O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: SOBRE O ENSINO DE INGLÊS (2ª série)
(Continua um debate iniciado a 14/10/20005)
Voltando à discussão sobre o Inglês, diz o insustentável que é "preciso libertar a discussão de grilhetas sindicais ou de classe, para situá-la no terreno da competência, da fixação de objectivos e avaliação dos resultados." Indiscutível. O que já merece discussão, no entanto, é precisamente a planificação programática e metodológica do ensino de línguas estrangeiras, nomeadamente no que respeita ao Inglês. Para início de conversa, será bom separar águas e não cair na tentação de comparar resultados obtidos em institutos de línguas com o que se passa na esmagadora maioria das escolas portuguesas. Porque os públicos são diferentes. Porque as condições de trabalho são diferentes. Porque são muito diferentes as culturas de ensino e aprendizagem.
Deixando de lado, por ora, o excessivo número de alunos por turma, a falta de recursos audio-visuais e, sobretudo, o ambiente de indisciplina e desinteresse em que decorrem demasiadas aulas em demasiadas escolas, que o assunto nos levaria a outros considerandos, será bom lembrar que as sucessivas inovações introduzidas no ensino de línguas estrangeiras no sistema de ensino português têm-se regido por um desejo de modernização que raramente acautelou as condições necessárias à implementação de modelos copiados de outros contextos. Algumas posições dogmáticas contribuiram para uma radicalização de opções metodológicas alheias às reais situações de ensino/aprendizagem a que devem ser adaptados quaisquer modelos. Nos últimos anos, tem imperado, nas escolas portuguesas, um certo ecletismo em tentativas várias de conjugação dos princípios da abordagem comunicativa, instituídos oficialmente com a reforma curricular do início dos anos 90, com outras práticas pedagógicas mais tradicionais ou ainda dominadas pelos métodos estruturalistas e funcionais que tanto impacto tiveram no ensino de línguas estrangeiras em Portugal nas décadas de 1970 e 1980. A falta de estudos empíricos que permitam a avaliação científica de programas, metodologias, estratégias e materiais, e a surpreendente (ou talvez não) indiferença dos sucessivos governantes perante tão grave omissão, deixa sem alternativa os modelos sucessivamente impostos e cuja eficácia não chega nunca a ser questionada, apesar do conhecido insucesso que se tem vindo a agravar. Mais do que discutir o perfil de habilitações ou alimentar a polémica de portugueses desempregados versus estrangeiros contratados, urge traçar de uma vez uma política de ensino público que tenha em vista as necessidades do país e os interesses das populações. E não só no que se refere ao ensino do Inglês, como vai sendo gritantemente evidente.
(Helena Rodrigues)
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Em relação ao comentário de Monika Kietzmann: o facto de um bilingue dizer que uma das línguas é a "principal" não quer dizer que o facto de ser bilingue (desde muito novo) não o tenha ajudado em muitos aspectos. Na realidade, um ser humano consegue aprender duas línguas simultaneamente desde muito novo (quanto mais cedo melhor) e o facto de aprender duas línguas dá-lhe uma flexibilidade e agilidade mental que não teria noutra situação. Pensar que aprender uma língua estrangeira pode prejudicar a aprendizagem da língua-mãe é falacioso, embora seja uma crença comum. Aprender línguas é como nadar: quanto mais cedo, mais fácil (e natural). Quando aprendemos outra língua, a nossa capacidade de análise metalinguística aumenta prodigiosamente e, assim, conseguimos aprender melhor a nossa própria língua. (Isto quando as coisas são bem feitas, ou seja, quando ambas são bem ensinadas.)
Quanto ao estado do ensino do inglês nos últimos 30 anos (cf. comentário de Rogério Paulo Matos), não quero discutir a qualidade dos nossos professores. Mas o que o Governo está a fazer (através de escolas de línguas contratadas à pressão) é colocar engenheiros electrotécnicos (ou outros) com um Certificate of Proficiency in English (qualquer licenciatura com componente de inglês tem um nível equivalente de inglês) a dar aulas a crianças do 1.º Ciclo (um ensino que exige anos de preparação). Pensar que saber inglês perfeitamente (o que pode nem ser o caso) basta para ensiná-lo a crianças de 8, 9 ou 10 anos é não saber em que consiste ensinar línguas. Longe de mim querer pôr em causa o dogma que "o inglês não se aprende na escola" (onde o fazem milhares de alunos) ou que "o ensino não presta, ponto final". Mas, apesar de tudo, as gerações que foram educadas nos últimos 30 anos têm um nível de inglês melhor do que o das anteriores.
Tenhamos em conta que os professores de inglês começaram quase do zero e, ainda hoje, enfrentam muitos alunos cujos pais acham que aprender inglês não serve de nada (acredite-se ou não, há muita gente que insiste que os rios de "antigamente" eram mais úteis que o inglês de agora). Mas o problema é esse: se os professores, com quatro ou mais anos de formação e experiência, não conseguiram os resultados desejados, muito menos o conseguirão aqueles que não têm a mínima preparação. É o típico desenrascanço à portuguesa: "Ora deixa ver se eu puser este engenheiro a ensinar inglês isto resulta... Pelo menos é mais barato!"