ABRUPTO

19.6.04


A COLIGAÇÃO NA QUADRATURA DO CÍRCULO

Por mérito do António Lobo Xavier, a discussão de hoje na Quadratura sobre as eleições e o futuro da coligação vale a pena ser ouvida. É uma discussão livre, aberta, comprometida, franca, de política portuguesa que me deu muito prazer ter.

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HISTÓRIAS DA GERAÇÃO DO COPIÓGRAFO

(Em breve.)

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PORQUE RAZÃO NOS EUA O MUNDO ANDA MAIS DEPRESSA

Apesar de todas as críticas, a NASA.

Um exemplo trivial, fora do brilho das sondas espaciais: o empréstimo dos restos da destruída nave Columbia à indústria para investigação e aperfeiçoamento de novos materiais. Aqui.

*






Já que estamos a falar disto , estas são as últimas sobre a Stardust "part of NASA's Discovery Program of low-cost, highly focused science missions, was built by Lockheed Martin Space Systems and is managed by JPL for NASA." - o cometa Wild 2 na sua glória. Como no Armageddon de Bruce Willis.Tudo aqui e aqui.

*

"Tenho para mim que neste caso como em muitos outros, o que está na génese do gosto pela astronomia e suas descobertas é a poesia. Quem gosta de poesia gosta das estrelas, e tem “sede de infinito”. Juntando-lhe curiosidade e racionalidade aproximamo-nos da astronomia. Este é o caminho que as pessoas de “artes e humanidades” percorrem para chegar à astronomia.
(...) Qual mapa do genoma humano! Qual vacina para a malária! Qual método para fazer os pandas procriarem! Qual teoria sobre o sobreaquecimento da terra! Ciência para os poetas é a astronomia! O espaço, o infinito.
"

(JPC)

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Henri de Braekeleer

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O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES

"Acabo de ler no seu Blogue uma referência a Neca Rafael e isso despertou em mim uma certa nostalgia. Vivo na Amadora desde que me conheço, mas nasci no Porto e passei, até aos meus 15 anos, todas as minhas longas férias escolares no Porto, no velho Porto – lá a minha casa era na rua da Vitória, entre os Clérigos e a Ribeira, junto às escadinhas e à “Calçada”, “Bataria” – muita miséria, muita canalha de pé descalço… Neca Rafael, Conjunto Maria Albertina e Conjunto de António Mafra, assim como alguns sons de velhos anúncios dos “Emissores do Norte Reunidos” ficarão para sempre na minha memória, do mesmo modo que algumas figuras típicas: o “Carlinhos da Sé”, o “Chona”, a Maria Zé Bidão da Casa Grande, etc… De Neca Rafael lembro-me, aí por 1964, tinha eu uns 7 anos, no Palácio, cantando exactamente esse “Já estás com os copos…” Onde se meteu esse tempo e essa gente digna de filme italiano, num registo algures entre Totó e Fellini?"

(Edmundo Moreira Tavares)

*

"Creio pertencer a uma geração, ou a um grupo dentro de uma geração, que nunca ligou nada à noção de Pátria. Lembro-me de ouvir quando era criança falar dos homens que, no Ultramar, davam a vida pela Pátria e achava isso muito vago, bizarro e sem sentido. Já adulta sempre achei que dei mais à Pátria do que ela a mim e dizia que a Pátria nunca nada tinha feito por mim, mostrando algum desprezo por essa noção abstracta e pelos seus símbolos: a bandeira e o hino.

A vida (uma das minhas noções abstractas preferidas) encarrega-se, com a sua infinita sabedoria, de nos mostrar o que às vezes não sabemos ou não queremos ver.

Agora o futebol: não resisto a algum clima de mundial, europeu ou de importante jogo ou final internacional de clubes e lembro-me do sentimento de frustração quando há precisamente 4 anos Portugal perdia as meias-finais para França, naquele mal fadado penalty. Mas o que não consegui nunca esquecer, e ainda guardo na memória as imagens que as televisões nos mostraram, foi a tremenda desilusão, tristeza e impotência estampadas nas caras dos portugueses que, nos ecrãs gigantes das praças de Paris e de outras cidades francesas, seguiam o jogo. O facto de Portugal ter perdido o jogo tornou-se irrelevante face àquela tristeza e foi comovida que vi aquelas imagens e me senti um deles. Sempre que a selecção ou um clube português jogam no estrangeiro é com algum espanto e quase inveja que vejo o entusiasmo e entrega (por vezes tão irracional) com que os portugueses que lá vivem apoiam o lado Luso. Quarta-feira (antes do Portugal-Rússia), no trânsito da Praça de Espanha, passou por mim um carro cheio de rapazes vestidos a rigor de adeptos da selecção nacional que, com janelas abertas, bandeiras nacionais e ruído, saudavam os demais “companheiros” de trânsito. Sorri, respondi à saudação e quando arrancaram vi que era um carro de matrícula francesa. Num arrepio revi as imagens de há quatro anos e outras tantas tornaram-se vivas e senti uma emoção quase incómoda e que não passou de imediato…

…é a Pátria, estúpida! Tem sussurrado uma voz ultimamente.

Deve ser. Só pode ser! Andava eu a tentar entendê-la noutros lados: nas contabilidades do deve e do haver, nos índices do desenvolvimento e do crescimento económico, nas opções estéticas das cores e símbolos da bandeira nacional, na pertinência da letra do Hino Nacional, nas boas ou más governações. Sem saber, ela estava aí e sem a entender, senti-a."


(JPC)

*

"Tantas memorias!!Tantas noites no Técnico e em Ciências à volta dos malditos "stencis", com aquele pincel das emendas(era com uma especie de verniz que se faziam as emendas, não era?), os copiografos sempre a avariar,pois trabalhavam horas a fio impiedosamente,apesar da solidariedade dos técnicos da "Gestetner"(soa-me assim,já não me lembro se era assim que se escrevia), que vinham logo que podiam,a qualquer hora!!
E ficava aqui o resto da manhã...
"

(A.Pina Cabral)

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EARLY MORNING BLOGS 230

Bon chevalier masqué qui chevauche en silence


Bon chevalier masqué qui chevauche en silence,
Le Malheur a percé mon vieux coeur de sa lance.

Le sang de mon vieux coeur n'a fait qu'un jet vermeil,
Puis s'est évaporé sur les fleurs, au soleil.

L'ombre éteignit mes yeux, un cri vint à ma bouche
Et mon vieux coeur est mort dans un frisson farouche.

Alors le chevalier Malheur s'est rapproché,
Il a mis pied à terre et sa main m'a touché.

Son doigt ganté de fer entra dans ma blessure
Tandis qu'il attestait sa loi d'une voix dure.

Et voici qu'au contact glacé du doigt de fer
Un coeur me renaissait, tout un coeur pur et fier

Et voici que, fervent d'une candeur divine,
Tout un coeur jeune et bon battit dans ma poitrine !

Or je restais tremblant, ivre, incrédule un peu,
Comme un homme qui voit des visions de Dieu.

Mais le bon chevalier, remonté sur sa bête,
En s'éloignant, me fit un signe de la tête

Et me cria (j'entends encore cette voix) :
" Au moins, prudence ! Car c'est bon pour une fois. "


(Paul Verlaine)

*

Bom dia!

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OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: TODOS OS DIAS ESPANTO



Como este Wild 2, um cometa fotografado pela “poeira das estrelas”, Stardust, mais uma sonda da NASA. Nunca se viu assim um cometa. Debaixo dos nossos olhos, de Marte a Febe, de Saturno aos viajantes cometas, do olhar do Hubble, lá longe entre o espaço mais longínquo e o tempo mais distante e velho, está-se a dar uma revolução no nosso conhecimento. São de facto os novos descobrimentos.

Notícias aqui.

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18.6.04



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EARLY MORNING BLOGS 229

Odysseus to Telemachus

My dear Telemachus,
The Trojan War
is over now; I don't recall who won it.
The Greeks, no doubt, for only they would leave
so many dead so far from their own homeland.
But still, my homeward way has proved too long.
While we were wasting time there, old Poseidon,
it almost seems, stretched and extended space.

I don't know where I am or what this place
can be. It would appear some filthy island,
with bushes, buildings, and great grunting pigs.
A garden choked with weeds; some queen or other.
Grass and huge stones . . . Telemachus, my son!
To a wanderer the faces of all islands
resemble one another. And the mind
trips, numbering waves; eyes, sore from sea horizons,
run; and the flesh of water stuffs the ears.
I can't remember how the war came out;
even how old you are--I can't remember.

Grow up, then, my Telemachus, grow strong.
Only the gods know if we'll see each other
again. You've long since ceased to be that babe
before whom I reined in the plowing bullocks.
Had it not been for Palamedes' trick
we two would still be living in one household.
But maybe he was right; away from me
you are quite safe from all Oedipal passions,
and your dreams, my Telemachus, are blameless.


(Joseph Brodsky)

*

Bom dia!



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17.6.04


FADOS

De repente, apeteceu-me ouvir os CDs do Público sobre a história do fado. Apetites. Estranheza, porque sou pouco do mundo do fado, embora goste de muitas canções. Talvez porque estou a ver a série de Ken Burns sobre o Jazz, de que falarei depois. Chega de justificações. Ouço o Marceneiro gabar-se de ser marceneiro e o orgulho de ser conhecido com esse nome. Do mundo dos touros e marialvas, não sei nada, mas o mundo do Marceneiro conheço-o dos trabalhos sobre a Lisboa operária e estimo esse orgulho pela profissão, pela “arte”, hoje já arqueológico.

Recordei-me do equivalente ao Marceneiro no Porto, cidade quase sem fadistas, Neca Rafael, ou melhor, o senhor Neca Rafael, que havia mais respeito. Depois de um dia de agitação estudantil endémica e a meio de uma noite, farto de remendar os miseráveis “stencis” que se rasgavam com os sublinhados (*), ia com os meus companheiros comer um mini-prato de tripas ao “Luso”, que custavam 7$50. O local, às três ou quatro da amanhã, de uma cidade que fechava à meia-noite no máximo, era frequentado pela mais bizarra das faunas. E lá estava, sentado numa mesa, muito direito e silencioso, acompanhado por uma senhora. Os empregados, que se chamavam criados, tratavam-no com muita deferência. E Neca Rafael, já com muita idade, lá acabava por sair com a sua senhora na noite brumosa da cidade. O seu fado mais popular era “Já estás c'os copos”, com esta letra de outro mundo:

Quando vou de grão na asa
e nem dou conta de mim
abro a porta entro em casa
e a mulher canta assim

já estás c'os copos
já estás c'os copos
já estás c'os copos

Ponho-me a fazer teatro
que é para a coisa disfarçar
cruzo a perna, faço um quatro
e ela põe-se a cantar

já estás c'os copos
(canta... canta que logo bebes)
já estás c'os copos
já estás c'os copos

ó mulher ou tu te calas
ou eu ponho-te na rua
vai pr'os teus e leva as malas
e a tipa continua

já estás c'os copos
(vai.. vai dar recomendações à maezinha)
já estás c'os copos
já estás c'os copos

Vou p'ra cama e reconheço
que bebi mais um copinho
sabem que eu que adormeço
com ela a cantar baixinho

já estás c'os copos
já estás c'os copos
já estás c'os copos


(*) Nota para os tempos de hoje: o meio mais acessível para publicar comunicados era o copiógrafo que permitia, quando era de qualidade, o que raras vezes acontecia com aparelhos que eram sobre usados e estavam a desfazer-se, fazer tiragens de 1000-2000 panfletos. O elo fraco, entre muitos, era que a matriz para a reprodução era escrita à máquina numas folhas especiais, os “stencis”, plural popular de stencil, que tinham um papel especial em que a máquina de escrever furava as letras. Se se fazia um sublinhado, o stencil acabava por romper por aí e tinha que ser recolado com muito cuidado. Era uma trabalheira.

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Sebastian Stosskopf

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EARLY MORNING BLOGS 228

Ah bed, the field where joy's peace some do see,
The field where all my thought to war be train'd,
How is thy grace by my strange fortune stain'd!
How thy lee shores by my sighs stormed be!

With sweet soft shades thou oft invitest me
To steal some rest, but wretch I am constrain'd
(Spurr'd with Love's spur, though gall'd and shortly rein'd
With Care's hand) to turn and toss in thee.

While the black horrors of the silent night
Paint woe's black face so lively to my sight,
That tedious leisure marks each wrinkled line:

But when Aurora leads out Phoebus' dance
Mine eyes then only wink, for spite perchance,
That worms should have their Sun, and I want mine.


(Sir Philip Sidney)

*

Bom dia!

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16.6.04


OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: UMA PEDRA DE PEDRA E GELO ALGURES PERTO DE SATURNO

A verdadeira natureza de Febe tem sido revelada com uma claridade surpreendente nas últimas imagens tiradas pela sonda Cassini. As imagens mostram um corpo coberto de crateras muito provavelmente feito à base de gelo e com uma camada fina de material escuro. O pormenor é fantástico. Como são um pouco pesadas, aconselho a sua visualização aqui. Estamos a entrar numa época muito interessante da exploração de Saturno.

(José Matos)

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POEIRA DE 16 DE JUNHO

Hoje, há cento e quarenta e nove anos, uma jovem cristã, que sofria de curvatura da espinha, Catherine, foi levada a casa por William Booth, um impulsivo pregador local que ouvia vozes. Era a primeira vez que se encontravam e ela escreveu: “Antes de chegarmos a casa, ambos sentíamos que tínhamos sido feitos um para o outro”. Uma história de amor à primeira vista. Casaram e uma das vozes que ele ouvia intimou-o a uma missão extrema – converter os “ wife-beaters, cheats and bullies, prostitutes, boys who had stolen the family money, unfaithful husbands, burglars, and teamsters who had been cruel to their horses", talvez por esta ordem. Não sei. Catherine e William fundaram então um exército de novo tipo, o da Salvação.

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EARLY MORNING BLOGS 227

L'Astrologue qui se laisse tomber dans un puits


Un Astrologue un jour se laissa choir
Au fond d'un puits. On lui dit : "Pauvre bête,
Tandis qu'à peine à tes pieds tu peux voir,
Penses-tu lire au-dessus de ta tête ? "
Cette aventure en soi, sans aller plus avant,
Peut servir de leçon à la plupart des hommes.
Parmi ce que de gens sur la terre nous sommes,
Il en est peu qui fort souvent
Ne se plaisent d'entendre dire
Qu'au livre du Destin les mortels peuvent lire.
Mais ce livre, qu'Homère et les siens ont chanté,
Qu'est-ce, que le Hasard parmi l'Antiquité,
Et parmi nous la Providence ?
Or du Hasard il n'est point de science :
S'il en était, on aurait tort
De l'appeler hasard, ni fortune, ni sort,
Toutes choses très incertaines.
Quant aux volontés souveraines
De Celui qui fait tout, et rien qu'avec dessein,
Qui les sait, que lui seul ? Comment lire en son sein ?
Aurait-il imprimé sur le front des étoiles
Ce que la nuit des temps enferme dans ses voiles ?
A quelle utilité ? Pour exercer l'esprit
De ceux qui de la Sphère et du Globe ont écrit ?
Pour nous faire éviter des maux inévitables ?
Nous rendre, dans les biens, de plaisir incapables ?
Et causant du dégoût pour ces biens prévenus,
Les convertir en maux devant qu'ils soient venus ?
C'est erreur, ou plutôt c'est crime de le croire.
Le Firmament se meut ; les Astres font leur cours,
Le Soleil nous luit tous les jours,
Tous les jours sa clarté succède à l'ombre noire,
Sans que nous en puissions autre chose inférer
Que la nécessité de luire et d'éclairer,
D'amener les saisons, de mûrir les semences,
De verser sur les corps certaines influences.
Du reste, en quoi répond au sort toujours divers
Ce train toujours égal dont marche l'Univers ?
Charlatans, faiseurs d'horoscope,
Quittez les cours des Princes de l'Europe ;
Emmenez avec vous les souffleurs tout d'un temps :
Vous ne méritez pas plus de foi que ces gens.
Je m'emporte un peu trop : revenons à l'histoire
De ce Spéculateur qui fut contraint de boire.
Outre la vanité de son art mensonger,
C'est l'image de ceux qui bâillent aux chimères,
Cependant qu'ils sont en danger,
Soit pour eux, soit pour leurs affaires.


(Jean de la Fontaine)

*

Et pour cause ... Bom dia !


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15.6.04



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AGRADECIMENTO

Agradeço a todos os que me têm felicitado pela nomeação para a Missão permanente na UNESCO. É um lugar de responsabilidade que aceitei com muito gosto e que me vou esforçar por cumprir o melhor que sei e posso. Como é óbvio, depois de tomar posse, e dada a natureza do cargo, não tem qualquer sentido continuar a ter um papel activo no comentário político. Já de há algum tempo tenho estado a preparar essa situação nos órgãos de comunicação social onde colaboro. Escreverei sobre outras coisas, sempre que tenha oportunidade, e continuarei o Abrupto dentro desses condicionalismos.

É um silêncio que desejei e escolhi, após anos e anos de voz muitas vezes solitária. Haverá outros caminhos e certamente outros tempos.

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NOTAS EUROPEIAS

que estão lá para baixo, no limbo do blogue, foram actualizadas. Vão na versão 2.0.

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Isidore Verheyden

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EARLY MORNING BLOGS 226

Libro de buen amor
Las ranas que demandaban un rey


Las ranas en un lago cantaban et jugaban,
cosa non las nucía, bien solteras andaban,
creyeron al diablo que de mal se pagaban,
pidieron Rey a Don Júpiter, mucho gelo rogaban.

Envióles Don Júpiter una viga de lagar,
la mayor quel pudo, cayó en ese lugar:
el grand golpe del fuste fizo las ranas callar,
mas vieron que no era Rey para las castigar.

Suben sobre la viga cuantas podían subir,
digeron: non es este Rey para lo nos servir:
pidieron Rey a Don Júpiter como lo solían pedir,
Don Júpiter con saña hóbolas de oír.

Envióles por su Rey cigueña mansillera,
cercaba todo el lago, ansí fas la ribera,
andando pico abierta como era venternera
de dos en dos las ranas comía bien ligera.

Querellando a Don Júpiter, dieron voces las ranas:
señor, señor, acórrenos, tú que matas et sanas,
el Rey que tú nos diste por nuestras voces vanas
danos muy malas tardes et peores mañanas.

Su vientre nos sotierra, su pico nos estraga,
de dos en dos nos come, nos abarca et nos traga:
señor, tú nos defiende, señor, tú ya nos paga,
danos la tu ayuda, tira de nos tu plaga.

Respondióles Don Júpiter: tened lo que pedistes
el Rey tan demandado por cuantas voces distes:
vengué vuestra locura, ca en poco tuvistes
ser libres et sin premia: reñid, pues lo quisistes.

Quien tiene lo quel' cumple, con ello sea pagado,
quien puede ser suyo, non sea enagenado,
el que non toviere premia non quiera ser premiado,
libertad e soltura non es por oro comprado.


(Juan Ruiz, Arcipreste de Hita)

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Bom dia!

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James Ensor

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NOTAS EUROPEIAS v. 2.0

Sem ordem, nem sistema, nem pretensão de cobrir todos os aspectos das eleições. Serão acrescentadas à medida que forem escritas, pelo que o texto será continuamente alterado.

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A linha melhor para interpretar as eleições é a linha do bom senso. Aqui o bom senso é considerar que tudo o que parece, é. Não é preciso nenhuma sofisticação especial: o PS, o BE e o PCP ganharam, por esta ordem. O PSD e o PP perderam, por esta ordem.

*

Os partidos que ganharam sobreviveram melhor à abstenção, o PS porque os seus eleitores queriam penalizar o governo, o PCP e o BE porque dispõem de um voto militante. O voto militante no PCP é defensivo, no BE é ofensivo. Um tem sucesso porque está a crescer, o outro porque resiste a diminuir.

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Na maioria dos países europeus, os partidos coligados no governo concorrem separados nas eleições europeias, sem que isso ponha em causa os entendimentos governamentais.É um sinal de fraqueza e não de força que se tenha entendido projectar a coligação governamental, – unida por um lógica de poder executivo –, para as eleições europeias

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O PSD elegeu sete deputados, o PP dois. O PSD tinha nove deputados, o PP dois. O grande perdedor da coligação é o PSD. Esta contabilidade política real funciona como um ácido no PSD.

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A coligação ajudou a enfraquecer o Partido Popular Europeu, partido em que os deputados do PSD se integram. Sendo agora menos no PPE (sete em vez de nove) dificilmente conseguirão quer através do método de Hondt, quer de negociações, obter cargos relevantes para os portugueses, mesmo apesar da maioria PPE do próximo Parlamento Europeu (PE) . Pelo contrário, os dois deputados do PP que se integram noutro grupo político europeu ( o PP foi expulso do PPE) , a União para a Europa das Nações, mantêm a mesma força política, mas, como seu grupo conta menos no PE, isso é irrelevante. No seu conjunto, a representação nacional onde mais conta, no PPE, está mais fraca.

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Tenho de há muito a opinião que não é normal não existirem partidos eurocépticos fora das margens do sistema político. Mais ou menos eurocépticos, eurocépticos totais, como o partido inglês da “independência do Reino Unido”, e eurocépticos quanto ao curso político da UE , sem pôr em causa a sua existência. Não é natural que, por exemplo, a recusa da Constituição europeia, símbolo de uma certo processo de upgrade político europeísta, seja marginal ao mainstream do sistema político. Esta disfunção é tanto mais grave quanto se houver, como é exigível que haja, um referendo sobre a Constituição, se verá que há um número muito significativo de cidadãos que a recusam. Esses cidadãos não estão certamente representados em Portugal pela Nova Democracia. Esta é uma razão do desinteresse pela Europa: a disfunção na representação política do debate europeu, falso consenso a mais.

*

Em Portugal, como aliás em quase toda a Europa, com a excepção ambígua do Reino Unido, a questão da guerra do Iraque não parece ter sido directamente relevante para os resultados eleitorais. Em Portugal, certamente não foi. Não é possível qualquer teoria explicativa consistente para explicar pelo Iraque os votos espanhois, franceses, alemães ou polacos.

(Continua)

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14.6.04


NOTAS EUROPEIAS

serão publicadas em breve. Sobre as eleições em Portugal, na Europa, Constituição, etc.

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13.6.04


ELEIÇÕES EUROPEIAS

Há muitas coisas que podiam ser ditas sobre estas interessantes eleições , com resultados a exigir análise detalhada.

Mas há uma coisa que de imediato deve ser discutida: como é que daqui a dias os governos europeus vão aprovar uma Constituição cujo sentido político é fortemente deslegitimado pelos resultados eleitorais e pela abstenção?

(Escrevo em más condições, depois desenvolverei.)

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James Ensor, Marine au nuage blanc

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EARLY MORNING BLOGS 225

Me dijo un alba de la primavera:
Yo florecí en tu corazón sombrío
ha muchos años, caminante viejo
que no cortas las flores del camino.

Tu corazón de sombra, ¿acaso guarda
el viejo aroma de mis viejos lirios?
¿Perfuman aún mis rosas la alba frente
del hada de tu sueño adamantino?

Respondí a la mañana:
Sólo tienen cristal los sueños míos.
Yo no conozco el hada de mis sueños;
ni sé si está mi corazón florido.

Pero si aguardas la mañana pura
que ha de romper el vaso cristalino,
quizás el hada te dará tus rosas,
mi corazón tus lirios.


(Antonio Machado)

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Bom dia!

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© José Pacheco Pereira
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