A colecção "Vidas com Livros", correspondendo a exposições documentais, de iniciativa da Biblioteca Municipal Rocha Peixoto da Póvoa do Varzim, é um muito bom exemplo de acção cívica pela memória do trabalho e da obra de pessoas ligadas ao livro e ao gosto pelos livros. O primeiro volume foi dedicado a Domingos Lima, o livreiro da Lello, e o segundo a António Baptista de Lima, representante de uma família que trabalhou sempre na tipografia. Nele se retrata a biografia de uma tipografia, e o seu mundo próprio, máquinas, tipógrafos, livros, jornais, papel. Basta olhar as fotografias para se perceber o mundo dessas oficinas, o trabalho de mestres e aprendizes numa mesma sala, a relação muito especial que tinham estes operários de elite – sabiam ler e escrever e liam, liam os livros que compunham – com o mundo dos livros propriamente ditos. Os autores conheciam os seus tipógrafos e estes frequentavam os meios literários e jornalísticos, sendo muito sensíveis à dignidade da sua profissão, ou seja à qualidade do seu trabalho. Como se vê, o mundo mudou.
Num recente programa da TSF sobre o tiroteio de Loures, um ouvinte começou a barafustar contra as condições que eram oferecidas aos ciganos e aos pretos que não tinham que trabalhar como ele e os “portugueses”. Dizia o ouvinte, em tom indignado, que muitos deles vão aos correios buscar o “ordenado” que o estado lhes dá, e protestam com qualquer atraso. Não custa imaginar o ouvinte, um idoso ou reformado com idêntico purgatório nas estações do correio, a assistir à cena e a pensar que trabalhou ele toda a vida para ganhar uma magra reforma enquanto que aqueles “malandros” sem fazerem nada são sustentados pelo “governo”.
A TSF tirou-lhe a palavra porque não eram permitidos comentários racistas nem xenófobos. Não me parecia que fossem muito especialmente racistas, porque não era tanto a condição de serem “pretos” ou ciganos” (também era, como é inevitável) mas a de serem pessoas com idade para estarem no mercado de trabalho e viverem “à sua custa”. Não se pense que não há alguma razão nesta atitude. O assistencialismo do estado, com a sua panóplia de subsídios, gera exclusão e marginalidade, bolsas de pessoas que sobrevivem com os subsídios, e mais umas outras actividades na economia informal, mais ou menos ilegal, Não vivem bem, mas vivem tão mal como os seus congéneres, em condição e rendimentos, que trabalham. Daí que os pobres que trabalham sejam particularmente duros com os pobres que vivem de subsídios, em particular se partilham as mesmas comunidades, e podem ser comparados em idade e condição física e social.
O olhar de uma mãe jovem que trabalha como empregada num café é o mais cruel que há para a mãe jovem que vive do rendimento de inserção e passa as manhãs nesse café sem fazer nada, à conversa com as outras mães que também vivem do subsídio. O que muitas vezes as separa são estratégias para o subsídio: uma casou-se na Igreja, outra é mãe solteira, mesmo que as famílias por fora sejam exactamente iguais.
O problema com a nossa visão destas coisas é que não queremos ver estratégias onde achamos que há só cor e costumes, ser preto ou ser cigano. E por isso no programa da TSF, logo a seguir um à retirada da palavra, outro e outro dos ouvintes começavam a sua intervenção dizendo: “aquele senhor tem muita razão”.
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Li o seu comentário de dia 26 relativo aos acontecimentos de Loures, e não posso deixar de estar de acordo. Não é preciso ser um português dito "pobre", basta, para entender o seu reparo, ser de classe média, ter três filhos jovens e recorrer aos serviços públicos de educação e saúde por motivos de uma apertada gestão financeira.
Relato-lhe um caso que pode, de algum modo, apresentar um olhar diferente sobre o celeuma causado pela Doutora Manuela Ferreira Leite quando se exprimiu sobre a relação entre famílias e procriação: Procurando colocar o meu filho do meio, de quatro anos, num jardim infantil público (porque entretanto estava na altura de colocar o mais novo, bébé, numa creche, privada claro, pois os equipamentos públicos para esta faixa etária são inexistentes na cidade em que habito e o meu orçamento não suporta dois filhos em instituições privadas), fui colocada diante de uma lista de prioridades nas quais o meu filho não se integrava, das quais faziam parte ser originário de família monoparental, filho de pais estudantes, desempregados, ou com dificuldades económicas manifestas.
Hoje, como sabemos, metade das crianças nasce dentro daquilo a que chamamos "famílias informais", isto é, em que, se os progenitores quiserem, não declaram viver em união de facto, ou não casam legalmente, aos quais devemos juntar os que são efectivamente criados por um só progenitor. Conheço muitos casos, precisamente de acompanhar as colocações dos meus filhos nas escolas públicas, de mães e de pais que preferem manter-se publicamente com o título de "família monoparental" para garantirem os apoios sociais e educativos que tal condição lhes garante. E não falo só de minorias étnicas e de pessoas socialmente desintegradas, falo de pessoas de classe média, jovens como eu, e que procuram fazer pelo menos a sua semaninha de férias por ano no Algarve.
Pergunto se o Estado, ao reconhecer a monoparentalidade como factor de prioridade para os apoios concedidos às crianças dela originárias não está precisamente a reconhecer que esta condição, ou a condição de famílias informais (as que não resultam de casamento ou união de facto) é fragilizante para as crianças, e por isso lhes concede prioridade numa coisa tão simples como a colocação em jardins de infância públicos, recurso escasso e inacessível em muitos locais neste país. Desta forma, o Estado também reconhece que a família formalmente constituída tem condições que os outros modelos de família não têm para o cuidado e protecção das crianças, a ponto de os considerar "privilegiados" na distribuição dos parcos recursos do Estado. Ou seja, não é tão ínvia assim a relação entre casamento e procriação, mesmo aos olhos do legislador.
Desconfio que a classe média se está a borrifar para a acusação de "pré-modernismo" que o Eng. Sócrates lançou ao discurso de Manuela Ferreira Leite, nem leva o assunto, como a esquerda das causas desejaria, para o plano dos princípios, da reforma das mentalidades e das causas fracturantes. Mas esta classe média que paga impostos e créditos à habitação, trabalha, tem filhos, e entretanto se vê empobrecer, não fechará os olhos a estas distorções que o próprio Estado cria e que no princípio parecem redistribuir a riqueza gerada, princípio do Estado Social, mas que na realidade produzem distorções calamitosas, como a de vermos pessoas que mantêm, sem trabalhar, um rendimento semelhante ou mesmo superior ao daqueles que se levantam para trabalhar pelo ordenado mínimo, e que vêem os seus filhos impedidos de entrar nas creches e jardins de infância públicos porque beneficiam já do "privilégio" de ter nascido numa família formalmente constituída.
(Paula Dias)
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Tanto quanto sei, o documento que define o que é o Rendimento Social de Inserção deixa bem claro que se trata de uma atribuição pecuniária TEMPORÁRIA e CONDICIONAL, estando os seus beneficiários obrigados a respeitar certas condições - como a inscrição num Centro de Emprego, a aceitação de trabalho, formação, etc.
A questão que se coloca é, pois, evidente: com que rigor é que o Estado faz a verificação do direito a esse rendimento (quer na sua atribuição, quer na sua - eventual - renovação periódica)?
Beware of ruins: they have a treacherous charm; Insidious echoes lurk among their stones; That scummy pool was where the fountain soared; The seated figure, whose white arm Beckons you, is a mock-up of dry bones And not, as you believe, your love restored. The moonlight lends her grace, but have a care: Behind her waits the fairy Melusine. The sun those beams refract died years ago. The moat has a romantic air But it is choked with nettles and obscene And phallic fungi rot there as they grow.
Beware of ruins; the heart is apt to make Monstrous assumptions on the unburied past; Though cleverly restored, the Tudor tower Is spurious, the facade a fake Whose new face is a death-mask of the last Despairing effort before it all went sour.
There are ruins, too, of a less obvious kind; I go back; cannot believe my eyes; the place Is just as I recall: the fire is lit, The table laid, bed warmed; I find My former world intact, but not, alas, The man I was when I was part of it.
Estes interessantes países são agora os amigos de coração do nosso Primeiro-ministro. Todos eles têm dinheiro, coisa que falta cá, e governantes pouco escrupulosos em usar o poder que vem desse dinheiro para prosseguirem políticas internas pouco democráticas, para não lhes chamar outra coisa, e políticas externas agressivas. O nosso Primeiro-ministro, como puro pragmático que é, não se dispensa de fazer elogios esfuziantes, muito para além do que se espera de um governante da União Europeia de um pais democrático. Nesses países deixou de lado a roupagem de “esquerda” que usa na Assembleia, a de “progressista”, que usa para os encontros da JS, para assumir a do negociante que faz uma troca oferecendo a legitimação vinda de um governante da UE, em troca dos negócios com as elites politica e economicamente mais corruptas do planeta.
O que é que fica dos filmes na nossa cabeça? Os filmes? Quando os estamos a ver, são os filmes. Em particular, a primeira vez que os estamos a ver, esse momento único e irrepetível em que o cinema manda em nós no escuro e nos leva para onde não sabemos que vamos. Depois, começa o trabalho da memória, a grande recolectora das coisas que nos importam, boas, más e péssimas. Ficam momentos dos filmes, coisas dos filmes, imagens, cenas, canções, faces dos actores, cenários, efeitos especiais. Na nossa cabeça cada vez há menos narrativas, cada vez mais há fragmentos, vírus, slogans, “experiências”.
Kubrick deixou como poucos atrás de si dezenas e dezenas destas “lembranças”: o chupa-chupa, os óculos, as unhas da Lolita; o fabuloso Hotel por onde passa o fabuloso Jack Nicholson possesso, um dos melhores cenários de qualquer filme de sempre; o dr. Strangelove entusiasmado como as personagens de Sade pelo poder da destruição, e o cowboy da bomba, o reverso farsante do trágico-cómico Peter Sellers; o olhar daqueles olhos maquilhados debaixo de um improvável chapéu de coco, na Laranja Mecânica, o olhar que desejamos ardentemente nunca ver; e HAL, no 2001, Odisseia do Espaço.
Os diálogos de HAL 9000, o computador da nave, feito numa fábrica de Urbana, Illinois, em 12 de Janeiro de 1992, quando mata e quando morre, são um dos momentos mais dramáticos da história do cinema: de um lado uma voz que é ao mesmo tempo a mais próxima e a mais alheia. Uma voz que diz a mais humana das frases, a mesma que Cristo na cruz, “tenho medo” e depois delira:
HAL: (…) My instructor was Mr. Langley, and he taught me to sing a song. If you'd like to hear it I can sing it for you.
Dave Bowman: Yes, I'd like to hear it, HAL. Sing it for me.
HAL: It's called "Daisy."
HAL: Daisy, Daisy, give me your answer do. I'm half crazy all for the love of you. It won't be a stylish marriage, I can't afford a carriage. But you'll look sweet upon the seat of a bicycle built for two.
The mind is a city like London, Smoky and populous: it is a capital Like Rome, ruined and eternal, Marked by the monuments which no one Now remembers. For the mind, like Rome, contains Catacombs, aqueducts, amphitheatres, palaces, Churches and equestrian statues, fallen, broken or soiled. The mind possesses and is possessed by all the ruins Of every haunted, hunted generation’s celebration.
“Call us what you will: we are made such by love.” We are such studs as dreams are made on, and Our little lives are ruled by the gods, by Pan, Piping of all, seeking to grasp or grasping All of the grapes; and by the bow-and-arrow god, Cupid, piercing the heart through, suddenly and forever.
Dusk we are, to dusk returning, after the burbing, After the gold fall, the fallen ash, the bronze, Scattered and rotten, after the white null statues which Are winter, sleep, and nothingness: when Will the houselights of the universe Light up and blaze? -------------------For it is not the sea Which murmurs in a shell, And it is not only heart, at harp o’clock, It is the dread terror of the uncontrollable Horses of the apocalypse, running in wild dread Toward Arcturus—and returning as suddenly…
Fragmentos de uma intervenção no I Congresso Nacional sobre Estilos de Vida Promotores de Saúde realizado em Viana do Castelo (Junho 2008), numa reportagem do jornal Notícias Médicas.
(...) Representa uma sociedade marcadamente hedonista, caracterizada pela presentificação. Foi, por isso, com alguma perplexidade que (...) aceitou o convite para falar no I Congresso Nacional sobre Estilos de Vida Promotores de Saúde. Um título que, na sua opinião, contém a sugestão subliminar de que o nosso estado natural é estarmos doentes, pelo que precisamos de promover a saúde, assim como na fé católica nascemos pecadores, pelo que precisamos de um baptismo e de sucessivas confissões para ficarmos "puros e virginais".
A comparação entre a mensagem dos profissionais de saúde e a ideia de pecado original vai mesmo mais longe: "A doença é apresentada como uma espécie de culpa. Uma das características do discurso higienista contemporâneo a que nós somos culpados por estarmos doentes. Estamos doentes porque não promovemos a nossa saúde, porque não levamos a vida que devíamos levar, mas sim a vida que queremos".
(...) A culpa e o medo explicam o efeito poderoso de algumas campanhas [de saúde pública]. Sendo embora eficazes, não lhe parecem argumentos razoáveis. "Essa culpa não nos faz falta nenhuma. Vivemos numa sociedade em que a culpa transpira por todos os poros. Temos culpa da camada do ozono, do mau tempo, da fome no mundo, da SIDA, do preço dos combustíveis, da pedofilia, da pobreza, de praticamente todos os males que nos aparecem na televisão", lamentou. O problema, diz, é que a culpa nos torna "mais dóceis e menos respeitadores da nossa própria liberdade". E também da dos outros. (...) O grande problema da promoção dos estilos de vida saudáveis é conciliar os direitos colectivos com os direitos individuais, designadamente quando essa promoção passa a estar plasmada na lei, afectando os direitos dos indivíduos que livremente escolhem viver de forma diferente. "E se há característica dos dias de hoje é a continua erosão dos direitos individuais. Nos nem sequer nos apercebemos", realçou, falando numa "intromissão do Estado no modo de vida de cada um". (...) A tendencia para a punição e ainda mais perigosa. E o que acontece quando se entende que quem quer fumar, ser sedentário ou engordar está no seu direito de o fazer, mas não poderá aceder aos serviços de saúde em pé de igualdade com quem não fuma, faz dieta ou pratica exercício físico três a cinco vezes por semana.
(...) A propósito, (...) considerou que as considerações sobre a liberdade de escolha devem ser tidas em conta e que "a escolha individual deve ficar a margem da legislação", garantindo a diversificação de comportamentos e de modos de vida. Assim, embora deva existir uma "solidariedade comunitária", ela "não deve, em nenhuma circunstancia, por em causa o modo como cada um vive e em que cada um entende ser feliz" e que "não passa necessariamente por viver a vida toda culpado porque se é gordo" por muito que isso incomode uma industria florescente que se encarrega de "emagrecer as senhoras e os cavaleiros em vésperas do Verão". "Existe uma tensão entre um principio comunitário e uma liberdade individual. Se nós eliminarmos pela lei este tensão, estamos perante uma sociedade mais pobre em que se viva saudável, mas tenho muito contra que se viva infeliz. E não estou certo de as duas coisas vão ao lado uma da outra".
Today a backhoe divulged out of a crumbling flank of earth one bottle amber perfect a hundred-year-old cure for fever or melancholy a tonic for living on this earth in the winters of this climate
Today I was reading about Marie Curie: she must have known she suffered from radiation sickness her body bombarded for years by the element she had purified It seems she denied to the end the source of the cataracts on her eyes the cracked and suppurating skin of her finger-ends till she could no longer hold a test-tube or a pencil
She died a famous woman denying her wounds denying her wounds came from the same source as her power