ABRUPTO

25.10.13


DA "LIÇÃO INAUGURAL" NA ABERTURA SOLENE DAS AULAS NO INSTITUTO POLITÉCNICO DE COIMBRA (23 DE OUTUBRO DE 2013)


Em breve integral. Excerto:
"O meu ponto é que em nome do futuro justificamos o abandono dos valores do presente, que é onde as pessoas nascem, vivem e morrem, abandonamos a perspectiva humanista que é a que deve enformar uma sociedade civilizada, a favor de uma abstracção que pode ser uma das variantes de religiões laicas, uma engenharia utópica da sociedade que tanto pode ser a do comunismo como a de uma ideia simplista de que a mão de Deus é “a mão invisível” de Adam Smith, pobre “filósofo natural” que tem que aturar do seu túmulo a mistela que foi feita das suas ideias por mil e um repetidores vindos do pensamento débil dos blogues. Mas, quem, é que vos disse que a mão de Deus é invisível? Ela pode ser misteriosa, mas pelo menos a mão de Cristo era bem visível e falava pelos pobres, os fracos e os humilhados. E quem vos escreve isto é agnóstico, mas não suporta a indiferença com que uma linguagem burocrática e de matter of fact é usada para dar cabo da vida de muitos portugueses."

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AGORA VAI COMEÇAR A CENA DO “PROGRAMA CAUTELAR”
 (PORQUE PORTUGAL NÃO PODE IR AOS MERCADOS) 

Como era inevitável começou a discussão do chamado “programa cautelar”, que é a segunda fase do memorando, sem a troika cá, mas em Bruxelas. O “programa cautelar” não é o “segundo resgate”, mas é a coisa mais próxima do “segundo resgate” que há. A questão central é que com a troika em Lisboa, ou a troika em Bruxelas, o mesmo tipo de política vai ser exigida, imposta, obrigada. Até um dia.

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PORTAS E OS “MAIS POBRES” 

Portas é hoje a face mais repulsiva do governo, num campeonato em que concorrem muitos candidatos poderosos. É-o pelo seu papel na crise que atravessamos, que nos custou mais milhões por sua causa, é-o pela obsessão de querer remendar a todo o custo a sua imagem e ser evidente que para o tentar fazer é capaz de quase tudo. Uma dessas cenas que ele representa para as televisões é a de paladino dos “mais pobres”. Para ele, o CDS (ou seja ele próprio) e os seus ministros (os seus clones) tem tido um papel essencial em “proteger os mais pobres”, o que não é de todo verdade. Mesmo que fosse verdade, ele esquece-se de assumir o seu papel em empobrecer muitos mais do que aqueles que putativamente protege. Hoje a defesa dos “mais pobres” é o argumento retórico para combater os pobres, que já são muitos, e os que estão a caminhar para a pobreza, que são muitos mais.

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O DESPREZO PELOS MANIFESTANTES DA CGTP 

Uma coisa que mostra como quem está do lado do poder não percebe (ou melhor não quer perceber), o que está a acontecer em Portugal, é o modo como exibem um racismo social com os manifestantes da CGTP, tão patente nos comentários à saga da ponte. Pode não ser deliberado, mas sai-lhes do fundo, naturalmente. Os filhos dos comentadores e opinadores podem ir às manifestações dos “indignados”, que são aceitáveis, engraçadas e chiques, e que tem muita cultura e imaginação, mas nenhum irá às da CGTP. Eles “são sempre o mesmo”, ou “mais do mesmo”, eles são “pouco criativos” que insistem em fazer manifestações “que não adiantam nada”. Eles são “os feios, os porcos e os maus”. 

http://ephemerajpp.files.wordpress.com/2013/10/dsc_4706.jpg Os manifestantes da CGTP não são da classe social certa, não ambicionam ir tomar chá com Ricardo Salgado, ou ir comer aos restaurantes da moda, não são frequentáveis e, ainda pior, não se deixam frequentar. Têm, muitos deles, uma vida inteira de trabalho e de muitas dificuldades. Tem um curso, uma pós-graduação e um doutoramento em dificuldades. São velhos, um anátema nos nossos dias. Tiveram ou tem profissões sobre as quais os jornalistas da capital não sabem nada, foram corticeiros, mineiros, soldadores, torneiros, mecânicos, condutores de máquinas, pedreiros, ensacadores, motoristas, afinadores, estivadores, marinheiros, operários têxteis, ourives, estofadores, cortadores de carnes, empregados de mesa, auxiliares educativos, empregadas de limpeza, etc., etc. Foram e são cozinheiros e cozinheiras em cantinas, e não chefs. E foram ou são, professores, funcionários públicos, enfermeiros, contabilistas. 

 Este desprezo social é chocante quando é feito por quem tem acesso ao espaço público e que trata os portugueses que se manifestam, - e, seja por que critério, são muitos, pelo menos muitos mais, muitíssimos mais dos que estariam dispostos a vir para rua pelo governo, – como uma “massa de manobra” do PCP, que merece uma espécie de enjoo distanciado, umas ironias de mau gosto e um gueto intelectual. Façam vocês o que fizerem, “não contam”. Vocês são umas centenas de milhares, vocês são “activistas” e por isso se vêem muito (quem não se vê nada são os do “outro lado”), mas “não contam” para nada. Existirem ou desaparecerem é a mesma coisa, nenhum dos “de cima” se pode ou deve preocupar convosco. Votam em partidos anacrónicos, têm hábitos plebeus, vão fazer campismo de férias, fazem excursões organizadas pelas autarquias, jogam a sueca, as mulheres passam-se pelo Tony Carreira e todos acham que tem direitos. Vejam lá, imaginem lá o abuso, acham que tem direitos… Eles são os maus portugueses, os que estão de fora do “arco governativo”, os que não percebem o "estado de emergência financeira", aqueles cujos "interesses" bloqueiam o nosso radioso empreendedorismo.

 Tudo isso é verdade, e tudo isso é mentira. Estes portugueses fora de moda e fora das modas, pelo menos tem o enorme mérito de sentirem um agudo sentimento de injustiça, eles que sabem mais da vida real, concreta, vivida do que todos os seus críticos juntos. Não é a eles que se pode dar lições de trabalho, nem de esbanjamento, nem de perseverança, nem de sacrifício. Pode-se discordar deles, mas merecem respeito. Pelo que foram, pelo que são e porque não se ficam.

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O GÖTTERDÄMMERUNGZINHO


Entre os produtos do romantismo alemão que circulam na cultura popular está a ideia do Götterdämmerung, título de uma ópera de Wagner, mas, mais do que isso, uma vasta encenação trágica do fim, da decadência, da queda. Não de uma queda qualquer, mas de um fim dos tempos, em que tudo desaba e se desintegra, corpos, cabeças, nações, impérios. No final da ópera tudo é destruído pelo fogo e pela água, num reverso da criação original, em que mesmo os deuses conhecem o seu destino final. Como sempre, em todo o romantismo alemão, a morte tem um papel central.

Os dicionários enunciam variadíssimos significados para o poderoso tom de fim do "crepúsculo dos deuses": em francês, "déclin", mas também "dégringolade"; para o inglês "demise", "descent", "downfall", "fall", "flameout", "comedown", "breakdown", "burnout", "colapse", "crash", "meltdown", "ruin", "undoing"; "defeat", "reversal", "abasement", "disgrace". Não nos faltam palavras, muitas com "down" no princípio ou no fim, e muitas que parecem (e algumas são) títulos de filmes catástrofes. Mas o alemão é para estas coisas a melhor língua, "crepúsculo dos deuses" em alemão tem toda uma história mítica e cultural que se tornou universal, um arquétipo. 

Ninguém retrata a grande purga estalinista como um "götterdämmerung", nem o genocídio do Ruanda, nem os massacres bélicos da Guerra da Secessão, nem, em bom rigor, nenhuma guerra do presente ou do passado. A guerra termonuclear, que felizmente para a humanidade, permanece apenas uma hipótese mereceu esse epíteto, como o da encarnação do Armagedão, mas são classificações virtuais. No entanto, na cultura alemã, na literatura, na poesia, no teatro, no cinema e mesmo nas ciências humanas como a história, o "götterdämmerung" parece um pólo magnético. O livro de Ian Kershaw sobre o último ano do Reich chamava-se apropriadamente apenas The End, o "fim", e o filme Der Untergang feito a partir da obra de Joachim Fest o primeiro filme alemão com Hitler como personagem, retrata esse ambiente de "queda", ou melhor dizendo de "götterdämmerung". Muitas destas obras são controversas, porque existe uma enorme dificuldade em traduzir racionalmente, como é suposto, numa análise e numa interpretação, algo que acaba por ter uma dimensão mítica e simbólica e a queda de Hitler tem essa dimensão "crepuscular".

Em todas estas obras se refere como Hitler entendeu punir o povo alemão por lhe ter "falhado" e perdido a guerra e que com a sua queda se extinguia não só o homem Hitler, mas também a nação alemã, a identidade alemã, o "espírito" ariano do Reich de mil anos. Por isso, pouco importava o sofrimento enorme para os alemães, civis e militares, com o prolongamento absurdo da guerra, quando todos, a começar por Hitler, sabiam que ela estava perdida. Ele olhava à sua volta e via-se no "götterdämmerung", encarnando um qualquer Deus nórdico da guerra, e por isso, os alemães mereciam a morte.

Mas por que razão vou eu gastar estas velas de cera cultural com tão ruim defunto como é o nosso primeiro-ministro? Não é porque não pense que qualquer comparação mesmo negativa com personagens como a deste "götterdämmerung" só podem ser grotescas e ridículas. Não me passa pela cabeça qualquer comparação de Passos com Hitler, nem com Churchill, nem com qualquer figura histórica com dimensão nem pequena nem média, quanto mais grande. 

A comparação é puro overkill, mas nalguns aspectos ajuda. O ponto é que há qualquer coisa que sobe à cabeça dos governantes em determinados momentos e que os leva a pensarem, na sua mediania, que também eles são os depositários do destino de um povo e fundem esse destino com o seu próprio, mostrando assim um traço de obsessão que tem uma dimensão psicológica, mas, mais do que isso, tem consequências políticas muito perigosas em democracia. Não é preciso ser um génio, nem um iluminado, nem ter qualquer pulsão, ou "vontade de poder", pode-se ser vulgar e ter ilusões destas. Numa altura em que vivemos tempos de "maldição" essa tentação pode fazer estragos muito para além da qualidade ou falta dela do seu ilusório instrumento. 

Naquela encenação de entrevista que passou na RTP, uma forma masoquista dos jornalistas porem em causa a sua própria função e de dar um palco ao primeiro-ministro, Passos Coelho repetiu com a enfâse do convencimento - um sinal de perigo evidente - a ideia de que, ou ele tinha sucesso e "Portugal" e os "portugueses" também o tinham, ou caso não o tivesse, era Portugal que iria pagar um enorme preço. Numa versão benévola desse "sucesso", este consistia na passagem de Portugal do "ajustamento" exigido pelos credores ao "plano cautelar", também exigido pelos credores, a versão pós-2014 do "ajustamento". Caso tal não aconteça, cai sobre nós o mesmo que caiu sobre Sodoma e Gomorra, e a terra fica salgada para muitos e muitos anos. Não lhe passa pela cabeça que todas as premissas e todas as conclusões podem estar erradas, ele pode estar errado, e o país pagar um preço muito mais elevado do que o que seria necessário, quer falhe, quer, acima de tudo, tenha "sucesso". Temo aliás, mais pelo "sucesso" hipotético do que pelo falhanço real, porque o "sucesso" é o congelamento de um país empobrecido até aos limites aceitáveis pela União Europeia - que são muito mais elásticos do que se pensa - destinado a fornecer um mercado para o sol de Verão e mão-de-obra barata, com enormes diferenças sociais, e governado pela burocracia de Bruxelas e pela nossa elite colaboracionista.

No meio da obsessão de "que o meu fracasso é o fracasso de Portugal", convém lembrar que no fundo do que estamos a falar não é de uma guerra apocalíptica, nem do travar um meteoro, nem dos deuses a caminho do Valhalla, mas de políticas, de opções de política, de democracia. E que em democracia, mesmo em "estado de emergência financeira", há opções e há leis para cumprir, há tribunais e há protesto e há voto. É verdade que, em consonância com esta linguagem, um fruto milenar e profético da "inevitabilidade", cada vez mais nos dizem que há coisas que não se podem discutir. Não se pode falar do segundo resgate, a não ser para o usar como ameaça. Não se pode falar da insustentabilidade da dívida porque isso é "masoquismo". Não se pode falar de eleições antecipadas, porque não é responsável. Não se pode falar de escolhas eleitorais porque não há verdadeiras escolhas, estamos "obrigados" a cumprir o que os nossos credores "exigem". Não se pode dizer que uma eleição significa alguma coisa, porque, por definição, nenhuma eleição pode significar alguma coisa enquanto nos encontrarmos debaixo do "protectorado". Ou seja, deixem-se de política em democracia, porque a única política permitida é a que não tem escolha, ou seja, a que não é democrática.

Toda esta exibição de "o meu fracasso é o fracasso de Portugal" pode não passar de incutir medo, pressionar o Tribunal Constitucional ou de, pura e simplesmente, preparar uma saída baixa vitimizada caso o Tribunal não deixe passar qualquer lei com incidência orçamental. Suspeito aliás, e não é de agora, que este plano de enviar legislação claramente inconstitucional para o Tribunal e receber o respectivo "não", se destina a atirar para o Tribunal o ónus do falhanço próprio e preparar uma demissão do Governo. De facto, o nosso "götterdämmerung" é um götterdämmerungzinho, a palavra mais kitsch que escrevi na vida. E os que pensam que eu comparei Passos Coelho a Hitler não perceberam nada. 

É o "zinho" que é a nossa sina, e, se tomássemos à letra a comparação, ainda bem. Mas, mesmo o "zinho" faz imensos estragos e puxa-nos para baixo. Até porque não lhes passa pela cabeça esta coisa simples que nasce do valor intangível da dignidade humana: é que, dificuldades por dificuldades, os portugueses podem preferir sofrê-las sem salvadores, nem tutores, nem mandantes, nem euro, nem Bruxelas.

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“There will be time, there will be time 
To prepare a face to meet the faces that you meet.”

(T.S. Eliot)

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20.10.13


JUDEU ERRANTE



Mais uma corrida, mais uma viagem.
De regresso.


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© José Pacheco Pereira
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