem como o sucesso dos vírus se encavalita no nosso mundo urbanizado, na nossa agricultura industrial, nos nossos hábitos de consumo, na sociedade de massas. Para um vírus como o da "gripe das aves", o modo como vivemos é um nicho ecológico excepcional. O vírus veio dessa enorme capoeira e pocilga colectiva que são os campos da província chinesa de Guandong, um enorme pool de variabilidade genética em que o salto entre os animais e os homens é facilitado pela promiscuidade entre espécies. Mas já não precisa de fazer o caminho lento de um barco para a Índia, de uma caravana para o Levante, de um outro barco para Veneza ou Génova, pode voar com as aves selvagens até aos aviários da Europa, ou voar na Cathay Pacific ou na Lufthansa. Depois de cá chegar, e já cá chegou às aves, poderá ou não demorar um pouco a encontrar outros hospedeiros, poderá ou não dar tempo a que haja vacina, poderá ser de uma estirpe mais ou menos agressiva, matar velhos ou jovens (como a "pneumónica" de 1918), poderá encontrar-nos preparados (tanto quanto podemos em relação a estas eficazes máquinas que são os vírus) ou não. Prevenidos já estamos, resta saber se estamos preparados e parece que não. Se olharmos para África, onde um vírus que mata mais devagar como o da sida já molda a sociedade, alterando padrões demográficos, enfraquecendo as burocracias de Estados, já de si frágeis, as forças de polícia e segurança, aumentando a conflitualidade, podemos compreender melhor como será perturbador um vírus que mata mais rapidamente, ferindo a sociedade profundamente. Os estudos mostram como uma pandemia de gripe levará à "nacionalização" dos stocks de medicamentos (dito de outro modo, ou um estado já possui esse stock nos seus armazéns, ou, quando a gripe começar a matar, ninguém lhe vai ceder o seu), à fragilização de polícias e exércitos, à paragem de escolas, casernas, concentrações de multidões (sim, os jogos de futebol também), por aí adiante. Por boas razões, por precaução, e por más, pelo pânico e crescimento da conflitualidade, as semanas que durar a gripe serão de tensão sobre toda a estrutura do Estado "civilizado". Depois passará, deixando os sobreviventes de uma geração imune, até à próxima. Para a democracia, para a nossa civilização, será um teste poderoso. (Do Público.) (url) (url) 19.10.05
BIBLIOFILIA: ANTIPASTI (4ª série) ![]() Ensaio de Simon Leys sobre caligrafia chinesa em Ensaios sobre a China, Lisboa, Livros Cotovia, 2005. Na caligrafia há uma "escrita da erva", o nosso cursivo, com uma variante "louca", "uma espécie de estenografia frenética". Leys diz que para os chineses a caligrafia é uma arte suplementar, sem equivalente noutras civilizações. (url) O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: "QUANDO CHEGAR À ALTURA LOGO SE VÊ" ![]() Anteontem, num telejornal, e ao mesmo tempo que ficávamos a saber que a gripe-das-aves não era alarmante, diziam-nos que era coisa para "11 a 14 mil mortes", só em Portugal. Como dizia outro: "Não foi nada, foi o nosso pai que morreu". Ontem, quando perguntaram a um responsável de um hospital se estavam preparados, ele respondeu: "Quando chegar a altura, logo se vê" - e mais não disse... nem era preciso. (C. Medina Ribeiro) (url) O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: TRABALHOS DE CASA ![]() - Então como correu a escola? - Não foi lá muito boa, portei-me um bocadinho mal. - E o que é que estás a fazer agora? - Um trabalho extra que trouxe da escola. - E o que é? - Escrever o verbo "obedecer". No presente, pretérito perfeito, pretérito imperfeito e futuro. Como é que isto se diz? Vós obecede.. ocebere ... o que é o pretérito? - Passa para o futuro, diz o irmão. E segue-se o verbo "trabalhar". No presente, pretérito, perfeito e imperfeito, e futuro. (RM) (url) O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: AS VOLTAS DE KONRAD LORENZ ![]() As alertas relacionadas com a gripe das aves não cessam de aparecer e o Ministro da Agriculatura não proibe a caça "porque os pássaros migrantes dos paises em questão não passam por cá". Não sou bióloga e o "bird watching" nunca foi o meu passatempo preferido, mas este argumento fazia Konrad Lorenz dar uma volta no túmulo. Será que o "pressure group" dos senhores da espingarda é tão influente? (Monika Kietzmann) (url) O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: TUDO AO CONTRÁRIO ![]() Bem sei que este pode ser considerado um problema menor ou até um preciosismo de mentes menos ocupadas, mas não consigo deixar de ficar incomodado com a falta de cuidado com os pormenores revelada pela Comunicação Social escrita e, neste caso concreto, pelas Agências de Publicidade. Refiro-me à “inversão da realidade” presente em diversas fotografias de paisagens, de acontecimentos ou de figuras públicas, que leva a que vejamos o mundo consoante a vontade dos fotógrafos, ora como ele realmente é, ora como ele aparece ao espelho... Note-se que, se me limito a fazer referência às figuras públicas, é porque nos restantes casos a “inversão da realidade” substitui definitivamente a própria realidade, despindo o anónimo cidadão da sua verdadeira aparência e tapando-o com as vestes do reflexo. Já vi fotografias de António Guterres com os seus característicos sinais faciais “pintados” no lado errado, militares briosos que passam por ignorantes em relação à mão usada na continência e até, imagine-se, uma fotografia do Porto onde a ponte D. Maria aparecia a jusante da ponte D. Luís. A tudo isto assisti com alguma serenidade, mas agora desanimei definitivamente. Se até numa gigantesca campanha publicitária de um conhecido banco, o internacionalmente conhecido José Mourinho aparece com a risca do cabelo no lado oposto, os botões da camisa no lugar das casas e as casas no lugar dos botões, bem podemos perder a esperança... na fotografia, qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência. (S.B.C.) (url) BIBLIOTECA
![]() António Leal, Biblioteca da M. 10 (url)
EARLY MORNING BLOGS 627: "A VERDADE DISTO DEUS A SABE"
Em Creta, a caminho da Terra Santa Partidos da aldeia, chegámos ao lugar aonde íamos quase a horas de véspera, o qual está junto a outra aldeia maior que a primeira, e nos afirmaram ali que havia sido das maiores e mais populosas da ilha. Sabendo os da aldeia a que íamos, nos trouxeram logo um homem, já sobre os dias, o qual servia de piloto aos que queriam ver o labirinto, se lhe pagavam seu trabalho. Concertando-nos com ele, assentámos que seria bom entrarmos logo aquela tarde, porque, quando saímos da nau, nos encomendou muito o patrão que tornássemos com a possível brevidade. Tanto que chegámos à porta do labirinto, o homem que nos havia de servir de piloto e guia, como a outros costumava servir, tirou das grandes pedras da boca por onde havíamos de entrar, porque a entrada era à maneira de üa cova; e, entrando diante com um mancebo, seu companheiro, cada um com seu morrão aceso na mão. E, entrando nós após eles de pés e mãos, que a entrada não sofria outra coisa; e, seguindo nossa guia, caminhámos üa grande milha, sempre por debaixo de abóbedas feitas da mesma rocha e não vimos em todo aquele caminho cousa de notar, salvo levar-nos aquele homem por diversas estâncias muito intrincadas, 'té chegarmos a üa quadra muito grande, no muco da qual estava üa argola de bronze tão grossa, que no que mostrava pesaria um quintal, pouco mais ou menos, na qual dizem haver estado preso o Minotauro. A verdade disto Deus a sabe; eu dou testemunho do que com meus olhos vi e escrevo a opinião que tem os da terra. De haver labirinto em Creta muitos escritores gregos e antigos o afirmaram e escreveram; e, sem dúvida. se no mundo houve Minotauro e a história que dele contam não é fabulosa, em nenhüa parte devia ser senão naquela onde os indícios estão tão manifestos e claros. Por todas aquelas abóbedas soava um grandíssimo vento, sem vermos lugar por onde pudesse entrar; mas o nosso piloto, como experimentado naquela carreira, levava fuzil e todo o aviamento para se recuperar, se lhe morressem os morrões, que com trabalho levava acesos. A üa parte daquela quadra nos mostrou o homem üa pequena porta, também à maneira de entrada de cova, dizendo-nos que por ali continuava o labirinto até o mar da outra parte do arquipélago, e nos incitava a ir por diante, o que não quisemos fazer, assi por ser mui tarde e virmos cansados, como por ser a jornada mui comprida e não haver cousa de notar nela. (Frei Pantaleão de Aveiro) * Bom dia! (url) 18.10.05
OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: MAIS BELEZA PURA (url) 17.10.05
BIBLIOFILIA QUIXOTESCA "Las avecitas del campo tienen á Dios por su provedor y despensero", dizia o bom Sancho. Bem vão precisar de Deus, as avezinhas. E não só.
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EARLY MORNING BLOGS 626
Je ne suis qu'un viveur lunaire Qui fait des ronds dans les bassins, Et cela, sans autre dessein Que devenir un légendaire. Retroussant d'un air de défi Mes manches de mandarin pâle, J'arrondis ma bouche et - j'exhale Des conseils doux de Crucifix. Ah ! oui, devenir légendaire, Au seuil des siècles charlatans ! Mais où sont les Lunes d'antan ? Et que Dieu n'est-il à refaire ? (Jules Laforgue) * Bom dia! (url) 16.10.05
(url) (url) O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: SOBRE O ENSINO DE INGLÊS (2ª série) ![]() (Continua um debate iniciado a 14/10/20005) Voltando à discussão sobre o Inglês, diz o insustentável que é "preciso libertar a discussão de grilhetas sindicais ou de classe, para situá-la no terreno da competência, da fixação de objectivos e avaliação dos resultados." Indiscutível. O que já merece discussão, no entanto, é precisamente a planificação programática e metodológica do ensino de línguas estrangeiras, nomeadamente no que respeita ao Inglês. Para início de conversa, será bom separar águas e não cair na tentação de comparar resultados obtidos em institutos de línguas com o que se passa na esmagadora maioria das escolas portuguesas. Porque os públicos são diferentes. Porque as condições de trabalho são diferentes. Porque são muito diferentes as culturas de ensino e aprendizagem. Deixando de lado, por ora, o excessivo número de alunos por turma, a falta de recursos audio-visuais e, sobretudo, o ambiente de indisciplina e desinteresse em que decorrem demasiadas aulas em demasiadas escolas, que o assunto nos levaria a outros considerandos, será bom lembrar que as sucessivas inovações introduzidas no ensino de línguas estrangeiras no sistema de ensino português têm-se regido por um desejo de modernização que raramente acautelou as condições necessárias à implementação de modelos copiados de outros contextos. Algumas posições dogmáticas contribuiram para uma radicalização de opções metodológicas alheias às reais situações de ensino/aprendizagem a que devem ser adaptados quaisquer modelos. Nos últimos anos, tem imperado, nas escolas portuguesas, um certo ecletismo em tentativas várias de conjugação dos princípios da abordagem comunicativa, instituídos oficialmente com a reforma curricular do início dos anos 90, com outras práticas pedagógicas mais tradicionais ou ainda dominadas pelos métodos estruturalistas e funcionais que tanto impacto tiveram no ensino de línguas estrangeiras em Portugal nas décadas de 1970 e 1980. A falta de estudos empíricos que permitam a avaliação científica de programas, metodologias, estratégias e materiais, e a surpreendente (ou talvez não) indiferença dos sucessivos governantes perante tão grave omissão, deixa sem alternativa os modelos sucessivamente impostos e cuja eficácia não chega nunca a ser questionada, apesar do conhecido insucesso que se tem vindo a agravar. Mais do que discutir o perfil de habilitações ou alimentar a polémica de portugueses desempregados versus estrangeiros contratados, urge traçar de uma vez uma política de ensino público que tenha em vista as necessidades do país e os interesses das populações. E não só no que se refere ao ensino do Inglês, como vai sendo gritantemente evidente. (Helena Rodrigues) * Em relação ao comentário de Monika Kietzmann: o facto de um bilingue dizer que uma das línguas é a "principal" não quer dizer que o facto de ser bilingue (desde muito novo) não o tenha ajudado em muitos aspectos. Na realidade, um ser humano consegue aprender duas línguas simultaneamente desde muito novo (quanto mais cedo melhor) e o facto de aprender duas línguas dá-lhe uma flexibilidade e agilidade mental que não teria noutra situação. Pensar que aprender uma língua estrangeira pode prejudicar a aprendizagem da língua-mãe é falacioso, embora seja uma crença comum. Aprender línguas é como nadar: quanto mais cedo, mais fácil (e natural). Quando aprendemos outra língua, a nossa capacidade de análise metalinguística aumenta prodigiosamente e, assim, conseguimos aprender melhor a nossa própria língua. (Isto quando as coisas são bem feitas, ou seja, quando ambas são bem ensinadas.) Quanto ao estado do ensino do inglês nos últimos 30 anos (cf. comentário de Rogério Paulo Matos), não quero discutir a qualidade dos nossos professores. Mas o que o Governo está a fazer (através de escolas de línguas contratadas à pressão) é colocar engenheiros electrotécnicos (ou outros) com um Certificate of Proficiency in English (qualquer licenciatura com componente de inglês tem um nível equivalente de inglês) a dar aulas a crianças do 1.º Ciclo (um ensino que exige anos de preparação). Pensar que saber inglês perfeitamente (o que pode nem ser o caso) basta para ensiná-lo a crianças de 8, 9 ou 10 anos é não saber em que consiste ensinar línguas. Longe de mim querer pôr em causa o dogma que "o inglês não se aprende na escola" (onde o fazem milhares de alunos) ou que "o ensino não presta, ponto final". Mas, apesar de tudo, as gerações que foram educadas nos últimos 30 anos têm um nível de inglês melhor do que o das anteriores. Tenhamos em conta que os professores de inglês começaram quase do zero e, ainda hoje, enfrentam muitos alunos cujos pais acham que aprender inglês não serve de nada (acredite-se ou não, há muita gente que insiste que os rios de "antigamente" eram mais úteis que o inglês de agora). Mas o problema é esse: se os professores, com quatro ou mais anos de formação e experiência, não conseguiram os resultados desejados, muito menos o conseguirão aqueles que não têm a mínima preparação. É o típico desenrascanço à portuguesa: "Ora deixa ver se eu puser este engenheiro a ensinar inglês isto resulta... Pelo menos é mais barato!" (Marco Neves) (url) (url)
EARLY MORNING BLOGS 625
Remémoration d'amis belges À des heures et sans que tel souffle l'émeuve Toute la vétusté presque couleur encens Comme furtive d'elle et visible je sens Que se dévêt pli selon pli la pierre veuve Flotte ou semble par soi n'apporter une preuve Sinon d'épandre pour baume antique le temps Nous immémoriaux quelques-uns si contents Sur la soudaineté de notre amitié neuve Ô très chers rencontrés en le jamais banal Bruges multipliant l'aube au défunt canal Avec la promenade éparse de maint cygne Quand solennellement cette cité m'apprit Lesquels entre ses fils un autre vol désigne À prompte irradier ainsi qu'aile l'esprit. (Stéphane Mallarmé) * Bom dia! (url)
© José Pacheco Pereira
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