ABRUPTO

17.4.04


ABRUPTO

Continuam os trabalhos manuais, com prejuízo do Abrupto. Vamos ver se melhoram as coisas neste fim de semana.

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EARLY MORNING BLOGS 185

Comme le champ semé en verdure foisonne,
De verdure se hausse en tuyau verdissant,
Du tuyau se hérisse en épi florissant,
D'épi jaunit en grain que le chaud assaisonne :

Et comme en la saison le rustique moissonne
Les ondoyants cheveux du sillon blondissant,
Les met d'ordre en javelle, et du blé jaunissant
Sur le champ dépouillé mille gerbes façonne :

Ainsi de peu à peu crût l'empire Romain,
Tant qu'il fut dépouillé par la Barbare main,
Qui ne laissa de lui que ces marques antiques,

Que chacun va pillant : comme on voit le glaneur
Cheminant pas à pas recueillir les reliques
De ce qui va tombant après le moissonneur.


(Joachim du Bellay)

*

Bom dia!

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16.4.04



Alexandre François Desportes

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15.4.04


EARLY MORNING BLOGS 184

Venho de longe e trago no perfil,
Em forma nevoenta e afastada,
O perfil de outro ser que desagrada
Ao meu actual recorte humano e vil.

Outrora fui talvez, não Boabdil,
Mas o seu mero último olhar, da estrada
Dado ao deixado vulto de Granada,
Recorte frio sob o unido anil...

Hoje sou a saudade imperial
Do que já na distância de mim vi...
Eu próprio sou aquilo que perdi...

E nesta estrada para Desigual
Florem em esguia glória marginal
Os girassóis do império que morri...


(Fernando Pessoa)

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RTP

Ouvindo a auto-propaganda elogiosa que a RTP Internacional ( e a nacional) passa incessantemente sobre os méritos de si própria ( o que no contexto actual, significa elogiar o governo que a “reformou”), no intervalo dos sucessivos jogos de futebol, dos concursos, etc, ouvindo as palmas socialistas e bloquistas em nome da ideologia do “serviço público”, penso: quando eu for grande e se for do governo quero ter uma televisão como esta.

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14.4.04


ABRUPTO

tem sido um pouco abandonado, porque o autor tem estado a fazer trabalho manual, na tradição maoista dirão os amargos e os cínicos, na tradição monástica dirão os benévolos. Pouco a pouco voltará aos eixos, eixos muito próprios mas constantes.

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BIBLIOFILIA

Hoje a Waterstone’s estava cheia de novos livros ingleses e americanos. Cada estante tinha livros a chamar: “comprem-me”. Foi-lhes feita a a vontade. Como resistir, nestes dias de aniversário do saque de Constantinopla, a Jonathan Phililips, The Fourth Crusade and the Sack of Constantinople, Londres, Jonathan Cape; ou a John Keegan, The Iraq War, Londres, Hutchinson, por aquele que melhor escreve sobre a “face da batalha” na guerra; ou a mais uma biografia de peter Ackroyd, Chaucer, Londres , Chatto and Windus e a …e a ...



A menina da caixa sorriu mais que o Smiley e disse-me “volte rápido”. Percebo-a muito bem.

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OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: "WHERE IS MY MIND?"

O "Espírito" mudou de "mente", lá na solidão marciana. Maravilhas do software, respondendo à dúvida de Descartes de como é que um "fantasma" podia mandar numa "máquina". O "Espírito" mudou de "fantasma", de "alma", de "mente" e fez reboot com sucesso. Está melhor agora, move-se com mais agilidade, dorme mais profundamente, lembra-se melhor. Deve andar a tomar qualquer coisa.

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13.4.04



Cornelis van Dalem

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ASSIM É FÁCIL – EXEMPLOS DE MÁ FÉ

Artigo de Domingos Lopes, “Iraque – um ano depois”, no Público de hoje. Em itálico, encontra-se o texto de Domingos Lopes, os comentários estão em tipo normal.

Foi mais ou menos unânime a ideia de que a resistência à ocupação do Iraque irrompeu de forma surpreendente logo após o Presidente dos EUA ter declarado o fim da guerra. Ninguém estaria a contar que, após a derrota espectacular do exército de Saddam Hussein, a resistência surgisse quase no dia seguinte a essa declaração.

Não é verdade. A julgar pelo que todos afirmavam, esperava-se resistência, até numa dimensão muito superior à que existe. Os que previam o apocalipse, agora valorizam a “surpresa”, o argumento muda conforme dá jeito. Assim é fácil.

A credibilidade da política externa dos EUA está cada vez mais abalada. A mãe de todas as justificações foi o perigo da existência das armas de destruição maciça.

Verdade.

Ora, hoje, os próprios defensores deste monumental embuste mudaram de agulha, deixando cair aquilo que consideram ser o motivo essencial para desencadear a guerra e a ocupação, e falam da importância da democracia no Iraque (partindo do pressuposto que o derrube da ditadura por via de uma guerra conduziu à tal democracia) e do combate ao terrorismo.

Não é verdade. Houve quem, na administração americana, falasse sempre da “mudança de regime” e da democratização, e fosse criticado por isso.

Vale a pena trazer para a tona desta discussão o quanto a propaganda dos EUA apostou na ideia de que o problema da resistência tinha a ver com o facto de Saddam andar à solta. Ele representava o alento para largos sectores da sociedade iraquiana que resistia.

Não é verdade que a “propaganda” fizesse depender tudo de Saddam. Assim é fácil.

Aconteceu a sua prisão, aliás do modo mais obsceno possível, inimaginável para todos os que se batem por valores tão importantes como os direitos humanos, incluindo o dos prisioneiros de guerra. A exibição do buraco onde foi apanhado mostrou a todo o mundo que não era aquele homem, vivendo como um rato, que dirigia a resistência que todos os dias explode em diversas frentes.

É verdade que a passagem das imagens não se devia ter feito (e não a captura, o que é diferente), mas será que justifica a descrição empolada: “a sua prisão, aliás do modo mais obsceno possível, inimaginável para todos os que se batem por valores tão importantes como os direitos humanos, incluindo o dos prisioneiros de guerra”, é mais uma falsa indignação. Como é que depois se descrevem violências como a morte e mutilação dos americanos em Falluja?

A prisão de Saddam Hussein não conteve em nada as acções da resistência, antes pelo contrário. Nos últimos tempos recrudesceram os seus actos, sendo hoje contabilizado em mais de 600 as baixas dos EUA, registadas depois de declarado o fim da guerra.

Não é verdade. Se exceptuarmos os acontecimentos das últimas semanas, os atentados contra os americanos tinham baixado significativamente, com uma viragem para alvos iraquianos, muitos deles tendo mais a ver com violência sectária do que com a ocupação.

Quando vemos as manifestações (via televisão) do povo iraquiano, imediatamente percebemos que não é a Al-Qaeda, nem outras organizações terroristas que conseguem mobilizar aquelas multidões. É a população que se move. É a sua identidade e cultura que sentimos que eles sentem humilhadas.

Nunca ninguém atribuiu as manifestações à Al Qaeda. As manifestações são pouco importantes e localizadas, a não ser que se contem como manifestações as peregrinações xiitas. Dizer que é a “população que se move” é puramente ideológico, porque a “população” inclui Basra, a segunda cidade, todo o norte curdo e muitas outras zonas e cidades em que existe acalmia, ou apenas pequenos incidentes e que, por isso, não fazem parte do mapa. Assim é fácil.

Naquele país, berço da civilização, as tropas dos EUA significam para os iraquianos um ultraje à sua arabicidade e ao seu carácter iraquiano.

Como é que se sabe? “Arabicidade”? E os iraquianos que não são árabes?

Em boa medida a questão pode ser esta: os EUA calcularam mal? A sua arrogância imperial levou-os a pensar que a sua tecnologia militar seria suficiente para vencer o povo iraquiano depois de derrubado o ditador? Os americanos desconheciam o poder dos xiitas, maioritários no Iraque? O desejo e a aspiração de autonomia e independência por parte dos curdos? O papel da minoria sunita, submetida à comunidade xiita? Quem pode ou podia ignorar que a tomada de poder pelos xiitas (bem provável) pode reforçar a liderança iraniana? E há outras perguntas que se colocam: na Administração da única superpotência mundial não se sabia isto?

São perguntas válidas.

Ou por se saber que tudo "isto" conduziria a um profundo agravamento da situação no Médio Oriente e no mundo desencadearam a guerra e a ocupação, porque a partir dessa instabilidade mantêm o domínio da região, mantêm a Europa fora dela, após terem conseguido dividi-la em velha e nova, segundo as palavras de Rumsfeld.

Teoria da conspiração pura.

É, porém, ponto assente que na situação reinante no Iraque e na Palestina o terrorismo não foi estancado, antes pelo contrário. Não se esqueça o Afeganistão, onde tudo vem mostrando que a guerra, para além de ter retirado os taliban do poder, quase nada resolveu. A instabilidade é total. Tal como no Iraque e na Palestina.

Do ponto de vista factual ou é adivinhação ou é falso. A “instabilidade no Afeganistão” é localizada, e dizer que a “guerra nada resolveu” é absurdo. Assim é fácil.

Por isso, um ano depois, o balanço da ocupação mostra que ela constituiu um enorme falhanço em todas as frentes: na descoberta das armas de destruição maciça; na democratização do Iraque; na luta contra o terrorismo; na implementação do Roteiro da Paz; na busca da estabilidade para a região e para o mundo.

Tudo misturado e tudo reduzido a um ano de validade. Ou se acerta num ano, ou se muda tudo. Quem é que estabeleceu este prazo? Assim é fácil.

A esta luz cabe com toda a justiça esta pergunta: que está a GNR a fazer naquele atoleiro? Em termos individuais cada um arrisca a vida como entende, incluindo por dinheiro... Em termos de política externa este passo coloca o país num contexto de hostilidade com o Iraque e todo o mundo árabe e muçulmano de modo absolutamente desnecessário e para defender a política dos EUA, a qual é hoje claramente repudiada em Portugal, na Europa e no mundo. A seguir a Bush outros virão, tal como a seguir a Aznar chegou Zapatero. Outros protagonistas chegarão ao Iraque e a todo o Médio Oriente. As contas serão feitas afinal.

Este é o recado político legítimo, não pode ser examinado factualmente.

No final, o autor identifica-se como vice-presidente do Conselho Português para a Paz e Cooperação. Esta organização tem uma história conhecida e ultra-documentada, sendo o principal instrumento da política externa soviética do “pacifismo” unilateral, a favor do Pacto de Varsóvia e contra a OTAN. Era financiada e controlada pela URSS. Nunca se afastou uma linha dessa política externa e por isso compreende-se a genealogia do seu anti-americanismo.


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VULCÕES



Agora, agora mesmo, o sol já brilha no Piton de la Fournaise.

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EARLY MORNING BLOGS 183

WHEN I HEARD THE LEARN'D ASTRONOMER.


When I heard the learn'd astronomer;
When the proofs, the figures, were ranged in columns before me;
When I was shown the charts and the diagrams, to add, divide, and measure them;
When I, sitting, heard the astronomer, where he lectured with much applause in the lecture-room,
How soon, unaccountable, I became tired and sick;
Till rising and gliding out, I wander'd off by myself,
In the mystical moist night-air, and from time to time,
Look'd up in perfect silence at the stars.


(Walt Whitman)

*

Bom dia!
Ainda na noite escura.

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12.4.04


ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES

José Matos enviou-me esta "poeira" especial:

"Há 43 anos um jovem cosmonauta de 27 anos de idade preparava-se para fazer um voo histórico. Devia estar nervoso a esta hora. Pela manhã partirá rumo ao espaço. A bordo da pequena cápsula Vostok dará uma volta à Terra em cerca de 90 minutos à velocidade espantosa de 28 000 km/h. Partirá às 9h07 da manhã e voltará à terra mãe às 10h55. Amanhã é o dia dele. Se fosse vivo teria 70 anos de idade. "


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ESTUDOS SOBRE O COMUNISMO

Em actualização durante o dia de hoje.

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EARLY MORNING BLOGS 182

Para Constantinopla, no dia do saque, e que coube, muitos anos depois, no "Je suis" de Verlaine.

Je suis l'Empire à la fin de la décadence...


Je suis l'Empire à la fin de la décadence,
Qui regarde passer les grands Barbares blancs
En composant des acrostiches indolents
D'un style d'or où la langueur du soleil danse.

L'ame seulette a mal au coeur d'un ennui dense,
Là-bas on dit qu'il est de longs combats sanglants.
O n'y pouvoir, étant si faible aux voeux si lents,
O n'y vouloir fleurir un peu cette existence!

O n'y vouloir, ô n'y pouvoir mourir un peu!
Ah! tout est bu! Bathylle, as-tu fini de rire?
Ah! tout est bu, tout est mangé! Plus rien à dire!

Seul un poème un peu niais qu'on jette au feu,
Seul un esclave un peu coureur qui vous néglige,
Seul un ennui d'on ne sait quoi qui vous afflige!


(Paul Verlaine)

*

Bom dia!

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POEIRA DE 12 DE ABRIL

Hoje, há oitocentos anos, os cruzados, francos e venezianos na sua maioria, saquearam Constantinopla, rasgando de vez a divisão entre cristãos latinos e gregos. A cidade conheceu enormes destruições e ficou ferida de morte até à sua conquista pelos turcos, cerca de duzentos e cinquenta anos depois.

Nicetas Choniates descreveu com fúria o saque das igrejas, a destruição das relíquias. Na Hagia Sophia, o altar foi destruído para os materiais preciosos poderem ser divididos pelos soldados. Os cruzados fizeram entrar dentro da igreja mulas e cavalos, para puxarem carros com o saque. Na confusão, alguns caíram, escorregando no pavimento de mármore. Os “odiosos bárbaros” roubaram as mais sagradas relíquias da cidade: um frasco com o sangue de Cristo, um fragmento da cruz, restos dos corpos de S. João Baptista e dos apóstolos. Os cristãos gregos ortodoxos lembram-se disto como se fosse hoje.

*

Hoje, há oitenta e cinco anos, Virginia Woolf lê com entusiasmo Moll Flanders, de Defoe: "a great writer surely to be there imposing himself on me after 200 years".

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Hoje, há dez anos, John Gielgud comemora noventa anos e foi amoçar com o deputado conservador Gyles Brandreth, que também tinha convidado Glenda Jackson para a ocasião. Chegou à uma em ponto . Gyles disse-lhe que era uma grande honra que ele tivesse aceite o convite. Gielgud respondeu: "Oh, I'm delighted to have been asked. All my real friends are dead, you know".


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11.4.04


UM BOM LIVRO SOBRE O IRAQUE ANO I

Pierre Rigoulot / Michel Taubmann (Coordenadores), Irak, An I . Un Autre Regard sur un Monde en Guerre, Paris, Editions du Rocher, 2004

Finalmente um bom livro publicado em França sobre o Iraque, à revelia do anti-americanismo dominante, com análises muito interessantes sobre o que se passou e passa. Para os que todos os dias falam dos “mentirosos”, há aqui uma lista impressionante de mentiras e desinformação em grande escala dos media franceses e de muitas outras instituições internacionais tidas como reputadas. Entre muitos exemplos dessas operações de desinformação, veja-se a célebre história dos saques dos museus de Bagdad, mas não só. Há muitas mais. Vale a pena ler.

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Gustave Doré, L'Enigme

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ALGUMAS NOTAS SOBRE “NATION BUILDING”


Manuel Carvalho escreveu ontem no Público um editorial com o título "A Derrocada da Nation Building", onde defende a ideia de que as nações livres e democráticas não têm qualquer legitimidade para desencadear políticas externas que levem à democratização do mundo árabe ditatorial e embrião das formas mais diversas do terrorismo actual emergente.
Afirma o jornalista que "o conceito de "nation building" não passa de uma ideologia extremista, uma combinação perigosa de messianismo com voluntarismo, que é completamente destituída de qualquer sentido da História". Ora, penso que com esta argumentação, apoiada no medo e no voltar costas ao medievalismo político em que está subjugado grande parte do mundo árabe, só engrandece os próprios terroristas, dando-lhes razão na afirmação por eles proferida de que "não queremos cá ninguém na nossa casa" (como se a casa deles fosse um antro de paz, democracia e liberdade).
Será que as nações mais desenvolvidas do mundo, onde a democracia e a liberdade são conceitos adquiridos, não têm a legitimidade de, em nome da segurança de um mundo cada vez mais globalizado e da defesa do combate à pobreza em que (sobre)vive a população árabe (pobreza essa que fomenta o ódio ao mundo ocidental), dizia, não têm a legitimidade de orientar políticas que levem à democratização do mundo árabe? Para mim, essa legitimidade é total... De facto, penso que, tal como aconteceu na Europa Ocidental, após a 2ª Guerra Mundial e na Europa de Leste após a queda do muro de Berlim, já para não falar dos casos do Japão ou da África do Sul, a melhor forma de se garantir um mundo mais pacífico e menos desigual em termos de desenvolvimento humano é, precisamente, através da criação de condições de fomento da democracia e da liberdade nos países onde reina a ditadura e a censura.
O exemplo do Iraque poderá ser o princípio de um processo de democratização de uma região do mundo onde a falta de uma educação dos jovens assente em pilares tão básicos como a democracia e a liberdade, tem levado ao fortalecimento do fundamentalismo islâmico e do ódio ao Ocidente. Urge, agora, travar esta batalha, para que as próximas gerações possam viver num mundo mais pacífico e harmonioso...


(Pedro Peixoto)

O intervencionismo político em nome de diversas variantes de “nation building” era (e é) considerado “natural”, desde que não tenha a mão do “império”, ou seja entendido contra o “império”, ou seja, os EUA. Hoje, a linha de demarcação de tudo é o americanismo / anti-americanismo, principalmente este último. Cada vez é mais importante esta demarcação, forma rediviva de nacionalismos e pós-comunismos, sob o “albergue espanhol” da anti-globalização. E quando se juntam “direitas” e “esquerdas”, quase sempre debaixo de mantos nacionalistas, ou “anti-imperialistas”, o conjunto é poderoso.

Porque “nation building” é o terminus de muito daquilo que é hoje a ideologia das relações internacionais. O “intervencionismo humanitário”, por exemplo. A guerra do Kosovo, por exemplo. A intervenção no Ruanda, na Serra Leoa, por exemplo. Se recuarmos ao passado, o que era o “internacionalismo proletário”, o programa revolucionário mundial, senão uma reconstrução do mundo feita pela revolução?

Depois a ONU, lugar actual de todas as ambiguidades. Repito o que disse ontem na SIC: caso a ONU "tomasse conta" do Iraque hoje, para além da questão crucial de saber com que tropas garantia a estabilidade do país, que “programa “ teria para a sua missão no Iraque? Seria diferente do das tropas da coligação? Entregaria o poder aos iraquianos, mas a quem? Às milícias armadas de Sadr? Aos torcionários do Baas? Deixaria a ONU as cidades iraquianas entregues aos bandos de kalashnikov que aterrorizam, antes de tudo, outros iraquianos? Abriria caminho para a guerra civil?

É demasiado simples: ou a administração da ONU seria uma fuga internacional de responsabilidades, significando uma forma disfarçada de retirada dos “estrangeiros” para os iraquianos se matarem uns aos outros, ou teria um programa muito parecido com o dos americanos. Faria “nation building” como fez em Timor, e está a fazer de facto no Kosovo.E que regime político deixaria atrás (ou tentaria deixar atrás)? Uma ditadura ou um regime democrático? Armas ou eleições?

Depois, à volta do “nation building” há os tabus que ninguém quer discutir. Por exemplo, as fronteiras. Não é verdade que ninguém mexa nas fronteiras: a Checoslováquia e a Etiópia fizeram-no. Mas em todo o resto do mundo, as mais absurdas fronteiras permanecem intactas mesmo quando são fontes de endémicos conflitos civis.
Por exemplo, a “limpeza étnica”. Tal prática era aceitável no passado: que o digam os gregos da Anatólia e os turcos da Europa, quando, sob a égide da Sociedade das Nações, se fizeram as transferências das populações. Alguém lhes perguntou se queriam ser mudados? Ninguém; os gregos do Mar Negro, que nunca tinham conhecido a Grécia, foram obrigados à força a sair das suas casas, das suas igrejas milenares, para irem para um país desconhecido. Pelas Nações Unidas da época.

(Continua)

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POEIRA DE 11 DE ABRIL

Robert Bruce Lockhart, “cônsul” inglês na Rússia revolucionária, espião e conspirador, preso depois do atentado de Dora Kaplan contra Lenine, e que escapou por pouco de ser passado pelas armas, hoje, há setenta e cinco anos, escrevia no seu diário mais uma reminiscência bolchevique. Krupskaia teria pedido ao marido, Lenine, que tomasse conta da sua mãe, moribunda. Ela estava cansada. Disse-lhe: “se ela te pedir alguma coisa, chama-me”. Lenine sentou-se ao lado da cama, pegou num livro e começou a ler. Quando Krupskaia voltou para ver a mãe, esta estava morta. Krupskaia ficou furiosa com Lenine: “Porque é que não me disseste nada?”. “Mas a tua mãe não me pediu nada”.

Lockhart anota “Still Lenin was not inhuman”.



Hoje, há cinquenta e nove anos, os soldados da 8ª Divisão Blindada do Terceiro Exército americano chegaram às colinas que encimam Weimar. Lá em baixo, a cidade continha as sombras de Goethe, Schiller, Nietzsche, Bach, Liszt, seus ilustres moradores. Na colina de Ettersberg, encontraram os restos cuidadosamente preservados do carvalho que tantas vezes acolheu Goethe. As últimas mãos que tinham acariciado o tronco da árvore tinham sido as dos SS que salvaram os restos do carvalho destruído depois de um bombardeamento. Os membros das SS estimavam a memória de Goethe, ou então sabiam que Mefistófeles rondara a árvore.

À sua volta estendia-se Buchenwald, o primeiro campo de concentração que os americanos encontraram. Os soldados americanos vomitavam, incapazes de ver o que viam. Face à barbárie, a cultura pode muito pouco.

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EARLY MORNING BLOGS 181

O Florir

O florir do encontro casual
Dos que hão sempre de ficar estranhos...

O único olhar sem interesse recebido no acaso
Da estrangeira rápida ...

O olhar de interesse da criança trazida pela mão
Da mãe distraída...

As palavras de episódio trocadas
Com o viajante episódico
Na episódica viagem ...

Grandes mágoas de todas as coisas serem bocados...
Caminho sem fim...


(Álvaro de Campos)

*

Bom dia!

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© José Pacheco Pereira
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