| ABRUPTO |
semper idem Ano XIII ...M'ESPANTO ÀS VEZES , OUTRAS M'AVERGONHO ... (Sá de Miranda) _________________ correio para jppereira@gmail.com _________________
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21.2.04
LENDO, NA MORTE
![]() Uma antiga parente minha, Maria de Vilalobos (casada com Lopo Fernandes Pacheco), lê assim na morte. Ele, no seu túmulo, ao lado, por cima do corpo tem uma enorme espada e um cão de caça, acompanhando quatro séries obsessivas das serpentes do brasão. Ela descansa com um livro, lendo para a eternidade. (url)
POEIRA
Hoje, há cento e dois anos, como o tempo passa depressa!, Robert Musil foi ao teatro de variedades, à revista, com uns amigos. Uma das “chanteuses”, uma das coristas, não era feia e tinha roupa interior cinzenta. O grupo dele estava um pouco enfastiado e resolveu não convidar nenhuma das meninas para a mesa. Mas Musil meteu conversa com a menina da roupa interior cinzenta, que estava acompanhada pela mãe. Pensou: se ela viesse para a nossa mesa, eu comportar-me-ia “decentemente” com ela. Bons pensamentos, pobre Musil! Enquanto ele estava com esses pensamentos delicados, um dos amigos levou a rapariga para o jardim com abundantes maus pensamentos e práticas. “Génio”, exclamou Musil, fantasma do Parque Mayer, homem sem qualidades. (url)
EARLY MORNING BLOGS 142
Ainda falta muito para a manhã. Mas a minha noite está trocada pelo dia, as horas tortas, a noite longuíssima. Fica por isso já um matinal poema de Frank O’Hara, para quem amanhã começar o dia. Bom dia! Morning I've got to tell you how I love you always I think of it on grey mornings with death in my mouth the tea is never hot enough then and the cigarette dry the maroon robe chills me I need you and look out the window at the noiseless snow At night on the dock the buses glow like clouds and I am lonely thinking of flutes I miss you always when I go to the beach the sand is wet with tears that seem mine although I never weep and hold you in my heart with a very real humor you'd be proud of the parking lot is crowded and I stand rattling my keys the car is empty as a bicycle what are you doing now where did you eat your lunch and were there lots of anchovies it is difficult to think of you without me in the sentence you depress me when you are alone Last night the stars were numerous and today snow is their calling card I'll not be cordial there is nothing that distracts me music is only a crossword puzzle do you know how it is when you are the only passenger if there is a place further from me I beg you do not go (Frank O'Hara ) (url) 20.2.04
(url) 19.2.04
CURIOSIDADE ANTROPOLÓGICA
Numa rara estadia lisboeta mais prolongada do que é costume, vou ver se faço o trajecto do autor de blogues perfeito: se vou à FNAC do Chiado, se marco encontros para o Magnólia, se passo pela Ler Devagar, enfim, a ver se me civilizo. Não se zanguem com o título, porque a curiosidade antropológica sou eu. (url)
POEIRA
Se estivéssemos no dia de ontem, há trezentos e quarenta e três anos, talvez pudéssemos ter um dia como o de Pepys: trabalhou no escritório de manhã, almoçou em casa "only my wife and I, which is not yet very usual.". À tarde foi a febre consumista, comprou luvas e seda com a mulher e uma amiga. À noite juntou toda a gente e mais uns amigos em casa, serviu vinho (do Reno?) e açúcar. O açúcar ainda era uma raridade. Falaram de quê? Dos políticos, claro, para dizer mal. O Rei (Carlos II, Stuart) , dizia-se, parecia já ter casado (em segredo presume-se) e ter dois filhos. Era boato. Mas a Pepys não lhe desagradava a situação, tanto mais que colocava o Duque de York longe do trono. Qual era o problema com o Duque? Tinha uns amigos católicos, más companhias. Foi há trezentos e quarenta e três anos? Não parece. (url)
OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: O NOSSO OLHAR EM MARTE
avança pouco a pouco. Este é o mapa do que já viu o "Espírito" e do caminho que o vai levar até à cratera Bonneville. Do outro lado do planeta, a "Oportunidade" vai ser "acordada" com Trench Town Rock de Bob Marley. Deus não dorme na NASA e há músicas para tudo. (url)
EARLY MORNING BLOGS 141
Este era o poema marcado no volume de Auden. Não é sobre a manhã, mas tem dentro muitas mannhãs. É sobre como se olha o céu com um só olho e se vê tudo. Roman Wall Blues Over the heather the wet wind blows, I've lice in my tunic and a cold in my nose. The rain comes pattering out of the sky, I'm a Wall soldier, I don't know why. The mist creeps over the hard grey stone, My girl's in Tungria; I sleep alone. Aulus goes hanging around her place, I don't like his manners, I don't like his face. Piso's a Christian, he worships a fish; There'd be no kissing if he had his wish. She gave me a ring but I diced it away; I want my girl and I want my pay. When I'm a veteran with only one eye I shall do nothing but look at the sky. (W. H. Auden) (url)
HÁ NOITES ASSIM
ecléticas até ao limite. Tudo misturado. No bolso ainda está o belo pequeno volume de Auden, hardbound da Everymen’s Library Pocket Poets. O poema para amanhã está marcado pelo bilhete do vaporetto, outro, para altura nenhuma, pela fita de nastro amarela. E ouço sem ter coragem para desligar … as mulheres da country a cantar com uma força sem paralelo. A grande Patsy Cline a cantar I Fall To Pieces I fall to pieces each time I see you again I fall to pieces, how can I be just your friend? You want me to act like we've never kissed You want me to forget, pretend we've never met And I've tried and I've tried but I haven't yet You walk by and I fall to pieces e Tammy Winette, quase num grito, Sometimes its hard to be a woman Giving all your love to just one man You'll have bad times And he'll have good times Doing things that you don't understand But if you love him you'll forgive him Even though he's hard to understand And if you love him Oh be proud of him 'Cause after all he's just a man Stand by your man… Devia ser proibido. (url) 18.2.04
GELO
The ice was all around : It cracked and growled, and roared and howled, Like noises in a swound ! (Coleridge) Para quem como eu gosta do frio, do frio muito forte, de gelo , da neve, daquele bloco de ar frígido que nos molda por fora e nos ameaça cristalizar por dentro, estou a ler o livro certo: Stephen J. Pine, The Ice, uma obra sobre a Antártida. (url)
HOJE
passo-me entre as terras da Europa. Não houve "early morning", mas fica, até chegar, um grande e mais que apropriado poema de Frank O'Hara. Fica em inglês, mas vou traduzi-lo mais tarde, para a série das Sensiblidades: Lines For The Fortune Cookies I think you're wonderful and so does everyone else. Just as Jackie Kennedy has a baby boy, so will you--even bigger. You will meet a tall beautiful blonde stranger, and you will not say hello. You will take a long trip and you will be very happy, though alone. You will marry the first person who tells you your eyes are like scrambled eggs. In the beginning there was YOU--there will always be YOU, I guess. You will write a great play and it will run for three performances. Please phone The Village Voice immediately: they want to interview you. Roger L. Stevens and Kermit Bloomgarden have their eyes on you. Relax a little; one of your most celebrated nervous tics will be your undoing. Your first volume of poetry will be published as soon as you finish it. You may be a hit uptown, but downtown you're legendary! Your walk has a musical quality which will bring you fame and fortune. You will eat cake. Who do you think you are, anyway? Jo Van Fleet? You think your life is like Pirandello, but it's really like O'Neill. A few dance lessons with James Waring and who knows? Maybe something will happen. That's not a run in your stocking, it's a hand on your leg. I realize you've lived in France, but that doesn't mean you know EVERYTHING! You should wear white more often--it becomes you. The next person to speak to you will have a very intriquing proposal to make. A lot of people in this room wish they were you. Have you been to Mike Goldberg's show? Al Leslie's? Lee Krasner's? At times, your disinterestedness may seem insincere, to strangers. Now that the election's over, what are you going to do with yourself? You are a prisoner in a croissant factory and you love it. You eat meat. Why do you eat meat? Beyond the horizon there is a vale of gloom. You too could be Premier of France, if only ... if only... (Frank O'Hara) (url) 17.2.04
SOBRE A BLOGOSFERA
Se na blogosfera se olhar só para dentro, não será difícil deixar de encontrar algum desânimo, em particular de quem já cá está há algum tempo. O meio é ácido, mais do que polémico, e atrai os ácidos. Já há algum tempo o Pedro Mexia sublinhava e com razão que a afluência de jornalistas transportava para a blogosfera um estilo de discussões que, no fundo, projectam a agenda política dos jornais para os blogues. Nalgum dos blogues então criados, os jornalistas políticos davam o curso livre ás suas opiniões sobre a política e os políticos, que não podiam explicitar nos seus jornais (embora não fosse difícil encontrar a comunidade de opiniões entre o que escreviam nos seus jornais e nos blogues, dada a politização do meio.) Em si não há mal nenhum em que isto aconteça, há até um efeito de transparência. O que sucede é que a massa crítica da blogosfera portuguesa é pequena e os efeitos perversos, que já cá estavam, acentuaram-se. Os temas estreitaram-se e as classificações tornaram-se comuns. Passou a haver uma espécie de patrulhamento da actualidade, quase uma exigência de pronunciamento. “Ou falas sobre isto ou então…” E o “então” eram sempre julgamentos de carácter, cobardia, oportunismo, conveniência. O julgamento de carácter tornou-se obsessivo, mais do que o debate político, que esse nunca fez mal a ninguém. Depois a composição política da blogosfera pareceu alterar-se. Digo pareceu, porque não acho que a alteração tenha sido essa. Não havia antes hegemonia da “direita” e agora há da “esquerda”, o que aconteceu foi a sobreposição de um fenómeno de “des-familiaridade”, com o refluxo do conflito iraquiano. Os amigos e conhecidos foram sucessivamente sendo substituídos por estranhos, os círculos de influência, que eram também de troca de reconhecimento, foram-se desagregando, e isso torna os blogues um meio mais duro, menos satisfatório em termos psicológicos. Mais do que a política mudou o estilo e a dimensão, e uma sensação que a blogosfera é agora mais hostil do que cozy. Depois também, como em todas as coisas, as modas mudaram e os blogues já não são novidade. Isto é um factor de selecção poderoso porque acentua os critérios de qualidade do conteúdo do blogue, em detrimento do facto do facto de se usar a forma blogue. Os que têm alguma coisa a dizer, e ainda são alguns, continuarão a ter leitores. O Abrupto nunca foi pensado como tendo como primeiro interlocutor os outros blogues, mas o mundo exterior, as pessoas que não vivem dentro da blogosfera, mas na atmosfera. Como todos os blogues não é imune ao meio, mas não é escrito em primeiro lugar para a comunidade, mas para quem vem de fora, como acontece com a maioria dos seus leitores. O Abrupto continuará, limitado pelo meu tempo e circunstâncias. Fora disso, e como o seu autor não é muito de arroubos ou surtos, não vejo que haja qualquer razão previsível no horizonte para que acabe. Etiquetas: blogosfera (url)
HISTÓRIA COMO ABSOLUTA SURPRESA
Vários aspectos da vida portuguesa servem de exemplo para se perceber o carácter absolutamente novo da história, a sua capacidade de ser imprevisível e criadora. Coisas triviais, que aceitamos como normais, mas que há vinte anos, não mais do que isso, seriam consideradas tão impossíveis que ninguém as poderia antever sequer. Por exemplo: que tropas portuguesas estariam na Bósnia e no Iraque, que nas ruas de Lisboa e um pouco por todo o país se falasse russo, ucraniano e moldavo, que nas bancas de jornais existisse imprensa nessas línguas, ao lado do Diário de Notícias. (url)
POEIRA
Pepys teve um dia feliz, ontem, há trezentos e quarenta e três anos: o seu “Lord”, Sir Edward Mountagu, conde de Sandwich, verificou-lhe as contas e pagou-lhe uma considerável quantia. Depois jantaram e foram ao teatro, mas a peça não o entusiasmou: "I saw “The Virgin Martyr,” a good but too sober a play for the company.”
A pouco mais de um mês de morrerem, Scott e os seus companheiros estão enterrados na tempestade. Evans dá sinais de perturbação mental. Ontem , há noventa e dois anos, Scott anotou no seu diário: “it’s no use meeting troubles halfway, and our sleep is all too short to write more.” (Pintura de Dora Carrington) Vinte anos depois, no mesmo dia, em 1932, Dora Carrington defronta-se com a morte do seu companheiro Lytton Strachey e escreve no seu diário:
“At last I am alone. At last there is nothing between us. I have been reading my letters to you in the library this evening.You are so engraved on my brain that I think of nothing else. Everything I look `at is part of you. And there seems no point in life now you are gone. I used to say: `I must eat my meal properly as Lytton wouldn't like me to behave badly when he was away.' But now there is no coming back. No point in `improvements'. Nobody to write letters to. Only the interminable long days which never seem to end and the nights which end all too soon and turn to dawns. All gaiety has gone out of my life and I feel old and melancholy. All I can do is to plant snow drops and daffodils in my graveyard!” Depois queimou alguns objectos pessoais de Lytton, deu a roupa, “the bodily companions”, aos caseiros. Escreveu: “In a few years what will be left of him? A few books on some shelves, but the intimate things that I loved, all gone” Daqui a dias, Dora Carrington mata-se com um tiro. Já tinha tentado antes, sem conseguir. (url) (url)
EARLY MORNING BLOGS 140
Pela manhã, ainda sereníssima, a voz do grande sedutor, George Gordon (Lord Byron), ele próprio habitante destas pedras. I stood in Venice, on the Bridge of Sighs, A palace and a prison on each hand: I saw from out the wave her structures rise As from the stroke of the enchanter's wand: A thousand years their cloudy wings expand Around me, and a dying Glory smiles O'er the far times, when many a subject land Looked to the wingéd Lion's marble piles, Where Venice sate in state, throned on her hundred isles! She looks a sea Cybele, fresh from ocean, Rising with her tiara of proud towers At airy distance, with majestic motion, A ruler of the waters and their powers: And such she was--her daughters had their dowers From spoils of nations, and the exhaustless East Poured in her lap all gems in sparkling showers: In purple was she robed, and of her feast Monarchs partook, and deemed their dignity increased. In Venice Tasso's echoes are no more, And silent rows the songless gondolier; Her palaces are crumbling to the shore, And music meets not always now the ear: Those days are gone--but Beauty still is here; States fall, arts fade--but Nature doth not die, Nor yet forget how Venice once was dear, The pleasant place of all festivity, The revel of the earth, the masque of Italy! (Byron) * Bom dia! (url) 16.2.04
SCRITTI VENETI 7
Vindos dos leitores do Abrupto: Da Maria Teresa Goulão: Em " Cidades Invisíveis" de Calvino, Kublai Kan, o imperador, interpela Marco Polo acerca de um cidade de que ele nunca fala - Veneza- e este responde: "Para distingir as qualidades das outras, tenho de partir de uma primeira cidade que está implícita. Para mim é Veneza. As imagens da memória, depois de fixadas com as palavras apagam-se. Talvez eu tenha medo de perder Veneza toda de uma vez, se falar dela. Ou talvez, ao falar de outras cidades, já venha a perdê-la. A cidade existe e tem um segredo: só conhece partidas e nunca regressos.” Calvino, Cidades Invisíveis De RPR da Hipatia: "Ci sono a Venezia tre luoghi magici e nascosti. Uno in CALLE DELL'AMOR DEGLI AMICI : un secondo vicino al PONTE DELLE MERAVEGIE : il terzo in CALLE DEI MARRANI nei pressi di San Geremia in ghetto vecchio. Quando i veneziani sono stanchi delle autorit` costituite vanno in questi tre luoghi segreti e aprendo le porte che stanno nel fondo di quelle corti se ne vanno per sempre in posti bellissimi e in altre storie.....". Hugo Pratt, Sirat Al-Bunduqiyyah "Há muitas e muitas luas, um dólar eram 870 liras e eu era um homem de trinta e dois anos. Também o mundo era mais leve, dois biliões de almas mais leve, e o bar da stazione a que eu chegara nessa fria noite de Dezembro estava vazio. Fiquei ali parado, ` espera da única pessoa que conhecia na cidade. Ela chegou bastante atrasada." Joseph Brodsky, Marca de Agua (url)
© José Pacheco Pereira
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