ABRUPTO

16.4.05


INTENDÊNCIA

Para não variar, a bibliografia...

Em breve, a versão 4.0 de OS CINQUENTA MOMENTOS POLÍTICOS MAIS IMPORTANTES DEPOIS DO 25 DE ABRIL, a penúltima.

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BIBLIOFILIA: A LETRA DE UM ESPIÃO



Mas não foi só o Grande Hotel que encontrei nos alfarrabistas bracarenses, foi também este livro do célebre organizador da espionagem da França Livre, Gilbert Renault, dito “Coronel Remy”, com uma dedicatória do próprio (não tenho a certeza, mas quase) a um Almirante português em 1955.

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MAIS GRANDE HOTEL , “A MÁGICA REVISTA DO AMOR”



Bravo! O amor é compatível com a arte com letra A, e com os surrealistas… em Roma. Mas há mais: “Coração que não sabe esquecer”, “Traída!”, “Eu tive este sonho”, “Truque de namorada”, “Não me odeie, meu amor!”, “Lágrimas”, várias e um mentiroso “Sempre te esperarei”. Um fabuloso casamento em Fiesso, “abandonando ela o alvo enxoval e ele fatiota nova, calçaram botas e enfrentaram a larga estrada para ir à Igreja”, treze quilómetros para sermos mais precisos, com neve alta. Casaram de cachecol. E há o “É proibido amar-te” e...

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EARLY MORNING BLOGS 471

Between the Beating Clocks


Cheap, made to travel they throw their tiny drumbeats out in stereo from the bed table
to the work station. They fill the room
with a music of ticking, only just out
of synch. It could be maddening,
Poe's buried heart, or that spinning toy,
a shuttlecock, ratcheting over nylon cord
slap, slap, slap. Or the body's racket
in the blood, the slow tock of sex undone.
It soothes, they do, soothe, the ping-pong
rhythm of their second-clapping hands:
red line, a vein between this and that.


(Crystal Bacon)

*

Bom dia, "ticking"!

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15.4.05


BIBLIOFILIA: TORCE-SE E SAI AMOR POR TODOS OS POROS



nesta fabulosa revista Grande Hotel, que encontrei num alfarrabista em Braga, terra muito propícia a estas descobertas. Alguns blogues deviam vir aqui buscar inspiração. Histórias: “Idílio a Bordo”, “Brincadeira”, e “Feira de livros”. Mas há mais: “Visita ao castelo”, “Passeio bucólico”, “A bela moleira”, “A bela enfermeira”, “Na Igreja”, “Refeição na montanha”. Há também uma fotonovela “Bela demais para ser feliz” e muito mais, um verdadeiro catálogo do mau gosto triunfante. Mais cedo ou mais tarde estará nos ícones da Taschen.

Não, não é engano. Na “Feira do livro”, o livro à esquerda é de Kant.

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OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: VOLTOU O MORSE, PONTO, TRAÇO DE NOVO


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O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: O PERDÃO DOS INFORMADORES

(...)Na realidade os democratas, com frequência, valorizam excessivamente o perdão, mesmo quando este pode fragilizar a própria democracia. A liberdade implica responsabilidade e os adultos são responsáveis/responsabilizáveis pelos seus actos . A pouca sensatez está em, no caso vertente, e como assinalou muito bem, deixar que sejam públicos os nomes (... e não só) das vítimas e se protejam os algozes.

Sou pouco crente na capacidade de alteração estrutural de um/a tipo/a que assumiu o desprezível papel de informador/a mas não quero fechar a porta ao arrependimento e à sua integração na democracia.No entanto, perante eles, como em dia de chuveiros,fecho o guarda-chuva mas não o deito fora...

(Maria Cruz)

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O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: HOW FAR CAN YOU GO? DE DAVID LODGE

Comecei a ler o livro uns dias antes da deterioração do estado de saúde do Papa João Paulo II (não sabia, portanto, o quão pertinente a sua leitura se viria a revelar), terminei poucos dias após a sua morte. Tinha-o comprado numa das minhas "peregrinações" à Hodges & Figgis de Dublin sem absolutamente nenhuma referência para além do texto na contra-capa: "Polly, Dennis, Angela, Adrian and the rest were bound to lose their spiritual innocence as well as their virginities on the way from the 1950s to the '70s. On the one hand there was the traditional Catholic Church, on the other the siren call of the permissive society - the appearance of the Pill, the disappearance of Hell and the advent of COC (Catholics for an Open Church). It was inevitable that things would change fairly radically. But still...". E, claro, a certeza de umas horas bem entretidas que os livros de David Lodge sempre propiciam. Tal como o texto citado sugere, o livro narra a história de um grupo de católicos na Inglaterra dos anos 50 a 70, e das suas dúvidas e angústias na tentativa de conciliar a sua conduta numa sociedade cada vez mais permissiva com a sua religião.

Chama-se "How Far Can You Go" e o último parágrafo reza assim:

"While I was writing this last chapter, Pope Paul VI died and Pope Jonh Paul I was elected. Before I could type it up, Pope John Paul I had died and been succeeded by John Paul II, the first non-Italian pope for four hundred and fifty years: a Pole, a poet, a philosopher, a linguist, an athlete, a man of the people, a man of destiny, dramatically chosen, instantly popular - but theologically conservative. A changing Church acclaims a Pope who evidently thinks that change has gone far enough. What will happen now? All bets are void, the future is uncertain, but it will be interesting to watch."

O livro teve a sua primeira edição em 1980.

(Mariana Magalhães)

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14.4.05


A OUVIR

o poema de Frank O'Hara To the Film Industry in Crisis, lido por ele próprio, um dos grandes hinos poéticos ao cinema, ao cinema americano, onde a "velha Europa" só espreita com Eric von Stroheim , na pele do "seducer of mountain-climbers' gasping spouses". Vale a pena ler enquanto se ouve:

To the Film Industry in Crisis


Not you, lean quarterlies and swarthy periodicals
with your studious incursions toward the pomposity of ants,
nor you, experimental theater in which Emotive Fruition
is wedding Poetic Insight perpetually, nor you,
promenading Grand Opera, obvious as an ear (though you
are close to my heart), but you, Motion Picture Industry,
it's you I love!

In times of crisis, we must all decide again and again whom we love.
And give credit where it's due: not to my starched nurse, who taught me
how to be bad and not bad rather than good (and has lately availed
herself of this information), not to the Catholic Church
which is at best an oversolemn introduction to cosmic entertainment,
not to the American Legion, which hates everybody, but to you,
glorious Silver Screen, tragic Technicolor, amorous Cinemascope,
stretching Vistavision and startling Stereophonic Sound, with all
your heavenly dimensions and reverberations and iconoclasms! To
Richard Barthelmess as the "tol'able" boy barefoot and in pants,
Jeanette MacDonald of the flaming hair and lips and long, long neck,
Sue Carroll as she sits for eternity on the damaged fender of a car
and smiles, Ginger Rogers with her pageboy bob like a sausage
on her shuffling shoulders, peach-melba-voiced Fred Astaire of the feet,
Eric von Stroheim, the seducer of mountain-climbers' gasping spouses,
the Tarzans, each and every one of you (I cannot bring myself to prefer
Johnny Weissmuller to Lex Barker, I cannot!), Mae West in a furry sled,
her bordello radiance and bland remarks, Rudolph Valentino of the moon,
its crushing passions, and moonlike, too, the gentle Norma Shearer,
Miriam Hopkins dropping her champagne glass off Joel McCrea's yacht
and crying into the dappled sea, Clark Gable rescuing Gene Tierney
from Russia and Allan Jones rescuing Kitty Carlisle from Harpo Marx,
Cornel Wilde coughing blood on the piano keys while Merle Oberon berates,
Marilyn Monroe in her little spike heels reeling through Niagara Falls,
Joseph Cotten puzzling and Orson Welles puzzled and Dolores Del Rio
eating orchids for lunch and breaking mirrors, Gloria Swanson reclining,
and Jean Harlow reclining and wiggling, and Alice Faye reclining
and wiggling and singing, Myrna Loy being calm and wise, William Powell
in his stunning urbanity, Elizabeth Taylor blossoming, yes, to you

and to all you others, the great, the near-great, the featured, the extras
who pass quickly and return in your dreams saying your one or two lines,
my love!
Long may you illumine space with your marvellous appearances, delays
and enunciations, and may the money of the world glitteringly cover you
as you rest after a long day under the kleig lights with your faces
in packs for our edification, the way the clouds come often at night
but the heavens operate on the star system. It is a divine precedent
you perpetuate! Roll on, reels of celluloid, as the great earth rolls on!


(Mérito do Borzoi Reader).

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INTENDÊNCIA

Continua a saga da bibliografia...

Colocados no VERITAS FILIA TEMPORIS todos os textos da série da Lagartixa e do Jacaré, publicados na Sábado até há uma semana.

Actualizada com novos textos a nota LER de 11 de Abril, com o Google vs. França.

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COISAS SIMPLES


C. Somov

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EARLY MORNING BLOGS 470

All Things can tempt Me



All things can tempt me from this craft of verse:
One time it was a woman's face, or worse -
The seeming needs of my fool-driven land;
Now nothing but comes readier to the hand
Than this accustomed toil. When I was young,
I had not given a penny for a song
Did not the poet sing it with such airs
That one believed he had a sword upstairs;
Yet would be now, could I but have my wish,
Colder and dumber and deafer than a fish.


(Yeats)

*

Bom dia!

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13.4.05


INTENDÊNCIA

Actualizado A LER de 11 de Abril sobre o Google e a França.

Continua a ser completada a Bibliografia Sistemática dos ESTUDOS SOBRE O COMUNISMO.

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OS CINQUENTA MOMENTOS POLÍTICOS MAIS IMPORTANTES DEPOIS DO 25 DE ABRIL (Versão 3.0)


[Esta lista é uma terceira versão. Será de novo completada e eventualmente alterada com as colaborações dos leitores do Abrupto. Os comentários recebidos até agora estão anexos às versões anteriores. A vermelho algumas dessas sugestões que ainda não entraram na lista definitiva. A versão final será datada com mais precisão e indicará os principais responsáveis pelo "momento".]

1. O primeiro 1º de Maio, o respirar inicial da liberdade. Responsável: MFA (1 de Maio de 1974).
Gostaria de saber porque não incluiu a libertação dos presos políticos. A data ocorreu entre 25/04 e 01/05, uma vez que tenho a certeza de que alguns participaram já nas manifestações do primeiro 1º de Maio “público”.

(Lúcia Maria)
2. Criação dos partidos democráticos depois do 25 de Abril: a estruturação do PS na legalidade, a criação do PSD e do CDS.

3. Decisão do PCP de se opor à manifestação da "maioria silenciosa” de 28 de Setembro dando início ao chamado “Processo revolucionário em curso” (PREC) (no mês de Setembro de 1974).

4. Discurso de Salgado Zenha no Pavilhão dos Desportos contra a “unicidade sindical” (16 Janeiro 1975).

5. Legalização do divórcio nos casamentos religiosos com a alteração da Concordata. Responsável: Salgado Zenha (15 de Fevereiro de 1975).

6. Golpe e contra-golpe do 11 de Março. Responsáveis: Spínola e a ala militar ligada ao PCP no Conselho da Revolução (11 de Março de 1975).

7. Nacionalizações a seguir ao 11 de Março. Responsável: Conselho da Revolução.

8. Eleições para a Assembleia Constituinte que deram vitória aos partidos que se opunham ao PREC (25 de Abril de 1975).

9. Incêndios e destruições das sedes do PCP no Centro e Norte do país (a partir de fins de Maio de 1975).

10. Comício da Fonte Luminosa, ponto alto da resistência ao PREC dos socialistas (19 de Julho de 1975).
Creio que ficaria bem nesta resenha uma referência ao "documento dos nove" que circulou pelas unidades militares, em Julho/Agosto de 75 e que permitiu recentrar o papel da FA no processo de democratização e que fechou o caminho à "democracia popular". Sem esta atitude a cubanização seria talvez imparável.

(Eugénio Ferreira)

x. "Olhe que não, olhe que não", o debate Soares/Cunhal (6 de Novembro de 1975).

11. O 25 de Novembro, fim da expressão militar do PREC (25 de Novembro de 1975).

A intervenção do capitão Duran Clemente na RTP no dia 25 Novembro de 1975. Um dos momento mais trágico-cómicos da vida política portuguesa.

(Alexandre Feio)
12. Declarações de Melo Antunes impedindo a ilegalização do PCP depois do 25 de Novembro (26 de Novembro).

x. Autonomias regionais.

13. Fim do império colonial e "retorno" dos portugueses de África (anos de 1975-7).

14. Aprovação da Constituição em 1976 que garantia os direitos fundamentais de uma democracia, mas mantinha na sua parte económica e em muitos outros aspectos a linguagem e o adquirido do PREC.

15. Acção de Sottomayor Cardia no Ministério da Educação, o primeiro ministro a tentar sair do “estilo” e dos poderes do PREC.

Ao ler a sua lista sobre os 50 momentos políticos mais importantes depois do
25 de Abril deparei com este que me fez escrever-lhe. Eu estava na Universidade, na Faculdade de Letras de Lisboa, quando Sottomayor Cardia foi Ministro da Educação. Hoje sei que ele tinha obviamente razão em querer destruir o que nós - os esquerdistas que paralisávamos com grande facilidade as universidades - chamávamos a "gestão democrática", e nós não.

Mas ele foi também o autor de uma remodelação curricular dos cursos de Letras, e em particular do de História (que concluí), que nunca deixei de pensar que foi uma regressão sem sentido, sobretudo nessa altura. (e já não falo do regresso de um certo número de saneados que, por muito injusto e inaceitável que fosse o seu saneamento dois anos antes, traziam um cheiro a bolor intelectualmente insuportável).
Hoje dizem-se e escrevem-se coisas assustadoras sobre a Universidade desses anos e a avaliação contínua e todas as tropelias que sabemos...

Mas eu gostaria de lembrar que foi desses anos universitários - e falo apenas do curso de História da FLL - em que os professores se chamavam José Matoso, Cláudio Torres, Jorge Custódio, Borges Coelho (e, em 75/76, ainda Barradas de Carvalho) e uma lista enorme de outros nomes, que saíram pessoas que hoje têm intervenção pública notória como António Costa Pinto, Nuno Severiano Teixeira, Bernardo Vasconcelos e Sousa (ex-director da Torre do Tombo), Francisco Bethencourt, João Pinharanda, (o falecido) Manuel Hermínio Monteiro, os jornalistas Henrique Monteiro e Pedro Caldeira Rodrigues e uma lista de nomes que poderia continuar mas que correria o risco de ser fastidiosa. E estou apenas a lembrar alguns nomes desse curso de História sem ir para a Filosofia (António Pinto Ribeiro, Manuel S. Fonseca,...) ou a Literatura e as Línguas e ter que lhe encher várias páginas (de alunos e também de professores). Terá sido esse um momento importante? Que saudades desses anos...

(Pedro Borges)

16. A Lei Barreto, o início da contra-reforma agrária.

17. Vitória da AD demonstrando a possibilidade de alternância democrática à hegemonia do PS.

18. Morte acidental (ou assassinato) de Sá Carneiro.

19. Fim do Conselho da Revolução na revisão constitucional de 1982

20. “Bloco central” em que PS e PSD dividiram o estado, os cargos públicos, as áreas de influência, os gestores públicos, criando um establishment de poder que ainda hoje é prevalecente.

21. Desmantelamento das FP 25 de Abril e prisão dos seus responsáveis.

22. “Apertar do cinto” obrigado pelo FMI, numa situação de quase ruptura das finanças públicas. Responsáveis: Ernâni Lopes e Mário Soares.

23. A criação do PRD, o partido de iniciativa presidencial que dividiu o eleitorado socialista. Responsável: Ramalho Eanes (25 de Fevereiro de 1985).

24. Primeira volta das eleições presidenciais de 1985 em que Mário Soares acaba com o “pintasilguismo” e com as últimas tentativas de um “socialismo” ao modelo peruano. e a sua eleição como primeiro Presidente civil da democracia.

25. Congresso do PSD da Figueira da Foz em que vence Cavaco (Maio de 1985).

26. Entrada de Portugal na UE (1 de Janeiro de 1986).

27. Dissolução da Assembleia da República depois da aprovação da moção de censura do PRD (1987).

28. Maioria absoluta de Cavaco Silva, uma verdadeira subversão de um sistema eleitoral construído para obrigar a governos de coligação.

29. O influxo de vultuosos fundos comunitários, parcialmente desperdiçados no Fundo Social Europeu, mas permitindo importantes obras infraestruturais que mudaram a face do país.

30. Privatização do espaço televisivo e da comunicação social escrita do estado. Responsável: Cavaco Silva.

31. Introdução do IVA, a mais efectiva modernização do sistema fiscal desde o 25 de Abril.

32. Revisão económica da Constituição permitindo finalmente a existência de uma plena economia de mercado e as privatizações.

33. A primeira Presidência portuguesa da UE. Responsável: Cavaco Silva.

34. O Massacre de Santa Cruz, em Timor-Leste e todo o processo subsequente de luta pela autodeterminação de Timor-Leste (12 de Novembro de 1991).

35. A orientação do Independente para criar um populismo de direita contra o PSD. Responsável: Paulo Portas.

36. Criação do PP contra o CDS, dando expressão partidária ao populismo de direita e à acção unipessoal de Paulo Portas. Responsáveis: Paulo Portas e Manuel Monteiro.

37. Bloqueio da Ponte 25 de Abril (1994).

Em 1994. As célebres manifestações de atitudes obscenas contra Manuela Ferreira Leite, então ministra da educação do governo de Cavaco Silva e a “geração rasca” alcunhada por Vicente Jorge Silva no editorial do seu jornal, O Público. A geração que baixou as calças e mostrou as nádegas ao Governo ao mesmo tempo que gritava “não pagamos”.

(Francisco Pacheco Craveiro)
38. O “tabu”, a decisão de Cavaco Silva de não se candidatar às próximas eleições legislativas, fim do “cavaquismo” (1995).

39. A decisão de fazer a Expo mudando a face oriental de Lisboa (1998).

40. Vitória do “não” no "Referendo sobre a instituição em Concreto das Regiões Administrativas (8-Nov-1998)",

41. Criação do Rendimento Mínimo Garantido.

42.. Referendo sobre o Aborto (Junho de 1998).

43. Adesão ao euro (1 de janeiro de 1999).

44. Devolução de Macau à plena soberania chinesa (20 de Dezembro de 1999).

45. Demissão de António Guterres.

46. Processo Casa Pia: depois do processo Emaudio, é o primeiro grande processo-crime que envolve importantes dirigentes políticos.

47. Saída de Durão Barroso para a Presidência da UE.

48. Campanha eleitoral do PS entre João Soares, Manuel Alegre e José Sócrates.

49. Dissolução da Assembleia da República e fim do governo Santana Lopes - Paulo Portas. Responsável: Jorge Sampaio.

50. Maioria absoluta do PS. Responsável: José Sócrates (20 de Fevereiro de 2005).

*
É um acontecimento cujo impacto ainda não podemos medir, mas que desde já talvez mereça ser colocado algo acima do número 42 da sua lista. A vitória com maioria absoluta do PS mostrou que, apesar dos condicionamentos do sistema eleitoral, é possível que saiam directamente de eleições maiorias unipartidárias de esquerda (tal como já havia sido possível à direita...).
Um acontecimento que ainda não se encontra na lista e que talvez se justifique ser acrescentado: a ocupação do cargo de primeira-ministra por uma mulher;

(Filipe)


*

E os Inadiáveis e a ruptura de Sá Carneiro? E talvez o discurso de Almada do Vasco Gonçalves? Lembra-se de um cartaz que apareceu nas grades do jardim do Miguel Bombarda? «Volta, Vasco, estás perdoado! Mas se não quiseres voltar, ao menos vem aos tratamentos!»

E outro: «O Exército é o espelho da Nação». E alguém andou a escrever, por baixo de muitos: “Estamos muito mal servidos de espelhos…”

Portugal ainda não tinha perdido o gosto de rir dos seus políticos e das suas situações. E que falta que isso faz. A uns e a outros…

(Luis Manuel Rodrigues)
*

No sentido de dar um pequeno contributo para esta lista lembrei-me do caso
Felgueiras que levou à fuga de uma "figura politica" para o Brasil.

Há também o famoso acordo do queijo limiano que aprovou as contas de 2001.

(Carlos Lopes)
*

Gostaria de dar o meu contributo com alguns momentos que considero merecerem fazer parte da lista (como pontos ou sub pontos):

Pacto MFA-Partidos, que permitiu a realização das eleições e terá marcado até hoje o espectro político português (uma vez que ainda hoje o CDS tem dificuldades em encontrar um espaço claro)

Cerco ao congresso do CDS, às suas sedes e a comícios do PPD

Cerco à Assembleia Constituinte e o "badamerda" do 1º ministro

Eleição do deputado da UDP, facto que deu origem ao BE (na minha opinião o que uniu os partidos do BE foi a possibilidade de regressar ao parlamento sem o estigma de coligações contra natura)

Manifestações pró Timor, no pós referendo.

(Pedro Castaño)

*
O acordo de Bicesse. Pela relevância nacional e internacional com a alta influência de José Manuel Durão Barroso.

(Tiago Craveiro)

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BREVE

versão 3.0 de OS CINQUENTA MOMENTOS POLÍTICOS MAIS IMPORTANTES DEPOIS DO 25 DE ABRIL.

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12.4.05


A OUVIR

Wallace Stevens a "dizer" "The Idea of Order at Key West" .

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COISAS COMPLICADAS


Ingres

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EARLY MORNING BLOGS 469

GOMES LEAL


Sagra, sinistro, a alguns o astro baço.
Seus três anéis irreversíveis são
A desgraça, a tristeza, a solidão.
Oito luas fatais fitam no espaço.

Este, poeta, Apolo em seu regaço
A Saturno entregou. A plúmbea mão
Lhe ergueu ao alto o aflito coração,
E, erguido, o apertou, sangrando lasso.

Inúteis oito luas de loucura
Quando a cintura tríplice denota
Solidão e desgraça e amargura!

Mas da noite sem fim um rastro brota,
Vestígios de maligna formosura:
É a lua além de Deus, álgida e ignota.


(Fernando Pessoa)

*

Bom dia!

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11.4.05


NATUREZA MORTA DE NOITE

Da esquerda para a direita: um moleskine quase no fim, uma tesoura vermelha, um lápis de muito longe, castanho, uma pilha de cartões de visita, as Etimologias de S. Isidoro de Sevilha, edição bilingue, latim e castelhano, um DVD do PCGamer, com o Freedom Force vs the Third Reich, uma máquina fotográfica cheia de fotografias, uma pilha de zips, um rádio de ondas curtas da Sony, meia dúzia de moedas, euros e dimes, um penny para os teus pensamentos”, um número de telefone escrito à pressa, duas caixas vazias de Clubmaster verde para guardar as moedas, um agrafador, duas mãos fazendo o meio no meio, um ecrã, dois olhos, fazendo o meio no meio, um espelho côncavo, um azulejo de Delft, um postal com um livro, uma porta (ou será um monte de caixas?), selos e um telescópio, uma estação meteorológica, , vinte graus aqui, dezasseis lá ao fundo, onze lá fora, algum vento, escuro, pedaços de lava, vária, um ramo pequeno de cedro das encostas, um dado viciado, um rato branco, depois o que está atrás, fantasmas, livros.

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INTENDÊNCIA

Nova actualização de OS CINQUENTA MOMENTOS POLÍTICOS MAIS IMPORTANTES DEPOIS DO 25 DE ABRIL (Versão 2.0).

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COISAS SIMPLES


Kuzma Petrov-Vodkin

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A LER

No NYT France Detects a Cultural Threat in Google e Jean-Noël Jeanneney, "L'intelligence, l'innovation ne sont pas seulement outre-Atlantique !" no Le Monde. "Estratégia de Lisboa" no seu pleno sentido chauvinista.

*
Não vejo qualquer fundamento para classificar de chauvinista a ideia de as bibliotecas europeias iniciarem um processo de digitalização das suas colecções, usando os seus proprios recursos e fazendo a sua propria selecção. Nós, os leitores, só teremos a ganhar com uma maior oferta e diversidade. Por outro lado, sera que, por exemplo, a ESA, o ESO, o CERN, o EMBL são tambem manifestações de chauvinismo?!?

(MP)
*
Os Franceses devem estar zangados porque o Google mostra 296.000 referências a "chauvinism" e apenas 50.400 a "chauvinisme". Mesmo como teoria da conspiração é idiota pensar que os "rankings" do Google servem para promover a cultura "anglo-saxónica" em detrimento da cultura "europeia". Será que o senhor Jeanneney acredita mesmo que há alguem sentado numa cave em Mountain View, California, cuja terefa é decidir o que é ou não "anglo-saxónico"? Ou tem simplesmente medo de perder o controlo da sua preciosa biblioteca para bárbaros cujo unico critério cultural é a utilidade? É triste ver como o medo da competição, medo do mundo, fecha as portas a quem esteja interessado na cultura francesa e pior, a quem por acaso poderia encontrar a cultura francesa no Google, e ficar interessado.

(Luis Teixeira)
*

Também não concordo com o termo chauvinista. Digamos que os termos "mesquinho" ou "ridículo" serão mais adequados.

Sobre o comentário ao seu post, acho que a ESA, o ESO e principalmente o CERN não se fizeram por uma questão de sensibilidade europeia (Jean-Noël Jeanneney não nos dá a mais pálida luz sobre a que possa corresponder tal conceito, pelo que terei de ser eu a interpretá-lo, na minha triste condição de googledependente, que vê o mundo pelo prisma americano), porque não se pode argumentar seriamente que a descoberta do bosão de Higgs dependa de outra sensibilidade que não a dos detectores destinados ao efeito. Ou que o desvio para o vermelho das galáxias distantes seja interpretável à luz da graduação dos óculos dos astrónomos europeus. Ou que a sensibilidade do Ariane permite colocar em órbita satélites que de outra forma não seria possível lá colocar.

É com esta França que a União Europeia se vai afirmar no mundo?

(Mário Almeida)

*
Quanto ao tema da iniciativa francesa, acho absolutamente delirante que um governante considere a hipótese de atacar um mercado onde actuam empresas privadas, utilizando para isso capitais públicos. Assim, ficamos a saber que um serviço que nos chega de uma forma gratuita terá brevemente um concorrente, que para os franceses terá o custo de uma parte dos seus impostos ser utilizada para o capricho de um governante.
A segunda ideia delirante, e esta verdadeiramente doentia, resulta da conclusão do responsável da Bibliotece Nacional de França, que o critério de classificação através do page rank é pouco credível e por isso a solução "à francesa" passa pela criação de um "grupo de sábios", que classificará quais os documentos mais importantes e por isso quais os documentos que devemos ler prioritariamente.
Este conceito de "grande orientador" passa de uma forma pacífica porque é proposto pelo governo francês. O que diria a nossa classe intelectual se esta proposta tivesse a assinatura de Berlusconi?

(Miguel)
*

O que será mais penoso para os franceses é confrontarem-se com a pujança da cultura (universitária, científica, tecnológica, artística, literária, comunitária, etc.) anglo-saxónica, por contraposição à balofice retrógada, favoritista, subsidiada, orgulhosa e instalada que há tanto tempo marca as "superiores culturas latinas". O fenómeno GOOGLE nada mais significa do que o mensageiro que se pretende ver morto. Antes isso que colocar em causa o mito civilizacional da superioridade cultural latina em geral e francesa em particular. Doeria demais. Implicava mexer em demasiados orgulhos, em demasiadas estruturas organizacionais, em demasiados privilégios.

(Luís Pereira Coutinho)

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INTENDÊNCIA

Actualizada a nota OS CINQUENTA MOMENTOS POLÍTICOS MAIS IMPORTANTES DEPOIS DO 25 DE ABRIL (Versão 2.0) com colaborações dos leitores.

Actualizados os ESTUDOS SOBRE O COMUNISMO com o início de uma série sobre os quadros de Avelino Cunhal em colecções particulares, e continua a ser completada a Bibliografia Sistemática.

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EARLY MORNING BLOGS 468

Upon a House shaken by the Land Agitation



How should the world be luckier if this house,
Where passion and precision have been one
Time out of mind, became too ruinous
To breed the lidless eye that loves the sun?
And the sweet laughing eagle thoughts that grow
Where wings have memory of wings, and all
That comes of the best knit to the best? Although
Mean roof-trees were the sturdier for its fall,
How should their luck run high enough to reach
The gifts that govern men, and after these
To gradual Time's last gift, a written speech
Wrought of high laughter, loveliness and ease?


(Yeats)

*

Acerca de uma Casa Ameaçada pela Agitação da Terra

Como seria mais feliz o mundo se esta casa,
Onde paixão e rigor se fundiram em
Tempos imemoriais, em ruínas transformada
Deixasse de criar o olho sem pálpebras que ama o sol?
E os doces e alegres pensamentos de águias que crescem
Onde asas contêm memória de asas, tudo
O que vem do melhor se une ao melhor? Embora
Os pobres pilares mais fortes na queda se tornassem,
Que grande sorte teria de ser a sua para alcançar
Os dons que governam os homens, e mais ainda
O último dom do Tempo sucessivo, discurso escrito
Forjado em alto riso, encanto e paz?

(tradução de José Agostinho Baptista)

*

Bom dia!

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10.4.05


OS CINQUENTA MOMENTOS POLÍTICOS MAIS IMPORTANTES DEPOIS DO 25 DE ABRIL (Versão 2.0)


[Esta lista é uma segunda versão. Será de novo completada e eventualmente alterada com as colaborações dos leitores do Abrupto, incluindo as sugestões de “momentos” adicionais para perfazer o número de cinquenta. Os comentários recebidos até agora estão anexos à versão anterior. A vermelho algumas dessas sugestões que ainda não entraram na lista definitiva. A versão final será datada com mais precisão e indicará os principais responsáveis pelo "momento".]
Quando Salgueiro Maia, na parada de Santarém, deu ordem de marcha.Este é momento Inicial de tudo o que agora vivemos.

(C.Indico)
1. O primeiro 1º de Maio, o respirar inicial da liberdade. Responsável: MFA (1 de Maio de 1974).

2. Criação dos partidos democráticos depois do 25 de Abril: a estruturação do PS na legalidade, a criação do PSD e do CDS.

3. Decisão do PCP de se opor à manifestação da "maioria silenciosa” de 28 de Setembro dando início ao chamado “Processo revolucionário em curso” (PREC) (no mês de Setembro de 1974).

x. Discurso de Salgado Zenha no Pavilhão dos Desportos contra a “unicidade sindical” (16 Janeiro 1975).

4. Legalização do divórcio nos casamentos religiosos com a alteração da Concordata. Responsável: Salgado Zenha (15 de Fevereiro de 1975).

5. Golpe e contra-golpe do 11 de Março. Responsáveis: Spínola e a ala militar ligada ao PCP no Conselho da Revolução (11 de Março de 1975).

6. Nacionalizações a seguir ao 11 de Março. Responsável: Conselho da Revolução.

7. Eleições para a Assembleia Constituinte que deram vitória aos partidos que se opunham ao PREC (25 de Abril de 1975).

x. Incêndios e destruições das sedes do PCP no Centro e Norte do país (a partir de fins de Maio de 1975).

8. Comício da Fonte Luminosa, ponto alto da resistência ao PREC dos socialistas (19 de Julho de 1975).

É natural que a visão que cada um tem da importância relativa de acontecimentos que decorreram há mais de 30 anos seja muito influenciada pelo seu próprio ponto de vista de então. E não me refiro tanto às questões ideológicas, como ao ponto de vista em si, no sentido do simples posicionamento: dentro da floresta, fora dela, no alto da colina, de frente ou de costas para um determinado acontecimento, etc.

E também me parece que existe uma memória altamente selectiva, sobretudo em termos da mitificação do que era o PS dessa época, em comparação com o PS de hoje. De todos os partidos, o que até hoje maiores mudanças registou, e de muito longe, foi sem dúvida o PS, e fala-se disso como de pormenor insignificante se tratasse...

Na lista dos 50 acontecimentos, continuo a notar uma excessiva minimização do período que vai de 1 de Maio a 28 de Setembro de 1974, incluindo a importantíssima demissão, na sequência imediata do 28 de Setembro, do Presidente da República, gen. Spínola, por falta de apoio, não só militar, mas também por parte dos partidos ditos democráticos, que lhe tivesse permitido limitar o MFA ao seu anunciado e legítimo papel anterior ao PREC.

É evidente que quanto mais recuados são os acontecimentos considerados, tanto mais rica se torna a árvore de possibilidades que decorre de alguns desfechos alternativos. Daí a importância do primeiro embate entre a legalidade revolucionária pós-25 de Abril tal como estabelecida pelo programa do MFA / Junta, e um segundo tipo de actuação à margem dessa mesma legitimidade por parte do PCP, do PS e do sector anti-spinolista do MFA, que diariamente iam fazendo recuar o projecto de livre organização política que depreciativamente crismavam de «democracia burguesa».

Nesse período, surgiram (e legalizaram-se exactamente nos mesmos termos e requisitos legais que PCP, PS, PPD, CDS e muitos outros 'a extrema-esquerda do espectro) diversos partidos à direita do CDS que criaram jornais próprios de intervenção política activa. Os dois principais eram o Partido do Progresso, que defendia um federalismo «'a Spínola» e combatia o abandono do Ultramar sem consulta às populações (no fundo, a única forma possível de tentar manter algum tipo de estrutura imperial, mas também uma pretensão perfeitamente legítima), e o Partido Liberal que procurava basicamente alertar para o perigo comunista e defendia uma economia aberta de mercado, muito próxima do que quase todos os partidos defendem hoje em dia. Esses partidos teriam concorrido às eleições constituintes se não tivessem sido eliminados pela violência no 28 de Setembro, juntamente com os seus jornais.

Mais importante ainda: depois desse período de 5 meses em que todas as forças tacteavam o terreno, um MFA inicialmente incerto da sua força frente aos políticos civis e às chefias militares tradicionais que ainda estavam em posição, adquiriu consciência do que podia fazer, surgindo em pleno a partir daí a nomenklatura politico-militar dos «capitães de Abril» que se consideravam acima dos processos de decisão eleitoral próprios da «democracia burguesa» e procuravam criar uma tutela permanente para o regime, segundo modelos de tipo cubano, peruano, etc.
(uma das suas ambiçoes era uma representação fixa das Forças Armadas no parlamento através do MFA, segundo o modelo indonésio).

Considere a seguinte pequena ficção, uma projecção imaginária dum 28 de Setembro diferente:

1) Os dirigentes do PS, em vez de secundarem o PCP na organização das barricadas, mantêm uma atitude de respeito pela legalidade e conseguem, com algum esforço e chegando ao ponto de dirigir alocuções pela rádio apelando ao respeito pela lei, segurar as suas bases.

2) A manifestação realiza-se, acompanhada de embates entre manifestantes e contra-manifestantes do PC e extrema-esquerda em diversos acessos a Lisboa. Verificam-se mortos e bastantes feridos, mas, sem o apoio entusiástico e unânime do eixo PCP-PS, as forças do MFA que saem para as barricadas são escassas e não conseguem impedir a grande manifestação em Belém, onde Spínola e Costa Gomes são aclamados. Vasco Lourenço perde-se no caminho e volta para casa sem ninguém dar por ele. Otelo refugia-se na embaixada de Cuba. Melo Antunes nega qualquer participação, mas é colocado nos Açores. No fim da jornada, o que ressalta é que a única «intentona» foi a do PC, mas o resultado foi exactamente o oposto do desejado. No dia seguinte, o PPD e o CDS acusam energicamente o PC de prepotência anti-democrática, enquanto no seio do PS as correntes mais moderadas procuram explicar aos militantes mais radicais que é necessário acompanhar «o processo» sem aventureirismos até à realização de eleições.

3) O resultado é o fortalecimento da posição de Spínola, que há muito procurava desesperadamente apoios para tentar fazer respeitar o que chamava a «pureza do programa do MFA», e sobretudo um enfraquecimento do MFA, com progressiva dificuldade em intervir no terreno e conduzir saneamentos militares. Outro resultado é uma nova urgência por parte dos partidos de esquerda em levar a cabo eleições o mais depressa possível para se obter uma legitimação pelas urnas capaz de fazer recuar o que consideram o «perigo de golpe fascista».

4) O resultado das primeiras eleições constituintes de Janeiro de 1975 é uma assembleia sem maioria absoluta, em que PS e PPD sao os principais partidos, seguidos pelo PC e CDS, e pela coligação do PP e do PL que impede a distorção que até ao 28 de Setembro ameaçava deslocar todo o espectro político, criando um vácuo absoluto à direita do CDS. Mais tarde, o gen. Costa Gomes, bom conhecedor de Angola, e conhecido pelos seus invulgares poderes de conciliação de proposições contraditórias, é nomeado comissário para a descolonização, e Portugal, visando garantir o acesso dos seus territórios à independência de forma tão pacífica quanto possível, apresenta um calendário solicitando, se necessário, o envio de uma força internacional aceitável a todas as partes, com o objectivo de impedir a tomada de poder dos diversos movimentos de libertação sem eleições prévias nem preservação dos mecanismos administrativos capazes de assegurar alguma continuidade ao processo.

Improvável, este cenário particular? Com certeza. Ou talvez. Mas não é esse o ponto. É sempre fácil garantir que nada poderia ter sido diferente do que foi, mas é mais difícil exibir esse oráculo de ciência maravilhosa «avant la lettre». Para se avaliar o grau de compreensão daquilo em que se metiam a cada passo, por parte das nossas clarividentes sumidades partidárias, nada como reler os seus textos e discursos da época...

O que quero dizer com tudo isto é que o seu 3º tempo, como está, fica inócuo e não traduz o que foi o intenso combate político da época. E, já agora, falta outro tempo importante anterior ao 3º, correspondente ao anúncio expresso, por parte do gen. Spínola, que reconhecia o direito à independência das colónias. É importante porque representa uma abdicação das suas próprias ideias insustentáveis (a «Federação Portuguesa» maioritariamente africana), e demonstra um realismo que poderia ter dado frutos se não fosse a sua quase total falta de apoio por parte dos descolonizadores «à pressão» do PS e PCP.

Quanto ao ponto 3º, onde está:

3. Decisão do PCP de se opor à manifestação da "maioria silenciosa” de
28 de Setembro dando início ao chamado “Processo revolucionário em curso” (PREC) (no mês de Setembro de 1974).

...deveria estar, ao menos e em nome da simples objectividade, qualquer coisa como:

3. Oposição do PCP, PS e MFA à manifestação da "maioria silenciosa” de
28 de Setembro, dando início ao chamado “Processo revolucionário em curso” (PREC), com a eliminação dos partidos legais de direita;

...seguida de outro ponto:

-- Resignação do Presidente da República Spínola.

(A.)

x. "Olhe que não, olhe que não", o debate Soares/Cunhal (6 de Novembro de 1975).

9. O 25 de Novembro, fim da expressão militar do PREC (25 de Novembro de 1975).

10. Declarações de Melo Antunes impedindo a ilegalização do PCP depois do 25 de Novembro (26 de Novembro).

11. Fim do império colonial e "retorno" dos portugueses de África (anos de 1975-7).

12. Aprovação da Constituição em 1976 que garantia os direitos fundamentais de uma democracia, mas mantinha na sua parte económica e em muitos outros aspectos a linguagem e o adquirido do PREC.
Pois é... parece que esqueceu de inserir, nos marcos da Democracia Portuguesa, a Autonomia Regional da Madeira e dos Açores...

(Roberto Albuquerque)

13. Acção de Sottomayor Cardia no Ministério da Educação, o primeiro ministro a tentar sair do “estilo” e dos poderes do PREC.
Julgo que deveria acrescentar a formação do segundo governo constitucional, em 1978, por ser o primeiro governo de coligação.

(José Carlos Santos)

14. A Lei Barreto, o início da contra-reforma agrária.

15. Vitória da AD demonstrando a possibilidade de alternância democrática à hegemonia do PS.

16. Morte acidental (ou assassinato) de Sá Carneiro.

17. Fim do Conselho da Revolução na revisão constitucional de 1982

x. a primeira requisição civil aquando de uma greve.

18. “Bloco central” em que PS e PSD dividiram o estado, os cargos públicos, as áreas de influência, os gestores públicos, criando um establishment de poder que ainda hoje é prevalecente.

x. Desmantelamento das FP 25 de Abril e prisão dos seus responsáveis.

19. “Apertar do cinto” obrigado pelo FMI, numa situação de quase ruptura das finanças públicas.
Neste ponto , têm que se incluir a acção ( decisiva , anti-populista mas fundamental) de Ernani Lopes, que foi muito importante para depois termos condições para a entrada na UE.

(Joana Gama de Sousa)
20. A criação do PRD, o partido de iniciativa presidencial que dividiu o eleitorado socialista. Responsável: Ramalho Eanes (25 de Fevereiro de 1985).

21. Primeira volta das eleições presidenciais de 1985 em que Mário Soares acaba com o “pintasilguismo” e com as últimas tentativas de um “socialismo” ao modelo peruano. e a sua eleição como primeiro Presidente civil da democracia.

Já menciona o evento, reportando-se ao fim do “pintasilguismo”na 1ª volta, mas entendo que a 2ª volta da primeira eleição de Soares para a presidência, em inícios de 1986 (?), foi um momento (2 semanas) absolutamente decisivo. Eu diria que um dos dez mais desde o 25 de Abril de 74.

Ele consagrou Soares como a referência definitiva da esquerda e de esquerda, fermentando decisivamente as condições para o bipartidismo dos anos 90, bem visível com Guterres em 95 e 99 e na eleição de Sampaio Vs. Cavaco em 95/96. Por outro lado, mesmo o que designa por pintasilguismo, depois de derrotado é absorvido sem mácula na 2ª volta. O PCP não mais pôde utilizar o anti-Soarismo, ou algo de adversarial que lhe equivalesse, como antes, definhando continuadamente a partir daí. Foi afinal, creio, o momento onde se configura a matriz genética das vitórias de Guterres, Sampaio e Sócrates. Responsável? Mário Soares.

(Vítor Reis Machado)

22. Congresso do PSD da Figueira da Foz em que vence Cavaco (Maio de 1985).
(...) a vitória de Cavaco Silva no congresso da Figueira da Foz não me parece adequada a esta lista. É claro que, sem esta vitória, Cavaco Silva não teria chegado a primeiro-ministro, mas é aquilo que ele fez enquanto primeiro-ministro que merece destaque.

(José Carlos Santos)
23. Entrada de Portugal na UE (1 de Janeiro de 1986).

Rejeição por Cavaco Silva do pedido de Mário Soares, recém-empossado como Presidente da República, para pôr o seu lugar à disposição (Março de 1986). Fim da possibilidade prática de haver, em Portugal, governos tutelados pelo Presidente da República. Fim do debate sobre a melhor forma de governo, quanto aos poderes do Presidente da República e do Governo. Mário Soares percebeu a força de novidade desse facto, não obstante a sua acção posterior ter sido desfavorável ao último governo de Cavaco Silva. Um dos erros graves do primeiro-ministro indigitado Pedro Santana Lopes, em 2004, foi o de se ter apressado a indicar ao Presidente da República, antes de todos os outros, os nomes dos novos ministros das Finanças e dos Negócios Estrangeiros, ao pensar que aquele, com esse “aparente” acto de subserviência, sustentaria o seu governo. A primeira maioria absoluta do PSD vem no seguimento daquela afirmação - de elevado alcance político -, pelo que é menos o início de algo novo do que a continuação. Já com Ramalho Eanes, Cavaco Silva tinha privilegiado a exigência de boas relações institucionais entre o primeiro-ministro e o Presidente da República, em detrimento do confronto entre diferentes legitimidades eleitorais. É um facto que o PSD ganhou as eleições legislativas de 1987 e de 1991 com slogans muito diferentes dos da Aliança Democrática, nomeadamente em 1980. O PSD não pediu ao eleitorado “uma maioria, um Governo e um Presidente”, mas sim “uma maioria para governar”. Cavaco Silva teve, então, condições para ser um líder forte, tal como Portugal precisava. É por isso que, quanto ao exercício da função de primeiro-ministro (que, desde então, sobreleva o Governo), todas as comparações se fazem com Cavaco Silva.

(João Caetano)

24. Dissolução da Assembleia da República depois da aprovação da moção de censura do PRD (1987).

25. Maioria absoluta de Cavaco Silva, uma verdadeira subversão de um sistema eleitoral construído para obrigar a governos de coligação.

26. O influxo de vultuosos fundos comunitários, parcialmente desperdiçados no Fundo Social Europeu, mas permitindo importantes obras infraestruturais que mudaram a face do país.

27. Privatização do espaço televisivo e da comunicação social escrita do estado. Responsável: Cavaco Silva.

28. Introdução do IVA, a mais efectiva modernização do sistema fiscal desde o 25 de Abril.

29. Revisão económica da Constituição permitindo finalmente a existência de uma plena economia de mercado e as privatizações.

Sugiro que a seguir ao 29º momento seja referido o" aparecimento de novas instituições bancárias privadas,que tornaram a banca portuguesa das poucas áreas económicas que suportam comparações internacionais".

(A.L.B.Barrinhas)

30. A primeira Presidência portuguesa da UE. Responsável: Cavaco Silva.

x. O Massacre de Santa Cruz, em Timor-Leste e todo o processo subsequente de luta pela autodeterminação de Timor-Leste (12 de Novembro de 1991).

31. A orientação do Independente para criar um populismo de direita contra o PSD. Responsável: Paulo Portas.

32. Criação do PP contra o CDS, dando expressão partidária ao populismo de direita e à acção unipessoal de Paulo Portas. Responsáveis: Paulo Portas e Manuel Monteiro.

x. Bloqueio da Ponte 25 de Abril (1994). (Sugestão de Mário Almeida)

33. O “tabu”, a decisão de Cavaco Silva de não se candidatar às próximas eleições legislativas, fim do “cavaquismo” (1995).

34. A decisão de fazer a Expo mudando a face oriental de Lisboa (1998).

(...)estive à pouco a ler o post de ontem sobre o assunto em epígrafe, e já que sou um "espectador" minimamente atento da história e política portuguesas, parece-me de colocar o momento em que António Guterres, ao momento na presidência da União Europeia, bateu o pé ao Governo austríaco de "extrema direita" com um vigor que me pareceu na altura bem maior do que o noticiado em Portugal.

(RMF)
Sugiro que se inclua como momento da maior importância o "Referendo sobre a instituição em Concreto das Regiões Administrativas (8-Nov-1998)", que inicia o fim de A. Guterres revelando a sua falta de firmeza(evidente, por exemplo, na geografia do modelo referendado - deviam ter sido, devem ser, as regiões plano).
Nesse referendo desperdiçou-se uma grande oportunidade para reformar a administração pública e manteve-se, até hoje, o seu modelo burocrático, centralista e ineficaz de que tanto nos queixamos, até os que "acampanharam"
pelo não.
Determinou-se então também o acentuar do modelo rural-despovoado/urbano-concentrado, que permitiu os incêndios de 2003, o descalabro energético do sistema de transportes, os graves problemas sociais suburbanos... Em minha opinião o momento foi importante e António Guterres devia ter-se demitido na noite de 8 de Novembro de 1998.

(A. Carvalho)

35. Criação do Rendimento Mínimo Garantido.

x. Referendo sobre o Aborto (Junho de 1998).

36. Adesão ao euro (1 de janeiro de 1999).


x. Devolução de Macau à plena soberania chinesa (20 de Dezembro de 1999)

Creio que vale a pena igualmente lembrar a entrega da soberania de Macau à China. E a imagem do Governador a receber a bandeira e a abraça-la num momento algo emocional.

(Ricardo Carvalho)

37. Demissão de António Guterres.

38. Processo Casa Pia: depois do processo Emaudio, é o primeiro grande processo-crime que envolve importantes dirigentes políticos.

39. Saída de Durão Barroso para a Presidência da UE.

A avaliar pela lista admito sugerir algo que, quer pelo nome, quer pela referência e efeito, merece aqui figurar. Porque um cabeça de lista morrer três dias antes da eleição é historicamente marcante. A morte de Sousa Franco (em campanha), após uma inenarrável luta de facções do PS, na lota de Matosinhos.

(Tiago Craveiro)

40. Campanha eleitoral do PS entre Manuel Alegre e José Sócrates.

Penso que o Sr. ao não ter considerado um acontecimento, ainda que negativo e abrindo precedentes de dimensões ainda incomensuráveis, a ida de Marcelo Rebelo de Sousa ao Palácio de Belém por ter sido despedido de uma televisão, incorre num erro por omissão, que é grave.

(António Guimarães)

41. Dissolução da Assembleia da República e fim do governo Santana Lopes - Paulo Portas. Responsável: Jorge Sampaio.

42. Maioria absoluta do PS. Responsável: José Sócrates (20 de Fevereiro de 2005).

*

Aproveito para enviar quatro sugestões que a intuição recomenda que se ponderem:

a) 1993-1995-1998: a primeira auto-estrada que atravessou o interior de Portugal no sentido longitudinal (Lisboa-Évora-Caia);

b) O Euro-2004: discorde-se ou não (sobretudo em termos de repercussão financeira), creio que foi um facto nacional e também internacional de envergadura;

c) Política cultural-1: Penso que a Lisboa Capital da Cultura-1994 foi muito importante, não apenas por si só, mas pelo impacto que se traduziu numa nova concepção de programação, não apenas na capital mas em todo o país urbano;

d) Política cultural-2: A XVII exposição (1984?) teve bastante importância no país por ter reposto algum orgulho memorial, pela primeira vez, no pós-Prec.

Luís Carmelo (Miniscente)
*

Parece-me que faltam duas coisas importantes na sua lista:

- a democratização do ensino superior (que talvez tenha começado antes do 25 de Abril, não sei bem as datas - estou a pensar na fundação da Católica, mas que é muito nítida actualmente para quem ensina);
- e a instituição do princípio do estudante-pagador (mesmo no ensino sup. público).

Não me parece que a recente campanha do PS seja relevante; parece-me que foi muito mais significativo o massacre que Mário Soares inflingiu em tempos a Freitas do Amaral num longínquo debate televisivo...

De resto não tenho muito a acrescentar. Talvez a Lisboa 94 e o Porto 2001, dois bons pretextos culturais para se construir ou restaurar uma série grande de infra-estruturas.

(Luísa Soares de Oliveira)

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COISAS SIMPLES


David Wilkie

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EARLY MORNING BLOGS 467

O recorte de um cão, na areia, ao luar.
Seu passo imprime
O cuidado miúdo e honesto de passar.

Mas que tristeza oprime
Tanto cão que vi uivar a tanta eira?
Que longo e liso, o fio da noite!
- E amar, esperar desta maneira!

Numa cidade deserta
(Talvez outra, ou Ninive)
Encontrei um anel, uma oferta,
Da vértebra de um cão,
Para uma mulher que já não vive.

Mas tudo isso foi vão,
E até nem sei se esse osso tive.


(Vitorino Nemésio)

*

Bom dia!

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