Actualizados os ESTUDOS SOBRE O COMUNISMO, com o texto publicado na Sábado da semana passada, uma introdução a um inédito de Cunhal (Carta aos juízes, 19 de Junho de 1950).
What thoughts I have of you tonight, Walt Whitman, for I walked down the sidestreets under the trees with a headache self-conscious looking at the full moon. In my hungry fatigue, and shopping for images, I went into the neon fruit supermarket, dreaming of your enumerations! What peaches and what penumbras! Whole families shopping at night! Aisles full of husbands! Wives in the avocados, babies in the tomatoes!--and you, Garcia Lorca, what were you doing down by the watermelons?
I saw you, Walt Whitman, childless, lonely old grubber, poking among the meats in the refrigerator and eyeing the grocery boys. I heard you asking questions of each: Who killed the pork chops? What price bananas? Are you my Angel? I wandered in and out of the brilliant stacks of cans following you, and followed in my imagination by the store detective. We strode down the open corridors together in our solitary fancy tasting artichokes, possessing every frozen delicacy, and never passing the cashier.
Where are we going, Walt Whitman? The doors close in an hour. Which way does your beard point tonight? (I touch your book and dream of our odyssey in the supermarket and feel absurd.) Will we walk all night through solitary streets? The trees add shade to shade, lights out in the houses, we'll both be lonely.
Will we stroll dreaming of the lost America of love past blue automobiles in driveways, home to our silent cottage? Ah, dear father, graybeard, lonely old courage-teacher, what America did you have when Charon quit poling his ferry and you got out on a smoking bank and stood watching the boat disappear on the black waters of Lethe?
(Allen Ginsberg)
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Bom dia!
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Por gentileza do Nuno Guerreiro da Rua da Judiaria que lá publicou esta tradução:
Um Supermercado na Califórnia (1955)
Que pensamentos teus tenho esta noite, Walt Whitman, porque caminhei pelas ruas sob as árvores com uma dor de cabeça auto-consciente olhando para a lua cheia. Na minha faminta fadiga, e procurando imagens, entrei no supermercado de frutos de néon, sonhando com as tuas enumerações! Que pêssegos e que penumbras! Famílias inteiras fazem compras à noite! Corredores cheios de maridos! Mulheres nos abacates, bebés nos tomates – e tu, Garcia Lorca, que fazias tu junto às melancias?
Eu vi-te, Walt Whitman, sem filhos, velho cavador solitário, apalpando as carnes no frigorífico e olhando os rapazes do supermercado. Ouvi-te fazer perguntas a cada um: Quem matou as costeletas de porco? A como são as bananas? És tu o meu anjo? Vagueei dentro e fora da brilhante pilha de latas seguindo-te, e seguido na minha imaginação pelo segurança da loja. Caminhámos juntos pelos corredores abertos na nossa solidão ilustre provando as alcachofras, possuindo todas as delícias congeladas, sem nunca passar pela caixa.
Onde vamos nós, Walt Whitman? As portas fecham daqui a uma hora. Em que direcção aponta a tua barba esta noite? (toco o teu livro e sonho com a nossa odisseia no supermercado e sinto-me absurdo.) Caminharemos toda a noite por ruas solitárias? As árvores juntam sombra a sombras, luzes apagadas nas casas, estaremos ambos solitários.
Caminharemos sonhando com a América perdida do amor passando por automóveis azuis à entrada das garagens, em direcção à nossa cabana tranquila? Ah, querido pai, barba grisalha, velho solitário professor-coragem, que América tinhas tu quando Caronte deixou de puxar a sua balsa e tu desceste numa margem fumegante e ficaste a olhar o barco desaparecendo nas águas negras do Rio do Esquecimento?
con gli occhi alla pioggia e agli elfi della notte, è là, nel campo quindici a Musocco, la donna emiliana da me amata nel tempo triste della giovinezza. Da poco fu giocata dalla morte mentre guardava quieta il vento dell'autunno scrollare i rami dei platani e le foglie dalla grigia casa di periferia. Il suo volto è ancora vivo di sorpresa, come fu certo nell'infanzia, fulminato per il mangiatore di fuoco alto sul carro. O tu che passi, spinto da altri morti, davanti alla fossa undici sessanta, fermati un minuto a salutare quella che non si dolse mai dell'uomo che qui rimane, odiato, coi suoi versi, uno come tanti, operaio di sogni.
Uma pequena lembrança aos liberais: faz parte da força de uma sociedade livre e activa, como a que os liberais desejam construir, ter... greves. O conflito social não é um fim em si, mas um instrumento legítimo de defesa de interesses, por mais corporativos e egoístas que eles sejam, sem o qual as sociedades deixam de ser democráticas.
Segunda nota: não há greves eficazes sem dor, sem prejuízo, sem vítimas. Faz parte mesmo da possibilidade de eficácia de uma greve, que é o que uma greve pretende. A ideia que as greves só podem existir quando são apenas simbólicas, coloca efectivamente em causa o direito à greve. É natural por isso que os sindicatos as tentem realizar quando atingem ou mais pessoas, ou interesses de grupos, que possam levar governos ou empresas a recuar. O prejuízo social de uma greve – aos “utentes” dos transportes, aos alunos que vão fazer exames, etc – pode e deve ser discutido e utilizado no debate público contra os grevistas, mas não pode ser argumento contra a erosão do direito à greve. A distinção é importante. (*)
A sociedade protege o interesse geral estipulando os “serviços mínimos” que são vitais para o seu funcionamento regular. Mas “mínimos” significa sempre “mínimos”, e o terreno desse mínimo é o que atribuo às funções mínimas do estado: segurança dos cidadãos, defesa nacional, funcionamento regular dos corpos de emergência nos hospitais, bombeiros, etc. Fora disso, os “mínimos” já são máximos. Não tem sentido ser liberal quanto ao Estado e depois entender os “serviços mínimos”, que este tem que garantir numa greve, com uma latitude de obrigações típica de um Estado socialista, ou seja, tudo.
Lembrá-lo não significa estar de acordo nem com os objectivos das greves, nem com a actuação dos sindicatos, muito menos com os dos professores, dos primeiros responsáveis pela situação da nossa educação. Mas isso é outra coisa diferente. Nem sequer significa desacordo com a posição do governo quanto aos objectivos do seu programa que suscitaram a greve.
Só me preocupa que se deite fora o menino com a água do banho e, desde há muito, que a experiência dos socialistas mostra que mudam de políticas 180º, quando lhes convém, passando do maior laxismo para um autoritarismo (**) favorecido pela complacência da oposição (e o acordo silencioso em muitos casos) e pela falta de debate público substituído por modas – e a moda agora é deslegitimar os conflitos sociais.
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(*) Uma nota suplementar: é nestas alturas que se percebe como funcionam as lealdades políticas dos responsáveis pelas Direcções Regionais, constituídas tradicionalmente pelos “boys” dos aparelhos partidários locais e que nestes momentos tendem a ser mais papistas que o papa.
(**) Recordam-se da legislação ultra-permissiva sobre escutas telefónicas do ministro António Costa, atacada depois pelo PS quando do “caso” Casa Pia? Convinha lembrar.
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A propósito do seu post de 23-06-2005 intitulado "Lembrança a tempo por causa do tempo", faria apenas o seguinte reparo: quando reconhece legitimidade, por exemplo, aos professores para fazerem greve no momento em que ela mais se nota, ou seja, durante a realização de exames, está apenas a esquecer-se de que, ao contrário de outros casos, esta greve produz efeitos que podem prolongar-se excessivamente no tempo. Quando há uma greve de transportes (que afecta sempre muita gente) as pessoas, quer utilizem nesse dia o carro particular, ou os transportes alternativos, ou usem até um dia de férias no emprego, etc., sabem que a greve começa a uma certa hora e termina a uma certa hora e que os efeitos se limitam a esse espaço de tempo. No caso dos exames, não é assim: a nova marcação de todos os exames levaria seguramente a que uma boa parte deles entrasse por Agosto dentro, destruindo por completo as férias de dezenas de milhar de famílias. Não me parece justo que os professores, com um só dia de greve, consigam produzir efeitos na sociedade durante mais de dois meses.
Para servir de comparação com a "revisão" que hoje faço no Público dos "trabalhos" do Presidente da Comissão, um ano depois, coloquei na VERITAS FILIA TEMPORIS o artigo original de Julho de 2004. Ali se fala claramente da "mais que provável reprovação da Constituição num ou mais referendos" e suas consequências.
De um lado, dois cartazes antigos, um, o maior, dos primeiros anos do Estado Novo promete casas “arejadas” aos trabalhadores que se filiem nos Sindicatos Nacionais; por cima, outro da campanha de Norton de Matos diz “Garanti o futuro / contra um sistema / em que todos pagam muito e poucos / recebem pouco.” Ao centro, um prato de damascos, apanhados no cimo da árvore, e outro de flor de tília. Cadeiras. Um vago candeeiro, fios. A manhã.
É difícil encontrar melhor exemplo de um processo puramente casuístico, atrapalhado, incompetente, cúmplice nas fraquezas, revelador de puro taticismo, onde políticos dos partidos da governação, PS, PSD, PP, mostram que não se respeitam nem a si próprios, nem aos portugueses que os representam, do que tudo o que se passou com esta “revisão constitucional” para referendar a Constituição europeia. Que tudo isto tenha sido possível como se fosse o mais normal dos processos, onde ninguém se envergonha, ninguém se revolta nos respectivos partidos, é um sinal claro, insisto claro, do grau de degradação a que chegou a actividade política e parlamentar em Portugal.
Edovremo dunque negarti, Dio dei tumori, Dio del fiore vivo, e cominciare con un no all'oscura pietra «io sono», e consentire alla morte e su ogni tomba scrivere la sola nostra certezza: «thànatos athànatos»? Senza un nome che ricordi i sogni le lacrime i furori di quest'uomo sconfitto da domande ancora aperte? Il nostro dialogo muta; diventa ora possibile l'assurdo. Là oltre il fumo di nebbia, dentro gli alberi vigila la potenza delle foglie, vero è il fiume che preme sulle rive. La vita non è sogno. Vero l'uomo e il suo pianto geloso del silenzio. Dio del silenzio, apri la solitudine.
O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: OS LIVROS QUE NÃO HÁ
A propósito de livros que não podem continuar esgotados e inacessíveis (em português), a lista é seguramente longa. Mas há alguns que procuro em alfarrabistas há muito tempo e não consigo encontrar. São livros que facilmente poderiam ser reeditados e certamente o mereceriam. Falo das Crónicas de Fernão Lopes (na excelente edição da Imprensa Nacional - Casa da Moeda) e do célebre Arquipélago do Goulag, de Aleksandr Solzhenitsyn. O problema poderá estar também nas nossas livrarias? É que procurei há algumas semanas obras de Dickens traduzidas para português e, tirando o Conto de Natal, pouca coisa encontrei.
este ano há dois ninhos. No ano passado, havia também dois ninhos, mas ambos de “verdinhogo” (deve ser verdilhão no falar local). Este ano há dois diferentes: um de “verdinhogo”, no mesmo local exacto onde havia outro no ano passado, e um de pardal. O vento bate com força mas os ninhos nem se mexem: um, do “verdinhogo”, feito de fios vegetais, ervas, muito finos, entrelaçados, com uma pequena cama de algodão no meio; o outro, de pardal, feito com palha e ramos mais grossos, sólido, parece betão. Casas alheias, recatadas, escondidas, habitadas.
I went to the dances at Chandlerville, And played snap-out at Winchester. One time we changed partners, Driving home in the moonlight of middle June, And then I found Davis. We were married and lived together for seventy years, Enjoying, working, raising the twelve children, Eight of whom we lost Ere I had reached the age of sixty. I spun, I wove, I kept the house, I nursed the sick, I made the garden, and for holiday Rambled over the fields where sang the larks, And by Spoon River gathering many a shell, And many a flower and medicinal weed-- Shouting to the wooded hills, singing to the green valleys. At ninety-six I had lived enough, that is all, And passed to a sweet repose. What is this I hear of sorrow and weariness, Anger, discontent and drooping hopes? Degenerate sons and daughters, Life is too strong for you-- It takes life to love Life.
Certain roi qui régnait sur les rives du Tage, Et que l'on surnomma le sage , Non parcequ'il était prudent, Mais parcequ'il était savant, Alphonse, fut surtout un habile astronome. Il connaissait le ciel bien mieux que son royaume, Et quittait souvent son conseil Pour la lune ou pour le soleil. Un soir qu'il retournait à son observatoire, Entouré de ses courtisans, Mes amis, disait-il, enfin j'ai lieu de croire Qu'avec mes nouveaux instruments Je verrai cette nuit des hommes dans la lune. Votre majesté les verra, Répondait-on ; la chose est même trop commune, Elle doit voir mieux que cela. Pendant tous ces discours, un pauvre, dans la rue, S'approche, en demandant humblement, chapeau bas, Quelques maravédis : le roi ne l'entend pas, Et, sans le regarder, son chemin continue. Le pauvre suit le roi, toujours tendant la main, Toujours renouvelant sa prière importune ; Mais, les yeux vers le ciel, le roi, pour tout refrain, Répétait : je verrai des hommes dans la lune. Enfin le pauvre le saisit Par son manteau royal, et gravement lui dit : Ce n'est pas de là haut, c'est des lieux où nous sommes Que Dieu vous a fait souverain. Regardez à vos pieds ; là vous verrez des hommes, Et des hommes manquant de pain.
O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: TEORIA DA RELATIVIDADE
Há muitos anos atrás eu era apenas um ano mais velha do que a Alexandra Lencastre. Não me lembro como o soube, mas tenho a certeza de que o soube. Hoje ao folhear as revista que folheio no cabeleireiro percebi que já era 5 anos mais velha do que ela.
Sem o mesmo rigor, mas com igual convicção, lembro-me de que a Elsa Raposo, dantes, não era muito mais nova do que eu. Hoje, e fazendo fé às revista que leio no cabeleireiro, está com uma diferença de seis anos de mim.
Poderia continuar a dar exemplos, o que tornaria certamente o texto enfadonho. O padrão é sempre o mesmo: eu envelheço mais depressa do que as “celebridades” das revistas que leio no cabeleireiro. Contra esta forma de discriminação nunca ouvi vozes levantarem-se. Nem o BE, nem os Juízes, nem os funcionários públicos, nem o governo. Nem sequer o Professor Marcelo que esta semana fez um pungente desabafo em relação à crónica amoralidade que se vive no país.
The art of losing isn't hard to master; so many things seem filled with the intent to be lost that their loss is no disaster.
Lose something every day. Accept the fluster of lost door keys, the hour badly spent. The art of losing isn't hard to master.
Then practice losing farther, losing faster: places, and names, and where it was you meant to travel. None of these will bring disaster.
I lost my mother's watch. And look! my last, or next-to-last, of three loved houses went. The art of losing isn't hard to master.
I lost two cities, lovely ones. And, vaster, some realms I owned, two rivers, a continent. I miss them, but it wasn't a disaster.
--Even losing you (the joking voice, a gesture I love) I shan't have lied. It's evident the art of losing's not too hard to master though it may look like (Write it!) like disaster.
A meia dúzia de quilómetros de Lisboa, a electricidade falha com regularidade. Hoje, foram várias horas, porque tudo demora sempre várias horas a arranjar, principalmente aos domingos. A nossa enorme dependência da electricidade aparece nestas alturas, O “apagão” faz disparar os alarmes, arrasta computadores para a miséria, descongela frigoríficos, atrasa o trabalho e semeia o caos. Explicações, desculpas, indemnizações, faltam sempre aos monopólios do estado. Para quê? A culpa é sempre de uma cegonha. Não há competição, não posso desligar a EDP e ligar-me a qualquer outra fonte de “luz”.