ABRUPTO

13.4.04


ASSIM É FÁCIL – EXEMPLOS DE MÁ FÉ

Artigo de Domingos Lopes, “Iraque – um ano depois”, no Público de hoje. Em itálico, encontra-se o texto de Domingos Lopes, os comentários estão em tipo normal.

Foi mais ou menos unânime a ideia de que a resistência à ocupação do Iraque irrompeu de forma surpreendente logo após o Presidente dos EUA ter declarado o fim da guerra. Ninguém estaria a contar que, após a derrota espectacular do exército de Saddam Hussein, a resistência surgisse quase no dia seguinte a essa declaração.

Não é verdade. A julgar pelo que todos afirmavam, esperava-se resistência, até numa dimensão muito superior à que existe. Os que previam o apocalipse, agora valorizam a “surpresa”, o argumento muda conforme dá jeito. Assim é fácil.

A credibilidade da política externa dos EUA está cada vez mais abalada. A mãe de todas as justificações foi o perigo da existência das armas de destruição maciça.

Verdade.

Ora, hoje, os próprios defensores deste monumental embuste mudaram de agulha, deixando cair aquilo que consideram ser o motivo essencial para desencadear a guerra e a ocupação, e falam da importância da democracia no Iraque (partindo do pressuposto que o derrube da ditadura por via de uma guerra conduziu à tal democracia) e do combate ao terrorismo.

Não é verdade. Houve quem, na administração americana, falasse sempre da “mudança de regime” e da democratização, e fosse criticado por isso.

Vale a pena trazer para a tona desta discussão o quanto a propaganda dos EUA apostou na ideia de que o problema da resistência tinha a ver com o facto de Saddam andar à solta. Ele representava o alento para largos sectores da sociedade iraquiana que resistia.

Não é verdade que a “propaganda” fizesse depender tudo de Saddam. Assim é fácil.

Aconteceu a sua prisão, aliás do modo mais obsceno possível, inimaginável para todos os que se batem por valores tão importantes como os direitos humanos, incluindo o dos prisioneiros de guerra. A exibição do buraco onde foi apanhado mostrou a todo o mundo que não era aquele homem, vivendo como um rato, que dirigia a resistência que todos os dias explode em diversas frentes.

É verdade que a passagem das imagens não se devia ter feito (e não a captura, o que é diferente), mas será que justifica a descrição empolada: “a sua prisão, aliás do modo mais obsceno possível, inimaginável para todos os que se batem por valores tão importantes como os direitos humanos, incluindo o dos prisioneiros de guerra”, é mais uma falsa indignação. Como é que depois se descrevem violências como a morte e mutilação dos americanos em Falluja?

A prisão de Saddam Hussein não conteve em nada as acções da resistência, antes pelo contrário. Nos últimos tempos recrudesceram os seus actos, sendo hoje contabilizado em mais de 600 as baixas dos EUA, registadas depois de declarado o fim da guerra.

Não é verdade. Se exceptuarmos os acontecimentos das últimas semanas, os atentados contra os americanos tinham baixado significativamente, com uma viragem para alvos iraquianos, muitos deles tendo mais a ver com violência sectária do que com a ocupação.

Quando vemos as manifestações (via televisão) do povo iraquiano, imediatamente percebemos que não é a Al-Qaeda, nem outras organizações terroristas que conseguem mobilizar aquelas multidões. É a população que se move. É a sua identidade e cultura que sentimos que eles sentem humilhadas.

Nunca ninguém atribuiu as manifestações à Al Qaeda. As manifestações são pouco importantes e localizadas, a não ser que se contem como manifestações as peregrinações xiitas. Dizer que é a “população que se move” é puramente ideológico, porque a “população” inclui Basra, a segunda cidade, todo o norte curdo e muitas outras zonas e cidades em que existe acalmia, ou apenas pequenos incidentes e que, por isso, não fazem parte do mapa. Assim é fácil.

Naquele país, berço da civilização, as tropas dos EUA significam para os iraquianos um ultraje à sua arabicidade e ao seu carácter iraquiano.

Como é que se sabe? “Arabicidade”? E os iraquianos que não são árabes?

Em boa medida a questão pode ser esta: os EUA calcularam mal? A sua arrogância imperial levou-os a pensar que a sua tecnologia militar seria suficiente para vencer o povo iraquiano depois de derrubado o ditador? Os americanos desconheciam o poder dos xiitas, maioritários no Iraque? O desejo e a aspiração de autonomia e independência por parte dos curdos? O papel da minoria sunita, submetida à comunidade xiita? Quem pode ou podia ignorar que a tomada de poder pelos xiitas (bem provável) pode reforçar a liderança iraniana? E há outras perguntas que se colocam: na Administração da única superpotência mundial não se sabia isto?

São perguntas válidas.

Ou por se saber que tudo "isto" conduziria a um profundo agravamento da situação no Médio Oriente e no mundo desencadearam a guerra e a ocupação, porque a partir dessa instabilidade mantêm o domínio da região, mantêm a Europa fora dela, após terem conseguido dividi-la em velha e nova, segundo as palavras de Rumsfeld.

Teoria da conspiração pura.

É, porém, ponto assente que na situação reinante no Iraque e na Palestina o terrorismo não foi estancado, antes pelo contrário. Não se esqueça o Afeganistão, onde tudo vem mostrando que a guerra, para além de ter retirado os taliban do poder, quase nada resolveu. A instabilidade é total. Tal como no Iraque e na Palestina.

Do ponto de vista factual ou é adivinhação ou é falso. A “instabilidade no Afeganistão” é localizada, e dizer que a “guerra nada resolveu” é absurdo. Assim é fácil.

Por isso, um ano depois, o balanço da ocupação mostra que ela constituiu um enorme falhanço em todas as frentes: na descoberta das armas de destruição maciça; na democratização do Iraque; na luta contra o terrorismo; na implementação do Roteiro da Paz; na busca da estabilidade para a região e para o mundo.

Tudo misturado e tudo reduzido a um ano de validade. Ou se acerta num ano, ou se muda tudo. Quem é que estabeleceu este prazo? Assim é fácil.

A esta luz cabe com toda a justiça esta pergunta: que está a GNR a fazer naquele atoleiro? Em termos individuais cada um arrisca a vida como entende, incluindo por dinheiro... Em termos de política externa este passo coloca o país num contexto de hostilidade com o Iraque e todo o mundo árabe e muçulmano de modo absolutamente desnecessário e para defender a política dos EUA, a qual é hoje claramente repudiada em Portugal, na Europa e no mundo. A seguir a Bush outros virão, tal como a seguir a Aznar chegou Zapatero. Outros protagonistas chegarão ao Iraque e a todo o Médio Oriente. As contas serão feitas afinal.

Este é o recado político legítimo, não pode ser examinado factualmente.

No final, o autor identifica-se como vice-presidente do Conselho Português para a Paz e Cooperação. Esta organização tem uma história conhecida e ultra-documentada, sendo o principal instrumento da política externa soviética do “pacifismo” unilateral, a favor do Pacto de Varsóvia e contra a OTAN. Era financiada e controlada pela URSS. Nunca se afastou uma linha dessa política externa e por isso compreende-se a genealogia do seu anti-americanismo.


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© José Pacheco Pereira
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