Quando lhe tirei esta fotografia, no dia do seu doutoramento honoris causa
pela Universidade do Porto, o Vasco, sorriu e disse: vou pôr-me na posição do Jorge Luís Borges. E
colocou as mãos, o corpo e a bengala na posição de uma célebre
fotografia de Borges.
"Nas minhas recordações das nossas deambulações europeias recordo em particular um dos nossos habituais jantares na Petite Écurie de Estrasburgo. Tratava-se de um pequeno restaurante, um bistrot, a que regularmente íamos, - porque ele e eu somos pessoas de hábitos e, se estamos bem num sítio não precisamos de outro, – e que tinha aquele aspecto de acolhimento quase rural, de um Estrasburgo mais provinciano do que cosmopolita.
Um dia, no restaurante, a nossa conversa começou com o pretexto da Peregrinação de Fernão Mendes Pinto, não sei bem porquê. A uma dada altura, um de nós perguntou: mas não são hoje os portugueses os mesmos? Os mesmos da Peregrinação? A pergunta apareceu, sem ser “intelectual” na medida em que apenas nos perguntávamos se aqueles portugueses de barrete vermelho, perdidos no Mar da China, matando, pilhando, aprisionando e sendo aprisionados, eram os mesmos de hoje. Havia tanta naturalidade na pergunta, como se estivéssemos a falar de futebol num café, e alguém perguntasse nostálgico, se o seu clube era o mesmo de “antigamente”, há vinte anos.
A conversa pendeu para o “Veloso amigo” e o seu outeiro nos Lusíadas de Camões e não sei se foi para o Soldado Prático, mas a pergunta era a mesma: somos os mesmos ou mudámos? Esta gente dos navios do Oriente e da Índia, eramos nós mesmos, embora vivendo no “país estrangeiro” que é o passado? Não havia resposta certa, mas ambos suspeitávamos que não éramos. A resposta não é nova: há 200 anos que todos os que reflectem sobre a história portuguesa pensam na decadência da pátria e dos homens sendo que o período das Descobertas parece ser essa excepção, a partir da qual é só caminhar para baixo. Trivial.
Mas, não era tanto o conteúdo da conversa que importava, – também importava, - era o facto de nós acharmos, ao mesmo tempo que a fazíamos, que era a mais improvável das conversas, a sensação de que pouca gente teria essa conversa nos nossos dias, assim tão “habitualmente”. Quem estaria, algures nos anos noventa do nosso velho século, a discutir Fernão Mendes Pinto, Camões, Diogo de Couto, num jantar ameno de bistrot, numa Alsácia que fica europeia e estrangeira durante uma semana? Podem pensar que era presunção, mas nenhum de nós tinha uma gota de presunção, mas de perplexidade sobre o nosso velho país, a nossa pátria, a nossa língua, e falávamos dos nossos antigos para o exprimir.
Não, não éramos os mesmos, éramos outros e, sendo outros, que identidade desse Portugal longínquo podia restar hoje?
Recordando essa conversa bizarra, antiga, antiquada, na capital artificial da Europa, entre detentores da mais moderna das funções – deputados europeus, estrangeirados, deputados de uma utopia dos nossos dias, que, como todas as utopias, sabíamos ir a caminho de se tornar uma perigosa engenharia utópica, voluntarista e a correr para o desastre, ambos sabíamos que os portugueses em si, do povo, do povo comum, não eram assim tão diferentes, sempre mais “Velosos” do que “Gamas”, como é normal.
Sabíamos que a grande diferença entre os séculos XV e XVI e os dias de hoje está nos costumes. Os costumes de hoje amolecem-nos, as ideias circulantes nos pequenos e médios intelectuais, abastardam os fortes sem proteger os fracos, e é contra essa influência deletéria dos costumes que Vasco Graça Moura combate desde sempre na sua actividade pública e politica. Há aqui algum pecado elitista, ou soberba? Talvez haja. Mas é saudável pecá-lo num mundo feito de frases feitas, hipocrisias vazias, amiguismos interesseiros e pouca bravura. Muito bragadoccio, mas pouca bravura.
Na nossa conversa estrasburguesa havia pelo menos um “antigo”: Vasco Graça Moura. A voz que ele transportava consigo, o fio das palavras que vem da Grécia, de Roma, da Idade Média, da Renascença até à modernidade, era também essa voz antiga em que Camões, Sá de Miranda, Diogo de Couto falavam, a dos portugueses valentes das naus da Índia e a dos portugueses valentes que não queriam, como o “velho do Restelo”, iludir-se ao cheiro da canela.
É talvez por isso que habitualmente se diz de Vasco Graça Moura que, sendo um grande poeta, tradutor, intelectual, é na sua intervenção política rude e brutal. Este tipo de afirmação parte de uma incompreensão profunda do sentido da obra de Vasco Graça Moura que, aliás, como no caso de Jorge de Sena, não deixa de expressar preocupações de repúdio e repulsa semelhantes na sua acção pública, nos seus poemas e na sua correspondência, face aos costumes pátrios. Aliás, esta cesura entre obra intelectual e cultural e acção pública, no sentido global do termo, acção para a polis, repete um arquétipo salazarista que vê com distância e nojo a participação pública e politica como menor, como poluindo a criação, pensada sempre no domínio do intangível para permanecer inócua. Insisto, como em Sena, ou mesmo em Pessoa, e, medidas as distâncias, em Camões ou Antero, há um contínuo entre a escrita poética, a ensaística e o discurso sobre a sociedade e os seus costumes, os costumes que engrandeceram os portugueses antigos e esmaeceram os modernos."
são sentimentos humanos, eu na alma hei-de pôr luto: o abrupto hoje faz anos, não pode ficar "abruto"!
não deve viver-se à míngua, neste nosso dia-a-dia, de prezar a ortografia que bem calha à nossa língua. se lhe dão facadas, vingo-a, passo logo a fazer planos, eriçado por tais danos, de lavrar o meu protesto, e se assim me manifesto são sentimentos humanos.
chamo então especialistas, eminentes professores, os colegas escritores e também vários linguistas, leio livros e revistas, questiono, leio, escuto, e aprendendo assim refuto coisa que é tão aberrante que se acaso for àvante eu na alma hei-de pôr luto.
grafias facultativas em matérias tão sisudas como as consoantes mudas levam ao caos, às derivas, às asneiras permissivas e aos babélicos enganos. porém fiquemos ufanos pela data que hoje passa. pois não sabiam? tem graça... o abrupto hoje faz anos...
se lhe tirassem o p, vigorosa consoante do seu título, bastante mal faziam, já se vê. e percebe-se porquê sem se gastar um minuto: se do p ficar enxuto, vão-se a força e a coragem abruptamente da imagem: não pode ficar "abruto"!
É o preço que a União Europeia paga por pretender ter uma política externa, muitas vezes agressiva e aventureira, e depois, quando as coisas começam a aquecer, fica reduzida à sua inexistência militar. E claro, que quando as coisas efectivamente aquecem, como se passa hoje na Ucrânia e se passou no passado na Jugoslávia, lá vem os americanos, uma potência militar credível, tentar pôr na ordem as complicações que os europeus criam.
A questão da Ucrânia chegou aqui, porque os europeus e os americanos foram irresponsáveis e atiçaram um conflito para que não tinham saída viável, e porque Putin é perigoso e não é de agora. Com o silêncio conveniente dos europeus, Putin ascendeu ao poder provocando uma segunda guerra na Chechénia para “vingar” a derrota da primeira, e no caminho violou todas as regras dos direitos humanos. A Europa fez de conta que não era com ela, como o fez na Geórgia, ou porque os separatistas chechenos eram um terreno para a Al Qaida, ou porque a Geórgia não valia o incómodo. Mas a Ucrânia é outra coisa. É demasiado importante, quer para os russos, quer para os vizinhos da Rússia, aqueles para quem vale mais ter melhor geografia do que uma “gloriosa história”. Infelizmente não tem, estão condenados à “gloriosa história”.
E depois há o peso da história, ou melhor a sua leveza, que as opiniões públicas cada vez mais débeis na Europa permitem institucionalizar em governações que acabam por ser aventureiras e proclamatórias e depois são inconsequentes. Até ao momento em que a coisa começa a doer. Era tão bonito ver as barricadas de Kiev, a luta pela “liberdade” em Kiev, e ignorar que o governo resultante dessas barricadas não seria aceite pela parte leste do país. Os russos deitam gasolina no fogo, mas o fogo está lá antes da gasolina.
Na segunda guerra mundial, a Ucrânia pagou caríssimo esse fogo como já tinha pago no período breve de independência na sequência da primeira guerra, seguida da vitória dos bolcheviques que obrigaram a Ucrânia a assinar o Tratado da União, que deu origem à URSS e depois varreram o campesinato “rico”, a intelligentsia e a Igreja com métodos terroristas, desde a fome às execuções em massa.
O nacionalismo ucraniano, um dos mais radicais na história já de si excessiva do nacionalismo europeu, foi a componente do lado “perdido” da história de que ninguém quis saber até ao dia em que apareceu vitorioso nas barricadas de Kiev. E o país voltou a ser dois, como tinha sido durante a guerra, um lado que tinha estátuas a Stepan Bandera e outro que mantinha as de Lenine. E os ucranianos sabem de mais da sua própria história, desde a guerrilha antialemã na segunda guerra mundial, que provocou retaliações violentas nas aldeias ucranianas, ao papel da “polícia ucraniana” uma das que mais cruéis polícias colaboracionistas que fizeram o trabalho sujo para os alemães, como aconteceu também nos países bálticos. E, quando olhamos para o mapa da URSS, percebe-se bem que o peso duríssimo da invasão e ocupação alemã em profundidade, foi… na Ucrânia.
Americanos poderosos, europeus impotentes e russos ambiciosos estão de novo a medir forças no território mártir da Ucrânia. É demasiado perigoso, até porque alguém vai ficar a perder. Para além dos ucranianos, claro.
O que é que, segundo o FMI, falta fazer para que o “ajustamento” português seja o “sucesso” absoluto, mesmo que, no fim de contas nenhum dos grandes números, deficit e dívida, tenha mudado de forma sustentável, ou não se tenha agravado? Mais do mesmo, dito de modo tecnocrático, que “as ineficiências remanescentes no mercado de trabalho [não possam] aumentar o risco de uma retoma com pouca criação de emprego, à medida que a economia ganha velocidade”, ou seja em português corrente, facilitar os despedimentos.
Mais ainda: precisamos de baixar mais os salários, garantindo “uma subida substancial na proporção de trabalhadores com reduções dos salários”. Precisamos ir mais longe nas ”mudanças no código do trabalho feitas através da aplicação do programa”, de modo a facilitar os despedimentos individuais, demasiados difíceis para a vontade do FMI. Ao mesmo tempo, deve acelerar-se o fim dos acordos colectivos de trabalho, que, saliente-se, são acordados entre trabalhadores e entidades patronais, para que um novo ciclo de negociações seja “mais condizente com a situação da economia”, ou seja, haja menores salários.
E depois, a cereja em cima do bolo, mais uma vez se defende a redução das indemnizações por “despedimentos ilegais”, de modo a aproximarem-se das dos despedimentos legais. Reparem nesta coisa muito interessante desta proposta, o objectivo é que a violação da lei possa ficar mais barata. Isto é que é um estado de direito! Pensava eu, que quem despedia “ilegalmente” não podia, uma vez verificada a ilegalidade, despedir. Mas não, é uma questão de preço: é apenas mais caro despedir “ilegalmente”, o que revolta o FMI. Dito de outro modo, podes cometer um crime, pagas é só um pouco mais por isso. Isto não é economia, é “luta de classes”. Depois queixem-se.
O problema é que não há nenhuma indicação de que o que diz o FMI não seja o que Passos Coelho e o seu grupo pensam. Bem pelo contrário. Esta é que é a política real. O resto é virtual.