ABRUPTO

28.1.05


OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: MIMAS, A BOLINHA



- O que é aquela bolinha, mãe?

- Um planeta, uma lua, uma lua de Saturno.

- Porque é que Saturno é tão grande?

- Para comer a bolinha.

- E ela não tem medo?

- Não, porque ainda falta muito tempo.

- No Capuchinho Vermelho era mais rápido.

- Mas isso é uma história. Aqui é verdadeiro, daqui a muito tempo a bolinha cairá na boca de Saturno.

- E não aparecem os caçadores a salvar a bolinha?

- Não. A gravidade manda nos caçadores. A vida é difícil. O lobo é mesmo mau.

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GRANDES NOMES: "FERNWEH"

Para mim a palavra alemã mais bonita é "fernweh", que significa literalmente "dor [weh; no sentido de falta/ausência de algo] da distância [fern]", isto é, desejo premente de partir para longe, ou nostalgia em relação a um lugar distante. É uma prima da "saudade" portuguesa.

(Jaime Monteiro)

Nota: para mim, em alemão, é "Heimatlos", uma explicação fica para depois.


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CRISE DE REPRESENTAÇÃO (2)

1.

Em quem é que eu voto? É a pergunta que mais me fazem. É a pergunta que mais me faço.

2.

Já tive mais certezas do que as que tenho hoje. Há quem pense que é muito simples: critica Santana Lopes, não pode votar no PSD. (De passagem, a mesma crítica não é feita aos "renovadores" que dizem ir votar no PCP, ou aos socialistas que disseram cobras e lagartos de Sócrates e vão votar PS, ou aos bloquistas que vão votar PS. A economia da coerência como arma de critica ad hominem é sempre para os outros...) Mas eu estou em oposição a Santana Lopes e não ao PSD, cujo papel na democracia portuguesa continuo a considerar vital. Seria mau para Portugal que Santana Lopes voltasse a ser Primeiro-ministro, mas seria péssimo que o PSD perdesse o seu papel único no sistema político português. Continuo a pensar que, após a ultrapassagem deste epifenómeno, que não será fácil nem pacífica, o PSD pode reencontrar o seu papel de único partido por onde passam (e passaram) todas as reformas que Portugal precisa. O futuro do PSD diz-me respeito como seu militante e não conto alhear-me dele e por isso uma fina linha de navalha de decisão me pesa. Não se pode ficar de bem com todos. Acontece.

3.

Se Sócrates chegar ao poder - como um infeliz cartaz da JSD e múltiplas declarações de Santana Lopes e Miguel Relvas todos os dias nos dizem que vai acontecer - será o retorno ao adiamento medíocre e dourado. Todos sabem o que penso do guterrismo, não vale a pena repeti-lo. Mas convém ficar claro que se Sócrates chegar ao poder, o primeiro responsável é Santana Lopes. Não é único, Durão Barroso e os unanimistas do PSD que batem palmas a tudo para reservar o seu pequeno lugar, também têm responsabilidades. Mas nunca ninguém enterrou o PSD numa crise de credibilidade tão grande como Santana Lopes, nunca ninguém dividiu o partido tão esterilmente como Santana Lopes. Houve quem dissesse há muito tempo que ia ser assim, desde o tempo da Cadeira do Poder.

4.

Há também responsabilidade nos poucos que podiam pelo menos ter tentado fazer-lhe frente, há cinco meses e agora. A tese que, para derrubar Santana Lopes, é preciso que ele perca as eleições, pode ser boa para os candidatos à sua sucessão, mas é péssima para o partido e má para o país. Fique no entanto a saber-se que muito foi tentado, felizmente sem vir para as páginas dos jornais, para que tal acontecesse. Houve muita gente que não ficou sentada e que tentou. Falhou, mas também não é verdade que muitos militantes, entre os quais me incluo, não tenham tentado persuadir, convencer, sem sucesso.

5.

A favor dos que não avançaram antes, mas o vão fazer a 20 de Fevereiro, há que ter consciência das dificuldades, dos tempos demasiado curtos, dos momentos desfavoráveis, da aceleração com que tudo ocorreu, e da degradação de muitas estruturas do partido que, desde que não lhes mexam nos lugares dos seus dirigentes, aceitam tudo e perdem o sentido do interesse nacional. Neste ciclo de pressa, Durão Barroso tem muitas responsabilidades, porque podia ter sugerido uma sucessão pelo governo, dando tempo ao partido para encontrar uma solução sem ser sob pressão e encomenda.

6.

Dito isto, fique bem claro que o PS não é alternativo aos males do PSD. Isto está de tal modo rasteiro que convém também dizê-lo explicitamente. Lembro a alguns meninos sem memória que quando eles andavam em hotéis a fazer acordos com o engenheiro, ou quando no PSD muitos se acomodavam à inevitabilidade do estado de graça permanente de Guterres e actuavam como se estivessem em bloco central para os empregos, eu fui sempre um duro crítico do guterrismo muitas vezes solitário. Quem criticou a divisão entre PS e PSD dos lugares nos conselhos de administração de algumas importantes empresas, quem criticou a venda da Lusomundo à PT, quem criticou as re-nacionalizações por via das golden shares, quem criticou a passagem dos orçamentos do PS? Não foram alguns dos patriotas da camisola dos dias de hoje.

7.

Discordo por isso em absoluto da posição de Freitas do Amaral no plano político. Insisto: no plano político, porque quanto ao plano moral, os discípulos do dr. Portas são os últimos que têm autoridade para o criticar, dado que a sua casa é o melhor exemplo do oportunismo em estado puro, com a agravante de ser exibido com arrogância e hipocrisia. Freitas do Amaral tomou uma posição de consciência, pouco fácil para quem foi o que foi e é o que é. Merece respeito por isso e discordância política.

8.

Voltaremos aqui.

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27.1.05


OUVINDO


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VÁRIOS GRANDES NOMES

O rock progressivo, arte musical que os anos 70 solidificaram, contêm inúmeras bandas, cujos nomes ficam na história como misto de humor e ironia. Ficam aqui alguns: Banco del Mutuo Soccorso (Itália), Consorzio Acqua Potabile (Itália), Debile Menthol (Suíça), Ego on the Rocks (Alemanha), Sleepytime Gorilla Museum (USA), Recordando o Vale das Maças (Brasil), Moving Gelatine Plates (França), La Confrerie des Fous (França).

No nosso rectângulo, lá para as bandas da Guarda, apareceu na década de oitenta, um corajoso grupo de amigalhaços que das malhas liceais de um rock de garagem, engendraram a banda que mais tarde daria origem aos "Gabardine 12", combo de culto e berço do actual multifacetado instrumentista Albrecht Loops, um dos mais importantes nomes da musica experimental deste país. Nesses longínquos anos oitenta, em paralelo com projectos não menos interessantes ("Dif Juz" e "Mistério das Colunas Perdidas"), existiam assim os "Sérgio and those". Ah, toda a piada da situação, era o nome original da banda: "Sergio and those who killed the father because the king tell them to do that Band". Um mimo.

E que dizer do álbum de 1984 dos Siniestro Total, a mítica banda de Vigo: "Menos mal que nos queda Portugal". Na altura definiam-se como "punk rock gallego contra el aburrimiento general". Hoje, ainda aí estão. Sinal que ainda há muito cinzentismo por aí.

(José "Von" Barata)

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GRANDES NOMES: ENA PÁ 2000

Comemoram-se agora os vinte anos de um grupo iconoclasta, inconsequente e cada vez mais a roçar a irrelevância. Mas, na altura em que surgiram, os ENA PÁ 2000 foram uma pedrada no charco da seriedade com que a Lisboa “culta” encarava o acto criativo. Talvez porque os elementos do grupo tenham surgido no âmago da elite juvenil, cultivada e cosmopolita da época. Para quem não saiba, o Manuel João Vieira (filho do excelente João Vieira, pintor) não é apenas aquele boneco patético e provocatório. É um rapaz erudito, e um pintor bastante talentoso. Escolheu um caminho que o levou a muitas pérolas, entre as quais outro grande nome, desta vez de uma canção: “Sexo na Banheira é Bom”.

(Manuel Margarido)

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GRANDES NOMES: "HABSELIGKEITEN"

A minha sugestão para "Grandes Nomes" é "Das Schoenste Deutsche Wort" ("A Palavra Alema Mais Bonita"), um concurso decorrido no ano passado para a encontrar. A vencedora foi "Habseligkeiten" (difícil de traduzir, qualquer coisa como "pertences"). Gosto particularmente da quarta classificada, "Augenblick" ("piscar de olhos"), por ser um instante mais longa do que aquilo que significa. Mais sobre o tema aqui (infeliz, mas tambem obviamente, só em alemão). Acho que nenhum povo gosta tanto da sua lingua como os alemães, e tem boas razões para isso.

Por outro lado, existe Mark Twain com a sua "The Awful German Language" (outro grande nome).

(Pedro Queiroz)

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PROVÉRBIOS PARA OS DIAS DE HOJE

"Quem não sabe comer, até os dentes incomodam…"

Uma variante de "Quem não sabe dançar diz que a sala está torta", enviada por João Reis.

*

"Ir buscar lã e sair tosqueado."

"A propósito da nefandice de Louçã". diz Octávio Gameiro.

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A LER

As Margens de Erro por causa das margens do erro.

E a Natureza do Mal por causa da natureza do mal. Por causa de The End of The Blog , A verdadeira morte do marxismo leninismo e os Muralistas.

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OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: A IDADE NOTA-SE



Envelhecer em Marte: as cores já não brilham. Pó. Pelo pó. Com o pó. Para o pó.

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A VER

Esta Lua "for early morning risers (and late to bed astronomers)."

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26.1.05


AR PURO


Arnold Boecklin

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EARLY MORNING BLOGS 416

A tempo


A tempo entrei no tempo,
Sem tempo dele sairei:
Homem moderno.
Antigo serei.
Evito o inferno
Contra tempo, eterno
À paz que visei.
Com mais tempo
Terei tempo:
No fim dos tempos serei
Como quem se salva a tempo.
E, entre tempo, durei.


(Vitorino Nemésio)

*

Bom dia!


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VER A NOITE

A Lua do Lobo, a Lua das Neves no seu esplendor. Com o frio vê-se melhor.

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25.1.05


PROVÉRBIOS PARA OS DIAS DE HOJE

"Quem não sabe dançar diz que a sala está torta."

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A LER

A nota Maturidade de Pedro Oliveira no Barnabé, para perceber que os caminhos da crise de representação chegam a todo o lado.

Actualizado: a ler os comentários e o tom intolerante e violento da maioria das críticas a Pedro de Oliveira. De qualquer modo, um dos raros debates ocorridos até agora na campanha eleitoral, o que tem mérito.

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PROVÉRBIOS PARA OS DIAS DE HOJE: LÃ DE CABRA, PÊLOS, SOMBRA DE ASNO, E FUMO

De lana caprina contendere. "Discutir a lã das cabras". Os antigos tinham muitas variantes: sobre a lana caprina (De lana caprina rixare , De lana caprina digladiari, Rixatur de lana saepe caprina), sobre os pêlos (De pilis lutove disceptare), e sobre o fumo (De fumo disceptare).

As minhas preferidas têm a ver com "Discutir sobre a sombra de um burro", um aforismo de Erasmo (De asini umbra disputare e variantes, De asini umbra disceptare, De asini prospectu incusatio est, De umbra aselli verba sunt).

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COISAS SIMPLES


Bernard

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EARLY MORNING BLOGS 415

Os ombros suportam o mundo


Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.


(Carlos Drummond de Andrade)

*

Bom dia!

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24.1.05


POEMA DE BLAKE TRADUZIDO POR VASCO GRAÇA MOURA

(citado no original em OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: TEMÍVEL GEOMETRIA)

O tigre

Tigre, tigre, chama pura
Nas florestas, noite escura,
Que olho ou mão imortal cria
Tua terrível simetria?

De que abismo ou céu distante
Vem tal fogo coruscante?
Que asas ousa nesse jogo?
E que mão se atreve ao fogo?

Que ombro & arte te armarão
Fibra a fibra o coração?
E ao bater ele no que és,
Que mão terrível? Que pés?

E que martelo? Que torno?
E o teu cérebro em que forno?
Que bigorna? Que tenaz
Prò terror mortal que traz?

Quando os astros lançam dardos
E seu choro os céus põe pardos,
Vendo a obra ele sorri?
Fez o anho e fez-te a ti?

Tigre, tigre, chama pura
Nas florestas, noite escura,
Que olho ou mão imortal cria
Tua terrível simetria?


(W. Blake)

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GRANDES NOMES: "CATORZE MANEIRAS DE DESCREVER A CHUVA"

É uma obra de música de câmara de Hans Eisler que data de 1941 e seu curioso título deriva do facto de ter sido escrita como música de acompanhamento para o documentário «Chuva», realizado pelo documentarista holandês Joris Ivens... em 1929! Eisler foi contratado para escrever esta obra no âmbito de um projecto da Fundação Rockefeller, o que não deixa de ser curioso se pensarmos que Eisler era comunista e que compusera, em 1937, um Requiem para Lenine.

(José Carlos Santos)

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PROVÉRBIOS PARA OS DIAS DE HOJE

Ubi dubium, ibi libertas. "Onde existe a dúvida, aí existe a liberdade."

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INTENDÊNCIA

Publicada no Portal do Astrónomo a nota Todo o Mundo num Só.

Actualizados os ESTUDOS SOBRE O COMUNISMO nas bibliografias de 2004 e 2005.

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PROVÉRBIOS PARA OS DIAS DE HOJE

"Quem foi ao mar, perdeu o lugar."

"Quem foi à feira, perdeu a cadeira."

"Quem foi ao vento, perdeu o assento."

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GRANDES NOMES: PEREGRINATIO AD LOCA INFECTA

Título de um livro de Jorge de Sena de 1969.

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PROVÉRBIOS PARA OS DIAS DE HOJE

Ubi discrimen inter malos bonosque sublatum est, confusio sequitur et vitiorum eruptio. (Séneca). "Quando se remove a distinção entre os maus e os bons, segue-se uma confusão e uma erupção dos vícios."

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GRANDES NOMES: PORTUGALIAE MONUMENTA FRIVOLA

Título de um livro de ensaios e textos de Eugénio Lisboa.

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COISAS SIMPLES: NATAÇÃO


Lichtenstein

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PROVÉRBIOS PARA OS DIAS DE HOJE

Mores cuique sui fingunt fortunam. (Cornélio Nepos). "É o carácter que faz o destino de cada um."

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EARLY MORNING BLOGS 414

Entre duas memórias;


já separadas como estratos,
mas recordando-se uma à outra;
subimos pelo frio:
paredes altas de água a condensar-se
no ar ainda azul;com a transparência
sem som a suavizá-lo;
perguntamos indecisamente:
neve mais silêncio
igual ao fim do azul?
ou a fórmula do esquecimento;
onde passam gelos vagarosos;
deduz-se doutro modo?
seja como for,
nenhuma sombra nos prolonga
por este chão de vidro;
e o ar boreal reflecte-nos os olhos,
tão limpos,que os extingue.

(Carlos de Oliveira)

*

"Frio. Frio. Frio. Anunciam frio. Neve. Tempestades. Chegou o teu Tempo." Bom dia!

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23.1.05


DIGA LÁ EXCELÊNCIA

Na parte inicial da entrevista na Dois, Marçal Grilo descreveu com grande exactidão a situação actual do sistema partidário. Chamou a atenção para a semelhança dos critérios de recrutamento, promoção e escolha das pessoas nas estruturas intermédias do PS e PSD, e o modo como os partidos foram "tomados por dentro" por "interesses intermédios", de que o imobiliário é exemplo. A ascensão nos aparelhos partidários dos autarcas e de todo um mundo de pessoas deles dependentes, nas vereações, nas empresas municipalizadas, nos empregos municipais, ocupou e estiolou todo o espaço político das secções dos partidos e dos órgãos locais e regionais. Estas vivem à volta dos empregos e dos favores com origem no poder local.

Tudo isto é de uma grande exactidão - inclusive a ênfase de Marçal Grilo de que se trata de "interesses intermédios" e não dos "grandes interesses" como muitas vezes erradamente se mistura. Estes actuam mais ao nível do topo dos partidos e nos sectores não escrutinados dos governos, como os assessores, consultores, etc., exercendo o seu poder mais na base da pressão, da negociação e da troca de favores, do que na corrupção.

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ESTILOS CORRENTES

Os dirigentes políticos sabem, no meio dum discurso num jantar ou comício, quando entram em directo na televisão, o mais ansiado momento. Quase que se pode dizer que tudo o resto é apenas cenário para esses minutos televisivos. Por isso o que escolhem é significativo, porque falam sem mediação jornalística. Um faz promessas demagógicas, o outro politiquice para atacar alguém. É sempre politiquice para atacar alguém, que é o que ele faz com mais eficácia. É, não há volta a dar, cada um é o que é. Como se a vida fosse um eterno comício.

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PROVÉRBIOS PARA OS DIAS DE HOJE

Saepe ignoscendo, des iniuriae locum. (Publilius Syrus) "Desculpando com frequência, darás lugar à injustiça."

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APRENDENDO COM CARLOS DE OLIVEIRA SOBRE A GINÁSTICA DA DIGNIDADE

- Dizem em voz alta, não muito alta: que porcaria, que nojo de sociedade, e em voz baixa, baixíssima: ora, o que é preciso é “triunfar”. Esta consciência elástica lembra o chewing-gum e pega-se fatalmente à esquerda e à direita. Por mais dez réis de propaganda ou al contado (também faz jeito). Por ninharias. E no entanto a dignidade cultiva-se como a beterraba ou as abóboras. Semeando-a, adubando-a, colhendo-a na altura própria. Muito rústico? Está bem, arranja-se outra coisa. Citadina. A dignidade, desenvolve-a uma ginástica vigilante e diária, que requer apenas paciência, atenção, vontade. Com uns anos de exercício torna-se instintiva, uma espécie de segunda natureza. Pouco maleável (rentável) na prática social mas esse defeito compensa-o largamente a tranquilidade interior (moral) que permite o crescimento livre de certa intranquilidade (imaginativa, criadora), ponto de partida para toda a obra literária alguns furos acima das “necessidades do mercado”. O que sucede nos casos vulgares é a falta da primeira liquidar a outra ou impedi-la dum completo desenvolvimento. E não me venham com o exemplo de alguns génios i(ou a)morais, porque posso arranjar logo uma dúzia de outros génios para contrapor a esses e, sobretudo, porque disse: nos casos vulgares.

(Carlos de Oliveira)

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O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES / ANTOLOGIA DA PEDRA



(Foto dos Cliffs of Moer enviada por Mariana Magalhães.)

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O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: SOBRE UMA MORTE

...em Cambridge…

Conheci muito bem e convivi muito com um religioso, Prof. Universitário, que era, e tinha sido então, o maior especialista em Dante. Quando o conheci tinha ele 73 anos. Vivíssimo, inteligentíssimo. (Todo ele era uma pessoa peculiar, excêntrica e quase bizarra que se passeava pela sua comunidade, com camisolas rotas, despenteado, dedos amarelos de cigarros inenarráveis que fumava e com uma gata ao colo, olhando para todo o lado com um ar semi-espantado). Com ele mantive uma relação muito interessante e com ele aprendi muito e foi uma das pessoas que mais me marcou ao longo da vida, e uma das coisas mais interessantes que ele me ensinou é que nada é um adquirido, nem mesmo a fé. Ele, que era religioso, padre e “scholar”, todos os dias tinha que refazer o seu percurso da fé: da palavra à revelação, da redenção à ressurreição, não se dava tréguas a si próprio; tinha que “entender”, tinha que, todos os dias se abrir de novo a Deus com trabalho e esforço.

Era esse o preço que pagava pela inteligência que tinha:
o nunca ter certezas, nem sequer que Deus existia e que Cristo era seu filho. O seu trabalho era aprofundar a fé e o estudo, quer de Dante e poesia, quer da teologia (era também estudioso de S. Tomás de Aquino), era mais um meio de, através dos homens, e da arte, chegar a Deus. Mas parece que nunca chegava…Tem muita obra publicada nas diferentes áreas que é reconhecida em todo o mundo (Vasco Graça e Moura refere-se várias vezes a ele, nas suas traduções quer de Dante quer de Petrarca).

Um dia apanhou uma pneumonia e tivemos que o levar ao hospital. Estava mal e os médicos alertaram-no para o facto de que, muito provavelmente e devido ao seu estado geral débil, poderia morrer. Ele percebia que era assim, mas o seu lado rebelde, que gostava de viver e que mordia a vida com uma fúria pouco comum e que lhe valeu ao longo de toda a sua vida alguns apuros, revoltava-se, e passou verdadeiros momentos de pânico e de medo perante a morte. As vezes que o vi no hospital, notei-lhe o pânico, o medo no olhar, a ânsia de mais um sopro que lhe levasse oxigénio aos pulmões, o medo de falar de mais e começar a tossir, o corpo velho, magro e tão frágil. Tentava parecer em controlo da situação, racional. Pediu para lhe lermos uns poemas de Gerard Manley Hopkins, agarrou a minha mão, pediu oxigénio, tossiu, sempre irrequieto, sempre revoltado, sempre apavorado, sem saber como seria a morte e se Deus estaria do outro lado a acolhê-lo. Estava muito só. Um frade não tem família. Tem os membros da comunidade que rezam por ele, mas não tem família. Daquela que sofre com ele, que o acompanha e que morre um pouco com a sua morte. Custou-me muito deixá-lo ao fim da tarde, não recebeu mais visitas. Nessa madrugada morreu. Só.

(J.)

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INTENDÊNCIA

Novos comentários à nota REACCIONÁRIOS.

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A LER

As notas no Bloguitica COLOCAÇÃO E CONDIÇÕES e no avatares de um desejo Ethos político .

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GRANDES NOMES: “QUELQUES ASPECTS DE “NOUS N’IRONS PLUS AU BOIS” PARCE QU’IL FAIT UN TEMPS INSUPPORTABLE”

Peça para piano de Debussy de 1894, mas que só foi publicada postumamente. (Sugestão de José Carlos Santos)

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COISAS SIMPLES / AR PURO


Karl Blechen

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EARLY MORNING BLOGS 413

Uma pequenina luz

Uma pequenina luz bruxuleante
não na distância brilhando no extremo da estrada
aqui no meio de nós e a multidão em volta
une toute petite lumière
just a little light
una picolla... em todas as línguas do mundo
uma pequena luz bruxuleante
brilhando incerta mas brilhando
aqui no meio de nós
entre o bafo quente da multidão
a ventania dos cerros e a brisa dos mares
e o sopro azedo dos que a não vêem
só a adivinham e raivosamente assopram.
Uma pequena luz
que vacila exacta
que bruxuleia firme
que não ilumina apenas brilha.
Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.
Muda como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Brilhando indeflectível.
Silenciosa não crepita
não consome não custa dinheiro.
Não é ela que custa dinheiro.
Não aquece também os que de frio se juntam.
Não ilumina também os rostos que se curvam.
Apenas brilha bruxuleia ondeia
indefectível próxima dourada.
Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.
Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.
Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.
Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha.
Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não:
brilha.
Uma pequenina luz bruxuleante e muda
como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Apenas como elas.
Mas brilha.
Não na distância. Aqui
no meio de nós.
Brilha


(Jorge de Sena)

*

Bom dia!

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© José Pacheco Pereira
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